Magia




"De acordo com a visão Hindu mais significativa, o Atman (nosso íntimo Ser), quando associado com um corpo físico, identifica-se com o corpo sob a influência de Maya. Maya é a ilusão cósmica ou a ignorância original." - Bansi Pandit (The Hindu Mind: Fundamentals of Hindu Religion and Philosophy for All Ages. p.119. )

MAGIA

Maya é um dos pilares sobre os quais o Vedanta se sustenta. Maya é uma das doutrinas básicas do Advaita Vedanta. Maya não pode ser definida, ela só pode ser descrita pelas situações por ela criadas.

Nós temos que inferir Maya a partir do seu funcionamento. Maya é um conceito, e se não for demonstrado corretamente, o conceito pode ser mal interpretado. De acordo com o Advaita vedanta, Brahman é a única realidade. Brahman aparece para nós como o Universo de constituído de vários nomes e formas devido a Maya.

O Vedanta declara que tudo o que existe no mundo, incluindo a ciência é a manifestação de Brahman, a consciência suprema. Conhecendo o supremo, tudo é conhecido. Tudo aquilo que está incluído neste universo é insenciente (A senciência é a capacidade dos seres de sentirem sensações e sentimentos de forma consciente. Em outras palavras: é a capacidade de ter perceções conscientes do que lhe acontece e do que o rodeia. Senciência, portanto, é a capacidade de sentir.), e obtém o seu poder operativo a partir da consciência suprema. A energia, que é o poder de trabalho do universo, é insenciente. Ela obtém o seu poder a partir da sua fonte, a suprema consciência. É Maya que faz a energia evoluir a partir da consciência suprema. Basicamente, a nossa mente também é insenciente.

Ela opera através do poder da sua fonte, o Atman (No Advaita Vedanta o Atman que é o nosso íntimo Ser equivale a Brahman). O Atman é universal, e é somente a mente insenciente que difere dessa universalidade. Cada mente insenciente quer sobressair em relação a qualquer outra mente insenciente. A ilusão da mente ao perceber diferenças sem conhecer a verdade é chamada Maya. Esta é uma das formas pelas quais Maya funciona.

Somos atraídos por esse poder chamado Maya. Ela prende-nos devido à sua atração e somos incapazes de libertar-nos dessa escravidão. Quando conhecemos a verdade existente por trás do poder da escravidão, libertamo-nos da escravidão de Maya. Muitas vezes, sofremos muito por causa dessa servidão, mas ainda assim nos apegamos a essa escravidão. Nós somos incapazes de abandonar essa escravidão devido a várias razões. Muitas vezes gostamos e aceitamos o sofrimento. Uma metáfora adequada para este conceito é a nossa vida familiar. Muitas pessoas estão cientes das responsabilidades e do cativeiro da vida familiar; ainda assim, entregam-se a esse cativeiro. Incapazes de saírem do cativeiro, eles aceitam o sofrimento dessa escravidão. É a atração de Maya que leva-nos a tomar tais decisões.

Uma vez o rei Yudhishtra foi questionado por Yama Deva, "Qual é a coisa mais maravilhosa existente ao cimo da terra?" O rei respondeu: "Todos os dias as pessoas estão morrendo ao nosso redor, e ainda assim os homens pensam que nunca morrerão". Isto é Maya. Maya ilude a nossa mente e afasta-nos da realidade. Pessoas que já viveram o suficiente e pessoas que lutaram durante muito tempo entendem Maya. Se houver felicidade, então, definitivamente haverá tristeza. Não há sucesso sem um fracasso. Nunca haverá um mundo perfeitamente bom ou um mundo mau, porque Maya é uma contradição. O fenómeno que parece ser bom neste momento pode parecer mau amanhã e vice-versa. O Bem e o mal são a manifestação do mesmo poder. E tudo isso acontece por causa de Maya.

Nós conseguimos libertarmo-nos de Maya, libertando-nos a nós próprios da miséria, que é obra de Maya. Maya é o mais difícil e complexo fenómeno para ser entendido. De uma forma ou de outra, estamos todos vivendo em Maya. O poder de Maya é tal que nos faz pensar que a própria Maya é vida e religião. O seu poder não nos permite buscar a verdade. As escrituras e as outras práticas espirituais ajudam-nos a conhecer a natureza de Maya e isso nos conduzirá à libertação. Sri Adi Shankaracharya no Manisha Panchakam salienta que: "Todo este mundo é uma projeção da consciência pura. Através da ignorância (Maya), tudo isto foi projetado por Mim (versículo 2a)." Este universo brotou de Maya.

Maya não tem nenhuma existência independente da consciência suprema. Maya não é real, é apenas um poder de ilusão da consciência suprema. Assim como a nossa sombra que está sempre presente em nós, Maya existe perenemente no Ser Supremo. Este mundo que é a criação de Maya não tem uma existência absoluta. Maya, juntamente com todas as suas criações, torna-se imanifesta durante o Pralaya (dissolução). Maya não tem nenhuma existência imutável ou infinita.

As criações de Maya são multifacetadas. Maya cria luxo, riqueza e poder. A mente que é a projeção de Maya é limitada. Não pode ir além dos limites do tempo, espaço e da causalidade. Sentimos que estamos presos e enredados em Maya. Os seres humanos têm um poder ilimitado, mas imaginam que são limitados. Uma pessoa gosta das várias criações de Maya, e assim, imagina-se limitado. Maya não permite que a pessoa perceba os limites de Maya, ou o seu próprio poder ilimitado. Bhagavan Krishna em Sri Baghavad Gita diz: "Na verdade, esta minha ilusão divina, composta das três qualidades (gunas) da natureza é difícil de atravessar, mas aqueles que se refugiam em Mim, atravessam esta ilusão" (7, 14).

Todo o conhecimento humano é uma generalização desta mesma Maya, tentando desvendá-la como ela nos aparece. Tudo aquilo que tem um nome e uma forma surge como uma ideia da mente e está dentro de Maya.

Até mesmo o nosso conceito de Deus é derivado de Maya. Do ponto de vista do Advaita Vedanta, a ideia de Deus com nome e forma é uma mera criação humana. Deus é uma ideia individual, e é essa a razão pela qual o Deus pessoal difere de acordo com a mentalidade preponderante numa época ou numa determinada região. A verdade está presente por trás da criação, e é sempre pura, imutável e imortal. A manifestação está sempre mudando. Quando nós evoluímos, a verdade acaba por ser revelada. Maya enfraquece o nosso poder de controle e discriminação.

O Vivekachudamani (A joia suprema do discernimento) de Adi Shankaracharya descreve Maya como: "É indiferenciada e indivisível. Ninguém pode definir o que realmente ela é, mas ela tem o poder de Deus. Ela é sem início, e no entanto, é chamada de ignorância. Maya tem três qualidades; sattva, rajas e tamas. Não pode ser entendida exceto pelas suas ações, e somente pelos iluminados. Ela criou todo este universo - produziu tudo isso. Isto é Maya" (verso 108). Maya é irreal porque é mutável, e não é irreal porque existe.

Maya tem dois poderes - O poder de ocultação (Avarana shakti) e o poder de projeção (Vikshepa shakti). Maya com esses dois poderes esconde a realidade e projeta a irrealidade. O poder da projeção cria o mundo. "As espuma, as bolhas e as ondas no oceano nada mais são do que a água (o substrato [do oceano]) do oceano numa outra forma. A espuma, as bolhas e as ondas ocultam o oceano e projetam-no numa outra forma como espuma, bolhas e ondas. Da mesma forma, o mundo é uma manifestação de Brahman.

Brahman é uma consciência ilimitada e imutável. "Como a espuma, as bolhas e as ondas no oceano, os nomes e formas se manifestam "(Drig Drishya viveka, 14). A espuma, as bolhas e as ondas não são a realidade, mas existem. Elas mudam constantemente. Dão uma aparência diferente ao oceano. Mas, a espuma, as bolhas e as ondas têm a mesma natureza do oceano. Da mesma forma, o mundo existe, mas muda constantemente. O mundo dá uma aparência diferente à sua realidade, que é  Brahman. O mundo tem a natureza de Brahman (o substrato). É somente Brahman numa outra forma.

Uma mente indulgente existindo em Maya pensa que este mundo está apartado da sua realidade e da sua fonte, Brahman. É o poder projetivo de Maya que projeta Brahman como o mundo. Maya oculta a verdade de Brahman para fazê-Lo aparecer numa outra forma, como o mundo. Maya projeta a mente para esse propósito e ilude a mente e fá-la pensar que o mundo é a realidade. A mente se esquece de Brahman. Uma mente desapegada de Maya entenderá a Realidade.


Catherine Zeta-Jones (na imagem acima) 
Guy Pearce (interpretando Harry Houdini)
no filme "Atos que desafiam a morte" 


Sri Ramana Maharshi explica Maya com outra metáfora. Ele explica que, quando tomamos o fogo como o substrato, as faíscas voam dele. As faíscas são a modificação do fogo. As faíscas não são vistas no próprio fogo, mas saem dele. A partir dessa metáfora inferimos que um poder é inerente no fogo que produz as faíscas.

"Assim, um poder que jaz latente em Brahman produz a ilusão do mundo (Jagat). O substrato desse poder é Brahman e Jagat (mundo) é o seu efeito. Este poder não pode ser Brahman nem Jagat, mas deve ser diferente de ambos. Não pode ser definido. No entanto, ele existe, mas permanece inescrutável. Portanto, a natureza de Maya é indescritível. Esse poder chamado Maya oculta a verdade e projeta o seu efeito jagat."(Advaita Bodha Deepika [Nota: Que livro tão precioso]).

A individualidade é sobreposta à consciência testemunhal. Quando o poder do véu é destruído pelo conhecimento, a sobreposição torna-se aparente. A modificação pertence a Maya e não à consciência subjacente (o substrato). A famosa metáfora da corda e da cobra ilumina esse conceito. Sri Adi Shankaracharya explica que, uma corda estava enrolada no chão sob pouca luz. Cada pessoa que passava por ela percebia uma cobra e não a corda, e ficavam com receio dela. Mas sob a luz diurna, eles finalmente entenderam que a cobra era simplesmente uma corda. O equívoco e o medo desapareceram com a devida compreensão.

Nessa metáfora, a verdade é que uma corda foi ocultada e a ilusão de uma cobra foi projetada. Na penumbra, a corda parecia ser uma cobra. Sob a luz diurna, a realidade de que era somente uma corda foi revelada. A verdade é que a corda está oculta e a imagem da cobra foi sobreposta na corda pelo poder de projeção de Maya.

Da mesma forma, a aparência do mundo é verdadeira, mas quando Brahman é revelado pela investigação e pela compreensão adequadas, o mundo perde toda a sua importância e Maya já não vinculará a mente (o ego). No processo de investigação, Maya torna-se cada vez mais transparente e se transforma em conhecimento. Maya floresce na ignorância e desaparece com o surgimento da investigação.

É uma decisão do indivíduo ficar em Maya ou sair de Maya. O bem e o mal não são duas coisas diferentes; eles diferem em graus. Da mesma forma, o conhecimento e a ignorância são o resultado da mesma inteligência suprema. Ambos, a ignorância e o conhecimento, estão presentes num indivíduo. Eles diferem em graus. Devemos aumentar o nosso conhecimento para que a ignorância desapareça.

O Advaita Vedanta ensina a irmos além dos limites. Quando a nossa mentalidade se expande, realizamos Maya e percebemos que o seu substrato sempre foi a consciência suprema. O Vedanta faz-nos compreender que a liberdade é a nossa natureza e que sempre foi uma ilusão pensarmos que Maya nos prendeu. Sri Vidhura diz: "A causa do mundo está em Maya, o poder misterioso do Senhor. À parte do Senhor, Maya não qualquer existência independente, e à parte d'Ele, não pode ser entendida de forma alguma ”(Srimad Bhagavata, 3, 7, 16). Uma pessoa realizada ou iluminada é a mais poderosa deste universo.

Muitos desconhecem a diferença entre Brahman e Maya. Brahman não é afetado pelas modificações de Maya. Quando a lua é refletida na água, às vezes a lua oscila por causa das distorções na água. O defeito não é da a lua. Depende do meio que reflete a lua (água). Enquanto alguém vê a dualidade, está habitando no reino da ignorância. O Jnana (Conhecimento) remove a ilusão provocada por Maya.

No Srimad Baghavata, Antariksha aponta que a criação, preservação e dissolução acontecem por causa de Maya. Maya manifesta-se na criação e desaparece na dissolução (Pralaya). Maya aparece e se retira por si própria. Maya é diferente do substrato real e também do fenómeno irreal. Uma mente estabelecida em Brahman está livre das garras de Maya.


Atos Que Desafiam a Morte (2007)
(Trailer Legendado)




Fonte do texto:
Concept Of Maya
http://advaitamandscience.org/concept-of-maya/
(tradução livre)

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