Os 4 Princípios Cardeais do Vedanta




"A alma [jiva] é um círculo cuja circunferência não está em lugar algum (ilimitado), mas cujo centro está num corpo. A morte é apenas uma mudança de centro. Deus é um círculo cuja circunferência não existe em nenhum lugar, e cujo centro está em toda parte. Quando pudermos sair do limitado centro do corpo, realizaremos Deus, o nosso verdadeiro Eu. " - Swami Vivekananda


OS 4 PRINCÍPIOS CARDEAIS DO VEDANTA

Os Vedas são as principais escrituras do Hinduísmo. Os Vedas personificam as próprias experiências espirituais dos seus sábios e videntes da Verdade. Eles lidam com os princípios eternos da religião. O Vedanta, que significa o fim (o culminar) dos Vedas, refere-se essencialmente aos Upanishads, que formam a porção de Conhecimento (Gnana ou Gnose) contido nos Vedas: o Conhecimento da Realidade Última, Deus, ou o Conhecimento da nossa Verdadeira Natureza.

Os princípios do Vedanta são de caráter universal; eles podem ser praticados na nossa vida quotidiana e as suas verdades podem ser percebidas por todos, não importa qual seja o seu passado. Mas, para entendermos a ampla estrutura do Vedanta, primeiro precisamos estudar os seus quatro princípios cardeais.

1. A NÃO-DUALIDADE DA REALIDADE ÚLTIMA

O Vedanta denomina a Última Realidade, Brahman. Brahman é o Ser eterno, o Conhecimento eterno e a Felicidade eterna. É puro, infinito, omnipresente, sem forma e sem atributos.

A tríplice distinção entre o conhecedor, o conhecido e o conhecimento é comum a toda experiência empírica. Contudo, essa distinção não existe em Brahman, uma vez que nada existe fora d'Ele.

Assim, Brahman é descrito como sendo não-dual ou um-sem-um-segundo. Brahman é o Sujeito eterno, e portanto, é desconhecido e incognoscível pela mente e pelos sentidos (Brahman não é um objeto). Brahman é o Próprio Conhecimento. Brahman é incognoscível, mas podemo-nos unir a Ele.

O Brahman condicionado, é Brahman com forma ou atributos (Ishvara), e é adorado em diferentes religiões como o Deus Pessoal. De acordo com Swami Vivekananda, o Deus Pessoal é a mais elevada leitura feita pela mente humana sobre o Absoluto.

Sobre a natureza idêntica de Deus com forma, e de Deus sem forma, Sri Ramakrishna diz:

"Deus o Absoluto, e Deus, o pessoal, são um e o mesmo. A crença num implica a crença no outro. O fogo não pode ser concebido como separado do seu poder ardente; nem pode o poder ardente pode ser concebido como separado do fogo. Da mesma forma, os raios do sol não podem ser concebidos como ​​separados do sol, nem o sol pode ser concebido como separado dos seus raios. Você não pode pensar na brancura do leite separado do leite, nem o leite separado da sua brancura leitosa. Assim, Deus, o Absoluto, não pode ser considerado separado das ideias de Deus com atributos."

Sobre a necessidade das diferentes manifestações da mesma Realidade, Sri Ramakrishna observa:

"O Senhor manifesta-Se, com forma ou sem forma, exatamente de acordo com a necessidade do devoto. A visão manifesta é relativamente verdadeira, isto é, verdadeira em relação a diferentes homens colocados sob diferentes condições e ambientes. Só o Divino Tintureiro sabe em que cor se matizou. Em verdade, Ele não está limitado por nenhuma limitação quanto às Suas formas de manifestação, ou à Sua negação."

A Única Realidade que aparece como muitos pode ser comparada ao sol visto sob diferentes perspetivas, e através de diferentes vidros coloridos. Cada visão do sol é verdadeira, pois representa o mesmo sol. De acordo com o Rig-Veda, "A Verdade é uma só. Os sábios a chamam por vários nomes".

Sri Ramakrishna praticou disciplinas espirituais de diferentes religiões e percebeu que todas elas conduzem à mesma Realidade Última. Ele ensinou que todas as religiões são caminhos válidos para a realização de Deus. A Sua mensagem de "tantas fés, tantos caminhos" é um antídoto necessário a todas as discordâncias em nome da religião.

2. A DIVINDADE DA ALMA

Brahman, a Realidade Suprema, é um-sem-um-segundo do ponto de vista absoluto. No entanto, do ponto de vista relativo, Brahman aparece como o universo de nomes e formas, incluindo uma multidão de almas individuais, chamados Jivas. Como Jivas, estamos ligados ao nosso corpo e mente, e acreditamos que somos seres limitados. Livres deste apego, somos essencialmente o Atman, a dimensão central da nossa personalidade. O Atman é a Realidade imperecível por trás do corpo e da mente, e é a fonte do Conhecimento eterno, da Bem-aventurança eterna e do plenitude duradoura. 

Brahman e Atman não são diferentes: "Este Atman é Brahman" (Mandukya Upanishad, 2).

VIAGEM À PERFEIÇÃO

Maya, ou ilusão cósmica, mantém-nos ignorantes acerca da nossa Natureza Real, e nós consideramos o mundo como sendo a única realidade. Nós buscamos a realização duradoura no mundo, e assim, nos submetemos ao bem e ao mal, ao prazer e à dor, ao nascimento e à morte, e a todos os outros inevitáveis ​​pares de opostos que caracterizam o mundo. As nossas experiências deixam as suas impressões na nossa mente, chamados samskaras. Estas impressões moldam o nosso caráter e moldam a nossa vida.

O Vedanta assegura-nos que à medida que ganhemos experiência no mundo, chegará o momento em que perceberemos a impermanência das coisas do mundo e começaremos a procurar algo permanente e imutável. Então, aí começa a nossa busca espiritual. Isto deve acontecer com todos nós em algum momento ou outro, nesta vida ou numa vida futura. Tudo não acaba com a morte, porque depois da morte nós assumimos um novo corpo e a jornada continua. A nova encarnação é outra oportunidade para disciplinarmos a mente, evoluirmos moralmente e crescer em devoção a Deus. Este ciclo constante de nascimento-morte continua até que nos tornemos completamente livres do apego ao corpo e à mente, e percebamos a nossa Natureza Divina.

Swami Vivekananda diz:

"A alma [jiva] é um círculo cuja circunferência não está em lugar algum (ilimitado), mas cujo centro está em algum corpo. A morte é apenas uma mudança de centro. Deus é um círculo cuja circunferência não existe em nenhum lugar, e cujo centro está em toda parte. Quando pudermos sair do limitado centro do corpo, realizaremos Deus, o nosso verdadeiro Eu. "

COMO É QUE ISHVARA DIFERE DO JIVA?

Brahman associado com Maya é Ishvara, ou o Deus pessoal, e o Atman associado a Maya é Jiva. O que distingue Ishvara do Jiva? Em primeiro lugar, Ishvara tem Maya sob o seu controle, enquanto o Jiva está sob o controle de Maya. Em segundo lugar, Ishvara é responsável pela criação, sustentação e dissolução do universo, enquanto o Jiva se esquece da sua natureza real, e sofre prazer e dor no mundo. Em terceiro lugar, Ishvara move-se livremente na sua criação como uma aranha se move na sua teia, enquanto que o Jiva é aprisionado no mundo como um bicho-da-seda no seu casulo.

As diferenças entre Ishvara e nós persistem enquanto estivermos identificados com o nosso corpo e mente, e acreditarmos na realidade (absoluta) da multiplicidade dos nomes e formas. Realizando a nossa Natureza Divina, tornamo-nos um com Deus. Tal como acontece com um elefante de barro e um rato de barro: ambos são diferentes na forma, mas, essencialmente, eles são um, como barro.

Nas palavras de Sri Ramakrishna:

"Deus é o Ser infinito, enquanto o jiva é apenas um ser finito. Como é que pode o finito compreender o Infinito? Tal como um boneco feito de sal tentando entender a profundidade do oceano: ao fazê-lo, o boneco de sal dissolve-se no mar. Da mesma forma, o jiva, ao tentar medir Deus e conhecê-Lo, perde a sua separação e torna-se um com Ele."




3. A UNICIDADE DA EXISTÊNCIA

O que quer que exista é Um: a Realidade Última chamada Brahman. Mas, Brahman aparece como o universo de nomes e formas devido a Maya, o poder de velar e de projetar, inerente a Brahman. No crepúsculo, podemos confundir uma corda com uma cobra e sentirmos medo ao nos depararmos com essa "cobra". Mas, se acendermos uma lanterna sobre essa "cobra", veremos somente a corda. A cobra nunca apareceu ou desapareceu. Similarmente, na escuridão da ignorância da presença do Divino em nós, percebemos o universo no lugar de Brahman. À luz do autoconhecimento, assegura-nos o Vedanta, o universo "desaparecerá" e Brahman se revelará (como o Substrato de tudo).

De forma semelhante, o nosso corpo e a nossa mente são aparências no Atman, o nosso verdadeiro Ser espiritual, e a fonte da Felicidade eterna. No entanto, devido ao nosso apego ao corpo e à mente, procuramos uma satisfação duradoura no mundo exterior. Quando a sabedoria desperta em nós, entendemos que o mundo não nos pode trazer nem paz, nem realização.

Portanto, todos os seres e todas as coisas no universo são apenas uma única existência aparecendo como muitas. Essa verdade da unicidade da existência tem várias implicações práticas.

MUDANÇA DE ATITUDE PARA COM OS OUTROS

Quando olhamos para nós mesmos como Espírito, naturalmente encaramos os outros como o mesmo Espírito. Desistimos de julgar as pessoas por suas diferenças físicas ou mentais, e nos esforçamos por nos aperfeiçoar, de modo que perceberemos sempre a unicidade ao nosso redor. Uma sequência espontânea desta atitude é olharmos para todas as formas ao nosso redor como uma forma de adoração ao Divino presente nos outros. E o nosso amor pelos outros não vai ficar somente pelo nível humano, ele se estenderá a todos os seres vivos.

CRESCENDO EM ALTRUÍSMO

A prática da verdade da unicidade ajudará a reduzirmos o nosso egoísmo e a crescermos na direção do altruísmo. Depois de nos exortar a cultivarmos a fé em nós mesmos, Swami Vivekananda explica:

"Mas não é uma fé egoísta, porque o Vedanta é a doutrina da unicidade. Significa fé em todos, porque vocês são Tudo. O amor por si mesmo significa amor por todos - amor pelos animais, amor por tudo; porque vocês são Tudo."

Olhar para todos como sendo Espírito não nos impede de procurarmos as companhias sagradas em detrimento das más companhias. A divindade é o centro de todos, mas manifesta-se em graus diferentes, e em pessoas diferentes. Mas, enquanto buscamos as companhias sagradas, devemos tomar cuidado para não odiar as outras pessoas ou julgá-las como sendo más.

O AMOR UNIVERSAL

Amar e servir os outros como manifestações do Espírito promove em nós a equanimidade e o desapego. O amor universal defendido pelo Vedanta é baseado na verdade da unicidade da existência:

"Na verdade, não é por amor ao marido que o marido é amado, ele é amado por causa do Eu [que, em sua verdadeira natureza, é um com o Eu Supremo]. Em verdade, não é pelo bem da esposa que a esposa é amada, ela é amada por causa do Eu... Certamente, não é por causa do Todo que o Todo é amado, o Todo é amado por causa do Eu. Em verdade, é o Eu que deve ser realizado - deve ser ouvido, refletido e meditado." ( Brihadaranyaka Upanishad , 2.4.5)

O ditado "ama o teu próximo como a ti mesmo" faz muito sentido, uma vez que o nosso próximo é verdadeiramente nosso.


4. HARMONIA DAS RELIGIÕES

A harmonia das religiões é a sequência lógica dos três primeiros princípios cardeais da não-dualidade da Realidade Última, da divindade da alma e da unicidade da existência.

A filosofia, a mitologia e os rituais são três aspetos presentes em cada religião. Nas palavras de Swami Vivekananda:

"A filosofia... apresenta todo o escopo de cada religião, estabelecendo os seus princípios básicos, o seu objetivo e os meios para alcançá-lo. A segunda parte é a mitologia, que é a filosofia concretizada. Consiste em lendas relacionadas à vida de certos homens, ou de certos seres sobrenaturais, e assim por diante... A terceira parte é o ritual. Isto é ainda mais concreto ou (denso ou materializado), e é composto de cerimónias, de oferenda de flores e incenso e muitas outras coisas que atraem os sentidos."

As diferenças entre as religiões são inevitáveis ​​em relação a esses três aspetos. A harmonia ou universalidade só é possível quando procuramos realizar a Verdade espiritual por trás de todas as religiões. Já não estamos satisfeitos com os aspetos superficiais da religião e ansiamos por nos aproximar de Deus, que habita no nosso próprio coração. Nesta fase, nós apreciamos a linguagem da harmonia falada pelos místicos de todas as religiões. Eles se importam mais com o Kernel (a Verdade) do que com a casca (os três aspetos anteriores) da religião. Então, entendemos que todas as religiões levam-nos à mesma Verdade. O Swami Vivekananda ensina que a realização da divindade presente em nós resulta na Libertação e é o objetivo de toda a religião. "As doutrinas, dogmas, rituais, livros e templos são apenas detalhes secundários." Os detalhes secundários são úteis apenas na medida em que nos ajudam a manifestar a nossa divindade.

Enquanto os detalhes secundários da religião continuarem sendo a nossa principal preocupação, as diferenças com os outras religiões serão inevitáveis. Mas, quando aceitamos a ideia de que religião significa, a realização da Verdade, e somos sinceros sobre as disciplinas espirituais, as diferenças diminuem e começamos a manifestar mais e mais a nossa natureza divina oculta. Aproximamo-nos de Deus. Swami Vivekananda explica:

"Podem haver milhões de raios convergindo para o mesmo centro no sol. Quanto mais longe estiverem do centro, maior será a distância entre qualquer um. Mas à medida que todos encontram o centro, toda a diferença desaparece. Existe tal centro, e que é o objetivo absoluto da humanidade. É Deus. Nós somos os raios. As distâncias entre os raios são as limitações institucionais, através das quais só podemos captar uma visão limitada de Deus. Enquanto permanecermos neste plano, estamos limitados, e cada um de nós tem uma visão diferente da Realidade Absoluta. Como tal, todas as opiniões são verdadeiras, e nenhum de nós precisa brigar com o outro. A única solução está em nos aproximarmos do centro. Se tentarmos resolver as nossas diferenças argumentando ou brigando, descobriremos que podemos continuar argumentando ou brigando por centenas de anos sem chegarmos a nenhuma conclusão. A história prova isso. A única solução é seguirmos em frente e irmos sempre em direção ao centro. E quanto mais cedo fizermos isso, mais cedo as nossas diferenças desaparecerão."

De acordo com Sri Ramakrishna: 

"Todas as religiões são verdadeiras. O mais importante é chegarmos ao telhado. Você pode alcançá-lo através de escadas de pedra, através de escadas de madeira, através de degraus de bambu, ou através de uma corda. Você até pode subir por um poste de bambu... O mais importante é ter o anseio por Deus. É suficiente amá-Lo e sentir-se atraído por Ele... Todos os filhos são iguais para o pai. Da mesma forma, os devotos invocam somente a Deus, embora, façam-no por nomes diferentes. Eles chamam apenas por uma Pessoa. Deus é um, mas os Seus nomes são muitos."

 Swami Yuktatmananda



Fontes:
Swami Yuktatmananda
1. https://www.ramakrishna.org/activities/message/message23.htm
2. https://www.ramakrishna.org/activities/message/message24.htm
3. https://www.ramakrishna.org/activities/message/message25.htm
4. https://www.ramakrishna.org/activities/message/message26.htm
tradução livre

Comentários

Mensagens mais visualizadas dos últimos 7 dias