A Essência do Yoga Vasistha [1/3]


Roda do Samsara


"Oh Rama! A mente, por sua própria atividade, se escravizou a si própria, mas quando se acalma é livre." - Vasishta


 A ESSÊNCIA DO YOGA VASISTHA  [1]


O Brihat (O Grande) Yoga Vasishta, ou Yoga Vasistha Maha Ramayana, como também é denominado, é uma obra de cerca de 32.000 versos sânscritos, tradicionalmente atribuída a Valmiki*, o autor do Ramayana.

Trata-se de um diálogo entre o Sábio Vasishta e Sri Rama, no qual é exposto o Advaita (ou doutrina da não-dualidade) em sua pura forma de Ajatavada (teoria da não origem) com a ajuda de histórias ilustrativas intercaladas.

Esta grande obra foi abreviada há alguns séculos atrás por Abhinanda Pandita, um mestre de Kachemira, quem a condensou em cerca de 6000 versos, recebendo, então, o nome de Laghu Yoga Vasishta. Esta é uma obra magistral, da mesma forma que o original Brihat.

Bhagavan Sri Ramana Maharishi costumeiramente se referia com frequência ao Yoga Vasishta e inclusive incorporou seis versículos do mesmo ao “Suplemento aos Quarenta Versos”. (números 21 a 27).

Posteriormente foi feita uma condensação, há bastante tempo atrás, por autor desconhecido, quem a reduziu para 230 versículos, divididos em dez capítulos e a intitulou Yoga Vasishta Sara (A Essência do Yoga Vasishta). Levando a cabo esta última abreviação, seu autor trouxe um grande auxílio a todos os buscadores da verdade. Pode-se atribuir a esta pequena obra um valor incalculável.


1º CAPÍTULO

DESAPEGO


1. Saudemos a essa Calma Efulgência que é infindável, e que não é limitada pelo espaço, tempo, etc. A pura Consciência, que somente pode ser conhecida pela experiência.

2. Nem aquele que é totalmente ignorante, nem aquele que a conhece (a Verdade), são candidatos ao estudo deste livro. Somente aquele que pensa: "Estou escravizado, devo chegar a ser livre" está apto a estudá-lo.

3. Até que o indivíduo não seja claramente abençoado pelo Senhor Supremo, não achará um Guru adequado ou a escritura correta.

4. Da mesma forma, que um barqueiro consegue um barco estável, Oh Rama! Assim, também se aprende o método para cruzar o oceano do Samsara, associando-se com as grandes almas.

5. O grande remédio para a enfermidade do Samsara, longo tempo mantida é a investigação "Quem sou eu? A quem pertence este Samsara?", e que a cura totalmente.

6. Não se deveria passar um só dia num local que não possua a árvore de um Sábio, conhecedor da verdade, com o seu bom fruto e a sua sobra fresca.

7. Deve-se aproximar dos Sábios, inclusive daqueles que não ensinam. Porque, até a sua fala corriqueira contém sabedoria.

8. A companhia dos Sábios converte o vazio em plenitude, a adversidade em prosperidade.

9. Se os Sábios somente se preocupassem com a sua própria felicidade, aonde poderiam buscar refúgio aqueles que estão atormentados pelos pesares do Samsara?

10. Aquilo que se transmite a um discípulo digno, que se tornou desapegado, ó alma bondosa, é a sabedoria real, é o verdadeiro significado dos textos sagrados, assim como a sabedoria inteligível.

11. Seguir o método de ensinamento a que se está acostumado, só se faz para conservar a tradição. Convencer-se da realidade, depende somente da clareza de entendimento do discípulo.

12. O Senhor não pode ser compreendido com o auxílio dos textos sagrados, ou sequer do Guru. O Ser é compreendido somente pelo próprio Ser, e com o intelecto purificado.

13. Todas as artes adquiridas pelos homens, perdem-se com a falta de prática, porém, esta arte, a arte da sabedoria cresce persistentemente, uma vez que ela surja.

14. Da mesma forma que um adorno ao redor do pescoço considera-se perdido quando nos esquecemos dele, e recupera-se quando percebemos o erro, assim também, o Ser se alcança (quando a ilusão é eliminada) pelas palavras do Guru.

15. É desafortunada a pessoa que, não conhecendo o próprio Ser, se compraz com os objetos sensoriais, ela é como, aquele, que tardiamente descobre ter ingerido alimentos envenenados.

16. O homem perverso, que sabendo serem enganosos os objetos mundanos, pensa entretanto neles, é considerado um asno, não um homem.

17. Até o mais leve pensamento submerge o homem no sofrimento, e quando está vazio de todos os pensamentos goza de uma beatitude imorredoura.

18. Da mesma maneira que experimentamos a ilusão de centenas de anos num único sonho, que dura apenas uma hora, assim também experimentamos a burla de Maya, em nosso estado desperto.

19. Feliz é o homem cuja mente é inteiramente livre de apego e de ódio, e que contempla este mundo como um mero espetador.

20. Aquele que bem compreendeu como abandonar todas as ideias de aceitação ou de recusa, e que realizou a Consciência que se revela dentro do coração mais interno, a sua vida é ilustre.

21. Quando da dissolução do corpo, somente o éter (a Consciência) limitado pelo coração (Hrdayam) deixa de existir (a limitação). O povo lamenta desnecessariamente que o Ser se extinga.

22. Quando os vasos se rompem, o espaço em seu interior torna-se ilimitado. Assim também, quando os corpos deixam de existir, o Ser permanece eterno e desapegado.

23. Nada nasce ou morre, em parte nenhuma, em momento nenhum. É, somente Brahman, que aparece, ilusoriamente, sob a forma do mundo.

24. O Ser é mais extenso que o próprio espaço. O Ser, é puro, subtil, incorruptível e benigno. Assim sendo, como poderia o Ser, nascer e como poderia morrer?

25. Tudo Aquilo, é tranquilo. É o Uno sem começo, meio ou fim, sobre quem não se pode dizer que seja existente ou não existente. Saiba isso e seja feliz.

26. Oh Rama! Em verdade, é mais nobre vagar pelas ruas dos párias (Chandalas) mendigando com uma caneca de barro na mão, do que viver uma vida impregnada de ignorância.

27. Nem a enfermidade, nem o veneno, nem a adversividade, nem qualquer outra coisa do mundo causam mais sofrimento aos homens do que a estupidez engendrada em seus corpos.


2º CAPÍTULO

IRREALIDADE DO MUNDO


1. Da mesma forma, que o oceano de leite se acalmou quando a Montanha Mandara (que foi agitada pelos Devas e Asuras) se acalmou, assim também, a ilusão do Samsara chega ao fim quando a mente se acalma.

2. O Samsara surge, quando a mente se torna ativa, e cessa quando esta se acalma. Acalmai a mente, controlando a respiração e os desejos latentes (Vasanas).

3. O Samsara, sem qualqur valor (literalmente: queimado), nasce da nossa imaginação, e se desvanece na ausência da imaginação. A verdade é que o Samsara não tem, absolutamente, qualquer fundamento.

4. A ideia de que uma serpente pintada num quadro, que esteja viva, deixa de existir, quando se compreende a Verdade, mesmo que ela continue surgindo.

5. Este fantasma, de um Samsara de longa duração, que é a criação da mente iludida do homem, e que é a causa dos seus sofrimentos, desaparece, quando se reflete sobre ele.

6. Oh Rama! Maya é de tal sorte que encerra o deleite junto com sua própria destruição, inclusive, Maya deixa de existir ao ser observada.

7. Caro rapaz, maravilhosa é, na verdade, esta Maya que engana ao mundo inteiro. É por sua causa que o Ser não é percebido, ainda que, permeie todos os membros do corpo.

8. Tudo aquilo que se vê, verdadeiramente, não existe. É como a cidade mítica dos Gandharvas (Fada Morgana), ou como uma miragem.

9. Aquilo que não é visto, embora, se encontre dentro de nós, é chamado, o Ser eterno e indestrutível.

10. Tal como as árvores da beira de um lago se refletem na água, assim também, todos estes variados objetos, se refletem no vasto espelho da nossa Consciência.

11. Esta criação, que é um mero jogo da Consciência, surge, tal como a ilusão de uma corda que se toma por uma serpente (quando existe ignorância), e termina, quando existe o conhecimento correto.

12. Ainda que a escravidão não exista realmente, ela se fortalece pelo desejo de gozos mundanos, quando este desejo diminui, a escravidão se debilita.

13. Como as ondas que surgem no Oceano, a mente instável, surge da vasta e estável extensão do Ser Supremo.

14. É por causa d'Aquele (Ser Supremo) que, por conta própria, imagina tudo, rápida e livremente, que este espetáculo mágico do mundo é projetado, no estado de vigília.

15. Este mundo, embora irreal, parece existir, e é a causa do sofrimento de toda uma vida, para a pessoa ignorante, igual a um fantasma (inexistente), é a causa de temor para uma criança.

16. Quem não entende de ouro, vê somente a pulseira. Não tem ideia. que ela é unicamente ouro.

17. Da mesma maneira, cidades, casas, montanhas, serpentes, etc., são todas, aos olhos do homem ignorante, objetos separados. Do ponto de vista absoluto, este mundo (Objetivo) é o próprio sujeito (o Ser), portanto, não está separado dele.

18. O mundo está cheio de miséria para um homem ignorante, e cheio de felicidade, para um homem Sábio. O mundo é escuro para um cego e brilhante para aquele que possui olhos.

19. A felicidade de um homem de discriminação, para aquele que rechaçou o Samsara, e descartou todos os conceitos mentais, constantemente. aumenta.

20. Como nuvens, que, de repente, aparecem no céu claro, e prontamente se dissolvem, o universo surge do Ser e n'Ele se dissolve.

21. Aquele que reconhece os raios de sol como não sendo diferentes dele, e entende que é o próprio sol, diz-se que é Nirvikalpa (o homem que não vê diferenças).

22. Da mesma maneira, que a tela, quando a investigamos, se percebe que é apenas tecido trançado, assim também, o mundo, quando é investigado se percebe que é meramente o Ser.

23. Este mundo fascinante, surge como uma onda no oceano Ambrosíaco da Consciência, e nele se dissolve. Como, pois, pode ser diferente dela (isto é, da Consciência), em seu interior, quando aparece?

24. Tal como a espuma, as ondas, a bruma e as borbulhas, não são diferentes da água, assim, este mundo que surgiu do Ser, não é diferente do próprio Ser.

25. Da mesma maneira, que uma árvore que apresenta frutos, folhas, gavinhas, flores, ramos, botões e raízes, existe na sua semente, assim também, o mundo manifestado existe em Brahman.

26. Tal como um jarro, finalmente, retorna ao barro, as ondas à água e as joias ao ouro, assim também, este mundo, que surgiu do Ser, finalmente retorna ao Ser.

27. A ideia da serpente aparece, quando a pessoa não reconhece a corda, e desaparece quando a percebe. Igualmente, o mundo aparece, quando o Ser não é reconhecido, e desaparece quando o Ser é percebido.

28. É somente pelo nosso esquecimento do Ser invisível, que surge o mundo, da mesma maneira, que a ignorância da corda faz aparecer a serpente.

29. Tal como o sonho torna-se irreal durante o estado de vigília, e o estado de vigília durante o sonho, assim também, a morte torna-se irreal, no nascimento e o nascimento na morte.

30. Todos estes fenómenos, portanto, não são reais nem irreais. São efeito do engano, mera impressão, que surge a partir de algumas experiências passadas.


3º CAPÍTULO

OS SINAIS QUE IDENTIFICAM UMA PESSOA LIBERTA
(JIVAN MUKTA)


1. O conhecimento do Ser é o fogo que queima a erva seca do desejo. Isto em verdade é o que se chama Samadhi, não a mera abstenção da fala.

2. Aquele que compreende que todo o universo é na realidade Consciência, e permanece calmo, é protegido pela armadura de Brahman, é feliz.

3. O Yogue que consegue o estado que jaz mais além de tudo, e permanece sempre frio, tal como a lua cheia, é verdadeiramente o Senhor Supremo.

4. Aquele que reflete em seu coração interno, sobre o sentido dos Upanishads que tratam sobre Brahman, e não se comove pelo gozo ou pelo pesar, não é atormentado pelo Samsara.

5. Tal como os pássaros e os animais que não buscam guarida numa montanha em chamas, também ao conhecedor de Brahman nunca ocorrem maus pensamentos.

6. Os Sábios, semelhantemente aos ignorantes, ocasionalmente encolerizam a outras pessoas, porém só o fazem afim de provar sua capacidade para controlar os seus sentimentos inatos, quer dizer, para verem, até onde a cólera de outras pessoas lhes podem afetar.

7. Tal como o tremor do corpo causado pela serpente (imaginária), persiste por algum tempo, até que se compreenda que não há serpente, assim também, o efeito do engano perdura por algum tempo até que se liberte de todos os enganos.

8. Da mesma forma, que um cristal não fica maculado ou manchado por aquilo que se reflete nele, assim também, um conhecedor da Verdade não é realmente afetado pelo resultado dos seus atos.

9. Inclusive. quando o conhecedor da verdade se ocupa de ações exteriores, permanece sempre introvertido e extremamente calmo, como quem está dormindo (num sonho).

10. Firmemente convencidos da não-dualidade e gozando de uma perfeita paz mental, os Yogues fazem o seu trabalho, percebendo o mundo como um sonho.

11. Que a morte chegue ao conhecedor da verdade hoje, ou ao final de eons, ele permanece sem oxidar-se como o ouro que está enterrado no lodo.

12. Ele pode deitar seu corpo em Kashi ou na casa de um pária. Aquele que carece de desejos está libertado, no mesmo instante em que consegue o conhecimento de Brahman.

13. Para quem não sente necessidade dos desejos da terra, oh Rama! São tão insignificantes como a marca deixada pela pata de uma vaca. Para esse, o próprio Monte Meru é apenas um montículo, e todo espaço é tão insignificante como o espaço contido num cesto, e os três punhados como um mero punhado de erva.

14. Tal como um recipiente vazio no espaço, o conhecedor da verdade está vazio tanto por dentro como por fora, e ao mesmo tempo, está cheio por dentro e por fora, como um vaso imerso no oceano.

15. Aquele a quem os objetos que vê não agradam nem desagradam, e que atua no mundo, como quem está adormecido (num sonho), se diz que é uma pessoa libertada.

16. Aquele que está livre dos nós dos desejos, e cujas dúvidas, foram postas de lado, está liberto inclusive, enquanto se acha no corpo (Jivan Mukta). Ainda que pareça estar atado, é livre. Permanece como uma lâmpada pintada num quadro.

17. Aquele que eliminou facilmente, tal como num jogo, todas as suas tendências egoístas e abandonou inclusive, o objeto da meditação, diz-se estar livre, mesmo que habitando um corpo físico.

18. Aquele que, como um cego, não reconhece, ou deixa para trás a seus familiares, que teme o apego como a uma serpente, que considera como iguais o prazer dos sentidos e as enfermidades, que valoriza a companhia das mulheres como se fosse um feixe de erva (aqui, deve ser entendido somente no contexto da lascívia) e que não vê distinção entre amigo e inimigo, experimenta a felicidade neste mundo e no próximo.

19. Aquele que lança para fora de sua mente todos os objetos de perceção, e uma vez adquirida a perfeita serenidade, permanece quieto como o espaço, sem ser afetado pelo pesar, é um homem liberto Esse, não se importa se pratica ou não a meditação ou se executa ou não uma ação.

20. A ideia do Ser no não-Ser é uma escravidão. O abandono dela é a libertação. Não há escravidão nem libertação para o sempre livre.

21. Ao perceber que os objetos de perceção não existem realmente, a mente se liberta completamente deles, e a consequência é a felicidade suprema da libertação.

22. O abandono de todas as tendências latentes diz-se ser a melhor ou a real libertação para o sábio, é também, o método sem erro para se obter a liberdade.

23. A liberdade não se encontra no outro lado do céu nem no inferno, nem sobre a terra; a extinção da mente que resulta da erradicação de todos os desejos é considerada como libertação.

24. Oh Rama! Não existe intelecto, não existe ignorância, não existe mente e não existe alma individual (Jiva). Tudo isso é imaginado em Brahman.

25. Para aquele que está estabelecido n'Aquilo que é infinito, Consciência pura, beatitude e não-dualismo, sem ver qualidades, aonde está o dilema de escravidão ou de liberdade, visto que não existe uma segunda entidade?

26. Oh Rama! A mente, por sua própria atividade se escravizou a si própria, mas quando se acalma é livre.

* Valmiki foi um santo e um sábio que terá vivido no século Ⅲ a. C.. Foi o autor do Épico Ramayana e do Yoga Vasistha. É reverenciado como Adi Kavi, o Primeiro Poeta

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Valmiki

A Essência do Yoga Vasistha

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