Quem Sou Eu? - Sri Ramana Maharshi (Vídeo)




"Assim como há um centro cósmico de onde o Universo surge, tem seu ser e funciona com a força e a energia diretriz que daí emana, do mesmo modo há um centro dentro da estrutura do corpo físico no qual temos o nosso Ser. Esse centro em nós não é diferente do centro cósmico se chama Hridayam, a sede da Pura Consciência, percebida como Existência-Consciência Bem-aventurança.  É a isso que chamamos a sede de Deus em nós. É distinto do coração físico; tem sua existência no lado direito do peito e geralmente não é percebido por nós. O primeiro pensamento que surge em nós como “eu”, quando seguido até sua fonte, finda em algum lugar em nós, e esse lugar onde todos os pensamentos morrem, onde o ego se desvanece, é o Hridayam. Nesse centro é sentida e desfrutada a Pura Consciência. A palavra Hridayam é composta de Hrid e Ayam – Eu Sou o Coração. é o centro que alcançamos como resultado da meditação. Do Hridayam a Consciência se eleva para o chakra coronário e se espalha para todas as partes do corpo. Se, através da Vichara (autoinvestigação), alcançamos esse Centro, o Hridayam, e assim somos nosso Eu Real, desfrutamos de Imaculada Bem-aventurança"  - Do livro Ramana Amor Supremo, compilado por Vera Carolina, p.16 (Fonte)

QUEM SOU EU?

Os Ensinamentos de Bhagavan Sri Ramana Maharshi

(Nota: O vídeo narrado em português encontra-se no final da mensagem)

INTRODUÇÃO

'Quem sou Eu?' é o titulo consagrado a um conjunto de perguntas e respostas relacionadas com a Autoinvestigação (Self-enquiry). As questões foram colocadas a Bhagavan Sri Ramana Maharshi por Sri Sivaprakasam Pillai por volta de 1902. Sri Pillai, graduado em Filosofia, trabalhava, na altura no Revenue Department of South Arcot Collectorate. Durante a sua estadia em Tiruvannamalai, em 1902, em trabalho oficial, Sri Pillai visitou Virupaksha Cave no monte Arunachala e ai conheceu Maharshi, a quem solicitou orientação espiritual, para a procura de respostas às questões relacionadas com a Autoinvestigação. Como Bhagavan na altura não falava, não por algum voto que tivesse tomado, mas porque não tinha vontade de falar, respondia às questões que lhe eram colocadas, por escrito.

De acordo, com a recolha e as gravações feitas por Sri Sivaprakasam Pillai, existiam treze questões com respostas dadas por Bhagavan. Este registo foi publicado primeiro por Sri Pillai em 1923 (em Tamil), juntamente com dois poemas seus, relatando a forma como a graça de Bhagavan atuou no seu caso, dissipando-lhe as dúvidas e salvando-o de uma crise na sua vida. 'Quem sou Eu?' tem sido alvo de várias e sucessivas publicações. Em algumas edições, encontramos treze perguntas e respostas e noutras vinte e oito. Também existe uma outra versão publicada em que as questões não são dadas, e os ensinamentos estão organizados em forma de ensaio. A tradução Inglesa existente resulta desse ensaio. A presente versão tem como base o texto em forma de vinte e oito perguntas e respostas.

Juntamente com Vicharasangraham (Self-Enquiry), Nan Yar (Who am I?) constitui o primeiro conjunto de instruções nas palavras do próprio Mestre. Estes dois, são os únicos textos em prosa entre os trabalhos de Bhagavan. Eles estabelecem claramente o ensinamento central de que o caminho direto para a libertação é a Autoinvestigação. A forma particular em que a investigação deve ser feita é claramente descrita em Nan Yar.

A mente consiste de pensamentos. O pensamento 'Eu' é o primeiro a surgir na mente. Quando a investigação 'Quem sou Eu?' é insistentemente perseguida, todos os outros pensamentos são destruídos, e finalmente o próprio pensamento 'Eu' desaparece, ficando só o supremo não-dual Self (O Ser, o Eu Real, o Si, o Atman).

Assim, acaba a falsa identificação do Self com os fenómenos do non-Self, tais como o corpo e a mente, e dá-se a iluminação, sakshatkara. Claro que o processo de investigação não é fácil. À medida que se pergunta 'Quem sou eu', outros pensamentos surgirão; mas à medida que estes surgem, não se lhes deve ceder, seguindo-os, pelo contrário, deve perguntar-se 'A quem surgem estes pensamentos?'.

Para se poder fazer isto, é necessário estar extremamente vigilante. Através de uma investigação constante, deve fazer-se a mente permanecer na sua fonte, sem permitir que ela se disperse e perca nos labirintos do pensamento, criados por si própria. Todas as outras disciplinas, como o controlo da respiração e a meditação nas formas de Deus, devem ser consideradas como práticas auxiliares. Elas são úteis na medida em que ajudam a mente a tornar-se calma e focada.

Para a mente que ganhou capacidade de concentração, a Autoinvestigação torna-se comparativamente fácil. É através da investigação contínua que os pensamentos são destruídos e o Self se realiza - a Realidade plena, na qual não existe sequer o pensamento 'Eu', a experiência que é referida como 'Silêncio'.

Isto é na essência o ensinamento de Sri Ramana Maharshi em Nan Yar (Quem sou Eu?).

T.M.P. Mahadevan Universidade de Madras, 30 Junho 1982.





QUEM SOU EU?

(Nan Yar)

Todos os seres vivos desejam ser felizes, sempre, sem qualquer sofrimento. Em todos se observa um amor supremo por si próprio. E só a felicidade é a causa do amor. Por isso, para obter essa felicidade que é a nossa própria natureza e que é experienciada no estado de sono profundo, na ausência da mente, devemos conhecer-nos a nós próprios. Para tal alcançar, o Caminho da Sabedoria, a investigação na forma de "Quem Sou Eu?" é o meio principal.

1. Quem Sou Eu?

Ramana Maharshi: O corpo físico que é composto pelos sete humores (dhatus): Eu não sou; os cinco órgãos dos sentidos de cognição i.e. audição, tato, visão, paladar e olfato, que por sua vez compreendem os seus respetivos objetos, i.e., som, toque, cor, sabor e cheiro: Eu não sou; Os cinco órgãos de cognição dos sentidos, i. e. os órgãos da fala, da locomoção, do agarrar, da excreção e procriação, que têm as suas respetivas funções – falar, movimentar, agarrar, excretar e ter prazer: Eu não sou; os cinco sopros vitais, prana, etc. que realizam respetivamente as cinco funções de respirar, etc: Eu Não Sou; mesmo a mente que pensa: Eu não sou; também a ignorância, a qual detém só as impressões residuais dos objetos e na qual não há objetos nem funcionalidades: Eu não sou.

2. Se não sou nada disso, então quem sou Eu?

Depois de negar tudo o que foi acima mencionado como 'não-isto', 'não-isto... a consciência que permanece só e por si mesma, essa Eu Sou.

3. Qual é a natureza da Consciência (Awareness)?

A Natureza da Consciência é Existência-Consciência-Felicidade.

4. Quando é que a realização do Eu será conseguida?

Quando o mundo, que é o que-é-visto, for removido, haverá realização do Self que é quem vê.

5. Não poderá haver realização do Self, enquanto o Mundo for tomado como real?

Até lá não haverá realização.

6. Porquê?

Aquele que vê e o objeto visto, são como a corda e a serpente. Tal como o conhecimento da corda, a qual é o substrato, não irá surgir, enquanto não desaparecer o conhecimento falso da serpente ilusória, assim, a realização do Self que é o substrato não será adquirida, a não ser que a crença de que o Mundo é real seja removida.

7. Quando é que o mundo, que é o objeto visto, poderá ser removido?

Quando a mente, que é a causa de toda a cognição e de todas as ações, se tornar silenciosa, então, o mundo desaparecerá.

8. Qual é a natureza da mente?

O que é chamado de "mente" é um poder maravilhoso, que reside no Self. E ele a causa do aparecimento de todos os pensamentos. Além dos pensamentos, não há nada a que se possa chamar mente. Por isso, o pensamento é a natureza da mente. Além dos pensamentos, não há uma entidade independente chamada mundo. No sono profundo não há pensamentos, e não há mundo. Nos estados de acordado e de sonho existem pensamentos e também existe o mundo. Tal como a aranha tece o fio da sua teia, de dentro de si própria e de novo o recolhe para si, da mesma forma, a mente projeta o mundo a partir de si e de novo o absorve, em si. Quando a mente sai para fora do Self, o mundo aparece. Por isso, quando o mundo aparece (como sendo real), o Self não aparece; e quando o Self aparece (brilha), o mundo não aparece. Quando se procura de forma persistente a natureza da mente, a mente irá acabar por deixar o Self (como resíduo). O que é referido como o Self é Atman. A mente só existe na dependência de algo concreto, ela não consegue ficar sozinha. É a mente que é chamada de corpo subtil ou alma (jiva).

9. Que caminho deve seguir a investigação para compreender a natureza da mente?

Aquilo que surge neste corpo como "Eu" é a mente. Se procurar onde é que no corpo surge primeiro o pensamento "Eu", irá descobrir que ele surge no coração. Esse é o lugar de origem da mente. Mesmo quando a pessoa pensa constantemente "Eu-Eu", será guiada para esse lugar. De todos os pensamentos que surgem na mente, o pensamento "Eu" é o primeiro. Só depois do aparecimento deste, é que surgem os outros pensamentos. É depois do aparecimento do primeiro pronome pessoal que-o-segundo e o terceiro pronomes pessoais aparecem; sem o primeiro pronome pessoal não haverá o segundo nem o terceiro.

10. Como é que a mente se torna calma?

Pela investigação "Quem sou Eu?". O pensamento 'Quem sou Eu?' irá destruir todos os outros pensamentos, e como a vara usada para mexer a pira funerária a arder, no fim, ela própria será destruída. Depois, a Auto-realização surgirá.

11. Quais os meios para se manter, constantemente, o pensamento 'Quem sou Eu?'

Quando surgem outros pensamentos, não se deve ir atrás deles, mas colocar a questão 'A quem é que eles surgem?' Não importa quantos pensamentos surgem. A medida que um pensamento surge, deve inquirir-se com diligência 'A quem surgiu este pensamento?'. A resposta que irá emergir será 'A mim'. De seguida, se se perguntar 'Quem sou Eu?", a mente voltará para a sua fonte; e o pensamento que surgiu tornar-se-á inativo. Com uma prática assim repetida, a mente irá desenvolver a capacidade de ficar na sua fonte. Quando a mente que é subtil vai para o exterior através do cérebro e dos órgãos dos sentidos, os nomes e as formas físicas surgem; quando fica no coração, os nomes e as formas desaparecem. Não deixar a mente ir para o exterior, mas retê-la no Coração é o que se chama 'interiorização' (antarmukha). Deixar a mente ir para fora do Coração é conhecido como exteriorização (bahirmukha). Assim, quando a mente fica no Coração, o 'Eu', que é a fonte de todos os pensamentos desaparecerá e o Self que sempre existiu, brilhará. O que quer que seja feito, deverá ser feito sem o 'Eu' egoísta. Ao agir dessa forma, tudo irá aparecer como sendo natureza de Siva (Deus).

12. Não há outros meios para acalmar a mente?

Além da investigação, não há outros meios adequados. Se através de outros meios se procurar controlar a mente, esta poderá parecer controlada, mas de novo ficará agitada. Através do controlo da respiração a mente irá acalmar; mas ela só ficará calma enquanto a respiração estiver controlada, quando a respiração começar de novo, também a mente, de novo irá movimentar e divagar, impelida pelas impressões residuais (pensamentos). Mente e respiração, ambas têm a mesma fonte. De facto, o pensamento é a natureza da mente. O pensamento 'Eu' é o primeiro pensamento da mente, e isso é egoísmo. É daí, de onde o surge o ego que a respiração também surge. Por isso, quando a mente se acalma a respiração fica controlada, e quando a respiração está controlada a mente torna-se calma. Mas no sono profundo, apesar de a mente se acalmar, a respiração não pára. Isto é por causa da vontade de Deus, para que o corpo seja preservado e para que as outras pessoas não tenham a impressão de que ele está morto. No estado acordado e no samadhi, quando a mente se acalma a respiração fica controlada. A respiração é a forma grosseira da mente. Até à altura da morte, a mente mantém a respiração no corpo, e quando o corpo morre, a mente leva a respiração com ela. Por isso o exercício de controlo da respiração é só uma ajuda para ter a mente calma (manonigraha); ele não vai destruir a mente (manonasa).

Tal como a prática do controlo da respiração, meditação sobre as formas de Deus, repetição dos mantras, restrições na comida, etc., são apenas ajudas para manter a mente calma.

Através da meditação sobre as formas de Deus e através da repetição de mantras, a mente torna-se concentrada. A mente irá sempre divagar. Tal como quando se dá a um elefante, uma corrente para ele agarrar com a tromba, ele irá continuar a agarrar a corrente e nada mais, assim também, quando a mente está ocupada com um nome ou forma, só irá agarrar a isso. Quando a mente expande na forma de pensamentos sem conta, cada pensamento torna-se menos forte; mas quando os pensamentos se dissipam, a mente torna-se concentrada e forte; para esse tipo de mente, a Auto-investigação tornar-se-á fácil. De todas as regras de restrição, aquela que se relaciona com a ingestão de comida sattvica em quantidades moderadas é a melhor; ao observar esta regra, a qualidade sattvica da mente irá aumentar, e isso será de ajuda para a Auto-investigação. . .

13. As impressões residuais (pensamentos) dos objetos parecem sem fim como as ondas do oceano. Quando é que todas elas serão destruídas?

À medida que a meditação sobre o Self se torna mais elevada, os pensamentos vão sendo destruídos.

14. É possível que as impressões residuais dos objetos que vêm, por assim dizer, desde os tempos sem começo, sejam dissipadas, e que se possa permanecer como puro Self?

Sem ceder à duvida se "É possível ou não?', deve-se permanecer continuamente em meditação sobre o Self. Mesmo que seja um grande pecador, não se deve preocupar e lamentar 'Oh! Eu sou um pecador, como é que posso ser salvo?'. Deve renunciar completamente ao pensamento 'Eu sou um pecador' e concentrar-se intensamente na meditação sobre o Self, então, certamente terá sucesso. Não existem duas mentes – uma boa e outra má; a mente é só uma. São as impressões residuais que são de dois tipos – auspiciosas e não auspiciosas. Quando a mente está sob a influência das impressões auspiciosas chama-se boa; e quando está sob a influência das impressões não auspiciosas é vista como má.

Não se deve permitir que a mente vagueie para objetos mundanos, nem para o que diz respeito a outras pessoas. Por muito más que as outras pessoas sejam, não se deve ter ódio em relação a elas. Desejo e ódio devem ser evitados. Tudo o que se dá aos outros, dá-se a si próprio. Se esta verdade for compreendida quem é que não irá dar aos outros? Quando o Self surge, tudo surge, quando o Self desvanece, tudo desvanece. Na medida em que nos comportamos com humildade, resultará o bem, na mesma medida. Ao tornar a mente calma, torna-se possível viver em qualquer lugar.

15. Durante quanto tempo a investigação deve ser praticada?

Enquanto permanecerem as impressões dos objetos na mente, até lá, a investigação Quem sou Eu'?, será necessária. À medida que os pensamentos surgem, devem, de imediato, ser eliminados na sua origem através da investigação. Se se recorre à contemplação ininterrupta do Self, até que Este seja realizado, isso é suficiente. Enquanto existirem inimigos na fortaleza, eles vão continuar; se eles forem destruídos quando surgem, a fortaleza irá cair nas nossas mãos.

16. Qual é a natureza do Self?

Na verdade o que existe é só o Self. O mundo, a alma individual e Deus são aparências dentro dele (Self), tal como o prateado da madrepérola; esses três aparecem e desaparecem ao mesmo tempo. O Self é aquele onde o pensamento 'Eu' está completamente ausente. A isso chama-se 'Silêncio. O Self em si é o mundo; o Self em si é 'Eu'; o Self em si é Deus; tudo é Siva, o Self.

17. Não será tudo obra de Deus?

O sol nasce sem desejo, resolução ou esforço; e na sua mera presença, a pedra-sol emite fogo, o lótus floresce, a água evapora, as pessoas exercem as suas várias funções e depois descansam. Tal como a agulha se move na presença do íman, é na virtude da presença de Deus que as almas são governadas pelas três funções (cósmicas) ou pela quíntupla atividade divina. Executam as suas ações e depois descansam, em conformidade com os seus respetivos karmas. Deus não tem propósito; nem nenhum Karma ligado a Ele. Isso é como as ações mundanas que não afetam o sol, ou como os méritos e deméritos dos outros quatro elementos que não afetam o espaço omnipresente.

18. Entre os devotos, quem é o maior?

Aquele que se entrega ao Self que é Deus, é o mais excelente devoto. Entregar-se a Deus significa permanecer constantemente no Self, sem dar lugar ao surgimento de outros pensamentos que não sejam do Self.

Qualquer fardo que seja atirado sobre Deus, Ele o aguentará. Como o poder supremo de Deus faz mover todas as coisas, porque deveríamos nós, sem nos submetermos a ele, constantemente preocuparmos-nos com pensamentos como o que tem de ser feito, e como, e o que não deve ser feito, e como não fazer? Nós sabemos que o comboio carrega todas as cargas, por isso, depois de entrarmos nele porque é que temos de carregar a nossa pequena bagagem na cabeça, para nosso desconforto, em vez de a pormos no chão do comboio e ficarmos à vontade?

19. O que é o desapego?

Conforme os pensamentos surgem, destrui-los completamente sem deixar qualquer resíduo, no mesmo lugar da sua origem, é desapego. Tal como um mergulhador de pérolas ata uma pedra à cintura, mergulha até ao fundo do oceano e lá, apanha as pérolas. Assim, cada

um de nós deve ser dotado com desapego, mergulhar dentro de si e obter a Pérola-Interior (Self-Pearl).

20. Será possível para Deus e o Guru efetuar a libertação de uma alma?

Deus e o Guru só irão mostrar o caminho para a libertação; eles não vão por eles próprios levar a alma ao estado da libertação.

Na verdade, Deus e Guru não são diferentes. Tal como uma presa, ao cair nas garras de um tigre não tem escapatória, assim aqueles que se encontram no âmbito do olhar da graça do Guru serão salvos por Ele e não se irão perder; apesar disso, cada um deve, através do seu próprio esforço, seguir o caminho mostrado por Deus ou Guru e atingir a libertação. Só se pode conhecer a si mesmo com a sua própria sabedoria, e não com a de outro. Aquele que é Rama precisa de olhar para um espelho para saber que é Rama?

21. Será necessário para alguém que anseia a libertação, inquirir sobre a natureza das categorias (tattvas)?

Tal como alguém que se quer libertar do lixo, não tem necessidade de o analisar e ver o que é, assim, alguém que quer conhecer o Self não tem necessidade de contar o número de categorias ou inquirir acerca das suas características; aquilo que tem de fazer é rejeitar, de todo, as categorias que escondem o Self. O mundo deve ser considerado como um sonho.

22. Não haverá diferença entre o estar acordado e o sonho?

Acordar é longo e sonhar é curto; para além disso não há nenhuma diferença. Tal como os acontecimentos no estado acordado parecem reais, enquanto acordado, assim também os acontecimentos durante o sonho. No sonho, a mente assume outro corpo. Nos dois estados de acordado ou a sonhar, pensamentos, nomes e formas ocorrem simultaneamente.

23. É útil ler livros para aqueles que procuram a libertação?

Todos os textos dizem que para conseguir a libertação, a mente deve render-se ao silêncio, por isso, o ensinamento final é que a mente deve ficar calma; uma vez isso compreendido, não há necessidade para leituras sem fim. Para acalmar a mente, só tem de investigar dentro de si o que é o Self, como é que essa procura pode ser feita através dos livros? Deve conhecer-se o Self com a própria visão de sabedoria. O Self está dentro das cinco camadas, é fútil procurar por ele nos livros. Chegará uma altura em que se terá de esquecer tudo o que se aprendeu.

24. O que é a felicidade?

Felicidade é a própria natureza do Self; felicidade e o Self não são diferentes. Não há felicidade alguma em qualquer objeto do mundo. Nós imaginamos através da nossa ignorância que atingimos a felicidade através dos objetos. Quando a mente vai para o exterior, ela experiencia miséria. Na verdade, quando os seus desejos são satisfeitos, a mente volta ao seu lugar e desfruta a felicidade que é o Self. Tal como no estado de sono, samadhi e desmaio, como quando os objetos, desejados são conseguidos ou os objetos não desejados são removidos, a mente volta para o interior e desfruta da pura Felicidade do Self. Assim, a mente movimenta sem descanso, alternadamente, indo para fora do Self e regressando. Debaixo da árvore, a sombra é agradável; fora da sombra, o calor é abrasador. Uma pessoa que tem estado debaixo do sol, sente frescura quando chega à sombra. Alguém que continua a ir da sombra para o sol e depois de volta para a sombra é tolo. Um homem sábio fica permanentemente na sombra. Da mesma forma, a mente de quem sabe a verdade não deixa Brahman. A mente do ignorante pelo contrário, dá voltas no mundo sentindo-se miserável, e por pouco tempo volta ao Brahman para experienciar felicidade. De facto, o que é chamado mundo é só pensamento. Quando o mundo desaparece, i.e. quando não há pensamento, a mente experiencia felicidade; e quando o mundo aparece, ela passa pela miséria.

25. O que é a visão de Sabedoria (jnana drishti)?

Permanecer calmo é o que se chama visão de sabedoria. Ficar calmo é levar a mente ao Self. Telepatia, conhecer o passado, presente ou futuro, acontecimentos e clarividência não constituem visão de sabedoria.

26. Qual é a relação entre estado sem desejo e sabedoria?

O estado sem desejo é sabedoria. Os dois não são diferentes; eles são o mesmo. Estar sem desejo, é evitar voltar a mente para qualquer objecto. Sabedoria significa a ausência de objectos. Noutras palavras, não procurar outro para além do Self é desapego, ou estado sem desejo; não abandonar o Self é sabedoria.

27. Qual é a diferença entre investigação (inquiry) e meditação?

Investigação consiste em manter a mente no Self. Meditação consiste em pensar que o seu ser é Brahman, Existência - Consciência - Felicidade.

28. O que é a libertação?

Investigar sobre a natureza do próprio ser que está preso e realizar a sua verdadeira natureza, é libertação.

Quem Sou Eu? 
- Sri Ramana Maharshi - 
As 28 perguntas respondidas em vídeo
(Excelentes 23 minutos)


https://www.youtube.com/watch?time_continue=253&v=qNSr5tHo-rI


 Os ensinamentos acima transmitidos por Ramana Maharshi, após intensa e laborosa investigação e autoinvestigação (que pode durar toda uma vida ou mais) por parte do buscador, são mais que suficientes para um ser humano despertar para a sua verdadeira natureza. Contudo e como complemento, partilho novamente o vídeo seguinte e que se chama Sri Ramana Maharshi - Jnani (2018).
Na minha humilde perspetiva é um dos melhores documentários sobre os ensinamentos transmitidos por Ramana Maharshi. Veja e reveja (e volte a rever), se puder.
Sinto que a Natureza da Realidade ou a Verdade Última da Realidade Universal foi perenemente presenciada, vivida, expressa, transmitida e ensinada de forma perfeita por Ramana Maharshi. 
A presença de Michael James e de David Godman neste documentário, entre outros, é prova da sua autenticidade e genuinidade. O documentário está legendado em português (só tem que ativar as legendas no vídeo) 
Grato de coração

Sri Ramana Maharshi - Jnani (2018)

https://www.youtube.com/watch?time_continue=651&v=hVYv9ktilQw


Fonte do livro "Quem Sou Eu?"
Os Ensinamentos de Bhagavan Sri Ramana Maharshi
Edição Centro de Retiros Karuna Monchique, Portugal, 2015 
Traduzido a partir da 24a Edição do livro: Who am I? The Teachings of Bhagavan Sri Ramana Maharshi Publicado, em 2008, por V.S. Ramanan, Presidente, Sri Ramanasramam, Tiruvannamalai 606 603 Tamil Nadu INDIA
https://www.sriramanamaharshi.org/resource_centre/publications/who-am-i-books/

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