Advaita - Arthur Osborne




"Um homem vê uma corda enrolada no escuro, toma-a por uma serpente e fica, naturalmente, assustado. Quando o dia rompe ele constata tratar-se apenas de uma corda e verifica que o seu medo não tinha razão de ser. A Realidade do Ser é a corda, a ilusão da serpente que o amedrontou é o mundo objetivo."

ADVAITA

Sri Bhagavan Ramana Maharshi não era um filósofo e não havia qualquer desenvolvimento em seus ensinamentos. Suas primeiras exposições, "Autoinvestigação" e "Quem sou eu?" não diferem em teoria doutrinária daquilo que ele transmitiu verbalmente em seus derradeiros anos.

Quando, ainda rapaz de dezasseis anos, ele percebeu sua identidade com o Absoluto, com Aquilo que é Ser Puro subjacente a tudo quanto há, tratou-se de conhecimento informal e intuitivo cujas implicações apenas mais tarde foram reconhecidas.

- Eu não sabia ainda que existia uma Essência ou Ser Impessoal Real subjacente a tudo e que Deus e eu éramos idênticos a ela. mais tarde, em Tiruvannamalai, ao ouvir a leitura do Ribbhu Gita e outros livros sagrados, aprendi tudo isto e percebi que analisavam e davam nome aquilo que eu senti intuitivamente, sem análise nem nome.

Não era uma questão de opinião mas de Verdade reconhecida; vale dizer que ele não ficou convencido por aquilo que leu mas apenas percebeu a conformidade com aquilo que já sabia intuitivamente.

Todos os modos e níveis de doutrinas estão compreendidos no Hinduísmo, todos eles legítimos e correspondendo aos vários modos de abordagem requeridos por pessoas de vários temperamentos e desenvolvimento. A abordagem através do amor e adoração de um Deus Pessoal existe, tal como existe nas religiões ocidentais ou semíticas. Da mesma forma existe a abordagem através do serviço, vendo Deus manifesto em todas as Suas criaturas e adorando-O servindo a elas. No entanto, o reconhecimento do Ser Puro como o Si de cada um e o Si do universo e de todos os seres é a Verdade suprema e última, transcendendo todos os demais níveis de doutrina sem negar-lhes a verdade em seu próprio plano. Esta é a doutrina do Advaita*, Não-Dualidade, ensinada pelos antigos Rishis e preeminentemente por Shankaracharya. É a mais simples como a mais profunda, sendo a verdade última ulterior a todas as complexidades da cosmologia.

Não dualidade significa que existe apenas o Absoluto. Todo o cosmos existe dentro do Absoluto, não tendo realidade intrínseca mas manifestando apenas o Absoluto que, no entanto, permanece eternamente não modificado e não manifesto, assim como as pessoas e acontecimentos de um sonho de um homem existem dentro dele e não têm realidade fora dele, embora nada lhe acrescentem através da sua criação e nada lhe tirem através do seu desaparecimento. Isto significa que o Absoluto é o Si do cosmos e de todos os seres. Assim sendo, ao procurar-se o Si, através da constante investigação "Quem sou eu?", torna-se possível ao homem compreender sua identidade com o Ser Universal. Era o mais puro Advaita aquilo que Bhagavan ensinava.

Alguns podem temer que a doutrina do Si único os prive de um Deus Pessoal a Quem rezam, mas não há necessidade de tais temores, pois enquanto perdurar a realidade do ego que reza durará a realidade de Deus a Quem se reza; Enquanto o homem aceitar seu ego como uma realidade, o mundo externo e Deus também serão realidades para ele. Este é o nível de uma religião dualista e um Deus pessoal. É verdadeiro mas não a Verdade última. - Todas as religiões postulam os três fundamentais; indivíduos Deus e o mundo. Apenas enquanto o ego perdura é que se diz ou "o Uno manifesta-se como os três" ou "Os três são realmente três". O estado supremo é ser inerente ao Si, o ego extinto. (Quarenta Versos sobre a Realidade, verso 2.)

Algumas pessoas rebelam-se também contra a conceção mundo como irreal, mesmo ao admitir a realidade do Espírito, mas isso se deve a que não tenham compreendido em que sentido é irreal. Sri Bhagavan amiúde o explicou e, mais do que em qualquer parte, fê-lo com concisão na seguinte declaração anotada por S. S. Cohen:

"Shankaracharya tem sido criticado por sua filosofia de Maya (ilusão) sem que se tenha compreendido o que quer dizer. Fez ele três assertivas: que Brahman é real, que o universo é irreal e que Brahman é o universo. Ele não se deteve à segunda assertiva. A terceira explica as duas primeiras; significa que quando o universo é percebido à parte de Brahman tal perceção é falsa e ilusória. Em suma, os fenómenos são reais quando experimentados como o Si e ilusórios quando vistos à parte do Si."**

Os ensinamentos de Sri Bhagavan eram eminentemente práticos. Ele só expunha uma teoria quando respondendo às necessidades específicas e perguntas dos devotos e como base necessária da prática.

Quando lembrado certa vez (no Evangelho de Maharshi) de que Buda negara-se a responder a perguntas acerca de Deus, replicou aprobativamente:

- De facto, Buda preocupava-se mais com orientar o pesquisador no sentido de compreender a Bem-aventurança aqui e ali do que com discussões académicas acerca de Deus e assim por diante. 

Assim também ele próprio recusava-se com frequência a satisfazer determinadas curiosidades, fazendo, ao invés, o pesquisador voltar-se para a necessidade do sadhana ou esforço.

Indagado a respeito do estado póstumo do homem, Bhagavan poderia responder:

- Por que deseja saber o que será depois da morte, antes de saber o que é agora? Descubra primeiro aquilo que é.

Que seus ensinamentos não eram "filosofia no sentido usual do termo isso se pode ver no facto de que Bhagavan não instruía seus discípulos a pensar na solução dos problemas mas a eliminar o pensamento. Isto pode dar a ideia de que o processo seja estupefaciente, mas, conforme explicou Sri Bhagavan a Paul Brunton, o contrário é que é verdadeiro. Um homem é idêntico ao Si, que é Ser Puro, pura Consciência, pura Bem-aventurança, mas a mente cria a ilusão de uma individualidade em separado.

Durante o sono profundo a mente se aquieta e o homem se torna uno com o Si, mas de uma forma inconsciente. No Samadhi ele se torna uno com o Si de uma forma plenamente consciente, não no escuro mas à luz plena. Se a interferência da mente é suprimida, a consciência do Si pode, pela Graça do Guru, despertar no coração, preparando destarte o caminho da abençoada Identidade, de um estado que não é torpor ou ignorância mas fulgor. Sabedoria, puro ser.

Muitos poderão repugnar a ideia da destruição da mente ou (o que dá na mesma) da individualidade separada, achando-a aterrorizante, e, contudo, acontece-nos diariamente durante o sono e, longe de temer adormecermos, consideramos o sono como uma coisa desejável e agradável, ainda que no sono a mente só seja aquietada de uma forma ignorante. Em arrebatamento ou êxtase, por outro lado, a mente está momentaneamente absorvida e aquietada numa experiência fragmentária da Bem-aventurança que é a sua verdadeira natureza. As próprias palavras indicam a transcendência da individualidade, uma vez que "arrebatamento" significa etimologicamente ser transportado e êxtase estar fora de si. A expressão "é abafante" significa, na realidade, "é de abafar o pensamento", pois a fonte do pensamento e da respiração é a mesma, como Sri Bhagavan explicou ao falar do controle da respiração. A verdade é que a individualidade não se perde mas se amplia ao infinito.

A eliminação dos pensamentos é como o propósito de concentrar na consciência mais profunda que há por detrás e além do pensamento. Longe de enfraquecer a mente, ela a fortalece, pois ensina a concentração. Sri Bhagavan com frequência o confirmou. A mente débil e sem controle  é constantemente distraída por pensamentos irrelevantes e perturbada por preocupações inúteis; a mente forte o suficiente para concentrar-se, seja no que for, pode voltar sua concentração no sentido da eliminação dos pensamentos na busca de Si, e inversamente, o esforço para eliminar os pensamentos à maneira prescrita dá força e poder de concentração.

Quando a busca é consumada as faculdades da mente não se perdem: Sri Bhagavan ilustrou-o comparando a mente do Gnani à lua no céu do meio-dia: é iluminada mas sua luz não é necessária no brilho maior do sol que a ilumina.

Arthur Osborne


Notas:

* Advaita: Não dualidade, a doutrina de que nada existe em separado do Espírito, mas tudo é uma forma assumida pelo Espírito. A principal divisão doutrinária entre os hindus é entre as escolas do Advaita e Dvaita (Dualidade). Os Dvaitas ou Dualistas adoram um Deus pessoal distinto do adorador. Os Advaitas, reconhecendo embora a verdade desta conceção, em seu próprio plano, vão mais além até o conceito de Absoluto, no qual um homem é reabsorvido Naquilo que é a sua Fonte e Si real, sobrevivendo na pura Bem-aventurança e ilimitada Consciência de Ser.

** O universo existe no interior do Ser. Por isso, o universo é real, mas apenas, porque obtém a sua realidade do Ser. Contudo, nós denominamos o universo de irreal, somente, para indicar as mutações das aparências e das formas transitórias, ao passo que, denominamos o Ser de real, porque é imutável.(Ramana Maharshi)



"Nós vemos apenas o argumento, e não vemos o papel em que ele está escrito. O papel está lá, esteja o argumento nele escrito ou não. Para aqueles que veem (apenas) o argumento como real, você tem que dizer-lhes que o argumento é irreal - uma ilusão - já que repousa sobre o papel, e eles ainda não o perceberam. O sábio olha para o papel e para o argumento como um só." - Ramana Maharshi


Ramana Maharshi
(1879-1950)

Advaita
Arthur Osborne
Ramana Maharshi e o Caminho do Autoconhecimento

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