O Mundo - Real ou Ilusório?


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O MUNDO – REAL OU ILUSÓRIO


O ensinamento de Bhagavan Sri Ramana Maharshi foi o da não-dualidade (Advaita Vedanta), em sintonia com os ensinamentos do grande sábio hindu Shankara. Essa sintonia não significa, entretanto, que o Maharshi foi ‘influenciado’ por Shankara, mas apenas que ele reconhecia o ensinamento de Shankara como uma exposição verdadeira daquilo que ele mesmo havia realizado por meio do conhecimento direto.

Devoto: O ensinamento de Bhagavan é igual ao de Shankara?

Bhagavan: O ensinamento de Bhagavan é uma expressão da sua própria experiência e realização. Os outros o veem como correspondente ao ensinamento de Sri Shankara.

Devoto: Como podemos concordar com Shankara que diz que este mundo é ilusório se os Upanishads dizem que tudo é Brahman?

Bhagavan: Shankara também disse que esse mundo é Brahman ou Eu Real. O que ele desaprovava era imaginar que o Eu Real é limitado pelos nomes e formas que constituem o mundo. Ele apenas disse que o mundo não possui nenhuma realidade além de Brahman.

O Brahman ou Eu Real é como uma tela de cinema, e o mundo é como as imagens que aparecem nela. Você só vê a imagem enquanto há uma tela. Mas quando o próprio observador se torna a tela apenas o Eu Real permanece.

Shankara foi criticado por sua filosofia de Maya (ilusão) sem que fosse compreendido.

Ele fez três declarações:

1º) Brahman é real;
2º) o universo é irreal;
3º) o Universo é Brahman.

Ele não parou na segunda. A terceira declaração explica as duas primeiras – ela significa que a perceção do universo como separado de Brahman é falsa e ilusória. Equivale a dizer que os fenómenos são reais quando experienciados como sendo o Eu Real, e ilusórios quando vistos separados Dele.

Apenas o Eu existe e é real. O mundo, o indivíduo e Deus são criações imaginárias dentro do Eu, tal como o aparecimento da prata na madrepérola. Eles aparecem e desaparecem simultaneamente. Na verdade, apenas o Eu Real é o mundo, o “eu”, e Deus. Tudo o que existe é apenas uma manifestação do Eu Supremo.

Devoto: O que é a Realidade?

Bhagavan: A Realidade é sempre real. Ela não tem nomes nem formas mas é o que os sustenta. Ela é a base de todas as limitações, sendo em si mesma ilimitada. Ela não é confinada a nada. Ela é a base de tudo o que é irreal, sendo em si Real. É aquilo que é. Ela é como é. A realidade transcende a fala e está além de descrições tais como ser e não ser.

Ele não se enredava em contradições aparentes, sendo estas meros frutos de um ponto de vista diverso ou de uma maneira diferente de se expressar.

Devoto: Os budistas negam o mundo enquanto que a filosofia Hindu aceita a sua existência mas o tem como irreal, não é isso?

Bhagavan: É apenas uma diferença de ponto de vista.

Devoto: Eles dizem que o mundo é criado pela Energia Divina (Shakti). O conhecimento do que é irreal se dá devido à ilusão (Maya) que cobre a Realidade?

Bhagavan: Todos aceitam que a criação foi feita pela Energia Divina, mas qual é a natureza desta energia? Deve ser correspondente à natureza da sua criação.

Devoto: Existem graus de ilusão?

Bhagavan: A ilusão é em si ilusória. Ela deve ser vista por alguém que encontra-se fora dela, mas como pode um observador assim estar sujeito a ela? Então, como ele pode falar de graus de ilusão?

Você vê várias cenas passando na tela de cinema: o fogo parece queimar os prédios, a água parece naufragar navios, mas a tela sobre a qual as imagens são projetadas não é queimada pelo fogo nem molhada pela água. Por quê? Porque as imagens são irreais e a tela é real. Semelhantemente, inúmeras imagens são refletidas num espelho sem que este seja afetado por elas. Igualmente, o mundo é um fenómeno sobre o substrato da Realidade única que não é por ele afetado de maneira alguma. A Realidade é apenas uma. Falar-se de ilusão é apenas devido ao ponto de vista. Mude o seu ponto de vista para o do Conhecimento absoluto e você perceberá que o universo nada mais é do que Brahman.

Estando agora imerso no mundo você vê este mundo como real; transcenda-o e ele desaparecerá, restando apenas o Real.

Como o seguinte trecho mostra, o postulado de uma Realidade universal requer o conceito de um processo de ilusão ou criação para explicar a realidade aparente do mundo:

O mundo é percebido como uma realidade aparentemente objetiva quando a mente se exterioriza, abandonando assim a sua identidade com o Eu Real. Quando o mundo é assim percebido a natureza do Eu Real permanece velada; também, quando o Eu Real é realizado o mundo cessa de ser percebido como uma realidade objetiva.

A ilusão é aquilo que faz as pessoas tomarem por inexistente e irreal aquilo que está sempre presente e a tudo permeando, aquele Eu que é perfeito e autoluminoso, e que é de fato o centro do Ser de cada pessoa. Igualmente, a ilusão é aquilo que faz os seres tomarem por real e existente por si aquilo que é inexistente e irreal, isto é, a trilogia mundo ego-Deus.

O mundo é mesmo real, mas não como uma realidade independente e auto-subsistente, assim como o homem que você vê no sonho é real como figura onírica, mas não como homem.

O mundo é real tanto para aqueles que não realizaram quanto para aqueles que realizaram o Eu Real. Mas para os que não realizaram, a Verdade é delimitada pela forma do mundo, enquanto que para os que realizaram, a Verdade brilha como a perfeição sem forma a Realidade sobre a qual o mundo aparece. Esta é a única diferença entre eles.

[Um devoto relatou o que segue.]

Eu me lembro que o Bhagavan às vezes dizia que irreal (mithya, imaginário) e real (satyam) têm o mesmo significado, mas eu não entendi bem, então perguntei-lhe a respeito. 

Ele disse: “Sim, às vezes eu digo isso. O que você entende por ‘real’? O que você chama de ‘real’?”

Eu respondi: “De acordo com o Vedanta apenas aquilo que é permanente e imutável pode ser chamado de real. Este é o significado de ‘Realidade’.”

Então o Bhagavan disse: “Os nomes e formas que constituem o mundo estão constantemente mudando e desaparecendo, e por isso são chamados de irreais. É irreal (imaginário) limitar o Eu Supremo a estes nomes e formas e real considerá-los todos como sendo este Eu. O não-dualista diz que o mundo é irreal, mas ele também diz, ‘Tudo isto é Brahman’. Então fica claro que o que ele condena é ver o mundo como objetivamente real em si mesmo, sem encará-lo como sendo Brahman. Aquele que vê o Eu Real vê também o mundo apenas como o Eu Real. Para o Iluminado é irrelevante se o mundo aparece ou não, pois quer ele apareça quer não, sua atenção permanece sempre voltada ao Eu Real. É como as letras e o papel sobre o qual elas são impressas. Você está tão absorto nas letras que você esquece do papel, mas os Iluminados veem o papel como o substrato, quer as letras apareçam nele ou não.

Isso é expresso de maneira ainda mais sucinta assim:

Os Vedantins não dizem que o mundo é irreal. Isso é um equívoco. Se assim pensassem, qual seria o significado de texto Vedântico: “Tudo isto é Brahman”? Eles apenas querem dizer que o mundo é irreal como tal, mas real como sendo o Eu. Mas se você perceber o mundo como não-Eu, ele é irreal. Tudo o que existe, quer você chame de ilusão (Maya), Brincadeira Divina (Lila) ou Energia (Shakti), deve existir dentro do Eu Real, e não fora dele.

Antes de seguir em frente – tendo exposto a teoria de que o mundo é uma manifestação do Eu Real, desprovido de uma realidade objetiva – deve-se sublinhar mais uma vez que a teoria só era importante para o Maharshi na medida em que ajudasse o desenvolvimento espiritual do homem, e não era vista como um fim em si mesma. A cosmologia, como entendida pela física moderna, não lhe interessava nem um pouco.
Devoto: Os Vedas contém descrições conflitantes sobre a cosmogonia. Em um lugar dizem que o éter foi a primeira coisa a ser criada, noutro que foi a energia vital, noutro que foi a água, etc. Como tudo isso pode ser conciliado? Isso não prejudica a credibilidade dos Vedas?

Bhagavan: Diferentes observadores viram diferentes aspetos da verdade em tempos diferentes, e cada um enfatizou um ponto de vista particular. Por que você se preocupa com as suas declarações conflitantes? O objetivo principal dos Vedas é nos ensinar a natureza do Eu imperecível e mostrar que nós somos Isto.

Devoto: Quanto a esta parte eu estou satisfeito.
Bhagavan: Então trate todo o resto como argumentos auxiliares ou como exposições para o ignorante que deseja saber a origem das coisas.

O Major Chadwick estava copiando a tradução em inglês do texto Tamil Kayvalya Navaneeta quando se deparou com termos que teve dificuldade em compreender. Ele então questionou Bhagavan sobre eles, e Bhagavan respondeu:

“Essas partes lidam com teorias da criação. Elas não são essenciais porque o propósito real das escrituras não é expor tais teorias. Elas mencionam as teorias casualmente, em favor daqueles leitores que possam se interessar por elas. A verdade é que o mundo surge como uma sombra passageira em um holofote. A luz é necessária até para ver a sombra. Não vale a pena fazer nenhum estudo especial, análise ou discussão sobre a sombra. O propósito das escrituras é falar sobre o Eu Real – aquilo que é dito sobre a criação pode ser dispensado por hora.”

Depois, Sri Bhagavan continuou: “O Vedanta diz que o cosmos surge simultaneamente com aquele que o vê, sem expor nenhum processo detalhado de criação. É semelhante a um sonho, no qual aquele que experimenta o sonho surge simultaneamente ao sonho que ele experimenta. Entretanto, algumas pessoas se apegam tão firmemente ao conhecimento objetivo que elas não ficam satisfeitas ouvindo isso. Elas querem saber como a criação súbita pode ser possível, e argumentam que um efeito deve ser precedido por uma causa. Na verdade elas desejam uma explicação do mundo que veem a sua volta.

Então as escrituras tentam satisfazer sua curiosidade expondo essas teorias. Este método de lidar com o assunto é chamado de teoria da criação gradual, mas o verdadeiro buscador espiritual se satisfaz com a teoria da criação instantânea.”

La La Land: Cantando Estações
 (Trailer Legendado):



 
Fonte do texto: 
Os ensinamentos de Ramana Maharshi em suas próprias palavras 
 Editado por Arthur Osborne
Tradução: Niraj
Nota: eu já tinha partilhado parte deste texto Aqui

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