Assim Falava Ramana


Bhagavan Sri Ramana Maharshi 
(30 de dezembro de 1879 -14 de abril de 1950)


"A realidade deve ser sempre real" - Ramana Maharshi


SRI RAMANA E O MISTICISMO INDIANO


Alexandre Sérgio da Rocha

O subcontinente indiano foi, nos séculos XVIII e XIX, campo de investigações filológicas e etnológicas que revelaram, aos falantes de línguas ocidentais, um outro mundo, uma cultura extremamente rica e sofisticada.

Os estudos sânscritos, remontam à obra não publicada de Heinrich Roth, composta em meados do século XVII, e à gramática, em latim, de Paulinus a Sancto Bartholomaeo, publicada no final do século XVIII. Tomando vulto no século XIX, com os trabalhos de Colebrooke, de Carey, de Bopp, do alemão Theodor Benfey e do erudito americano Whitney, seguidos pelos de Monier-Williams e Max Müller, essas investigações fizeram conhecido um idioma cuja importância para a filologia das línguas indo-européias não há como exagerar. As línguas dravidianas, meridionais, sendo o Tamil a mais significativa, seja pelo número de falantes, seja pela antiguidade da produção literária, também foram objeto de pesquisa, como as de Robert Caldwell e do reverendo G. U. Pope. Como conseqüência, tornou-se possível o acesso ocidental às fontes primárias de literaturas fascinantes que deixam entrever o requintado universo espiritual em que se ambientam.

Ao tempo em que isto acontecia, a civilização ocidental achava-se na antevéspera de tomar consciência da crise gerada no seio do pluralismo ideológico que a modernidade emoldura e que tem, como um dos seus traços característicos, o esgotamento crescente da espiritualidade originária dessa civilização, pelo menos no que diz respeito aos formatos em que, nela, a espiritualidade se institucionalizou.

Um tal panorama permite compreender que o Ocidente, numa atitude que contrasta com a arrogância intelectual e política que tem sido a sua marca, haja chegado a se tornar capaz de abrir-se, com sensibilidade progressiva, às mensagens de homens extraordinários que mantêm vivo, ainda neste século, um pensamento onde ecoa tradição que se pretende milenar e, entretanto, permanece de inequívoca atualidade.

O pensamento tradicional da Índia, a que essas mensagens se vinculam, apoia-se na experiência mística.

'Místico' é a forma vernácula do grego mystikos, cognato de myo: fechar-se, estar fechado; estar com a boca ou com os olhos fechados, estar silencioso. Pela sua etimologia, o termo 'místico' refere-se não apenas à aura de reserva que envolvia os mistérios helénicos, visto o compromisso de sigilo a que se obrigavam os participantes, mas denota, também, a natureza da experiência que se admite fosse induzida no decorrer dessas antigas cerimónias religiosas. Experiência mística é, então, aquela que acontece quando o sujeito tem cerrados os olhos ou os ouvidos, quer dizer, é aquela que prescinde da interveniência dos sentidos. Experiência mística é a que ocorre "no silêncio", e silêncio, no caso, não é apenas estar calado, mas significa um estado de quietude interior, de refluxo da consciência dos objetos da perceção sensorial para buscar uma fonte última da cognição que se assimila, por outro lado, ao substrato da própria identidade.

Prescindindo da mediação dos sentidos, a experiência mística é, a rigor, de duvidosa possibilidade de objetivação (embora indubitavelmente objetiva segundo o juízo de quem a experimenta) e, por isso, verdadeiramente indizível. Produz, entretanto, uma forma de conhecimento que o sujeito tenta codificar (e descodificar) procurando reinterpretá-la como se fosse uma perceção de natureza especial. Desse modo, buscará descrevê-la em termos do que "vê", "ouve" ou "sente" e, em consequência, para poder situar a experiência assim elaborada, construirá uma ambientação espaço-temporal que é análoga, meramente análoga, ao esquema descritivo/explicativo que oferece base para organizar as experiências quotidianas das quais se pode apropriadamente falar.

O caráter analógico que marca a descrição da experiência mística, em confronto com a das experiências cuja objetividade pode ser estabelecida mediante uma interação comunicativa, deixa aberta a possibilidade de que ocorram dois tipos de situação:

1) a descrição da experiência mística coordena-se com o quadro espaço-temporal em que se situam as experiências cuja objetividade seja intersubjetivamente reconhecida, isto é, a inserção da experiência mística, reelaborada, no mundo intersubjetivamente reconhecido é possível sem que se suscitem incoerências que destruam o esquema explicativo desse mundo, e

2) a descrição da experiência mística não se coordena com o quadro espaço-temporal em que se situam as experiências cuja objetividade seja intersubjetivamente reconhecida, isto é, a inserção da experiência mística, reelaborada, no mundo intersubjetivamente reconhecido suscita incoerências que destroem, total ou parcialmente, o esquema explicativo desse mundo.

No primeiro caso, falar-se-á de uma experiência paranormal, que pretende ser objetiva, e buscar-se-á uma complementação do esquema explicativo do mundo intersubjetivamente reconhecido de modo que a objetividade dessa experiência resulte nomologicamente justificada. Este é, por exemplo, o objetivo da parapsicologia. Supondo-se realizado com sucesso esse pro-grama, a expressão 'experiência mística' deixa de ser, na verdade, adequada a essas experiências.

No segundo caso, trata-se da experiência mística propriamente dita, e, porque sua inserção no mundo das experiências quotidianas introduz significativos problemas de coerência na explicação desse mundo, a tentativa de descrição dessas experiências, ou seja, a tentativa de explicitação do conhecimento que ela tenha produzido sofre, no plano do discurso, dificuldades semelhantes.

Por esta razão, o conhecimento de origem mística sempre se expressa numa linguagem poética, enigmática, contraditória ou que chega ao nonsense, como imediatamente percebem os que travam contacto com o misticismo cristão, o ensinamento sufi, a cabala judaica, o budismo zen ou a tradição mística indiana nas suas vertentes ortodoxas.

Não se trata, a rigor, da intenção deliberada de excluir, pelo hermetismo da linguagem, os não iniciados. Trata-se, antes, da impossibilidade mesmo de dizer o indizível de forma diferente.

Mas se só se pode dizer o indizível de um modo que é, a bem dizer, racional-mente incompreensível, o que resta senão a exortação wittgensteiniana de dever-se calar o de que não se pode falar?

A solução que o pensamento místico de todas as épocas tem dado a esse desafio é a utilização de formas simbólicas que não se referem às circunstâncias específicas das vivências, mas têm um conteúdo cuja universalidade, factualmente constatada, levou Jung a ver, nela, sintoma da existência de um inconsciente coletivo.

O conhecimento de origem mística revela-se, assim, intemporal e, portanto, relativamente imune às mutações de um mundo cambiante. Oferece, desse modo, não obstante o aspeto fluido de sua expressão, ou, talvez, por causa dele, um grau de firmeza e segurança a que a época contemporânea se desabituou e de que, por outro lado, parece sedenta.

Sri Ramana, geralmente chamado Bhagavan - vocativo de bhagavat, que significa afortunado, próspero, feliz, glorioso, ilustre, divino, adorável, venerável, santo - e Maharshi, que quer dizer grande sábio ou grande vidente, ambos títulos que traduzem extremo respeito a um homem santo, inclui-se entre os principais exemplos de origem de movimento espiritual indiano amplamente divulgado no Ocidente.

Nascido em Tamil Nadu (Madras), em 30 de dezembro de 1879, Venkataramana, que seria universalmente conhecido como o Bhagavan Sri Ramana Maharshi, deixou, atendendo a uma vocação imperiosa, a cidade de Madura, aos dezasseis anos, indo em busca de Tiruvannamalai (em sânscrito, Arunachala) onde, a 1o de setembro de 1896, completou-se um ciclo de experiências místicas que lhe produziram o despertar do estado de consciência ao qual se refere a sua descrição como um jivanmukta.

Nos anos subsequentes, difundindo-se a notícia de seu ascetismo e dos estados de êxtase em que vivia permanentemente, acorreu à sua presença uma corrente ininterrupta de peregrinos de todas as partes, da Índia e do exterior, à procura do seu darshan - a bênção outorgada automaticamente por um santo quando seu olhar cai sobre o devoto - e da sua orientação espiritual.

Sri Ramana não foi um pregador. Ao contrário, adepto do silêncio e prescrevendo um método de introspeção baseado na indagação "Quem sou eu?", os textos que consubstanciam seus ensinamentos são registos de instruções, frequentemente breves, dadas a discípulos, especialmente aos iniciantes, e da conversação com visitantes.

Colecionados e editados pelos seus seguidores, esses textos revelam uma compreensão aguda e, ao mesmo tempo, plena de sentido prático das intrincadas construções em que se fundamenta a justificativa nomológica das atividades e dos resultados que caracterizam uma sadhana (disciplina) na tradição do misticismo indiano.

Essas construções classificam-se nos diferentes sistemas ortodoxos da filosofia indiana, segundo o sem-número de interpretações que cada um admite, e, frequentemente, filósofos eruditos e devotos entusiastas reivindicam, para uma ou outra versão (aquela à qual aderem), a exclusividade da sabedoria. Essas disputas, porém, não parecem preocupar os grandes homens que, ao longo dos tempos, representam fontes revificadas (e revificadoras) do sanatan dharma. Assim como as imagens diversas da lua refletida na superfície líquida de diferentes vasos cheios de água revelam a mesma luz, assim os ensinamentos dos sábios iluminados pela experiência mística definitiva encontram, no nível mais profundo, uma conciliação que se costuma acolher como sintoma de verdade.

Os homens santos da Índia não se escolhem por nenhum procedimento formal de canonização. Seu reconhecimento e sua fama decorrem da fé e da reverência da gente simples e crédula. As fraudes existem, embora não mais de quantas, que bem conhecemos, pululam no seio das outras formas de vivenciar a espiritualidade.

Possivelmente, os únicos critérios que permitem identificar os poucos gigantes espirituais em meio a uma multidão de enganos são a perenidade de seu significado e a energia avassaladora percebida por aqueles que se beneficiaram de seu contacto.

Entre esses seres excecionais, Sri Ramana situa-se.




1
INVOCAÇÃO

AQUELE em quem todos estes mundos se firmam, de quem são, de quem todos eles surgiram, para quem todos eles existem, por cuja causa todos eles vieram a ser e quem verdadeiramente são, somente ESSE é o Real, a Verdade. Possamos nós adorá-LO no Coração.

BÊNÇÃO

Mestre: O que é a Luz para você?
Discípulo: Para mim, de dia é o sol, de noite, uma lâmpada.
Mestre: O que é a Luz que percebe essa luz?
Discípulo: O olho.
Mestre: O que é a Luz que ilumina o olho?
Discípulo: Essa Luz é o intelecto.
Mestre: O que é a Luz que conhece o intelecto?
Discípulo: É o "eu".
Mestre: Portanto, você é a suprema Luz das luzes.
Discípulo: Verdadeiramente eu o sou.

Om Namo Bhagavate

Sri Ramanaya!




PREFÁCIO

Tradução por Alexandre Sérgio da Rocha

O Bhagavan Sri Ramana Maharshi era a emancipação personificada, a fonte da suprema paz e o oceano ilimitado da liberdade. Ele foi, sem dúvida, o mistério de toda vida na terra.

Sua simples presença nos elevava além de nosso corpo e de nosso cérebro, para o nosso verdadeiro Self*.

(*O termo Self será mantido ao longo do texto para significar a essência última de si mesmo.)

Esta verdade da Autorrealização**, na sua santa presença, era como se fluísse por nossas veias, pulsando em nosso peito, tilintando com cada gota de sangue e tornando-se uníssona com as próprias batidas do nosso coração.

(**Self-realization. Nas palavras compostas, o termo self, na aceção indicada na nota anterior, será traduzido pelo prefixo 'Auto', com inicial maiúscula.)

Suas palavras nos fazem, ainda hoje, permanecer na Glória de nosso Self, o infinito, o eterno, o imortal. Seu olhar silencioso e sagrado era importante para instilar o néctar do Auto-conhecimento, que se tornou parte e parcela de nossa constituição e a própria vitalidade que nos mantém.

O Bhagavan Sri Ramana era o ideal da raça humana. Era a maravilha do mundo com o perfume da paz espiritual. Era o segredo de grande número de inteligências dominantes. Sua vida é um estudo da iluminação divina baseada no silêncio dinâmico.

Todas as aflições e todas as mágoas do mundo simplesmente se dissolviam na sua presença como o gelo diante do fogo. Sua foi a descoberta de uma técnica perdida para despertar a consciência divina: um presente para a humanidade.

Ele tangencia a vida em todos os seus aspetos sem ser preso nem confinado por nenhum deles. Nenhuma escola de filosofia, culto, credo, yoga e coisas desse género pôde reivindicá-lo para si, assim como ele não caberia com facilidade em nenhuma classificação pré-fabricada. Ele viveu livre e livre se conservou, e deixou que todos permanecessem livres também.

Um sábio, um filósofo, um recluso, uma encarnação de Deus ou do Ser: nenhum desses termos o descreve adequadamente. Falham completamente, já que ele os transcende. Ele não foi o produto moderno de alguma tradição passada.

Nenhum Guru, nenhuma Escritura o fez grande nem o iluminou. Ele foi único, permanecendo fiel a si próprio e sendo ele mesmo. Seu abrangente conhecimento dos Sastras e dos Bhashyas lhe adveio de sua Auto-realização. Em si mesmo, ele era a busca e a meta.

Sentava-se diante de nós como a glória e a finalidade da vida, a recuperação da plena consciência divina de nossa natureza, original e desnuda, que não é alguma coisa a ser criada ou alcançada, mas é completamente consciente de si mesma com uma consciência que não tem começo nem fim, porque é eterna. Ele proclamava o Absoluto como o Self, o "EU SOU" em cada vida individual, que é sempre ele próprio.

Semelhante compreensão*** acaba por dotar cada um de Consciência Pura, um estado de impessoalidade, de ausência de tempo, desprovido de causação e de identificação do ego, um estado de liberdade e de paz. Ele próprio era um testemunho de tão augusta revelação, que se encontra sempre nos umbrais mesmo de todos e de cada um.

(*** O termo realization traduz-se ordinariamente por "compreensão". Entretanto, na expressão self-realization e quando se refira especificamente ao estádio de desenvolvimento do indivíduo no qual o self se manifesta plenamente, preenchendo, por assim dizer, a personalidade, será traduzido por "realização", anglicismo de largo uso na literatura que trata deste assunto.)

Por conseguinte, o coração do nosso ser é o coração do universo. Ali é que os sonhos e as ilusões, confusões e contradições fogem e a iluminação flui levando a Luz Compassiva para dentro da vida de cada um, seja o indivíduo negro, pardo, branco ou amarelo.

Era dele a panaceia que recupera para a raça humana sua herança e felicidade perdidas, dilapidadas pelos males políticos, económicos e sociais, junto com seus mil e um fantasmas. O remédio para todas essas perturbações que separam os homens entre si por classes e por nações e florescem como ervas daninhas com um viço sempre renovado reside no despertar da consciência espiritual dos homens e da natureza que os une.

Nenhum país ou sociedade pode perdurar sem uma base espiritual, sem uma base moral, um reconhecimento do valor da sociabilidade, da fraternidade e da boa vizinhança. Uma atmosfera assim sublime da vida superior põe fim, automaticamente, a todas as perturbações, atritos, ódios e discórdias. Esse divino bálsamo cura as feridas da trindade humana -- corpo, mente e alma --, agora numa condição subvertida, e restaura seu equilíbrio.

As forças que não se veem e que são as fontes reais de poder, paz e abundância estão, sem dúvida, no domínio da divindade. Sri Ramana desperta cada um de nós para a glória espiritual, dentro da qual estão contidos todos os mundos, sem um só traço de mundanidade.

O evangelho do Bhagavan é uma expressão prática do Self, a Realidade, Inteligência e Bem-aventurança. Não pode ser delimitado por determinações e diferenças. Não é o caso de ser objetivo e visionário para resultar em ceticismo e agnosticismo. Não se trata de um dado dos sentidos para resultar em materialismo e naturalismo. Não é uma corrente de ideias para resultar em subjetivismo e solipsismo. Não é acosmismo, antropomorfismo, maniqueísmo e coisas desse género. Não é idealismo ou realismo, otimismo ou pessimismo. Nem é um amálgama de cismas.

A Realidade não é existente, mas Existência. Não é consciência de, mas consciência, como uma substância subjetiva. Os objetos introduzem a distinção no conhecimento empírico e não se aplicam ao Absoluto não-dual e isento de distinção, o Self.

O Bhagavan Sri Ramana propugna a unidade da existência, a não-dualidade de Deus e a harmonia das religiões. Ele brilha como o sol da sabedoria no firmamento do Self, irradiando serenidade, sublimidade e solenidade. É uma boia de luz, um ponto de referência para o ímpeto espiritual do mundo.

Seus ensinamentos são reconfortantemente simples e poderosos. Abrem as comportas da alma e fazem jorrar as águas vivificadas da consciência superior. Seu evangelho, livre de qualquer dogma ou doutrina, não é estorvado por tradições fossilizadas. É amplo como o céu, profundo como o mar e universal como os raios do sol. Ele incita, em cada um, a Divindade adormecida, o poder latente, o princípio primário que está por trás do fluxo e das flutuações dos fenómenos finitos. A própria vida dele foi uma demonstração prática da realidade do Brahman, o Self Supremo, e da insubstancialidade do mundo fenomenal.

Seu evangelho revela claramente a divindade da alma, o caráter uno da humanidade e a indivisibilidade de Deus, não como artigos de fé ou opinião, culto ou credo, dogma ou doutrina, mas como verdades colhidas na sua própria experiência. Conhecer o Bhagavan é ser o próprio Bhagavan. Porque Conhecer é Ser e Ser é Conhecer.

Uma única palavra dos santos lábios do Bhagavan era suficiente para nos tornar capazes de levá-la pela vida afora, para agitar a alma e despertá-la para sua intrínseca imortalidade e infinitude, enquanto discursos esplêndidos gritados das plataformas por pessoas sem sabedoria divina são inócuos aos nossos ouvidos e falham completamente em produzir qualquer efeito.

O silêncio do Bhagavan, sólido e sagrado, em certas ocasiões falava mais alto que as palavras, e seu olhar solene e sublime era, em todas as ocasiões, vividamente significativo.

Quem escreve tem como máximo privilégio dizer que foi abençoado com a oportunidade rara de estar em contacto com o Bhagavan Sri Ramana por cerca de 44 anos. Teve, também, diversas ocasiões de estada, contínua e prolongada, por meses consecutivos, aos Pés de Lótus do Bhagavan. Do fundo do seu coração, sente-se superiormente afortunado por reivindicar para si a condição de mera poeira dos Santos Pés do nosso bem amado e abençoado Bhagavan ao qual esta publicação é oferecida como homenagem.

Om Sri Ramanarpanamastu!
Dez. 1959
Rajeswarananda





ASSIM FALAVA RAMANA

(Tradução por Alexandre Sérgio da Rocha)


1. O Self Uno, a Única Realidade, existe sozinho eternamente. Se até o Antigo Preceptor, Dakshinamurti, O revelou pela Eloquência sem palavras, quem mais poderia torná-LO conhecido pela fala?

2. A Realidade é, a um só tempo, Ser e Consciência. Conhecer Aquele é ser Aquele no Coração, transcendendo o pensamento. A entrega absoluta ao Senhor Supremo, por meio da qual o "eu" e o "meu" são destruídos, é o único meio de realizar a Imortalidade. O Ser Supremo, a Causa derradeira do universo, manifesta-Se como pluralidade que não existe sem Ele. Destruir o ego e SER como o Self é o método supremo de consecução.

3. Para quem é um com o Self sem forma, tudo é sem forma. A existência do mundo é meramente relativa. O mundo é, de fato, sinónimo da mente. Já que é o conhecimento que ilumina o mundo, o primeiro é ulterior ao último. Só esse Conhecimento, que permanece imutável, é real. A adoração no contexto do nome e da forma é, apenas, um meio para uma pessoa realizar sua identidade absoluta com o Sem-nome e Sem-forma.

4. Só o Auto-Conhecimento, no qual tanto o conhecimento relativo quanto os fenómenos se desvanecem, é o Verdadeiro Conhecimento, porque o Self é a Fonte de tudo. Conhecer tudo, menos o Conhecedor, é, apenas, ignorância. Sendo o Self uno e universal, o conhecimento da diversidade não é senão ignorância, que também não se separa do Self.

5. Já que o passado e o futuro nunca foram e nem são sem o presente, conhecer o eterno Agora é conhecer a Verdade. O Self infinito, imutável, transcende o tempo e o espaço, que são relativos ao corpo e à mente. O Sábio que realizou o Self transcende tanto o livre-arbítrio quanto o destino, que só dizem respeito ao ignorante. Para o ignorante, o "eu" é o Self limitado ao corpo; para o Sábio, o "eu" é o Self Infinito.

6. O ego é realmente um fantasma sem forma própria, mas que se alimenta de qualquer forma de que se apodera, a qual, quando procurada, foge. Como tudo mais se eleva com a elevação do ego e se abaixa com a seu abaixamento, só a destruição do ego pela Auto-indagação é a verdadeira renúncia. O Ser Auto-consciente de estar desprovido de "eu" é o Aquele que é o Estado verdadeiro de uma pessoa que se realiza destruindo o ego pela Auto-indagação.

7. O homem deveria abandonar o egoísmo pessoal que o ata ao mundo. Abandonar o falso self é renúncia. Separar um tempo para meditação serve apenas para noviços espirituais. Um homem que avança começará a gozar a beatitude mais profunda, quer esteja em atividade, quer não. Enquanto tem as mãos na sociedade, sua cabeça se conserva em solitude.

8. Você tem que se perguntar: "Quem sou eu?" Esta investigação levará, no final, à descoberta de algo dentro de você que está além da mente. Resolva esse grande problema e, por esse meio, resolverá todos os outros problemas. A natureza real do homem é felicidade. A felicidade é inata ao Self. Sua busca da felicidade é uma busca inconsciente do seu verdadeiro Self. O verdadeiro Self é imperecível. Portanto, quando um homem o encontra, acha uma felicidade que não termina.

9. Para alguém que realizou esse Estado de Ser Perfeito que é, realmente, a Bem-aventurança indescritível do Self Absoluto, nada mais resta por ainda conseguir. O Self é um, e o Auto-conhecimento é único nisso: o Self que conhece é, ele próprio, o Self conhecido. Ele nunca pode-se tornar um objeto, conhecido ou desconhecido.

10. Você diz que esta é a "idade da razão" e que o ensinamento deve estar de acordo com a razão. Eu pergunto: - De quem é o intelecto? Você deve responder: - "Meu intelecto." Assim o intelecto é seu instrumento. Você o usa para medir a variedade. Ele não é você próprio, nem é algo independente de você próprio. Você é a realidade permanente, enquanto o intelecto é apenas um fenómeno. Você precisa achar a si mesmo e capturar-se. Não há intelecto no sono sem sonhos. Não há num bebé. O intelecto se desenvolve com a idade. Mas como poderia haver qualquer desenvolvimento ou manifestação do intelecto sem a semente dele no sono ou na infância? Por que ir à história para descobrir esse fato fundamental? O grau de verdade da história é o mesmo grau de verdade que tem o historiador.

11. De que servem disputas acerca do mundo, dizendo-se que ele é real, que é uma aparência ilusória, que é consciente, que não é senciente, que é feliz, que é desgraçado? Todos os homens gostam igualmente do Estado-sem-ego, que se ganha desviando-se do mundo e conhecendo o Self real imaculado que transcende as asserções de que Ele seja uno e de que seja uma variedade.

12. Este mundo, que você tenta provar que é real, está todo o tempo zombando de você por procurar conhecê-lo sem conhecer a si próprio primeiro. Como pode ser conhecimento verdadeiro o conhecimento dos objetos que surge na existência relativa a alguém que não conhece a verdade de si próprio, o conhecedor? Se uma pessoa conhecer corretamente a sua verdade chamada "eu", em quem subsistem tanto o conhecimento quanto seu oposto, então, assim como a ignorância, o conhecimento relativo também cessará.

13. O mundo e a mente surgem e se põem juntos como um só. Mas, dos dois, é o mundo que deve sua aparência à mente. Só é real Aquilo em que esse par (inseparável), o mundo e a mente, tem nascimentos e ocasos; essa Realidade é a Consciência una e infinita que não nasce nem se põe.

14. O mundo não é diferente do corpo. O corpo não é diferente da mente. A mente não é diferente da Consciência Primal. A Consciência Primal não é diferente da Realidade, que existe imutável na Paz.

15. O mundo não é senão o que impressiona os cinco sentidos, quer dizer, o som e as outras coisas desse género. Portanto, o mundo consiste nos objetos dos cinco sentidos. A mente, una, torna-se consciente, através dos cinco sentidos, dos cinco tipos de impressões sensórias. Sendo esse o caso, como pode o mundo ser diferente da mente?

16. Onde existem o tempo e o espaço separados do sentido de "eu"? Se fôssemos o mesmo que corpos, poder-se-ia dizer que estamos no tempo e no espaço. Mas somos corpos? Somos os mesmos todo tempo e em todos os lugares. Somos, portanto, aquela Realidade que transcende o tempo e o espaço.

17. Quando surge o senso de "eu sou o corpo", as noções de "você" e de "ele" também surgem. Mas quando, pela Busca da Verdade subjacente ao "eu", se põe fim ao senso de "eu", as noções de "você" e de "ele" também cessam. O que brilha, então, como Única Lembrança, é o verdadeiro Self.

18. Se o Self estivesse dotado de forma, o mundo e Deus também estariam. Mas se o Self for desprovido de forma, como e por quem haverão de ser vistas as formas? O espetáculo chega a ser diferente do que seja o olho que vê? O Olho real é, precisamente, o Self real; é Consciência infinita desprovida de forma e do que é típico do mundo.

19. Se o olho que vê for o olho da carne, veem-se as formas grosseiras. Se esse olho for auxiliado por lentes, vê-se que mesmo coisas invisíveis têm forma. Se a mente for o olho, veem-se, então, formas subtis. Portanto, o olho que vê e os objetos vistos são da mesma natureza, quer dizer, se o próprio olho for uma forma, não pode ver senão formas. Mas nem o olho físico nem a mente têm qualquer poder de visão por si mesmos. O olho real é o Self. Como Ele não tem forma, sendo a Consciência pura e infinita, a Realidade, Ele não vê formas.

20. A mente não é senão o fluxo dos pensamentos, que passa pela Consciência. De todos esses pensamentos, o primeiro é o pensamento "eu sou o corpo". Trata-se de um pensamento falso, mas, como é tomado por verdadeiro, é possível aos outros pensamentos surgirem. Assim, a mente é, precisamente, um fruto da ignorância primordial e, portanto, é irreal.

21. Se sou eterno e perfeito, por que sou ignorante? Resposta: -- quem é ignorante? O Self real não acusa ignorância. O ego em você é que acusa. Também ele é que formula perguntas. O Self não faz nenhuma pergunta. E esse ego não é nem o corpo nem o Self real, mas algo que surge entre eles. Dormindo, não há ego, e você não tem o senso de imperfeição ou de ignorância nessa ocasião. Portanto, o ego é, ele próprio, imperfeição e ignorância. Se você buscar a verdade do ego e, em consequência, encontrar a verdade do Self, descobrirá que não há ignorância.

22. A dificuldade é que o homem pensa que ele é o fazedor. Mas é um erro. Ele é o instrumento; o Poder Superior é que faz todas as coisas. Se aceita essa posição, ele se torna livre de perturbações. De outro modo, as atrai. Tome por exemplo a imagem que está na base do Gopuram, o templo em forma de torre, que foi feita para parecer que estivesse carregando o peso da torre nos ombros. Sua fisionomia e sua atitude figuram grande esforço em suportar a carga pesadíssima. Mas pense. A torre está construída sobre a terra e repousa sobre suas fundações. A imagem é parte da torre. Não é engraçado? Assim é o homem que toma sobre si o senso do fazer.

23. Se se vai averiguar se a mente existe, descobrir-se-á que a mente não existe. Isto é controle da mente. De outro modo, se a mente for suposta existir e alguém buscar controlá-la, isso corresponde à mente controlando a mente, precisamente como um ladrão mostrando-se um policial para prender o ladrão, que é ele próprio.

24. Este corpo, que não é senciente, não diz "eu"; ninguém chega a dizer "eu não existo durante o sono", mas tudo isso só vem a ser depois que surge o ego. Procure, portanto, a Fonte de onde o ego vem, concentrando a mente na Busca.

25. Os sastras tornam-se desnecessários quando sua essência é compreendida. As escrituras são úteis para indicar a existência do Poder Superior (o Self) e o modo de alcançá-lo. Só isto. Quando a essência é assimilada, o resto se torna desnecessário. A medida que alguém sobe numa escala, acha, continuadamente, que as posições que ultrapassou são degraus para o estádio superior. Quando a meta é atingida, só ela permanece e todo o resto se torna desnecessário para essa pessoa. Esse é o estádio em que os sastras se tornam desnecessários.

26. Dez homens ignorantes atravessaram um rio e, chegando à outra margem, contaram-se e acharam apenas nove. Ficaram angustiados e aflitos com a perda do décimo homem, que não sabiam quem era. Um viandante, verificando a causa da aflição deles, descobriu que cada um havia-se excluído ao contar. Assim, foi batendo em cada um e pediu-lhes que contassem. Eles contaram dez e ficaram satisfeitos. O décimo homem não foi reencontrado. Ele sempre tinha estado ali e só a ignorância havia causado a aflição deles. É assim, também, com o homem e o Self. Nada há de novo para alcançar. O Self está sempre aqui e agora. Porque limitações foram, erradamente, supostas, há a necessidade de transcendê-las. Além do mais, se houvesse algo de novo para ser alcançado, isso implicaria sua prévia ausência. O que esteve uma vez ausente pode desaparecer, também, de novo, caso em que não haveria perenidade na salvação.

27. Quem é que diz que o "eu" não é percetível? Há um "eu" ignorante e um "eu" enganoso? Há dois "eus" na mesma pessoa? A mente é que diz que o "eu" não é percetível. De onde vem essa mente? Conheça a mente. Você a achará imaginária.

28. Você sonha durante seu sono, enquanto está deitado na cama, em Tiruvannamalai, e se acha em uma outra cidade. Ambas as coisas são reais para você. Seu corpo está aqui e você está em sua cama em um quarto. Pode uma cidade entrar em seu quarto, ou poderia você ter deixado este lugar e ter ido a outra parte deixando o corpo aqui? Ambas as coisas são impossíveis. Portanto, o estar você aqui e o ver outra cidade são, ambos, irreais. Eles parecem reais para a mente. O "eu" do sonho desapareceu. Outro "eu" fala do sonho. Este "eu" não estava no sonho. Ambos os "eus" são irreais. Há o substrato da mente que perdura, permitindo que surjam tantas cenas assim. Com cada pensamento surge o "eu" e com seu desaparecimento esse "eu" desaparece também. Assim, os "eus" nascem e morrem a cada momento. A mente que subsiste é o verdadeiro problema. É o ladrão, segundo Janaka.

29. Mesmo a afirmativa de que a dualidade é real enquanto uma pessoa se está esforçando para conquistar a meta, mas que na meta não há dualidade, não está inteiramente correta. Quem mais havia, além do décimo homem na parábola, tanto quando ele próprio estava aflito procurando o décimo homem como alguém que estivesse faltando, quanto quando ele havia achado a si mesmo (como sendo o décimo homem que faltava)?

30. Depois de acordar, você diz que o sono sem sonhos é totalmente vazio de consciência. Você não diz isso durante o próprio sono. Isso em você que diz, agora, que o sono é inconsciência é sua mente. Mas ela não estava presente no seu sono, e é natural para a mente ignorar a consciência que há no sono. Não tendo tido a experiência do sono, ela é incapaz de se lembrar como é que ele é, e comete erros a respeito disso. O estado de sono profundo está além da mente.

31. Só o Self, que é Consciência, é real; nada mais. Tudo o que se costuma chamar conhecimento, que é variedade, é, apenas, ignorância. Essa ignorância é irreal, já que não tem existência por si mesma, sem a Consciência, que é o Self; do mesmo modo que as joias feitas de ouro não têm existência sem o ouro de que são feitas.

32. O verdadeiro Siddhi1 é o próprio Estado Natural no qual se é o Self real e que se conquista tornando-se consciente desse Self, que nós já somos. Outros Siddhis são como os que se conquistam em um sonho. Alguma coisa alcançada num sonho permanece verdadeira quando se acorda? Pode o Sábio, que rejeitou a falsidade tornando-se estabelecido no Real, ser iludido por eles?

(1.Realização, preenchimento, desempenho, conquista completa, sucesso.)

33. Quem há que não seja o Self, para uma pessoa que esteja firmemente estabelecida no Estado Natural pleno de bem-aventurança, para além das mudanças e, portanto, que não seja consciente da diferença: que não pense "eu sou um e ele é outro"? Se alguém diz alguma coisa a respeito dessa pessoa, que importa? Para ela, é exatamente o mesmo que se ela é que a tivesse dito.

34. Aquele que se esquece do Self, tomando erradamente o corpo físico por ele, e passa por inumeráveis nascimentos é tal qual uma pessoa que vaga pelo mundo afora num sonho, e, então, realizar o Self seria apenas como o acordar das perambulações oníricas.

35. Alguém que se pergunta "Quem sou eu?" e "Onde estou?", embora existindo todo o tempo como o Self, é como o homem embriagado que indaga da sua própria identidade e do seu próprio paradeiro.

36. Enquanto, de fato, o corpo está no Self, aquele que pensa que o Self está dentro do corpo que não é senciente é como alguém que considera o pano da tela de cinema, que sustenta a imagem cinematográfica, como estando contido dentro da imagem.

37. A graça está dentro de você. Se ela for externa, será inútil. A graça é o Self. Não é algo para ser adquirido de outrem. Tudo o que é preciso é reconhecer sua existência em você. Você jamais está fora de sua ação. A graça está aqui mesmo. Não é manifesta por causa da prevalência da ignorância. Com sraddha1, ela se tornará manifesta. Sraddha, Graça, Luz, Espírito são todos sinónimos do Self.

(1. Fiel, leal, verdadeiro; ato de homenagem reverencial nos ritos fúnebres de ancestral; a oferenda nesse ato.)

38. A meditação requer um objeto sobre o qual se meditar, enquanto em vichara, ou introspeção, há apenas o sujeito, sem o objeto. Desse modo, a meditação difere de vichara. Vichara é o processo e, também, a meta. "EU SOU" é a meta e a realidade final. Agarrar-se com esforço a esse Ser Puro é vichara. Quando é espontâneo e natural, isso é realização.

39. A própria dúvida "Posso realizar-me?" ou o sentimento "Eu não me realizei" são obstáculos à Realização. A Realização não é algo de novo a ser alcançado. O Self já está realizado. Tudo o que é necessário é livrar-se do pensamento "eu não me realizei".

40. O que é visto, considerado uma entidade independente, independente do Self, é irreal. O que é visto não é diferente daquele que vê. O que existe é o Self uno, não Um-que-vê e um-que-é-visto. O que é visto, considerado como o Self, é real.

41. De um outro ponto de vista, não há uma coisa tal como o irreal. Só o Self existe. Quando você tenta rastrear o ego, baseado no qual o mundo existe e tudo existe (e só baseado nele o mundo existe e tudo existe), você descobre que o ego não existe de todo e, assim, toda esta criação.

42. Renúncia e Realização são a mesma coisa. São diferentes aspetos do mesmo estado. Desistir do não-self é Renúncia. Tornar-se inerente ao Self é jnana, ou Autorrealização. Uma é o aspeto negativo, outra, o aspeto positivo de uma única e mesma verdade.

43. Assim como você procura a corroboração das experiências do estado vigil junto àqueles que vê no estado vigil, tem que pedir a corroboração do sonho àqueles que você via no estado onírico, isto é, enquanto sonhava. No sonho, então, os amigos ou parentes que você via no sonho lhe dariam corroboração. O ponto principal é: quando acorda, você está disposto a afirmar a realidade de qualquer de suas experiências oníricas? Do mesmo modo, aquele que despertou em jnana não pode afirmar a realidade da experiência vigil. Do seu ponto de vista, o estado vigil é sonho.

44. O Silêncio é de quatro espécies: Silêncio de falar, Silêncio de olhar, Silêncio de ouvir e Silêncio da mente. Só o último é puro Silêncio e é o mais importante. O Comentário do Silêncio é o melhor comentário, como esclarecido pelo Senhor Dakshinamurti. Apenas o Silêncio é a Oração Eterna, a Palavra Una, a Conversa de Coração a Coração.

45. O Silêncio é como o próprio fluxo da corrente elétrica. A fala é como obstruir a corrente para iluminação elétrica ou outros propósitos. Não importa quanto um Jnani (Isto é, aquele que está estabelecido em jnana.) possa ter falado, ele é, ainda, o Silencioso. Não importa quanto ele possa ter estado em atividade, ainda é o Quieto. Sua voz é a voz incorpórea. Sua caminhada não é na terra. É como se percorresse o céu.

46. A Graça do Guru está sempre aí. Você imagina que ela seja algo que esteja longe, em algum lugar muito alto no céu, e que tenha que descer. Na realidade, ela está dentro de você, em seu coração, e no momento em que você se acalma ou funde a mente com sua fonte, a Graça esguicha, jorrando como de uma nascente, de dentro de você.

47. Quando um devoto alcança um certo estádio e se torna apto para a iluminação, o mesmo Deus que ele vinha adorando vem como Guru e o arrasta. O Guru só vem para lhe dizer: - "Deus está dentro de você. Mergulhe dentro de si e compreenda". Deus, o Guru e o Self são o mesmo.

48. O Bhagavad Gita diz: "o homem sábio pensará que os sentidos se movem entre os objetos dos sentidos e se tornará desapegado das atividades dos órgãos dos sentidos". Eu iria mais longe e diria que o jnani não pensa sequer isso. Ele é o Self e nada vê além de si mesmo. Isso que o Gita diz na passagem acima é para o abhyasi, ou praticante.

49. Para se ver um objeto que está no escuro são necessários tanto o olho quanto a luz de uma lâmpada. Para ver apenas a luz, basta o olho. Mas para ver o Sol, não há necessidade de nenhuma outra luz. Nosso intelecto, ou buddhi, é inútil para realizar o Self. Para ver o mundo dos objetos externos, são necessárias a mente e a luz refletida (ou chidabhasa)1, que sempre surge com ela. Para ver o Self, a mente tem apenas que ser voltada para dentro, e não há necessidade da luz refletida.

(1. Chidabhasa pode-se traduzir por "luz da inteligência". A "luz refletida" a que se refere, aqui, o Bhagavan não se deve confundir, portanto, com a luz física mencionada na metáfora.)

50. O "eu" rejeita a ilusão do "eu" e, entretanto, permanece como "eu". Isto parece um paradoxo para você, mas não para o jnani. Tome o caso do bhakta (Devoto, adorador.). Seu "eu" roga ao Senhor para uní-lo a Ele, o que é sua entrega. O que permanece como resíduo, depois dessa entrega, é o eterno "eu", que é o Absoluto, Deus ou O Próprio Paramatman (Espírito Supremo.). O que aconteceu com o "eu" que havia orado originalmente? Sendo irreal, ele simplesmente desapareceu.

51. Cada plano tem sua própria ilusão, que só pode ser destruída por outra ilusão no mesmo plano. Por exemplo: um homem faz uma refeição completa e vai dormir. Ele sonha que está com fome a despeito do alimento jagrat (Isto é, relativo ao estado vigil.) em seu estômago. Para satisfazer a fome onírica, ele tem que comer alimento onírico. Do mesmo modo, a ilusão de ajnana (ignorância) só pode ser destruída pela ilusão de guru-upadesa (o ensinamento do Mestre). Mukti (libertação) está sempre presente e os liames estão sempre ausentes; entretanto, a experiência universal é o contrário.

52. Conhecer o Self é ser o Self, e ser significa existência -- a própria existência de alguém -- que ninguém nega, assim como não nega a dos seus olhos, embora não os possa ver. O problema reside no seu desejo de tratar o Self como um objeto, do mesmo modo que você trata seus olhos como objetos quando coloca um espelho diante deles. Você foi tão acostumado a tratar as coisas como objetos que perdeu o conhecimento de si próprio apenas porque o Self não pode ser tratado como um objeto. Quem vai conhecer o Self? Podem conhecê-lo o corpo, que não é senciente, ou a mente? Você fala e pensa todo tempo em "eu", "eu", "eu" e, entretanto, quando lhe perguntam, nega conhecê-lo. Você é o Self; todavia pergunta como conhecer o Self.

53. Os homens falam de visões divinas, contudo pintam-nas diversamente, com aquele que vê, ele próprio, na cena. Até hipnotizadores podem fazer uma pessoa ver cenas estranhas e fenómenos, que você condena como embustes e prestidigitação enquanto exalta as primeiras como divinas. Por que essa diferença? O fato é que todas as visões são irreais, quer venham dos sentidos, quer, da mente, como puros conceitos. Esta é a verdade.

54. O conhecimento subjetivo - o conhecimento conhecendo a si próprio - é jnana. Ele é, então, o sujeito, como o conhecedor, o objeto, como a coisa conhecida, e o conhecimento que os conecta. O conhecimento é a luz que liga o que vê ao que é visto. Suponha que você vai procurar um livro numa biblioteca, numa escuridão de breu. Poderá encontrá-lo sem luz, embora você -- o sujeito -- e o livro -- o objeto -- estejam ambos presentes? Tem que estar presente a luz para uni-los. Essa ligação entre sujeito e objeto, em cada experiência, é chit, a consciência. Ela é o substrato e, ao mesmo tempo, a testemunha de todas as experiências.

55. Que é a meditação senão repetições mentais de um conceito? É um japam (Literalmente, "sussurro", referindo-se à recitação sussurrada de orações ou fórmulas rituais.) mental, que começa com palavras e termina no Silêncio do Self. Meditação e controle da mente são interdependentes. De fato, a meditação inclui o controle da mente, a vigilância subtil contra os pensamentos intrusos. No começo, os esforços de controle são maiores que os de verdadeira meditação, mas, no devido tempo, a meditação prevalece e se torna fácil.

56. No sono profundo você é inteiramente livre de pensamentos porque o pensamento de "eu" está ausente. No momento em que o pensamento de "eu" surge, ao acordar, todos os outros pensamentos rapidamente aparecem de um modo espontâneo. A coisa mais sensata que uma pessoa pode fazer é, portanto, agarrar esse primeiro pensamento, o pensamento de "eu", e dissecá-lo -- quem e o que é -- não dando, por esse modo, qualquer oportunidade aos outros pensamentos para que o distraiam. Nisto reside o verdadeiro valor de vichara, e sua eficácia.

57. O que é a consciência do corpo? É esse corpo que não é senciente mais consciência. Ambos devem residir em outra consciência que, com ou sem a consciência do corpo, seja absoluta, não afetada e sempiterna. Que importa, então, se a consciência do corpo é perdida ou conservada, contanto que uma pessoa se esteja firmando na Consciência Pura? Isto não faz diferença no conhecimento do Supremo.

58. Por que aguentar sua carga na cabeça quando você viaja de trem? Ele o leva e à sua carga, quer ela esteja sobre sua cabeça, quer, no chão do trem. Mantendo-a sobre a cabeça, você não estará diminuindo a carga do trem, mas, apenas, esforçando-se inutilmente. Análogo é o resultado do seu senso de ser o fazedor no mundo.

59. No que se refere à significação do nome Rama, o 'Ra' representa o Self, o 'ma', o ego. A medida que alguém repete continuadamente "Rama", "Rama", o 'ma' desaparece, sendo absorvido pelo 'Ra', e apenas o 'Ra' permanece. Nesse estado não há esforço consciente em dhyana (Meditação.), mas ela está lá, porque dhyana é nossa verdadeira natureza.

60. Você quer conhecer o passado, o que você foi, e também o que será no futuro. Você não conhece o presente, e existe agora. Tanto o ontem quanto o amanhã só existem com referência ao hoje. Ontem se chamou "hoje" no seu tempo, e amanhã será, amanhã, chamado hoje por você. Hoje é sempre presente. O que é sempre presente é pura existência. Não tem passado nem futuro. Por que não experimentar e decifrar a natureza real da existência presente e sempre presente?

61. Não há diferença entre jivanmukti (Libertação de quem vive.) e videhamukti (Libertação de quem está desprovido de corpo.). Para quem pergunta, se diz: "um jnani com corpo é um jivanmukta (Liberado enquanto vive.) e ele alcança videhamukti quando deixa o corpo". Mas essa diferença é apenas para o espetador, não para o jnani. O estado deste é o mesmo antes e depois que o corpo é abandonado. Pensamos no jnani como uma forma humana, ou como um ser com essa forma. Mas o jnani sabe que ele é o Self, a única Realidade que está tanto dentro quanto fora e que não é limitada por nenhuma forma ou configuração.

62. Não há estádios na realização, ou mukti. Não há graus de jnana. De modo que não pode haver um estádio de jnana com o corpo e um outro estádio quando o corpo é abandonado. O jnani sabe que, além do Self, nada existe. Para alguém assim, que diferença poderia fazer a presença ou a ausência do corpo?

63. É falso falar em Realização. O que há para realizar? O real é como é, sempre. Como realizá-lo? Tudo o que se exige é isto: realizamos o irreal, isto é, consideramos como real o que é irreal; temos que abandonar essa atitude. É só isto o que se exige de nós para alcançar jnana.

64. Existência ou consciência é a única realidade. Consciência mais acordar se chama estar acordado. Consciência mais sonho se chama sonho. Consciência mais adormecer se chama sono. A consciência é a tela sobre a qual passam todos os filmes. A tela é real, as imagens são meras sombras sobre ela. Porque temos estado considerando esses três estados como reais, em virtude de um hábito antigo, chamamos de quarto estado a mera consciência ou consciência vigil. Não há, porém, um quarto estado, mas apenas um estado.

65. Diz-se que toda a Vedanta pode ser resumida em quatro palavras: deham, naham, koham, soham. Deham é naham: o corpo é não-"eu". Se uma pessoa pergunta koham, isto é, -- Quem sou eu? -- quer dizer, se alguém pergunta de onde brota esse "eu" e compreende -- então, no coração desse alguém, o Deus Omnipresente brilhará como "eu", como sa aham ou soham; ou seja, ele saberá: "eu sou Aquele", isto é, que é "Eu".

66. A bem-aventurança que se goza inconscientemente no sono goza-se conscientemente em turiya1. Eis a diferença. O ananda gozado durante jagrat é upadhi ananda2. Mas não há diferentes anandas. Só há um ananda, inclusive o ananda gozado durante o estado desperto, o ananda de todas as espécies de seres, do mais ínfimo animal ao supremo Brahma, o ananda do Self.

(1.Estado de espírito de identificação com o Brahman impessoal.)
(2. Upadhi ananda pode ser traduzido por "pretensa bem-aventurança".)

67. "Conhece-te a ti mesmo", diz-se usualmente. Mesmo isto não está correto. Porque, se falamos em conhecer o Self, deve haver dois Selves: um, o Self cognoscente e outro, o Self que é conhecido, e o processo de conhecimento. O estado que chamamos realização é, simplesmente, ser si próprio, não é conhecer algo ou tornar-se algo. Se alguém se realizou, ele é aquele que é o único que é e que é o único que sempre foi.

68. "Eu existo" é a única experiência permanente e auto-evidente de cada um. Nada mais é tão auto-evidente (pratyaksha 1)  quanto "eu sou". O que as pessoas chamam de auto-evidente, por exemplo, a experiência que obtêm por meio dos sentidos, está longe de ser auto-evidente. Apenas o Self é aquele. Pratyaksha é outro nome para o Self. Assim, fazer Auto-análise e ser "eu sou" é a única coisa a fazer. "Eu sou" é realidade. Eu sou isto ou aquilo é irreal.

(1. Literalmente, "presente diante dos olhos", por extensão, "evidente".)

69. O dizer "eu sou Brahman", na tradição dos Upanishades, significa, simplesmente, Brahman existe como "eu" e não que "eu seja Brahman". Não se concebe que um homem seja aconselhado a meditar: "eu sou Brahman","eu sou Brahman". Por acaso alguém fica pensando: "eu sou um homem","eu sou um homem"? Ele é e, a menos que surja uma dúvida acerca de ser ele um animal ou uma árvore, não há necessidade de afirmar "eu sou um homem". Do mesmo modo, o Self é o Self. Brahman existe como "eu sou", em todas as coisas e em todos os seres.

70. Você precisa deixar de ser as três espécies comuns de Purusha (Neste caso, "pessoa".), isto é, adhama, madhyama, uttama1 e tornar-se o Purushottama2.  Isto é certo. Atinja esse estado e veja por si mesmo o que esse estado é e se há alguma vritti3 nele. Falar até em Brahmakara vritti4, como se faz algumas vezes, não é rigoroso. Se falarmos do rio que se fundiu no oceano como ainda um rio e o chamarmos "rio samudrakara"5, é que poderemos falar do estádio derradeiro do desenvolvimento espiritual como tendo Brahmakara vritti.

(1. Respetivamente a primeira , segunda e terceira pessoas gramaticais (que, em sânscrito, correspondem, por sua vez, respetivamente, às que são, usualmente, nos idiomas ocidentais, terceira, segunda e primeira pessoas gramaticais.)

(2. No caso, o Espírito Supremo. A pluralidade de termos sânscritos para designar princípios espirituais (e os variados estados a eles conexos), para os quais dispomos de poucos termos, como 'alma' e 'espírito', dificulta a expressão, em idioma ocidental, de uma conceção do mundo complexa cujo refinamento é, em certa medida, obnubilado.)

(3. Entre os significados da palavra vritti contam-se: fluxo, modo de vida ou de conduta, curso de ação, estado, condição. As conotações sugeridas por estas aceções reúnem, curiosamente, as ideias antagónicas (mas complementares) de "padrão" e "variação". "Flutuação" (que, de certo modo, envolve ambas essas ideias antagónicas) seria, possivelmente, uma tradução interessante.)

(4. Flutuação específica da concretização ou realização do Espírito impessoal.)

(5. Samudrakara pode-se traduzir por "concretização da reunião de águas".)

71. Não é de todo correto dizer que os advaitianos1, ou a escola de Shankara, negam a existência do mundo ou que o chamam de irreal. Ao contrário, é mais real para eles que para os outros. O mundo deles sempre existirá, enquanto, para as outras escolas, o mundo há de ter origem, crescimento e degeneração e, desse modo, não pode ser real. Apenas, dizem eles, o mundo não é real como mundo, mas como Brahman o mundo é real. Tudo é Brahman, nada existe que não seja Brahman, e o mundo como Brahman é real. Shankara diz que maya (Ilusão, irrealidade.) não existe. Quem nega a existência de maya e a chama mithya, ou não existente, não pode ser chamado um mayavadi2.

(1. Adeptos da vertente da filosofia Vedanta dita advaita, isto é, "não-dual", que sustenta um monismo geralmente expresso pelo moto Ekam sat, "só um existe".)
(2. Partidário de mayavada, doutrina que sustenta que o mundo é uma ilusão.)

72. Não há diferença entre a mente e o Self. A mente voltada para dentro é o Self; voltada para fora, torna-se o ego e o mundo todo. Chamamos por vários nomes o algodão fabricado como vários tecidos. Mas todos os tecidos são algodão. O um é real; os vários são meros nomes e formas. Mas a mente não existe sem o Self, isto é, ela não tem existência independente. O Self existe sem a mente, nunca a mente sem o Self.

73. Um personagem na tela, no filme cinematográfico, parece contemplar o mundo todo. Que realidade há por trás do sujeito e do objeto no mesmo filme? Um ser ilusório contempla um mundo ilusório. Você e o mundo são tão reais quanto o personagem do cinema e o mundo que aparece no filme.

74. A ilusão é ilusória ela própria. A ilusão precisa ser vista por alguém que está além dela. Pode um tal observador estar sujeito à ilusão? Há cenas flutuando na tela numa exibição cinematográfica. O fogo parece consumir edifícios até às cinzas. A água parece fazer naufragar navios. Mas a tela em que essas imagens foram projetadas permanece seca e sem queimaduras. Por quê? Porque as imagens eram irreais e a tela, real. Os reflexos passam por um espelho, mas o espelho não é de nenhum modo afetado pela qualidade ou pela quantidade dos reflexos nele. Assim, o mundo é um fenómeno na Realidade única que não é afetada de modo nenhum. A Realidade é apenas uma.

75. Você fala de uma visão do Senhor Siva. A visão é sempre de um objeto. Isso implica a existência de um sujeito. O valor da visão é o mesmo daquele que vê. Quer dizer: a natureza da visão está no mesmo plano daquele que vê. O aparecimento implica, também, desaparecimento. O que quer que apareça deve, também, desaparecer. Uma visão nunca pode ser eterna. Mas o Senhor Siva é eterno.

76. A visão implica alguém que vê. Quem vê não pode negar a existência do Self. Não há momento em que o Self, como Consciência, não exista, nem pode quem vê permanecer separado da Consciência. Essa Consciência é o Ser eterno e único Ser. O que vê não pode ver a si próprio. Acaso ele nega sua existência porque não pode ver a si próprio com os olhos como pratyaksha (diante dos olhos)? Não! Logo, pratyaksha não significa ver, mas SER.

77. Que é meditação? Consiste na expulsão dos pensamentos. Todas as perturbações atuais se devem aos pensamentos e são, elas próprias, pensamentos. Desista dos pensamentos. Isso é felicidade e, também, meditação. Os pensamentos são para quem pensa. Permaneça como o Self de quem pensa e haverá um fim de pensamentos.

78. Ver a iniquidade no outro é a nossa própria iniquidade. A discriminação entre certo e errado está na origem do pecado. O pecado próprio de alguém reflete-se para o exterior e o indivíduo, na ignorância, o sobrepõe ao outro. O melhor procedimento para uma pessoa é alcançar o estado em que tal discriminação não ocorre. Você, em seu sono, vê o certo ou o errado? Você não existe enquanto dorme? Esteja adormecido mesmo durante o estado desperto; subsista como o Self e permaneça sem ser conta-minado pelo que acontece em torno. Seu silêncio fará mais efeito que suas palavras ou atos. Isto é o desenvolvimento da força de vontade. Então, o mundo se torna no Reino dos Céus, que está dentro de você.

79. Que é realização? Será ver Deus com quatro mãos, portando a concha, a roda, a clava etc.? Mesmo se Deus aparecesse nessa forma, como seria extinta a ignorância do discípulo? Uma tal aparição é fenomenal e ilusória. Todas as perceções são conhecimento indireto ou secundário. A verdade precisa ser realização eterna. A perceção direta é Experiência sempre presente. Precisa haver aquele que vê. A atual sobreposição do corpo como "eu" está tão profundamente arraigada que a visão diante dos olhos é considerada pratyaksha, mas não aquele que vê, ele próprio. Só o que vê é real e eterno. Realização é subsistir no Self e Ser o Self, e não ver o Self.

80. Você nunca poderá achar a mente por meio da mente. Passe além dela a fim de achá-la não existente. Mente, ego, intelecto, todos são nomes diferentes para um único órgão interno1. A mente é, apenas, o agregado de pensamentos. Os pensamentos só podem existir pelo ego. Assim, todos os pensamentos são permeados pelo ego (aham). Procure de onde surge o ego e os outros pensamentos desaparecerão.

(1. Antahkarana: Nome do órgão interno, sede do pensamento e dos sentimentos, a mente, a faculdade inteletiva.)

81. O jnani não vê ninguém como ajanani (Desprovido de jnana, ignorante.). Todos, ao seu ver, são, apenas, jnanis. No estado ignorante a pessoa sobrepõe sua ignorância a um jnani e o toma erradamente por um fazedor. No estado de jnana, o jnani nada vê separado do Self. O Self é todo-iluminado e apenas pura jnana. Dois amigos dormiram lado a lado. Um deles sonhou que ambos haviam feito uma longa viagem e haviam tido curiosas experiências. Despertando, recapitulou-as e perguntou a seu amigo se não tinha sido assim. O outro simplesmente o ridicularizou, dizendo que o sonho fora apenas dele e que não poderia afetar um outro. Assim acontece com o ajnani que sobrepõe suas ideias ilusivas aos outros.

82. Jnana chakshus 1 não quer dizer que seja um órgão da perceção como os outros órgãos dos sentidos: Jnanameva chakshus 2. Visão à distância, etc. não são funções de jnana chakshus. Enquanto houver um sujeito e, também, um objeto, trata-se apenas de conhecimento relativo. Jnana está além do conhecimento relativo. É absoluta.

(1.O olho da inteligência, o olho interno, a visão intelectual.)
(2. Literalmente, "o olho que serve ao conhecimento".)

83. Dakshinamurti observava silêncio quando os discípulos se aproximavam dEle. Essa é a mais elevada forma de iniciação. Inclui as outras formas. Nas outras dikshas (Iniciações.), precisa haver o estabelecimento de uma relação sujeito-objeto. Primeiro o sujeito precisa revelar-se e, depois, o objeto. A menos que ambos estejam lá, como há de um olhar para o outro ou tocá-lo? Mounadiksha (Iniciação pelo silêncio.) é a mais perfeita; compreende olhar, tocar e ensinar. Purificará o indivíduo de todas as maneiras e o estabelecerá na Realidade.

84. O silêncio é o verdadeiro upadesa (Ensinamento). É o upadesa perfeito. Só é apropriado para o buscador mais adiantado. Os outros são incapazes de tirar dele plena inspiração. Exigem, portanto, palavras para explicar a Verdade. Mas a Verdade está além das palavras. Não admite explicação. A única coisa que se pode fazer é apontar para Ela.

85. O que é o sarupa (forma) e o arupa (ausência de forma) da mente? Quando você acorda, aparece uma luz, que é a luz do Self, passando através do mahat tattwa 1. Chama-se consciência cósmica. Isto é arupa. A luz cai sobre o ego e é refletida a partir dali. Então, o corpo e o mundo são vistos. Esta mente é sarupa. Os objetos aparecem à luz dessa consciência refletida. Essa luz se chama jyoti 2.

(1. Literalmente, "o grande princípio". É uma denominação para o intelecto.)
(2. Luz, como o princípio divino da vida ou a fonte da inteligência.)

86. O que é Atmasakshatkara (Autorrealização)? Você é o Atma (Self) e isto é, também, sakshat (aqui e agora). Onde há lugar para kara (concretização) nisto? Esta questão mostra que você pensa que é não-self. Ou pensa que há dois selves, um para compreender o outro. Isto é absurdo.

87. Qualquer que seja o estado em que se está, as perceções participam desse estado. A explicação é que no estado desperto (jagrat) o corpo grosseiro percebe formas e nomes [do mundo] grosseiro; no swapna (o estado onírico), o corpo mental percebe as criações mentais em sua variedade de formas e nomes; no sushupti (sono profundo sem sonhos), perdida a identificação com o corpo, não há percepções. De modo semelhante, no Estado Transcendental, a identidade com Brahman (o Self) põe o homem em harmonia com todas as coisas, e nada há separado do seu Self.

88. Uma boneca de sal mergulhando no mar não será protegida por uma capa de chuva. O corpo é a capa de chuva. Você vê objetos enquanto esquece seu próprio Self. Se você defender seu Self, não verá o mundo objetivo.

89. Uma criança e um Sábio (jnani) são parecidos em um aspeto. Os acontecimentos só interessam a uma criança enquanto eles duram. Depois que acabaram, ela deixa de pensar neles. Desse modo, então, parece que eles não deixam qualquer impressão na criança e que ela não é afetada mentalmente por eles. Assim ocorre com o Sábio.

90. Houve quem descobrisse as propriedades e efeitos da pele de tigre, da lã, da pele de veado etc. e os relatasse nos Livros de Yoga. Correspondem a condutores e não condutores de magnetismo etc. Mas isso é inteiramente irrelevante para o Caminho do Conhecimento (Jnana Yoga). Postura significa, realmente, posicionamento e estabilidade no Self. É interna. Outros referem-se a posições externas.

91. Brahmacharya é "viver em Brahman". Um verdadeiro brahmachari, quer dizer, alguém que vive em Brahman, encontra bem-aventurança no Brahman, que é o Self. Por que então procuraria outras fontes de felicidade? O celibato é, certamente, uma ajuda para a realização, uma ajuda entre tantas outras.

92. A realização do Self é o maior auxílio que pode ser prestado à humanidade. Portanto, diz-se que os santos são auxiliadores, embora eles permaneçam nas florestas. O auxílio é impercetível, entretanto permanece lá. Um santo ajuda a humanidade inteira, incógnito para ela.

93. A Consciência Pura é indivisível, não tem partes. Não tem forma nem configuração; nem dentro, nem fora. Não há direita ou esquerda para ela. A Consciência Pura, que é o Coração, inclui tudo, e nada está fora ou separado dela. Esta é a Verdade definitiva.

94. A Consciência Pura, completamente desvinculada do corpo físico e transcendendo a mente, é questão de experiência direta. Os Sábios conhecem sua Existência, eterna, incorpórea, do mesmo modo que o leigo conhece a existência corpórea dele. Mas a experiência da Consciência tanto pode acontecer com consciência corporal quanto sem ela. Na experiência incorpórea da Consciência Pura, o Sábio está além do tempo e do espaço e, nesse caso, nenhuma questão acerca de onde se localiza o Coração pode, de nenhum modo, surgir.

95. Em certo sentido, falar em Autorrealização é ilusório. Apenas porque as pessoas têm estado na ilusão de que o não-self é o Self e de que o irreal é o Real é que elas têm que ser desabituadas disso pela outra ilusão chamada Auto-realização. Porque o Self sempre é, realmente, o Self, e não há uma coisa tal como realizá-lo. Quem há de realizar o quê e como, quando tudo o que existe é o Self e nada além do Self?

96. Pregar consiste em subir numa plataforma e arengar para o povo em volta? Pregar é mera comunicação de conhecimento. Só pode ser realmente feito no Silêncio. Que pensa você de um homem que ouve um sermão por uma hora e vai-se embora sem ter sido impressionado por ele a ponto de mudar sua vida? Compare-o com outro, que se senta em uma santa Presença e vai-se embora algum tempo depois com sua visão da vida completamente mudada. Que é melhor, pregar em voz alta sem efeito ou sentar-se silenciosamente emanando Força Interior?

97. Como surge a fala? Há Conhecimento abstrato, de onde surge o ego, o qual, por seu turno, dá origem ao pensamento, e o pensamento, à palavra falada. Assim, a palavra é bisneta da Fonte original. Se a palavra pode produzir efeitos -- julgue por si mesmo -- quão mais poderoso há de ser Pregar mediante Silêncio! Mas as pessoas não entendem essa verdade simples, a verdade da sólida experiência sempre presente no seu dia a dia. Essa Verdade é a do Self. Há alguém que não tenha consciência do Self? Mas não querem nem ouvir a respeito dessa Verdade, enquanto estão ávidas de saber o que está além, acerca de céu, inferno e reencarnação.

98. O Self é o Coração auto-luminoso. A iluminação surge do Coração e alcança o cérebro, que é a sede da mente. O mundo é visto com a mente. Assim, você vê o mundo pela luz refletida do Self. O mundo é percebido por um ato da mente. Quando a mente está iluminada, é consciente do mundo; quando não está iluminada desse modo, não é consciente do mundo.

99. O Self, em sua pureza, é experimentado nos intervalos entre dois estados ou entre dois pensamentos. O ego é como a lagarta que só larga uma folha depois de ter agarrado outra. Sua verdadeira natureza torna-se conhecida quando ele fica sem contacto com objetos ou pensamentos. Você deveria compreender esse intervalo como a Realidade imutável, subsistente, seu verdadeiro ser, mediante a convicção adquirida pelo estudo desses três estados: jagrat, swapna e sushupti.

100. O jnani é a corporificação de todas as virtudes, que advieram a ele espontaneamente. Aparentemente ativo, o jnani não se compromete com nenhum ato. Aparentemente inativo, o jnani é, em realidade, um agente. Tendo transcendido os três estados, o jnani subsiste apenas como Consciência pura que não é afetada pelas disposições do corpo e da mente. Para ele, turiyateeta (Além de turiya.) é idêntico a turiya, e os outros três estados não existem para ele. Já que o jnani não é o fazedor, é ridículo atribuir-lhe prarabdha karma (Literalmente, "ação principiada".).

101. O sentimento de "eu faço acontecer" é o obstáculo. Pergunte-se "quem faz acontecer?" Lembre-se de quem você é. Então a atividade não o atará, prosseguirá automaticamente. Não faça esforço nem para fazer acontecer nem para renunciar; seu esforço é a servidão. O que está destinado a acontecer, acontecerá. Assim, deixe isso ao Poder Superior: você não pode renunciar ou conservar a seu talante.

102. Um viajante num carro de bois adormeceu. Os bois se moveram, ficaram quietos ou foram desatrelados durante a viagem. Ele nada sabe desses acontecimentos, mas achou-se num lugar diferente quando acordou. Permaneceu em bem-aventurada ignorância a respeito das ocorrências no caminho, mas a viagem acabou. Acontece uma coisa parecida com o Self de uma pessoa. O Self sempre desperto compara-se com o viajante adormecido no carro de bois. O estar acordado é o movimento dos bois. O samadhi é o ficarem quietos (porque samadhi significa jagrat-sushupti, quer dizer, a pessoa está consciente, mas não participante na ação: os bois estão jungidos, mas não se movem). O sono é o desatrelar dos bois, porque há, aí, completa cessação da atividade, correspondendo ao alívio para os bois pela retirada da canga.

103. Na exibição cinematográfica, as cenas são projetadas na tela, mas as imagens que se movem não a afetam ou alteram. O espetador presta atenção a elas, não à tela. Elas não podem existir sem a tela, embora a tela seja ignorada. Assim, também, o Self é a tela onde as imagens, atividades etc. continuam. O homem está consciente destas últimas, mas não está consciente do primeiro que é essencial. Do mesmo modo, o mundo das imagens não está separado do Self. Quer esteja consciente da tela, quer não esteja, as ações prosseguem.

104. As ações e os estados dependem do ponto de vista de uma pessoa. Um corvo, um elefante e uma serpente, cada um deles faz uso de um instrumento para dois propósitos alternativos. O corvo olha, com um olho, para ambos os lados. Para o elefante, a tromba tanto serve de mão quanto de nariz. E a serpente tanto vê quanto ouve com os olhos. Quer você diga que o corvo tem um olho ou olhos, quer se refira à tromba do ele-fante como "mão" ou "nariz", quer chame o olho da serpente de seus ouvidos, é tudo a mesma coisa. Do mesmo modo, no caso do jnani, dormir-desperto, estar acordado-adormecido, sonhar no sono-sem-sonhos ou estado vigil-onírico são todos, em grande parte, a mesma coisa.

105. Há apenas uma consciência subsistindo nos estados de estar desperto, sonhar e dormir um sono sem sonhos. No sono não há "eu". O pensamento surge ao despertar e, então, o mundo aparece. Onde estava esse "eu" no sono? Ele estava lá ou não estava? Deve ter estado, também, mas não da maneira por que você o sente agora. O "eu" adormecido é o "eu" real. Que subsiste por completo. Que é consciência. Se isto for conhecido, você verá que está além dos pensamentos.

106. Há solitude em toda parte. O indivíduo é sempre solitário. Importa procurar dentro, não fora. Não se permita ser distraído. Indague para quem há distração. Você diz que a resposta não vem da procura interna. O perguntador é a resposta, e nenhuma outra resposta poderá vir. O que chega não pode ser verdadeiro. O que é, é verdadeiro.

107. O sono não é ignorância; é o estado puro de uma pessoa. O estado desperto não é conhecimento, é ignorância. Há plena consciência no sono e total ignorância no estado desperto. Sua natureza real recobre a ambos e se estende para além. O Self está além tanto do conhecimento quanto da ignorância. O sono e os estados onírico e desperto são apenas modos que passam diante do Self: têm lugar conforme você seja consciente deles ou não. Esse é o estado do Jnani, em quem passam o estado de samadhi, o estar desperto, o sonho e o sono profundo, como os bois movendo-se, permanecendo parados ou sendo desatrelados, enquanto o passageiro dorme. Essas respostas são do ponto de vista do ajnani; de outro modo tais questões não seriam suscitadas.

108. O estado que transcende a palavra e o pensamento é mouna: é meditação sem atividade mental. A subjugação da mente é meditação; a meditação profunda é o discurso eterno. O Silêncio é sempre-loquaz: é o fluxo perene da "linguagem". Ele é interrompido pelo falar, porque as palavras obstruem essa "linguagem" muda. As conferências podem entreter indivíduos por horas sem melhorá-los. O Silêncio, por outro lado, é permanente e beneficia toda a humanidade. Silêncio significa Eloquência. Conferências proferidas não são tão eloquentes quanto o Silêncio. O Silêncio é Eloquência incessante... é a melhor Linguagem.

109. Todas as religiões postulam os três fundamentos: o mundo, a alma e Deus. A Realidade una, sozinha, manifesta-Se como os três. Pode-se dizer: "os três são três, sem dúvida", apenas enquanto o ego perdura. Portanto, uma pessoa tornar-se inseparável do seu próprio Ser, onde o "eu", o ego, está morto, é o estado perfeito.

110. A auto-indagação, seguindo a pista de Aham-vritti 1, é exatamente como o cão rastreando seu dono pelo faro. O dono pode estar em um local distante e não sabido, mas isso não é, de nenhum modo, obstáculo a que o cão o rastreie. O cheiro do dono é uma pista infalível para o animal, e nada mais conta, como a roupa que ele veste, sua compleição e estatura etc. O cão se prende ao cheiro, sem distrair-se, enquanto o procura, e, finalmente, consegue rastreá-lo.

(1. Flutuação específica do "eu".)

111. A palavra Aham é muito sugestiva, ela própria. As duas letras 1 da palavra mostram que ela compreende tudo. Como? Porque Aham significa a própria existência. Embora o conceito de "eu"-dade 2 ou de "eu-sou"-dade 3 seja, usualmente, conhecido por Aham-vritti, ele não é, na verdade, uma vritti como as outras vrittis da mente. Ao contrário das outras vrittis, que não têm interrelação essencial, Aham-vritti é, por igual e essenci-almente, relacionada a todas e a cada uma das vrittis da mente. Sem Aham-vritti não pode haver nenhuma outra vritti, mas Aham vritti pode subsistir por si mesma, sem depender de nenhuma outra vritti da mente. Aham vritti é, portanto, fundamentalmente diferente das outras vrittis.

(1. Refere-se à grafia da palavra na escrita devanagari, o alfabeto sânscrito, que, sendo parcialmente silábico, permite que a palavra transliterada como aham se possa escrever com duas letras: a - ham. Este último grupo, pode ser grafado como a letra h encimada pelo sinal se nasalização anusvara.)
(2 No original, 'I'-ness.)
(3 No original, 'I am'-ness.)

112. O ego funciona como nó entre o Self, que é pura Consciência, e o corpo físico, que é inerte e não é senciente. O ego é, portanto, chamado Chit-jada granthi 1. Em sua investigação da Fonte de Aham-vritti, você toma o aspeto essencial Chit do ego, e, por essa razão, a investigação há de levar à realização da Consciência pura do Self.

(1.Literalmente, "o nó do intelecto paralizado, ou congelado, ou estúpido".)

113. A Consciência indiferenciada do Ser puro é o Coração ou Hridayam, que é o que você realmente é, significado pela própria palavra (Hrit + Ayam = Eu sou o Coração). Do Coração surge a "eu"-dade ('I'-ness, no original.) como dado primário da experiência da própria pessoa. Por si própria, ela tem o caráter de suddha-sattva (Existência pura.). Neste suddha sattva svarupa1 (quer dizer, sem a contaminação por rajas ou tamas) é que o "eu" parece subsistir no Jnani.

(1. A forma própria da existência pura.)

114. O conhecimento não existe sem ignorância. A ignorância não existe sem o conhecimento. Só um conhecimento é verdadeiro conhecimento, aquele pelo qual se conhece o Self mediante a indagação acerca de a quem pertencem o conhecimento e a ignorância. Conhecer tudo mas sem conhecer a si próprio, o conhecedor, não é, antes, ignorância? Ao conhecer a si próprio, o substrato do conhecimento e da ignorância, extinguem-se o conhecimento e a ignorância.

115. Só é Conhecimento aquele que não é conhecimento nem insipiência. O que se sabe não é verdadeiro Conhecimento. Já que o Self luz sem qualquer coisa mais para conhecer ou tornar conhecida, somente Ele é conhecimento. Não é um vazio, Ele. O Self, que é conhecimento, só ele é a Realidade. O conhecimento da diversidade é, apenas, falso conhecimento, que não é senão ignorância: não existe sem o Self, que é Conhecimento-Realidade. Os ornatos, em sua variedade, são irreais. Existem eles sem o ouro, a substância?

116. Karma (Ação) produz frutos, pois assim ordena o Criador. O Karma é Deus? Ele não é senciente. Os resultados do Karma desaparecem e entretanto deixam sementes que lançam o agente num oceano de Karma. O Karma não produz salvação. Mas os atos realizados sem qualquer apego e com o espírito de serviço a Deus limpam a mente e apontam o caminho da salvação.

117. Conhecimento (verdadeiro) é o Conhecimento que transcende tanto o conhecimento quanto a ignorância. Não há qualquer objeto para ser conhecido "lá". Quando alguém conhece sua verdadeira natureza, então há o Ser sem começo nem fim: é a ininterrupta Consciência-Bem-aventurança. Permanecer nesse estado do Supremo, a realização d'Aquele que subsiste quando tenha desaparecido qualquer traço do "eu", é um bom tapas (Ascese, mortificação, penitência).

118. Esse supremo Estado, obtido aqui e agora como resultado da associação da pessoa com os Sábios e realizado, por meio da meditação profunda da Auto-indagação, em contacto com o coração, esse estado não pode ser ganho com a ajuda de um preceptor, nem por meio do conhecimento das escrituras, nem pelo mérito espiritual, nem por outros meios. Se se consegue a associação com Sábios, de que servem os diversos métodos de auto-disciplina? Diga-me de que serve um ventilador quando está soprando a brisa do sul, suave e fresca?

119. A água benta da peregrinação, as imagens de deuses feitas de terra e pedra não se comparam com o olhar benigno do Sábio. Elas só purificam uma pessoa depois de dias incontáveis de graça. Saiba que o Sábio, tão logo concede sua mirada benevolente, purifica a pessoa!

120. O Estado de não emergência do "eu" é o estado em que você é AQUELE. Sem buscar e atingir esse Estado de não emergência do "eu", como se pode conseguir a própria extinção da qual o "eu" nunca ressuscita? Sem atingí-lo, como é possível alguém permanecer em seu próprio Estado em que uma pessoa é AQUELE?

121. Apenas o buscar, com a mente voltada para dentro, para ver de onde surge o "eu", sem pronunciar a palavra "eu", é a investigação que leva ao Auto-Conhecimento. Diferentemente, pode a meditação "eu não sou isto; sou Aquilo" bastar como investigação, embora possa ser de alguma ajuda?

122. Indagando "quem sou eu" dentro da própria mente, quando alcança o Coração, o "eu" individual cai abatido, e, de repente, a Realidade manifesta-se espontaneamente como "eu" "Eu". Embora se revele desse modo, não é o "eu" ego, mas o Ser Perfeito, o Self Absoluto.

123. Apenas procurar a Realidade que é eternamente conseguida e permanecer nela é a Consecução. Se se diz que a libertação é de três espécies, com forma, sem forma ou com e sem forma, então -- deixe-me dizer-lhe -- a extinção do ego que pergunta que forma de Libertação é a verdadeira, é a verdadeira Libertação.

124. A Graça é o começo, o meio e o fim. A Graça é o Self. Por causa da falsa identificação com o corpo, a graça se considera corpórea. Mas a perspetiva do Guru é apenas o Self. O Self é apenas um. Ele lhe diz que apenas o Self é. Então, não é o Self a sua Graça? De onde vem a Graça? Somente do Self. A manifestação do Self é a manifestação da Graça, e vice versa. Todas as dúvidas surgem por causa da perspetiva errada e consequente expectativa de coisas externas a si próprio. Nada é externo ao Self.

125. Não há mistério maior que esse: sendo nós mesmos a Realidade, buscamos conquistar a Realidade. Pensamos que há alguma coisa amarrando nossa Realidade e que precisa ser destruída antes que a Realidade seja conquistada. Isto é ridículo. Há de raiar o dia em que você próprio se rirá de seu esforço. O que existirá nesse dia de riso existe agora também.

OM TAT SAT




Fonte:
Título do original: Thus Spake Ramana
Sri Ramanasramam - Tiruvannamalai
Traduzido da 5a edição (1976) por Alexandre Sérgio da Rocha
Rio de Janeiro 1991

Comentários

Mensagens mais visualizadas dos últimos 7 dias