A Essência do Yoga Vasistha [3/3]




"Do mesmo modo, que o céu parece ser manchado pela poeira, pela fumaça, ou pelas nuvens, assim também, o puro Ser, em contacto com as qualidades de Maya parece ser maculado por elas." - Vasishta 


 A ESSÊNCIA DO YOGA VASISTHA  [3]


O Brihat (O Grande) Yoga Vasishta, ou Yoga Vasistha Maha Ramayana, como também é denominado, é uma obra de cerca de 32.000 versos sânscritos, tradicionalmente atribuída a Valmiki*, o autor do Ramayana.

Trata-se de um diálogo entre o sábio Vasishta e Sri Rama, no qual é exposto o Advaita (ou doutrina da não-dualidade) em sua pura forma de Ajatavada (teoria da não origem) com a ajuda de histórias ilustrativas intercaladas.

Esta grande obra foi abreviada há alguns séculos atrás por Abhinanda Pandita, um mestre de Kachemira, quem a condensou em cerca de 6000 versos, recebendo, então, o nome de Laghu Yoga Vasishta. Esta é uma obra magistral, da mesma forma que o original Brihat.

Bhagavan Sri Ramana Maharishi costumeiramente se referia com frequência ao Yoga Vasishta e inclusive incorporou seis versículos do mesmo ao “Suplemento aos Quarenta Versos”. (números 21 a 27).

Posteriormente foi feita uma condensação, há bastante tempo atrás, por autor desconhecido, quem a reduziu para 230 versículos, divididos em dez capítulos e a intitulou Yoga Vasishta Sara (A Essência do Yoga Vasishta). Levando a cabo esta última abreviação, seu autor trouxe um grande auxílio a todos os buscadores da verdade. Pode-se atribuir a esta pequena obra um valor incalculável. Se quiser regressar à primeira parte clique aqui. E se quiser regressar à segunda parte clique aqui.


8º CAPÍTULO

A ADORAÇÃO DO SER


1. Se te separas do corpo e moras com facilidade na Consciência, tornar-te-ás uno (a única realidade), e tudo mais parecerá insignificante como a erva.

2. Conhece Aquele, por meio do qual, conheces este mundo. Volta a tua mente para dentro, e então, verás claramente (isto é, realizarás) a efulgência do Ser.

3. Oh Raghava (Senhor)! Aquele por meio do qual percebes o som, sabor, forma e cor, sabe que é teu Ser, o Brahman Supremo, O Senhor dos senhores.

4. Oh Raghava! Aquele por meio do qual vibram todos os seres, e aquele que os cria, sabe que este Ser é teu Ser real.

5. Após rechaçar, por intermédio do raciocínio, tudo aquilo que possa ser conhecido como inverdade,, o que resta como Consciência pura, considera-o como teu Ser real.

6. O conhecimento não está separado de ti, e aquele que é conhecido não está separado do conhecimento. Daí, que somente existe o Ser, e nada acha-se separado d'Ele.

7. "Tudo aquilo que Brahman, Vishnu, Shiva, Indra e outros fazem sempre, é feito por mim a encarnação da Consciência." Pensa desta maneira.

8. "Eu sou todo o universo. Eu sou o incorruptível Ser Supremo. Não existe passado, nem futuro, separado de mim mesmo." Reflete desta maneira.

9. "Tudo é o Brahman único, a Consciência pura, o Ser de tudo, indivísivel e imutável." Reflete deste modo.

10. Não existe eu, nem qualquer outra coisa. Somente Brahman existe, sempre cheio de beatitude por todas as partes. Medita calmamente sobre isto.

11. O sentido de percebedor e percebido é comum a todos os seres encarnados, porém o Yogue adora o Único Ser.


9º CAPÍTULO

EXPOSIÇÃO SOBRE O SER


1. Quando este conjunto de corpo, sentidos, etc., atua por conta própria, surge a ideia de "Eu sou isto.". Este é o Jiva (ego) maculado pela imundície da ignorância.

2. Quando torna-se firme a convicção de que tudo é a Consciência semelhante ao espaço (quer dizer, que a tudo permeia), o Jiva (ego) chega a seu próprio fim, como uma lamparina sem óleo.

3. Tal como um Brahmane se desvia e abandona a sua própria nobreza, e adora a vida de um Sudra (pária), assim, o Senhor, assume o papel do Jiva.

4. Do mesmo modo, que um menino vê uma aparição (criada por sua própria fantasia), também o estúpido Jiva cria, em consequência do engano, este corpo irreal, e o vê tudo como separado de si mesmo.

5. Um menino sobrepõe um elefante (real) sobre um elefente de barro, e brinca com ele. De igual modo, um homem ignorante, sobrepõe o corpo, etc. sobre o Ser, e leva a cabo as suas atividades.

6. Uma serpente pintada num quadro, não faz com que a temamos, quando se compreende que é somente um quadro. Semelhantemente, quando a serpente do Jiva (alma individual) é claramente compreendida, não existe nem miséria, nem qualquer causa para a miséria.

7. A serpente sobreposta a uma grinalda se mescla com ela, de igual modo, o sentido de separação que surge do Ser, se mistura com o Ser.

8. Ainda que várias braceletes, etc. pareçam ser coisas separadas, como ouro são uma só coisa. Igualmente, ainda que os seus derivados pareçam ser muitos, o Ser permanece Uno,

9. Tal como as várias modificações das vasilhas da mesma argila, a não-dualidade aparece como a dualidade (quer dizer, multiplicidade), sob a forma de multiplos objetos, móveis e imóveis.

10. Da mesma forma, que apenas um rosto é refletido como muitos num cristal, um rosto na água ou num espelho, assim também o Único Ser reflete-se em muitos intelectos (ou mentes).

11. Do mesmo modo, que o céu parece manchado pela poeira, pela fumaça, ou pelas nuvens, assim também, o Ser puro, em contacto com as qualidades de Maya parece ser maculado por elas.

12. Da mesma maneira que o metal em contacto com o fogo adquire as qualidades do fogo (a saber, o calor), assim também, os sentidos, etc., em contacto com o Ser, adquirem as qualidades do Ser.

13. Tal como o Rahu invisível torna-se visível quando é captado pela luz refletida na lua (isto é, quando entra em contacto com a lua), assim também, o Ser é conhecido experimentando os objetos de perceção.

14. Quando a água e o fogo se juntam cada um adquire as qualidades do outro. Igualmente, quando o Ser e o corpo inerte se juntam, o Ser parece o não-ser, e o não-ser parece o Ser.

15. Tal como o fogo quando jogado sobre uma grande lâmina d'água perde a sua qualidade, assim também, a Consciência em contacto com o irreal e inerte, parece perder a sua natureza real e torna-se inerte.

16. O Ser é realizado no corpo somente com esforço, igual a se obter açucar de uma cana, óleo das sementes de sésamo, fogo da madeira, manteiga do leite de vaca, e ferro das pedras (isto é, de um mineral.)

17. De igual modo que um céu é visto num cristal que não se corrompeu, o Senhor supremo da natureza da Consciência é visto (quer dizer, existe) em todos os objetos.

18. Tal como uma grande lanterna guardada dentro de um vaso feito de pedras preciosas ilumina por sua luz tanto aquilo que está dentro como aquilo que está fora, assim também, o Ser Único ilumina tudo.

19. Da mesma maneira, que o reflexo do sol sobre um espelho ilumina outras coisas, o reflexo do Ser nos intelectos humanos puros, ilumina as outras coisas.

20. Aquele que neste maravilhoso universo aparece como se fosse uma serpente em lugar de uma corda, é o Ser Eterno e luminoso.

21. O Ser carece de início ou de fim. É existência e Consciência imutáveis. Manifesta o espaço, é a fonte dos Jivas, e é mais elevado do que tudo.

22. O Ser é Consciência pura, eterna, omnipresente, imutável e autoefulgente, como a luz do sol.

23. O Ser omnipresente, o substrato de tudo não é diferente da Consciência efulgente, como o calor não é distinto do fogo. Pode ser somente experienciado (não pode ser conhecido).

24. A Consciência pura, sem intelecto, o Ser Supremo, o iluminador de tudo, o indivísivel, que a tudo permeia, por dentro e por fora, é o firme suporte de tudo.

25. O Ser é Consciência absoluta. É puro Ser Autoconsciente, incorruptível, livre de todos os conceitos de aceitação ou recusa, e não é limitado por espaço, tempo ou género.

26. Tal como o espaço do universo, que tudo permeia, também o Ser, o Senhor, mora sem qualquer forma em todas as coisas.

27. A Consciência que existe na extensão da terra, nos ornamentos, no céu e no sol, existe também no interior dos vermes que jazem debaixo da terra.

28. Não existe nem escravidão, nem liberdade, nem dualidade, nem não-dualidade. Existe somente o Único Brahman, sempre brilhando como Consciência.

29. Autoconhecer-se é conhecer Brahman. O mundo é Brahman. Os diversos elementos são Brahman. Eu sou Brahman. O meu inimigo é Brahman. Os meus amigos e familiares são Brahman.

30. A ideia de uma Consciência e de um objeto de Consciência é escravidão. Livrar-se dela é liberdade. A Consciência, o objeto da Consciência, e tudo o mais, é o Ser. Esta é a essência de todos os sistemas de filosofia.

31. Aqui só existe Consciência. Este universo é apenas Consciência. Tu és Consciência, eu sou Consciência, os mundos são Consciência, esta é a conclusão.

32. Tudo aquilo que existe, e que brilha (isto é, que se saiba que existe) é o Ser, tudo o mais que parece brilhar não existe realmente. Somente a Consciência brilha por si mesma. As ideias de conhecedor e de conhecido são postulados vazios.


10º CAPÍTULO

NIRVANA


1. A beatitude suprema não pode ser experimentada através do contacto dos sentidos com os seus objetos. O estado supremo é aquele no qual a mente é aniquilada através da investigação numa só direção.

2. A beatitude que surge do contacto dos sentidos com os seus objetos é inferior. O contacto com os objetos dos sentidos é escravidão. Livrar-se deles é liberdade.

3. Alcança o estado puro entre a existência e a não existência, e mantém-te nesse estado. Não aceites ou rejeites o mundo interior ou exterior.

4. Depende sempre dessa verdadeira realidade que se acha entre o que sente e o inerte, que é o Coração infinito como o espaço.

5. A crença num conhecedor e num conhecido, é chamada escravidão. O conhecedor é escravizado pelo conhecido, e é libertado quando não há nada para conhecer.

6. Abandonando as ideias daquele que vê, o que é visto e a visão, juntamente com os desejos latentes (Vasanas) do passado, meditemos neste Ser, luz primordial que é a base da visão.

7. Meditemos no Ser eterno, a luz das luzes que se acha entre as duas ideias de existência e não existência.

8. Meditemos no Ser de Consciência, aquele que outorga os frutos de todos os nossos pensamentos, o iluminador de todos os objetos radiantes.

9. Meditemos no Ser imutável, nossa realidade, cuja beatitude surge na mente por causa do íntimo contacto entre o que vê e o que é visto.

10. Se se medita neste estado que advém no final do estado (de vigília), e no início do sonho, experimentar-se-á diretamente a beatitude incorruptível.

11. O estado semelhante a uma rocha no qual todos os pensamentos estãocalmos, e que é diferente dos estados de vigília e de sonho, é o nosso estado supremo.

12. Tal como o espaço encerrado numa vasilha de barro, o Senhor Supremo, que é Existência e Consciência, que é semelhante ao espaço e à beatitude, existe por toda a parte, e não está separado das coisas.

13. O Ser brilha por si mesmo, como o Oceano Único da Consciência, ilimitado, e jamais agitado pelas ondas provocadas pelos pensamentos.

14. Da mesma forma que o oceano não é senão água, o mundo inteiro das coisas não é senão Consciência, que enche todos os pontos cardeais como o espaço infinito.

15. Brahman e o espaço são semelhantes no que se refere à sua invisibilidade, e pelo facto de serem omnipenetrantes e indestrutíveis, porém Brahman é também Consciência.

16. Existe apenas um único oceano ilimitado, sem ondas, profundo e doce, de puro néctar (isto é, beatífico).

17. Tudo é verdadeiramente Brahman. Tudo é este Atman. Não dividas Brahman, ao declarar: "Eu sou uma coisa", e "Isto é outra."

18. No momento em que se compreenda que Brahman é omnipresente e indivísivel, descobre-se que este imenso Samsara é o Senhor Supremo.

19. Quem dá-se conta que tudo é Brahman, verdadeiramente, torna-se Brahman. Quem não se tornaria imortal, após beber o néctar?

20. Se és sábio, tornar-te-ás este Brahman, em virtude desta convicção, mas se não tiveres esta convicção, de nada adianta repetires esta verdade várias vezes, pois seria tão inútil, como lançar oferendas às cinzas.

21. Inclusive, se queres conhecer a Última Verdade, terás sempre que praticar. A água não se torna clara, simplesmente, por pronunciarmos: "Fruto de Kataka."

22. Se se tem a firme convicção de: "Eu sou o Ser supremo, o incorruptível Vasudeva", libertamo-nos, caso contrário, permaneceremos escravizados.

23. Após eliminar tudo, afirmando: "Isto não, isto não", o que resta ou que permanece é a entidade suprema, que não pode ser eliminada. Pensa: "eu sou Ele", e sê feliz.

24. Sabe sempre, que o Ser é Brahman, uno e total. Como pode Aquele que é indivísivel, ser dividido, em: "Eu sou o meditador", e "O outro é objeto de meditação."?

25. Quando uma pessoa pensa: "Eu sou consciência pura", a isto se chama, meditação, e quando se perde a própria ideia de meditação, é o Samadhi.

26. O constante fluxo de pensamentos relativos a Brahman, sem o sentido do eu (ego), adquirido através de intensa prática de autoinvestigação (Jnana) é o que se chama Samprajnhata Samadhi (meditação sem conceitos).

27. Que os violentos ventos que caracterizam o fim dos eons (Kalpas) soprem, que todos os oceanos se unam, que os doze sóis ardam simultaneamente, ainda assim, nenhum mal recairá sobre aquele cuja mente está extinta.

28. Essa Consciência que é o testemunho da elevação e da queda dos seres, sabe que é o estado imortal da beatitude suprema.

29. Aquele que é imutável, propício e tranquilo, Aquele que permeia este mundo, Aquele que se manifesta como objetos mutáveis e imutáveis é a Consciência única.

30. Antes de mudar a pele, a serpente a considera como sendo ele mesma, porém, uma vez que a abandonou em sua toca, já não a considera como sendo ela própria.

31. Aquele que transcendeu tanto o bem como o mal, quando se abstém de praticar atos proibidos, age como uma criança, ou seja, sem qualquer sentimento de que sejam pecados, e nem faz o que está prescrito por qualquer sentimento de mérito.

32. De igual modo, que uma estátua acha-se contida num bloco de mármore, e se na realidade, ainda não foi esculpida, também o mundo existe em Brahman.

33. Da mesma maneira que se diz que um bloco de mármore não encerra uma estátua, quando ainda não foi esculpida nele, assim também, diz-se que Brahman está vazio, quando se lhe priva das impressões do mundo.

34. Do mesmo modo, que podemos afirmar que uma água parada contém ou não ondas, assim, a respeito de Brahman, pode-se dizer que contém ou não o mundo. Não é nem vazio, nem existência.


Valmiki

A Essência do Yoga Vasistha

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