Tudo é Uma Ilusão Exceto a Testemunha




"Conquanto seja este mundo objeto de nossa experiência diária e sirva a todos os propósitos práticos, ele tem, como o mundo onírico, a natureza da não-existência, visto ser contraditado no momento seguinte." - Shankara

"O Vedanta é a mais impressionante metafísica que a mente humana concebeu" - Alfred North Whitehead


TUDO É UMA ILUSÃO EXCETO A TESTEMUNHA 


Tudo é um sonho, exceto a testemunha. Apenas o conhecedor é verdadeiro, real. Tudo o que você vê é ilusório; o vidente não é ilusório. Durante a noite você vê um tipo de sonho, durante o dia você vê outro tipo de sonho. Durante a noite os sonhos do dia são esquecidos, e durante o dia os sonhos da noite são esquecidos. Às vezes você sonha com os olhos abertos e às vezes você sonha com os olhos fechados, mas uma coisa permanece eternamente lá, imutável, e essa é a sua consciência. Durante a noite você vê sonhos e durante o dia você vê coisas, o mundo. Tudo muda: a noite em dia, o dia em noite, os sonhos em pensamentos, os pensamentos em sonhos. Apenas uma coisa permanece eternamente lá - o seu testemunhar. Aquilo que é eterno é verdadeiro. Aquilo que está mudando é ilusório.

Lembre-se, por 'ilusão', não quero dizer que não seja, por 'ilusão', eu quero apenas dizer que não é eternamente verdadeiro. E qual é o significado de algo ser temporariamente verdadeiro, existindo apenas por um momento? Antes desse momento não era verdadeiro, depois desse momento deixará novamente de ser verdadeiro.

É por isso que no Oriente nós não estamos perseguindo a vida. Antes do nascimento não estava lá, depois da morte não estará lá novamente, então este fenómeno momentâneo não tem muito valor.

Não há nenhuma necessidade de ficarmos obcecados por isso, pode-se passar por ela despreocupados, intocados por ela.

A ênfase do Ocidente está naquilo que é visto, e a ênfase do Oriente está naquilo que é o vidente. Ou você se concentra no objeto ou você se concentra em si mesmo. Quando você se concentra no objeto, a sua abordagem é científica, objetiva. Quando você se concentra no sujeito, a sua abordagem é religiosa. Este sujeito é eternamente verdadeiro.

A Bíblia diz: No princípio havia a Palavra. O Oriente não pode dizer isso. O Oriente diz: No princípio havia a testemunha, no meio há a testemunha, no fim haverá a testemunha; uma coisa permanece eternamente, o substrato de tudo. Mesmo que a Palavra estivesse lá, no começo, alguém deve ter ouvido isso - o vidente, a testemunha, porque do contrário não poderia ter sido. Então aquele que ouviu precede a Palavra. A Palavra não podia estar no começo. Basta você continuar a procurar cada vez mais pela testemunha e continuar a envolver-se cada vez mais na testemunha, e um dia, a gestalt muda. O seu foco passa por uma transformação.

Por exemplo, agora você está me ouvindo. Você pode me ouvir de duas maneiras, porque cada coisa pode ser feita de duas maneiras: à maneira Oriental ou à maneira Ocidental. Você está me ouvindo; a sua ênfase pode estar no que estou dizendo, naquele que fala - então essa é uma abordagem Ocidental. A abordagem Oriental é que sua ênfase esteja no próprio ouvinte, no vidente, no sujeito, no observador, na testemunha. Você não está muito preocupado com o que está sendo dito ou com o que está sendo ouvido, mas sim com quem é essa testemunha que está ouvindo isso. Você está me vendo... quem é esse vidente que está me vendo? Essa transformação, essa mudança de gestalt, irá levá-lo ao mundo da não-ilusão; do contrário tudo é ilusório.

Eu entendo a sua pergunta. Você quer dizer com isso que deve haver algo irreal no mundo exterior. Não, o exterior é irreal. Não é que algo seja real e algo seja irreal; o exterior é irreal e o interior é real. Com o exterior, a mente cresce; com o interior, a meditação cresce. Para trabalhar com o exterior, a sua mente se torna mais e mais eficiente - no Ocidente, a mente se tornou tremendamente inteligente. Quando você começa a olhar para o interior, para o observador, a meditação cresce. Então você não se torna um grande pensador ou um grande filósofo, mas você experimenta a verdade... você se torna um grande místico, você se torna um Buda, um Lao Tzu, um Jesus.

Mas toda a ênfase - lembre-se sempre - está no espelho que reflete. Não fique muito apegado àquilo que é refletido. Você olha no espelho, a sua imagem, o seu reflexo parece tão real, mas é irreal. Não fique obcecado com a imagem. A imagem é irreal no espelho e a pessoa que está de pé diante do espelho também é irreal. Apenas uma coisa é real: a consciência que sabe "eu estou diante do espelho", a consciência que sabe que o espelho está refletindo aquele que está de pé. Essa consciência transcendental é a realidade, e através disso desce a bênção, SATCHITANANDA (Eterna Existência-Consciência- Felicidade); através disso você torna-se verdadeiro, consciente e feliz.

Por que chamamos o mundo de ilusório? Deixe-me lembrá-lo novamente: por 'ilusório' não queremos dizer que não exista, queremos dizer temporariamente real, apenas por um momento real.

Por que chamamos o mundo exterior de irreal? Porque ele traz apenas miséria e lhe dá apenas projeções, ambições, desejos e nunca permite que você seja realmente feliz, autenticamente feliz. Isso lhe dá esperança, mas nunca cumpre isso. Isso leva você em muitas jornadas, mas a meta nunca chega, por isso é chamado de Maya, ilusão. Isso o engana, como uma miragem - parece estar lá, mas quando você lá chega, você não encontra nada lá; e quando você chegar lá, os seus desejos estão sendo projetados mais adiante. É como o horizonte: você vai em direção a ele, mas ele continua recuando. Você nunca chega - você não pode chegar, pela sua própria natureza, não é possível, somente parece - não está lá.

Exatamente o oposto acontece quando você entra no seu mundo interior da consciência: quanto mais perto você chega, mais real ele se torna; quanto mais perto você chega, mais alegre, mais feliz você se torna. Quanto mais perto você chega, mais autêntico e verdadeiro você se torna, e no momento em que você está no centro, você é a própria verdade. Nesse momento, o vidente dos Upanishads declarou: Eu sou Deus, eu sou Brahman, AHAM BRAHMASMI. Nesse momento de centramento interior, el-Hallaj Mansur declarou: ANA EL-HAQQ, eu sou a verdade. Nesse momento, Jesus disse: Eu e o meu Deus não somos dois, mas um.

Se você se mover em direção ao objeto, você estará se afastando de si mesmo; e quanto mais longe você estiver de si mesmo, mais longe você estará da verdade porque a verdade está centrada em você.

Você pergunta "O que não é ilusão?"

Eu gostaria de lhe dizer que tudo é ilusão, exceto você. Mas eu devo me apressar a dizer a você que quando eu digo 'você', não quero dizer o 'você' que você conhece, eu quero dizer o 'você' que ainda não foi descoberto por você. O 'você' que você conhece pertence ao mundo exterior, e é tão irreal quanto o mundo exterior. O 'você' que você conhece não é senão um acúmulo de todas as ilusões, de todos os sonhos e de todos os desejos. O 'você' de que estou falando não tem nada a ver com você como tal; é o eterno "você", o eterno "tu". Não é seu, não é meu, nem é de mais ninguém. É todo o mundo; é o centro de tudo.

Quando o seu 'eu' cai, então o Eu real surge. Quando o seu eu desaparece, o verdadeiro Eu surge. As pessoas vêm até mim e dizem: 'Sentimos que é muito difícil rendermo-nos porque a rendição significa que estaremos nos perdendo'. Eles são verdadeiros e não são verdadeiros. Eles são verdadeiros porque o seu 'eu', o 'eu' que eles conheceram até agora, vai ser abandonado. Mas eles não são realmente verdadeiros porque uma vez que esse falso 'eu' é abandonado, o Eu real surge. Está lá, escondido atrás da nuvem do falso 'eu'. Você, como você realmente é, está no seu centro, é a realidade. Tudo o mais é ilusório.

Para conhecer essa realidade, é preciso chegar a um momento de inatividade total, porque sempre que você estiver atuando você está fora de você mesmo. É por isso que Lao Tzu, Chuang Tzu, enfatizavam tanto a passividade, porque quando você está ativo, você está se relacionando com o mundo exterior.


O que é atividade? Atividade significa relacionar-se com o exterior. Quando você é passivo, você não está se relacionando. Você está simplesmente lá, não relacionado; não há nenhuma ponte entre você e o exterior - todas as pontes desapareceram. Neste silêncio total, nesta total não relação, você se torna consciente de quem você é. Caso contrário, a atividade mantém você tão ocupado que não há espaço para o Eu real afirmar-se, manifestar-se. Ele continua esperando... esperando, e você continua ocupado com trivialidades, com coisas mundanas. É preciso aprender a não fazer nada.

Eu ouvi dizer...

Um vagabundo apareceu no consultório de um médico cheio de dores. Depois de um exame cuidadoso, o médico disse ao homem que ele teria que desistir do vinho, das mulheres e da música.

'Mas, doutor' o homem protestou, sem saber o que isso tinha a ver com sua doença 'eu não posso me curvar com dores.'

'Oh sim' disse o médico. 'Você vai ter que deixar de fumar também.'

'Eu protesto', disse o vagabundo.

'Por quê?' perguntou o médico.

'Eu me sinto como um idiota por aí fazendo nada.'

Não fazendo nada, você sente-se como se fosse um tolo. É preciso fazer alguma coisa - se você não pode fazer nada, pelo menos fume. As pessoas começam a fumar sempre que não têm nada para fazer; fumar é uma coisa complementar. Sempre que você não tem nada para fazer, pelo menos você pode fumar, você se sente ocupado. As pessoas se sentem insensatas se não têm nada para fazer. Você já não observou esse fenómeno em si mesmo? Se você está apenas sentado, você começa a sentir-se inquieto - você tem que fazer alguma coisa.

Se alguém vier, você fingirá que está a fazer algo. Você vai começar a ler o mesmo jornal que você já leu apenas para mostrar. Alguém veio, então você pega o jornal na sua mão para que se saiba que você está fazendo alguma coisa; Caso contrário, esse alguém vai pensar que você é um tolo. O que você está fazendo? Um homem tem que fazer algo sempre e sempre, e continuamente. As pessoas fingem, elas não podem simplesmente ser - isso não é permitido.

No Ocidente, você tem o ditado de que "a mente vazia é a oficina do diabo": se alguém não está fazendo nada isso é perigoso. De facto, a mente ativa é a oficina do diabo. A mente vazia nunca fez nada de errado com ninguém. Hitler não era uma mente vazia, Buda era uma mente vazia. Genghis Khan não era uma mente vazia, Lao Tzu era. Todo o absurdo que aconteceu ao longo dos séculos foi feito pela mente ativa. A mente inativa não fez nada de errado porque a mente inativa não está interessada em fazer nada - então, quem se incomoda? Você não pode convencer uma mente inativa a tornar-se um Adolf Hitler, ela vai rir do ridículo disso. 'Por quê?' Ela dirá. 'Para quê?'

Alexandre o grande, ao chegar à Índia, conheceu Diógenes - ele era uma mente inativa. Ele estava deitado na margem de um rio descansando, tomando banhos de sol nu. Alexandre ficou muito impressionado com a paz que rodeava esse homem, o silêncio; a beleza desse homem, a grandeza, a graça, a simplicidade natural, a espontaneidade. Alexandre sentiu inveja. Dizem que Alexandre nunca sentiu ciúmes de ninguém porque ele tinha mais do que qualquer outra pessoa - por que ele deveria sentir inveja? Mas com esse homem ele sentiu inveja - ele tinha algo com o qual Alexandre jamais poderia sonhar. E ele disse a Diógenes: 'da próxima vez eu for mandado de volta ao mundo, vou orar e direi a Deus: agora me faça Diógenes, não me torne um Alexandre novamente.'

Diógenes riu-se. Ele disse 'Por que esperar tanto tempo? Você pode se tornar Diógenes agora. Quem está lhe impedindo? Você pode descansar aqui e tomar um banho de sol, como eu estou tomando.

O ponto estava bem claro - tão claro quanto possível. Alexandre sentiu-se envergonhado e disse: 'Sim, um dia eu também espero... quando eu conquistar o mundo inteiro, então eu também descansarei e desfrutarei como você.'

'Mas', disse Diógenes 'eu não entendo. Por quê? Se eu posso desfrutar sem conquistar o mundo, por que você não pode também aproveitar agora? Por que você está adiando o que pode acontecer agora? E essa margem do rio é grande o suficiente para muitas pessoas. Você não estará invadindo o meu espaço - é grande o suficiente. Ninguém vem aqui.'

Dizem que Alexandre ficou muito triste depois de conhecer Diógenes, e permaneceu triste por muitos dias e conversou várias vezes sobre Diógenes. O impacto desse encontro foi tremendo para Alexandre o grande.

Uma mente vazia, passiva e inativa, tem uma beleza, e só na mente inativa se chega a conhecer o que é verdadeiro. A atividade cria a ilusão. A atividade cria ondulações ao seu redor e você não pode ver aquilo que você é.

Inatividade... todas as ondulações se foram, o lago fica silencioso... a mente não tem nenhum pensamento, tudo desapareceu, o fumo desapareceu... e a chama agora brilha intensamente. Quando a consciência é tão brilhante que não há fumo à volta e a chama é pura, então você sabe aquilo que é real.

O caminho para a realidade é através da inação, da passividade, da recetividade. O caminho para o real é através da recetividade feminina. O caminho para o irreal é através da atividade masculina e agressiva.

OSHO




Fonte:
Osho 
"Tao: O Caminho sem Caminho, Vol. 1"

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