O Círculo Está Completo





"O Quarto estado da Consciência - Turiya - não é um estado, é a Realidade de quem nós somos." - Swami Shyam

O CÍRCULO ESTÁ COMPLETO


Existem três estados comuns de consciência. O primeiro é o estado de vigília (jagrut), o segundo é o estado de sonho (svabha), e o terceiro é o estado de sono profundo sem sonhos (sushupti).

Normalmente, o homem vive nesses três estados: acordado, sonhando ou dormindo profundamente. Esta é a roda em que o homem se move. E, devido a esses três estados mentais, muitas coisas surgiram na consciência, na cultura e na civilização humana.

O primeiro tipo de consciência, o despertar (do estado de vigília), cria a sua própria cultura, a sua própria civilização; o Ocidente representa esse estado. O segundo tipo de cultura foi criado pelo segundo tipo de consciência: o sonho; e o Oriente representa esse estado. É por isso que você acha muito difícil se comunicar; a mente ocidental acha quase impossível se comunicar com a mente oriental. Não é apenas uma questão de linguagem - a linguagem você pode entender - a questão fundamental, é uma questão de orientação.

A consciência desperta é objetiva: pensa em termos de objeto, de realidade exterior; é um tipo de concentração. A mente ocidental desenvolveu poderes de concentração, daí o nascimento da ciência. A partir dos poderes de concentração, a ciência nasce. O Oriente não pode dar origem à ciência, e a razão é que o Oriente nunca prestou muita atenção ao primeiro tipo de consciência.

O Oriente pensa em termos de sonhos. O Oriente pensa em termos do interior. O Oriente pensa em termos do subjetivo. O Oriente pensa com os olhos fechados e o Ocidente pensa com os olhos abertos.

O Ocidente concentra-se, e a mente oriental medita, é por isso que no Oriente você encontrará inúmeros visionários, poetas - pessoas que experimentaram grandes revelações interiores. Mas eles não podem provar isso, porque as suas experiências permanecem individuais, privadas. A ênfase ocidental está naquilo que é objetivo, no público, nas massas: quando você está acordado, o que você vê, os outros também podem ver. Você está me vendo aqui, todo mundo pode me ver - quem tem olhos pode me ver - não há necessidade de nenhuma prova. O sol nasce e você sabe: a prova já existe na própria experiência.

E todo mundo está experimentando isso - pode haver um consenso coletivo sobre isso. Mas quando eu digo que vi o sol nascer à noite, já não é mais uma experiência coletiva, não é mais uma experiência objetiva, torna-se uma experiência subjetiva.

No Oriente você encontrará pessoas que experimentaram a kundalini crescendo nelas, uma grande luz explodindo, como se milhares e milhares de sóis subissem de repente no horizonte; você encontrará pessoas que viram lótus florescerem dentro delas - e para a mente ocidental, tudo isso parece absurdo.

A mente ocidental desenvolveu a tecnologia, a ciência - a objetividade. Vive no primeiro estado, o estado de vigília, e o fenómeno visionário é assim, rejeitado. No Ocidente, o fenómeno visionário é considerado um fenómeno marginal, ele existe na periferia da civilização. Ele é no máximo, tolerado; ele é inofensivo, ele pode ser tolerado. Mas ele não tem raízes na cultura ocidental como um todo, ele não é a corrente prioritária ou a corrente principal. No Oriente, o cientista vive da mesma maneira - na margem, ele não é a corrente principal. Ele pode ser tolerado, ele pode ser usado, mas o respeito vai sempre para o visionário, para o sonhador, para o poeta que sonha os grandes sonhos.

Estes são os dois estados comuns; o terceiro estado acontece com ambos (Ocidente e Oriente), mas você não pode agarrá-lo, a mente se dissolve nele. No sushupti, no estado de sono profundo sem sonhos, você desaparece como um ego, e desaparece tão completamente, que você nem consegue se lembrar pela manhã do que aconteceu. Você pode se lembrar dos seus sonhos, mas você não consegue se lembrar do seu sono sem sonhos. No máximo, ele pode ser lembrado pelas lacunas. Você pode dizer "eu dormi tão profundamente que nem houve sonhos". Mas isso é tal como um trabalho de adivinhação, não existe a experiência direta de Sushupti.

Nenhuma cultura evoluiu a partir do estado de sono profundo, porque não há possibilidade de agarrá-la diretamente. Mas este é o estado mental mais profundo. É a partir de Sushupti, o estado de sono sem sonhos, que você se rejuvenesce todos os dias. Você vai até à fonte, você se move na direção da fonte, você está novamente em contacto com a consciência primitiviva, você está novamente em contato com o seu terrritório. Você não é mais humano, você não é mais hindu, não é mais cristão, você não é mais um homem ou uma mulher, você não é mais oriental, ocidental; tudo desaparece - todas as distinções desaparecem. Você é, mas não há qualquer identidade, e é por isso que a partir no sono sem sonhos uma grande paz é sentida.

Se você entrar em meditação profunda, você chegará ao terceiro estado, em que você também pode tornar-se consciente do sono profundo sem sonhos. E, muitos pararam nesse estado, porque se é tão feliz, muitas religiões pararam nesse estado, elas não vão além disso.

Também existe um quarto estado, e a menos que você alcance esse quarto - e que se continue lembrando que o terceiro é muito sedutor, que o terceiro é muito bonito, muito feliz - você ainda não chegou em casa. O quarto é a casa; os místicos orientais chamam esse estado de Turiya. Turiya simplesmente significa, o Quarto.

O estado de vigília é objetivo, exterior, é um tipo de concentração. O sonho está entre o exterior e o interior, é um elo entre o despertar e o sono profundo. E o sono profundo é o interior. Então, qual é o Quarto, Turiya ? É ambos, e nenhum dos dois (interior e exterior). Turiya, é tanto interior como exterior, e porque é ambos, é por isso que não é nenhum dos dois. Ele transcende ambos, é não-dual, é total. Nele, nada é exterior, nada é interior. Os objetos desaparecem, e simultaneamente, o sujeito também; não existe mais experiênciado nem experienciador (como estando separados). Este quarto estado também é chamado Samadhi, Satori. E, a beleza do Quarto é que você pode viver no mundo e ainda assim não ser do mundo.

O Zen acredita no Quarto. Aqueles que acreditam no terceiro têm que deixar o mundo, eles têm que ir para as cavernas dos Himalaias. Somente assim, é que se torna possível que eles possam cair num sono profundo e sem sonhos. Estão caindo num belo coma. O valor espiritual deste estado não é nenhum (no sentido mais elevado da espiritualidade). Embora, não haja nesse estado nenhuma miséria ou ansiedade, porque a mente é totalmente posta de lado, no entanto, é um estado de coma, um estado escapista. E, nesse estado, o homem ainda não sabe qual é a verdade. Ele escolheu uma coisa: escapar.

A mente ocidental move-se cada vez mais em direção ao mundo, em direção à atividade, e a mente oriental afasta-se da atividade e do mundo (como sendo objetivo).

Estes dois tipos de pessoas reuniram-se perto de mim. Quando a mente ocidental vem até mim, ela sempre pergunta como relacionar-se com as pessoas - essa é a sua pergunta básica - como ser mais amoroso, cuidadoso, como se aprofundar nos relacionamentos. Nenhum indiano, nenhum oriental, jamais pergunta-me isso - essa não é a pergunta dele. A sua pergunta, é como sair dos relacionamentos, como esquecer toda essa miséria - nascimento, morte e reencarnação, ou seja, a roda inteira - como parar, como pular fora disso. Você mesmo pode assistir a isso, é muito visível. A mente ocidental é clara, lógica, racional, matemática, alerta. A mente oriental está sonhando, e de acordo com os padrões ocidentais, ela é péssima, desleixada, bagunçada, porque num sonho você não pode ser muito claro, objetivo, senão o sonho desaparecerá. Já para a mente oriental, a mente ocidental é demasiado mundana, calculista, astuta, esperta.

O terceiro tipo de mente, aconteceu no Oriente. No Ocidente também aconteceu, mas muito raramente. No Ocidente, também existiram pessoas que renunciaram ao mundo, e se mudaram para mosteiros - tal como no Oriente. Aquele que se interessa pelo sono profundo sem sonhos é recompensado, sem dúvida nenhuma, porque existe um grande prazer contido nesse estado. Esse estado é muito tranquilo, imperturbável, mas também é um tipo de morte, e não de vida. E, teme-se sempre que se possa ser perturbado - qualquer pequena coisa pode perturbá-lo - um pequeno pensamento pode-se mover e tudo estará perdido. Um pequeno sonho é suficiente para destruí-lo.

O povo Zen trabalhou para o quarto. O quarto significa: viva no mundo como uma folha de lótus vive na água, esteja desperto, mas permaneça centrado. Portanto, tudo o que é preciso ser feito é: estar no ciclone, mas permanecer no centro dele, ou seja, sem ser afetado por ele. Naturalmente, o homem Zen cria uma vida muito viva e pulsante. O homem Zen cria a ação através da inação e a inação através da ação. As polaridades encontram-se e fundem-se, e onde quer que as polaridades se encontrem e se fundam, existe Deus.

O Quarto é o estado primordial, o estado muito básico e fundamental do qual os três estrados surgiram. Estes três são os ramos, e o quarto, Turiya, é a raiz.

Os sutras de hoje só serão capazes de ser entendidos se você entender esta abordagem, a abordagem através do quarto, através da totalidade. Não é preciso escapar. É preciso entrar num mundo mais profundo, mas não ficar perdido nele. É preciso permanecer consciente, é preciso permanecer alerta e é preciso mergulhar profundamente no mundo. O encontro dos extremos trará a colheita mais rica da vida.

Aconteceu...

Vivekananda uma vez disse ao seu Mestre, Ramakrishna, que a sua maior aspiração espiritual era permanecer imerso, durante dias a fio, em Nirvikalpa Samadhi, o desaparecimento de todas as formas na Divindade Absoluta. Ele ansiava sinceramente por aquilo que ele, então, considerava a derradeira experiência espiritual. Mas, Ramakrishna, que uma vez havia passado seis meses ininterruptos em Nirvikalpa Samadhi, e com o seu corpo sendo mantido vivo apenas por alimentação forçada, disse-lhe: "Você é um tolo. Existe uma realização maior do entrar em Nirvikalpa Samadhi." Vivekananda estava naquele tempo dedicado à terceira dimensão da contemplação, e Ramakrishna estava tentando conduzi-lo em direção à quarta dimensão, ou Turiya .

O Nirvikalpa Samadhi é um estado de sono profundo. Tudo desapareceu, tudo está ausente. É um estado negativo.

A taça está vazia, totalmente vazia. Ela está pronta para ser preenchida, mas ainda não foi preenchida. A taça vazia não é o objetivo - não pode ser o objetivo; o esvaziamento é apenas o método para que um dia a taça possa ser preenchida com a presença de Deus. Mas, Deus existe como o mundo - não existe outro Deus. Deus apareceu como o mundo, Deus não está em outro lugar. O mundo é Deus manifesto. É preciso esvaziar-se para se preparar, mas é preciso permanecer em contato íntimo com o mundo, do contrário, a pessoa fica desconectada.

Esta também é a minha abordagem para o Sannyas. É por isso que eu não digo para você deixar o mundo, eu digo viver no mundo, aceitar o desafio dele, porque por trás dele, por trás das imagens dele, está o próprio Deus. Se você aceitar o desafio, e viver totalmente o desafio, descobrirá que tudo aquilo que é necessário está aqui. Tem que ser descoberto. Torne-se cada vez mais alerta e mais consciente.

Portanto, não se envolva demais com os objetos - não se torne um ocidental, e não entre demasiado nos sonhos - não se torne um oriental. Não fique obcecado demais com a kundalini e com experiências como essas, porque essas experiências ainda são todas coisas da mente. Permaneça alerta enquanto se move entre as pessoas, enquanto se move no mundo. Permaneça alerta enquanto se move nos sonhos. E, também existem belos sonhos, incluíndo sonhos espirituais - mas permaneçam alertas, não se distraiam completamente com eles. E quando você é capaz de estar alerta no mundo objetivo, e em seguida, também alerta no mundo dos sonhos, lentamente, você também se tornará alerta no estado de sono profundo sem sonhos. E, então, você está à porta do Quarto, Turiya. E, quando você entra no Quarto, você está de regresso ao mundo. O círculo está completo. Mas, agora você é o centro do ciclone.

Osho

Fonte do texto:
Osho
From The Sun Rises in the Evening, Chapter Seven
https://o-meditation.com/tag/turiya/
tradução livre

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