O Guru




"O objetivo essencial dos Vedas, etc., é ensinar a você a natureza do Atman imperecível, e declarar com autoridade: 'Tu és Isso' " - Ramana Maharshi

O GURU

O termo guru é usualmente usado para descrever qualquer pessoa que dá orientação de ordem espiritual, mas no vocabulário de Ramana a palavra tem uma definição mais restrita. Para ele um verdadeiro guru é alguém que realizou o Eu (Divino) e está apto a usar o seu poder a fim de encaminhar os outros em direção a auto-realização. Sri Ramana frequentemente dizia que Deus, o Guru e o Eu são uma só coisa. O Guru é Deus na forma humana e, simultaneamente, é também o Eu no coração de cada devoto. Em virtude de estar tanto “dentro” como “fora”, seu poder atua de duas maneiras diferentes. O Guru externo dá instruções e por meio de seu poder capacita o devoto a manter sua atenção no Eu; o guru interior atrai a mente do devoto de volta para sua fonte, dissolve-a no Eu e finalmente a destrói.

O ensinamento de Ramana tem como princípio básico a afirmação de que o Guru seja necessário para quase todos os que se esforçam em obter a consciência permanente do Eu. O papel catalisador do guru no desenvolvimento espiritual é, portanto, crucial, exceto para aqueles raros buscadores individuais cuja ignorância a respeito do Eu se ache tão profundamente enraizada a ponte de serem incapazes de superá-la por seus próprios esforços.

Embora Ramana tenha ensinado que o guru seja indispensável para os que buscam a autorrealização, esclareceu que o guru não tem o poder de despertar a realização naqueles que não se esforcem para tal. Se um buscador individual faz uma séria tentativa a fim de descobrir o Eu, então a graça e o poder do guru começarão a fluir automaticamente. Se tal tentativa não for feita, o guru será inútil. Os diálogos neste capítulo sintetizam os pontos de vista de Ramana sobre a natureza do guru e o papel que representa na realização do Eu.






"É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei pelo canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas a cada dia, te sentarás mais perto…" - Antoine de Saint-Exupéry no Pequeno Príncipe


Devoto:
O que é a graça do guru? Como ela leva à autorrealização?

Maharshi: O guru é o Eu (Divino). A pessoa durante uma etapa de sua mostra insatisfação como que tem por isso busca a realização de seus desejos através de preces a Deus. Então sua mente é gradualmente purificada até que sinta o desejo de conhecer a Deus, mais para obter sua graça do que satisfazer seus desejos mundanos. A graça divina começa a se manifestar. Deus toma a forma de um guru e aparece ao devoto, ensina-o a verdade e, acima de tudo, purifica sua mente por estar em sua companhia. A mente do devoto ganha força e então se torna apta a se interiorizar. Pela meditação é posteriormente purificada e permanece calma sem a menor agitação. Esta calma expandida é o Eu. O guru é tanto externo como interno. Do exterior dá um empurrão à mente para que ela se interiorize. Do interior atrai a mente para que se volte para dentro. No interior atrai a mente em direção ao Eu e ajuda a acalmá-la. Esta é a graça do guru. Não existe diferença entre Deus, guru e o Eu.

Devoto:
Na sociedade teosófica eles meditam de maneira a encontrar os mestres para guiá-los.

Maharshi: O mestre está no interior; a meditação é praticada a fim de remover a errónea ideia de que ele está somente fora. Se Deus é um ser estranho que você espera, verá que é fadado a desaparecer. Que utilidade tem um ser transitório como esse? Mas enquanto você pensa estar separado Dele ou que é o corpo físico, então terá necessidade de um mestre externo e ele parecerá possuir um corpo. Quando a errónea identificação da pessoa com o corpo desaparecer, perceberá que o mestre não é outro senão o próprio Eu.

Devoto: O guru nos ajuda a conhecer o Eu através da iniciação?

Maharshi: Será que o guru tomará sua mão e sussurrará no seu ouvido? Você o imagina como você é. Como você pensa que tem um corpo, igualmente crê que ele tem um corpo e que fará algo tangível para você. Seu trabalho é interior, na esfera espiritual.

Devoto: Como encontrar o guru?

Maharshi: Deus, que é imanente, em sua graça se apieda do devoto amante e se manifesta de acordo com a maturidade espiritual dele. O devoto crê que o guru seja um homem e espera uma relação entre os dois corpos físicos. Mas o guru, que é Deus ou o Eu, encarnado opera no interior, ajuda o homem a ver o erro de sua conduta e o guia no caminho correto até que realiza o Eu em seu interior.

Devoto: Quais são as características de um verdadeiro orientador (Sad Guru)?

Maharshi: Vivência permanente no Eu, vendo a todos como uma unidade em todos os lugares e circunstâncias.

Devoto: Há um bom número de instrutores espirituais ensinando vários caminhos. Qual deles deve-se tomar como guru?

Maharshi: Escolha aquele em contacto com o qual você sente paz (shanti).

Devoto: Não devemos também levar em conta seus ensinamentos?

Maharshi: Aquele que instruí um buscador ardente a fazer isto ou aquilo não é um verdadeiro mestre. O buscador já se acha afligido por suas atividade e quer paz e descanso. Em outras palavras ele quer a cessação de suas atividades e esforços. Se um instrutor diz-lhe para fazer isto ou aquilo, em certo lugar, além das atividades que já faz, como pode ajudar ao buscador? Atividade é criação. Atividade é a destruição de sua inerente felicidade. Se a atividade é defendida, o instrutor não é um mestre mas um assassino. Em tais circunstâncias tanto o criador (Brahma) ou a morte (yama) pode-se dizer que surgiram disfarçados em mestre. Tal pessoa não pode libertar o aspirante, poderá somente aumentar sua escravidão.

Devoto: Como posso encontrar meu guru?

Maharshi: Por meio da intensa meditação.

Devoto: Se é verdade que o guru é o Eu da pessoa, qual é a base subjacente à doutrina que diz: “Apesar do discípulo ter um bom conhecimento das coisas espirituais ou possuir poderes ocultos, não poderá alcançar a realização espiritual sem a graça do guru”?

Maharshi: Apesar do estado de consciência do guru ser a do Eu (Divino), é muito difícil para aquele que se tornou jiva, o Eu individual ou ego, vivendo na ignorância, realizar seu verdadeiro estado ou real natureza sem a graça do guru.

Devoto: Quais são as características da graça de um guru?

Maharshi: Estão além das palavras ou pensamentos.

Devoto: Se é assim, como se diz que o discípulo realiza seu verdadeiro estado pela graça do guru?

Maharshi: É semelhante a um elefante que acaba de acordar e que viu um leão em seu sonho. Da mesma maneira que o elefante acorda à simples visão do leão no sonho, assim também é certo que o discípulo acordará do sonho da ignorância despertando no real conhecimento através do olhar benevolente da graça do guru.

Devoto: qual é o significado do dito: “A natureza do verdadeiro guru é a mesma do Supremo Senhor (Sarvesvara)”?

Maharshi: De início, a alma individual que deseja atingir o estado divino, ou o estado da verdadeira sabedoria, pratica incessante devoção. Quando a devoção individual atingiu um bom amadurecimento, o Senhor que é a testemunha desta alma individual e idêntica a ela, se manifesta. Ele aparece com a ajuda de sat-chit-ananda, suas três expressões naturais, com forma humana e nome que também graciosamente assume. Ao se disfarçar em abençoar o discípulo ele o absorve. De acordo com essa doutrina o guru pode realmente ser chamado de O Senhor.

Devoto: Como é que grandes personalidades atingem o conhecimento sem um guru?

Maharshi: Para algumas pessoas amadurecidas o Senhor brilha como a luz sem forma da sabedoria e concede a consciência da verdade.

Devoto: Como a pessoa deve decidir quem é seu próprio guru? Qual a natureza ou forma real (swarupa) do guru?

Maharshi: Será o guru com o qual sua mente estiver sintonizada. Se você indaga: “como decidir qual é guru e qual é seu swarupa?” Ele deve ser tranquilo, paciente, capaz de perdoar e possuir outras virtudes. Deve ser capaz de atrair os outros apenas com seu olhar tal como um imã atrai o ferro. Deve ter um senso de igualdade em relação a todos. Aquele que possuir estas virtudes é o verdadeiro guru, mas se a pessoa quiser conhecer o swarupa do guru, deverá conhecer primeiro seu próprio swarupa. Como o indivíduo poderá conhecer a real natureza do guru sem primeiro conhecer a de si mesmo? Se você quiser perceber a real natureza ou forma do guru deverá inicialmente ver todo o universo como guru-rupam (a forma do guru). O discípulo deve ver o guru em todos os seres humanos. O mesmo se passa com Deus. Você deve olhar todos os objetos como a forma (rupa) de Deus. Como pode aquele que não conhece seu próprio Eu perceber a real forma de Deus, ou a real forma do guru? Como pode identificá-los? Portanto, antes de tudo, conheça sua real forma e natureza.

Devoto:
O guru é necessário até para conhecer isso?

Maharshi:
É verdade. No mundo existem grandes santos. Considere como guru aquele com o qual sua mente esteja em sintonia. Aquele no qual você tenha fé é seu guru.

Devoto: Qual é o significado da graça do guru na obtenção da liberdade (moksha)?

Maharshi: A liberdade não está fora de você. Está apenas no seu interior. Se um homem está ansioso por libertar-se o guru interno o atrairá e o externo o compelirá em direção ao Eu. esta é a graça do guru.

Devoto: Algumas pessoas falam que o Sr. teria dito que não há necessidade de um guru. Outros dizem o oposto. Que diz Maharishi sobre isso?

Maharshi: Eu nunca disse que não há necessidade de um guru.

Devoto: Sri Aurobindo e outros falam que o Sr. não teve guru.

Maharshi:Tudo depende do que você chama de guru. Não há necessidade que ele tenha forma humana. Dattatreya teve vinte e quatro gurus, incluindo os quatro elementos: terra, agua, fogo, etc. Cada objeto neste mundo foi seu guru. O guru é absolutamente necessário. Os upanishads dizem que somente um guru pode livrar o homem da selva do intelecto e das perceções sensoriais. Portanto deve existir um guru.

Devoto: Refiro-me a um guru físico. Maharishi não teve um guru físico.

Maharshi: Eu posso ter algum numa etapa ou outra. Acaso não cantei hinos em louvor à Arunachala? Que é o guru? Guru é Deus ou o Eu. De início o homem reza a Deus a fim de obter a realização de seus desejos. Com o correr do tempo não pedirá a obtenção de desejos materiais mas visará ver a Deus. Deus então aparece a ele com alguma forma ou outra, seja humana ou não-humana, a fim de guiá-lo para Deus em resposta a sua prece e de acordo com suas necessidades.

Devoto: Embora leal a um mestre, deve-se respeitar os outros mestres?

Maharshi: O guru é um só. Ele não é físico. Enquanto existir fraqueza o amparo da força é necessário.

Devoto: J. Krishnamurti diz: “Nenhum guru é necessário”.

Maharshi: Como pode ele saber isso? A pessoa só pode dizer após a realização e não antes.

Devoto:Sri Bhagavan pode nos ajudar a realizar a verdade?

Maharshi: A ajuda está sempre presente.

Devoto: Então não há necessidade de fazer perguntas. Eu não percebo a ajuda sempre presente.

Maharshi:
 Entregue-se a Deus e perceberá.

Devoto: Estou sempre a seus pés. Bhagavan nos dará alguma instrução (upadesa) a seguir? De outro modo, como posso obter ajuda morando a 600 milhas daqui?

Maharshi: O sad-guru (o guru que é um com o Ser Divino) está no interior de cada um.

Devoto: O sad-guru é necessário para me guiar e me dar o conhecimento.

Maharshi:
O sad-guru está no interior.

Devoto: Quero um guru visível.

Maharshi: O guru visível lhe diz que está no seu interior.

Devoto: O sucesso espiritual não depende da graça do guru?

Maharshi: Sim, depende. Sua prática acaso não se deve à graça? Os frutos dela resultam da prática e se seguem automaticamente. Há uma estrofe no Kaivalya que diz: “Ó guru tu tens estado sempre comigo, observando-me através de várias encarnações e orientando meu caminho até que me libertei.” O Eu se manifesta exteriormente como guru quando surge a oportunidade; de outro modo ele está sempre no interior, fazendo o que é necessário.

Devoto: Alguns discípulos de Shirdi Sai-Baba adoram uma fotografia dele e dizem que é seu guru. Como pode ser isso? eles podem adorá-lo como Deus, mas que benefício terão em adorar seu retrato como guru?

Maharshi: Eles incrementam a concentração com esta prática.

Devoto:Isto tudo está bem, eu concordo. Pode ser, por extensão, um exercício de concentração. Mas um guru não é necessário para essa concentração.

Maharshi: Por certo, mas em suma guru significa guri, concentração.

Devoto: Como pode um retrato sem vida ajudar a desenvolver a concentração? Requer-se um guru vivo que o mostre na prática. Talvez para Bhagavan seja possível atingir a perfeição, mas será possível para pessoas como eu?

Maharshi: Isto é verdade. Mesmo assim ao adorar um retrato sem vida a mente consegue ficar concentrada em certo grau. Essa concentração não será constante até que a pessoa conheça seu próprio Eu através da auto-indagação. Para esta auto-indagação a ajuda de um guru é necessária.

Devoto: Diz-se que o guru pode fazer com que o discípulo realize o Eu transmitindo algo de seu poder a ele. É verdade?

Maharshi:Sim. O guru não confere a realização. Ele simplesmente remove os obstáculos que a impedem. O Eu está sempre realizado.

Devoto: É absolutamente necessário ter um guru se o indivíduo está buscando a auto-realização?

Maharshi: Enquanto você busca a autorrealização o guru é necessário. O guru é o Eu. tome o guru como o Eu real e você como o Eu individual. O desaparecimento deste sentido de dualidade é a remoção da ignorância. Enquanto persistir o dualismo em você o guru é necessário. Pelo fato de você se identificar com o corpo pensa que o guru também tem um corpo. Você não é o corpo, e o guru também não é. Você é o Eu e o guru também. O conhecimento é obtido por aquilo que você chama de auto-realização.

Devoto: Como alguém pode saber se determinada pessoa é competente para ser guru?

Maharshi: Pela paz mental que sente em sua presença e pelo respeito para com ela.

Devoto: Se o guru se torna incompetente, qual será o destino do discípulo que tem sua fé nele?

Maharshi: Cada um de acordo com seus méritos.

Devoto: Posso ter a graça de um guru?

Maharshi: A graça está sempre presente.

Devoto: Mas eu não a percebo.

Maharshi: A submissão ao Eu (Divino) fará com que sinta a graça.

Devoto: Tenho sido submisso de coração e de alma. Sou o melhor juiz de meu coração. Porém ainda não percebo a graça.

Maharshi: Se você se rendeu, a pergunta não surgiria.

Devoto: Eu me rendi, mas a pergunta persiste.

Maharshi: A graça é constante. Seu julgamento é variável, onde estaria a culpa?

Devoto: A pessoa pode ter mais de um mestre espiritual?

Maharshi: Quem é o mestre? Afinal ele é o Eu. de acordo com os estágios de desenvolvimento da mente o Eu se manifesta como mestre externamente. O famoso e antigo Santo Dattatreya disse que teve mais de vinte e quatro mestres. O mestre é aquele de quem se aprende algo. O guru às vezes pode ser também inanimado como é o caso ocorrido com Dattatreya. Deus, guru ou Eu são idênticos. Um homem de mente espiritualizada crê que é todo envolvente e toma Deus como guru. Mais adiante Deus o põe em contacto com um guru em pessoa e o discípulo o reconhece como o Todo. Finalmente o mesmo homem é levado a perceber pela graça do mestre que seu Eu é a única realidade e nada mais. Então percebe que o Eu é o mestre.

Devoto: Diz o Bhagavad Guita: “Realiza o Eu com o puro intelecto e também pelo serviço ao guru e pela autoindagação” como reconciliá-los?

Maharshi: “Ishwaro Gururatmeti” – Ishwara, guru e o Eu são idênticos. Enquanto persistir em você o sentido de dualismo procurará um guru pensando que ele é diferente de você. Entretanto ele o instruí e você adquire a perceção interior. Aquele que concede o supremo conhecimento do Eu, fazendo com que a alma se dirija para o Eu, é o supremo guru, que é louvado pelos sábios como a forma de Deus, que é o Eu. Fixe-se a ele. Ao se aproximar do guru e servi-lo com toda fé a pessoa deveria aprender através de sua graça a causa de seu nascimento e sofrimento. Sabendo que ambos são causados pelo fato da pessoa ter se desviado do Eu o melhor é fixar-se firmemente no Eu (Divino). Embora aqueles que optaram pelo caminho da salvação, e o seguem com regularidade, possam, às vezes, desviar-se do caminho dos vedas quer por esquecimento ou por outras razões, sabem que jamais deverão se rebelar contra as palavras do guru. Os sábios asseguram que se alguém erra contra Deus, o erro poderá ser retificado pelo guru, mas um erro cometido contra o guru não pode ser retificado por Deus. A paz, que é a única coisa que é desejada por todos, não poderá ser atingida de forma alguma, por pessoa alguma, em qualquer tempo e em qualquer lugar, até que se consiga acalmar a mente através da graça do sad guru. Deste modo busque sempre a graça com a mente unidirecionada.

Devoto: Há discípulos de Bhagavan que tiveram sua graça e atingiram a realização sem grande dificuldade. Eu também quero ter essa graça. Sendo mulher e morando a longa distância não posso desfrutar da companhia sagrada de Maharishi quando e com a frequência desejada. Possivelmente não terei chance de voltar aqui. Peço a graça de Bhagavan. Quando voltar para casa quero lembrar-me de Bhagavan. Pode o mestre atender meu pedido.

Maharshi: Aonde você vai? Você não vai a parte alguma. Mesmo supondo que você é o corpo, este veio de Lucknow a Tiruvannamalai? Você simplesmente sentou-se num carro ou outro veículo que se moveu. Finalmente você disse que chegou aqui. O fato é que você não é o corpo. O Eu não se move, o mundo se move nele. Você é apenas o que é. Não existem mudanças em você. Então, mesmo depois, o que parece ser uma partida daqui, você está aqui, lá e em toda parte. Esses locais desaparecem. No que se refere à graça. A graça está sempre no seu interior. Se fosse externa seria sem utilidade. A graça é o Eu. você nunca esta separada de sua atuação. A graça está sempre aí.

Devoto: Quero dizer é que, quando me lembrar da sua forma física, minha mente se fortalecerá e a resposta deverá também surgir de sua parte. Neste caso não me fiarei em meus esforços individuais, os quais, em suma, são simplesmente fracos.

Maharshi: A graça é o Eu. Eu já disse, se você se lembrar de Bhagavan você estará apta a lembrar-se do Eu. A graça já não se acha nele? Existirá algum momento no qual a graça não esteja operando em você? Sua lembrança é a precursora da graça. Esta é a resposta, este é o estímulo, este é o Eu e esta é a graça. Não há razão para esta ansiedade.

Devoto: Posso dispensar a ajuda externa e, através de meu esforço pessoal, penetrar profundamente na realidade?

Maharshi: O fato de você estar possuída pela busca do Eu é a manifestação da graça divina. Ela atrai para o interior. Você deve tentar ir do exterior para o interior. Sua tentativa é a mais fervorosa busca, o impulso para o interior é a graça. É por isso que digo que não existe busca real sem a graça, nem existe graça em atividade para aquele que não busca o Eu. ambos são necessários.

Devoto: Por quanto tempo um guru é necessário para que se atinja a auto-realização?

Maharshi: É necessário enquanto perdurar a ignorância. A ignorância se deve a autoimposição e errónea limitação que se empresta ao Eu. Deus, ao ser louvado, confere a firmeza na devoção o que leva à submissão. A medida que o devoto se rende, Deus mostra sua graça ao se manifestar como guru. O guru, que não é outro se não Deus, guia o devoto dizendo que Deus está no interior dele e que não é diferente do Eu. isto leva à introspeção ou interiorização da mente e finalmente à realização.

Devoto: Se a graça é tão importante, qual é o papel do esforço individual?

Maharshi: O esforço é necessário até o estado de realização. Mesmo a esta altura o Eu deve estar evidente de modo espontâneo, pois de outra maneira a felicidade não seria completa. Até que se chegue a este estado de espontaneidade deverá ocorrer esforço de uma ou outra forma. Existe um estado que se acha além dos esforços, ou estado sem esforços. Até que este estado seja realizado, o esforço é necessário. Após ter experimentado tal bem-aventurança, mesmo que seja por uma vez, a pessoa tentará reavê-la. Uma vez experimentada a bem-aventurança da paz ninguém quer sair dela ou se empenhar em outra atividade.

Devoto: É a divina graça necessária para se atingir a realização ou o esforço honesto do indivíduo por si só levará ao estado do qual não existe retorno à vida e morte?

Maharshi:A divina graça é essencial à realização. Ela conduz o indivíduo à realização. Mas esta graça somente é concedida àquele que é um verdadeiro devoto ou yogui. É dada apenas aqueles que se esforçaram firme e incessantemente no caminho para libertação.

Devoto: A distância tem algum efeito sobre a graça?

Maharshi: O tempo e o espaço acham-se em nosso interior. Você está sempre no Eu. como podem o tempo e o espaço afetá-lo?

Devoto: Aqueles que se acham próximo a voz do rádio ouvem antes dos que estão longe. O Sr. é hindu, nós somos americanos e estamos muito distante. Isto faz alguma diferença?

Maharshi: Não.

Devoto: Até os pensamentos são lidos por outros.

Maharshi: Isto mostra que todos são um só.

Devoto: Bhagavan se interessa por nós e mostra sua graça?

Maharshi: Você está mergulhado na água (da graça) até o pescoço e pede por água. É o mesmo que dizer que o indivíduo mergulhado n’água sente falta dela, ou que a própria água sente sede. A graça está sempre aí. o desapego não pode ser conseguido, nem a realização da verdade, nem a identificação com o Eu, na falta da graça do guru. Mas a prática também é necessária. Querer fixar-se ao Eu através de seus próprios esforços é como adestrar um touro bravio confinado a seu estábulo tentando-o com capim saboroso mas impedindo-o de fugir.

Devoto: Recentemente ouvi uma canção em Tamil na qual o autor lamenta não ser como um macaco obstinado que pode ficar abraçado firmemente a sua mãe e sim como um gatinho cuja mãe o carrega abocanhando-o pelo pescoço. O autor então pede a Deus para que cuide dele. Meu caso é exatamente o mesmo. O Sr. deve ter piedade de mim, Bhagavan. Segure-me pelo pescoço e cuide para que eu não caia e me machuque.

Maharshi: Isto é impossível. São necessárias ambas as coisas: que você se esforce e a ajuda do guru.

Devoto: Quanto tempo levará para o indivíduo obter a graça do guru?

Maharshi: Por que você deseja saber?

Devoto: Para dar-me esperança.

Maharshi: Até esse desejo é um obstáculo. O Eu está sempre aí, nada existe separado dele. Seja o Eu e os desejos e dúvidas desaparecerão. A graça é o início, o meio e o fim. A graça é o Eu. por causa da falsa identificação do Eu com o corpo o guru é considerado como um corpo. Mas do ponto de vista do guru, ele é somente o Eu. O Eu é somente um e o guru lhe dirá que ele é a única existência. O Eu não é portanto seu guru? De onde poderá a graça surgir? Surge apenas do Eu. A manifestação do Eu é a manifestação da graça e vice-versa. Todas essas dúvidas surgem por causa do ponto de vista errado e consequente expectativa de que tudo é exterior à pessoa. Nada é externo ao Eu.



Fonte:
Ramana Maharshi
Seja como você é
Editado por David Godman

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