A Natureza Ilusória do Mundo | Ranjit Maharaj e Andrew Vernon


Ranjit Maharaj rodeado de discípulos


O encontro com o Mestre e a aceitação do ensinamento do Mestre ocorrem dentro da ilusão; como um encontro num sonho. Entretanto, para entender que a ilusão é mera ilusão, é necessário passarmos pela fase de adquirirmos conhecimento e aplicá-lo a nós próprios. O conhecimento que o Mestre transmite na forma de ensinamento não é, em última análise verdadeiro, no sentido de que o ensinamento é essencialmente apenas um sistema de ideias ou um conjunto de conceitos oferecidos ao aspirante como forma de dar algum sentido às suas experiências. As ideias e os conceitos, por mais úteis que sejam na ilusão, ainda estão dentro dessa ilusão e, portanto, não são verdadeiros. A aceitação do ensinamento do Mestre acontece devido à fé que o buscador tem no seu Mestre, embora essa separação entre o Mestre e o buscador também seja em última instância falsa. Apesar de tudo, a compreensão e a autorrealização ocorrerão para o buscador. Uma vez que a autorrealização tenha ocorrido, os ensinamentos do Mestre não serão mais necessários, assim como quando você chega à praia, você deixa o barco na beira-mar. - Andrew Vernon (baseado no ensinamento de Sri Ranjit Maharaj)


A NATUREZA ILUSÓRIA DO MUNDO

De SRI RANJIT MAHARAJ e de ANDREW VERNON

(As citações de Ranjit Maharaj estão em negrito e entre aspas, e os comentários são de Andrew Vernon)


1.1 "O mundo não é verdadeiro".

O mundo não é um fenómeno exterior. A perceção do mundo acontece espontaneamente no Ser (no Eu, no Si mesmo), no pano de fundo imutável da realidade, como um sonho que ocorre durante o sono. Você é esse Ser, e não um indivíduo, mas você simplesmente esqueceu-se disso. De facto, o individuo que parece ter-se esquecido também está participando espontaneamente como um dos personagens no sonho da vida, enquanto o Ser repousa pacificamente na sua própria completude, como Vishnu dormindo no oceano cósmico. Se um mundo surge, existe a consciência dele; se nada surgir, não existe consciência disso. O mundo que surge ou que aparece pode ser um mundo de sonhos ou ser este mesmo mundo do estado de vigília. O mundo que surge e aquele que o percebe surgem juntos e não estão separados. Tanto o mundo dos sonhos quanto o mundo do estado de vigília desaparecem quando você está no estado de sono profundo. Se eles fossem verdadeiros permaneceriam.

1.2 "O corpo está morto neste exato momento."

O corpo é como um aparelho que funciona quando a eletricidade está conectada a ele e deixa de funcionar quando a energia é desconectada. O corpo em si, tal como o aparelho, é uma coisa inerte - não tem vida própria. A vida que anima o corpo é um poder que transcende o sentido da existência individual. Qual é a natureza desse poder que dá vida a tudo o que vive? Esse poder é o conhecimento puro ou consciência Universal.

Enquanto esse poder estiver conectado, aquilo a que chamamos vida está presente. Está presente, mesmo quando o corpo e a mente desaparecem no estado chamado de sono profundo (sono sem sonhos), facto que é comprovado pelo facto de que, quando você acorda de manhã, diz: "eu dormi bem". Tal conhecimento seria impossível se o poder não tivesse sido contínuo durante o estado de sono profundo.

É este poder faz com que duas células vivas: macho e fêmea, se unam e formem um corpo físico, em primeiro lugar, e que continuem a fazê-lo crescer até ele chegar à maturidade. Esse poder permanece pelo espaço de tempo atribuído ao corpo e no final abandona esse mesmo corpo. Para onde vai esse poder?

Não vai para lugar nenhum, porque ele é omnipresente. O corpo se desintegra, retornando aos elementos grosseiros dos quais ele foi formado...

1.3 "Seja sempre corajoso. Diga que nada é verdadeiro."

Se você disser: "nada é verdadeiro", isso será um ato de coragem porque você tem de fazer essa  declaração sem qualquer apoio do mundo. Se você for ler um jornal, se você perguntar aos seus parentes ou se procurar em qualquer lugar lá fora, não encontrará nenhuma evidência para apoiá-lo.
Pior que tudo, você nem terá apoio das suas próprias perceções - os seus próprios olhos veem o mundo como uma coleção de objetos separados e a sua mente geralmente considera que é tudo  verdadeiro. No entanto, Maharaj disse que aquele que considera que o mundo é verdadeiro continua sendo um aspirante à verdade, enquanto alguém que não o considera como sendo verdadeiro torna-se uma pessoa realizada! É por isso que a fé é tão importante.

Somente a fé no mestre (e nas suas palavras) permite que você continue retornando ao pensamento de que o seu ponto de vista está correto (que nada é verdadeiro). Você tem que confiar na fé até você realizar a verdade do que ele diz, por você mesmo. Como um aspirante, a fé no mestre é realmente a arma mais poderosa que você tem. Não é diferente da Graça. Pode quebrar todas as barreiras que a ilusão coloca  no caminho da sua aspiração e conseguir dissolver o véu da ignorância. Onde houver fé, o poder de aceitar e entender o ensinamento do mestre também está lá.

1.4 "O mundo é apenas pensamento."

Imagine o que aconteceria se de repente você se encontrasse sem pensar e sem a possibilidade de pensar. Como é que o mundo apareceria para você? Você veria algum mundo de objetos separados? Você poderia reconhecer esta sala, esta página, estas palavras? Você poderia sentir emoções?

Você não reconheceria os objetos como estando separados de você e não veria nada além de você mesmo. A sua própria consciência constituiria o todo da realidade. O assim denominado mundo objetivo; isto é, o mundo aparentemente cheio de objetos separados é realmente uma ilusão. Este mundo existe apenas como nomes e formas. A mente não é a causa dessa projeção mundial; ela é apenas o mecanismo através do qual o poder divino (o conhecimento puro ou a consciência universal) está funcionando. Essa consciência é omnipresente e, portanto, é a realidade subjacente, o substrato dos objetos aparentes, incluindo a pessoa aparente que os percebe.

1.5 "Não tenha medo de nada nem de ninguém, pois tudo é simplesmente nada."

Na visão de uma pessoa realizada, não há nada além do Ser, do Eu. Comparado a essa realidade, tudo o que aparece não passa de um espetáculo passageiro. A Ausência de medo vem do conhecimento de que o que você realmente é não perecerá. É por isso que Maharaj deu o exemplo de que, se alguém aproximar e encostar um revólver à sua cabeça, você deve ser capaz de dizer "Tudo bem. É apenas o nome e a forma que morrem. Eu não morro". Isto pode parecer radical, mas é uma exemplo que lhe aponta qual é o objetivo. Enquanto você for um aspirante, é muito natural que o medo surja nessa situação, porque a certeza de que você não é o corpo não está presente. A absoluta certeza significa que você sabe a resposta para o pergunta "quem sou eu?" Além de qualquer dúvida. O medo da morte é, portanto, uma indicação clara de que você ainda precisa encontrar a resposta para essa pergunta.


1.6 "Todos os ornamentos nada são além de ouro."

Na Índia, quando os ornamentos de ouro são vendidos, o valor é calculado de acordo com o peso do ouro. Por exemplo, cinco pulseiras podem pesar 100 gramas de ouro e um colar pode pesar 100 gramas de ouro. A forma pode ser uma ou pode ser outra; a substância subjacente é o que importa. Essa analogia significa que todas as várias formas no mundo não são nada além de Brahman, a consciência que tudo permeia. Não há realmente nada que separe um ornamento de outro enquanto você está olhando apenas para a substância, o substrato, que é o ouro. Da mesma forma, não há nada para distinguir uma forma de outra forma se se entender que existe apenas uma realidade subjacente a todas elas.

1.7 "O corpo é apenas uma cobertura em mim."

No Vedanta, o corpo fisco é apenas uma das cinco coberturas, ou koshas. Todas essas coberturas, da mais subtil à mais grosseira (que é o corpo), são apenas aparências na tela da realidade. Se você considera que o corpo é algo que tem alguma existência independente, está cometendo um erro. (O santo Tukaram disse: "Eu cometi um erro enorme, tomando o corpo como sendo verdadeiro.") O corpo é uma ilusão. Ele vem, fica por um tempo e depois vai. Os problemas apenas surgem quando você se considera ser essa ilusão. Se você vê a ilusão como sendo uma ilusão, não há problema; pode permanecer nele sem lhe causar nenhum dano.

1.8 "Quando a respiração se extingue, nada fica."

O conhecimento da sua existência como ser vivo depende da presença do corpo físico. O alimento comido pelo corpo é processado e o produto mais refinado desse processo é o conhecimento "eu sou". Esse conhecimento é que permite que você experimente tudo neste mundo e que aja nele. Segundo o Vedanta, o número de respirações que o corpo vai fazer é predeterminado, e quando esse número é atingido, o corpo cai. Nessa altura, não restará nada, porque o conhecimento depende do corpo, e toda a aparência do mundo depende do conhecimento. Se você se identificou com esse conceito de "eu", então, você vai temer a morte, porque a morte é o fim desse "eu". Com o autoconhecimento, no entanto, você entenderá que o seu verdadeiro ser está além do conhecimento. Você também saberá que não será mais afetado pelo desaparecimento do conceito de "eu", tal como um espelho não é afetado pelo desaparecimento do reflexo.

1.9 "Diga que o que é verdadeiro é verdadeiro, e o que não é verdadeiro jamais será verdadeiro."

Uma maneira de você encarar o problema fundamental da vida é perceber que você sente falta de completude, de totalidade. Então, você tenta encontrar a solução para o problema buscando a felicidade nos fenómenos externos. Esse erro é baseado na sua inquestionável suposição de que o mundo é verdadeiro. Maharaj, portanto, instou os seus discípulos a questionarem constantemente essa suposição e a irem contra ela, afirmando exatamente o seu oposto. O objetivo desta afirmação é estabelecer em você o hábito de pensar corretamente para substituir o pensamento anterior errado. É natural que existam limitações para esta abordagem. O problema fundamental é um problema de autoignorância, e que só pode ser resolvido pelo autoconhecimento. Pensamento correto, no sentido da repetição das ideias corretas, não é um fim em si mesmo, mas é apenas um dos meios, uma outra maneira de tornar a mente mais subtil e prepará-la para a compreensão de "Quem sou eu".

1.10 "Tudo é nada."

Qual é o tipo de lógica que faz com que "tudo" seja igual a "nada"? "Tudo", neste sentido, significa todos os objetos que podem ser percebidos, incluindo os pensamentos e os sentimentos, bem como os objetos densos. Tudo isso, em conjunto, é referido nos Upanishads como "isso" (idam), em oposição à realidade, que é referida como "Aquilo" (tat). "Nada" significa não ter uma existência independente. Note que "nada" não significa "não ter existência de nenhum  tipo". Significa que a existência que os objetos possuem é apenas aparente (mithya, no ensino tradicional do  Vedanta). Uma aparência depende da realidade subjacente, do substrato, assim como as ondas dependem do oceano subjacente. As ondas não existem por si mesmas, somente porque existe a palavra-conceito "ondas", e que usamos para rotulá-las, assim como também rotulamos o "oceano" do qual as ondas fazem parte. No entanto, nem as ondas nem o oceano nada são realmente além da água.

1.11 "Nada acontece e nada é verdadeiro."

Pense nos eventos que aconteceram há dez anos. O que resta de tudo aquilo que ocorreu, todo o sofrimento e todo desgosto, toda a alegria e todo o carinho? Para onde é que tudo foi? Tudo desapareceu como se nunca tivesse existido. A mesma coisa está acontecendo com a sua experiência atual. Este exato momento chegou, trazendo consigo a sua particular experiência, apenas para desaparecer quase que instantaneamente. Quando a morte chegar ao corpo, o que é que a vida inteira terá representado? Qual será a soma total da realidade que foi acumulada através dessas experiências passageiras? A resposta é zero. Nada acontece e nada realmente aconteceu. Foi tudo um sonho. Apenas o fundo imutável, no qual todas essas experiências aparecem e desaparecem, é real. 





1.12 "Seja indiferente às coisas porque elas não existem."

Suponha que você acordasse no meio de um sonho e estivesse se movimentando e atuando nele.

Você vê todo o cenário e todas as pessoas, incluindo você mesmo. Entretanto, ao  mesmo tempo, você permanece consciente de si mesmo, como aquele em quem o sonho está acontecendo. Será que você não seria totalmente indiferente aos objetos e às circunstâncias do sonho? Esse é o tipo de indiferença que a pessoa realizada tem. O desapego dos objetos do mundo acontece naturalmente, sem nenhum esforço, quando eles são vistos como sendo nada.

1.13 "Se você disser: 'É tudo uma ilusão", você será um rei. Se você disser: 'É tudo verdadeiro', você será um escravo."

As coisas não são como parecem. A noção predominante de que alguém é uma pessoa a viver uma vida é uma ilusão. Na verdade, tudo o que existe é uma consciência totalmente livre que não está envolvida no espetáculo do mundo. Quem sabe disso e vê isso é um rei, aquele que está acima de toda a lei. A pessoa ignorante que considera o espetáculo como sendo real  permanece como escrava do corpo e da mente.

1.14 "Nada é mau nem nada é bom, porque nada é."

Ranjit Maharaj frequentemente dizia que não há nada de mau nem de bom no mundo. Com isso, ele quis recordar-nos de como as coisas são na realidade. Se uma coisa não é verdadeira, que credibilidade existe em dizer que seja boa ou que é má? Essa distinção só é válida para quem se identifica com a forma que vive no mundo, assumindo que é verdadeira. Conceitos de bem e de mal são frutos da imaginação e aplicam-se somente na ilusão. Na pureza e sacralidade do Ser não existe dualidade. Na verdade, não há absolutamente conceito nenhum nessa Unicidade.

1.15 "A mente retira você da realidade."

Se você fosse uma onda no oceano e começasse a pensar em si mesmo como separado do oceano, você viveria na superfície e seria açoitado de uma maneira ou de outra, e  perderia o contacto com a sua realidade inerente, que é a água de que você é feito. Isto é o que acontece com a mente ignorante. Ela não está separada de Brahman, a consciência universal, mas captou a ideia de que é um fenómeno separado. Enquanto essa ilusão persistir, a mente continuará surgindo para retirar você da realidade.

1.16 "O mundo que você vê não é mais do que um reflexo da realidade. O reflexo não pode ser verdadeiro."

Aqui, Ranjit Maharaj oferece-nos outra maneira de abordarmos a ideia de que o mundo é verdadeiro. A realidade é uma consciência absoluta, mas não se pode perceber a si própria, porque é Uma. Para que o conhecimento absoluto saiba que existe, ele deve se manifestar e se tornar dois.

O mundo é o espelho que o Absoluto usa para se perceber a Si mesmo. O reflexo não tem existência em si próprio. Esse ato de manifestação é a criação da dualidade, e na dualidade, o mundo inteiro aparece. No primeiro capítulo do Amritanubhav, Jnaneshwar, o grande santo Marathi do século XII, descreve esta aparência do mundo como o jogo de Shiva (o Absoluto imanifesto) e de Shakti (o poder divino manifesto):

Através dela,
O vazio absoluto torna-se o mundo manifesto;
Mas a Sua existência é derivada do Seu Senhor.
Shiva tornou-se o Seu amado;
Mas sem a presença d'Ela,
Nenhum universo existe.

1.17 "Quando você diz que a reflexo é verdadeiro, você está perdido."

Seria muito estranho se, quando você visse o seu rosto no espelho, supusesse que exista mesmo uma pessoa no reflexo. É perfeitamente óbvio que você é a causa desse reflexo. No entanto, isso não acontece com o mundo em geral. A mente é voltada para fora e crê no reflexo como sendo real e se esquece que toda a aparência depende inteiramente da existência daquele que a percebe.

A causa raiz da ilusão do mundo é esquecermos o nosso verdadeiro Ser. Você se lembra de si mesmo e pensa em si mesmo como sendo o corpo, a mente e o ego. No entanto, tomar a si mesmo como sendo o ego é esquecer que você é o Ser, o Eu, a realidade. Quando você se esquece que você é o Eu, você está perdido porque não percebe que os reflexos não estão separadas do Ser. Eles parecem ter uma existência ou uma vida própria.

1.18 "Enquanto a dualidade estiver presente, nenhuma felicidade é possível".

A dualidade aparece juntamente com o nosso sentido da existência individual. É um único pacote. Assim que você subscrever "eu sou isto", você também aceitará automaticamente "eu não sou aquilo". Quando a dualidade opera desta maneira, o senso de separação de tudo o mais, que é tudo o que é percebido como sendo "não-eu", é inevitável. Na verdade, você, inclusive, até concebe o Ser, o Eu, que você sempre é, como sendo algo separado de você. Você então pensa n'Ele como se fosse um objeto a ser alcançado e começa a procurar por si mesmo! O que poderia ser mais ridículo? Na dualidade, tudo se torna errado. Escusado será dizer que a felicidade, além de um mero sabor fugaz, não é possível nestas circunstâncias confusas.

1.19 "A roda do sofrimento acontece porque você diz: 'é meu.'"

O conceito de "meu" só faz sentido no contexto da dualidade e da separação. Na Unicidade, não há nada que seja meu, assim como não há nada que não seja meu. O sentimento de sofrimento proveniente da separação do mundo e de Si mesmo acontece porque você aceita o conceito de "eu" (ego). Como você aceitou esse conceito (como Sri Nisargadatta Maharaj disse), você também tem que aceitar todos os outros conceitos que o acompanham: "eu sofro", "eu estou com falta de algo", "eu preciso cuidar do que é meu", e assim por diante. A roda do sofrimento continua a girar até que esse conceito de "eu" seja rejeitado como sendo falso.

1.20 "A dualidade constrói você."

A natureza da vida ilusória, da nossa existência como sendo um ser humano individual, é a dualidade. A aparência (ilusória) do mundo inteiro é baseada na noção de que "eu" estou aqui e que existe um mundo lá fora.

Esta divisão é meramente um conceito e não tem base na realidade, que é Una. De onde vem a noção de dualidade? É construída na nossa própria consciência. Cada ser vivo é uma forma de consciência e tem o sentido de "eu sou", nos humanos como um pensamento, e nos outros seres sencientes como o senso de existência individual. Essa é a natureza da consciência manifesta.

Você assim não pode evitar a dualidade, porque estar consciente de si mesmo como "eu" significa que você tem que estar simultaneamente consciente daquilo que é "não-eu", e que é tudo o mais. Esta condição é transcendida pelo entendimento de que "eu" não se refere ao indivíduo separado, mas à realidade não-dual que é o seu substrato.

1.21 "Tudo aquilo que você vê não está lá. É espaço, é zero."

A física atómica do século XX demonstrou que toda a matéria nada mais é do que energia. Essa evidência científica apareceu milhares de anos após os sábios da antiga Índia expressarem a mesma verdade nos Upanishads! Os olhos físicos do corpo humano, é claro, não podem ver objetos tais como o espaço ou a energia. Devido às limitações da perceção visual, vemos os objetos como formas coloridas com margens que parecem separá-los das outras formas. Isto já não é mais uma maneira "correta" de vermos os objetos sólidos tridimensionais, porque nós deveríamos vê-los como luminosos, amorfos (que não têm formas determinada) e vivos. No entanto, é com a errada e ultrapassada perceção que nós ainda estamos acostumados.

O Vedanta afirma que os objetos do mundo são apenas "namarupa". Nama significa nome e rupa significa forma (ou seja não têm a substância que os nossos sentidos e mente lhes dão). As formas e os nomes caminham juntos no processo mental de percepção e de reconhecimento.

Ambos são somente projeções da realidade não-dual, da mesma forma que as imagens são projetadas numa tela. As imagens são apenas luz colorida, mas a luz em si é incolor. Os objetos, embora pareçam ter forma e sejam reconhecidos pelos seus nomes, não estão separados do espaço que os permeia. O espaço permite que todas as formas do mundo apareçam. Mas a realidade é ainda mais subtil que o espaço, porque é a realidade que está ciente do espaço.

1.22 "A verdade permanece sempre a verdade. Aquilo que não é verdadeiro nunca existiu."

O que significa que algo é verdadeiro? Significa aquilo que existe, que é real. A verdade não é uma ideia ou um conjunto de ideias, mas é uma indicador para aquilo que nunca aparece e que nunca desaparece, aquilo em que sempre se pode confiar. As palavras realidade, verdade e existência são todas apontadores para aquilo que sempre permanece. A verdade é existência permanente. Aquilo que não é verdadeiro, por outro lado, não tem nenhuma realidade e não pode existir, nem nunca existiu.

1.23 "Tudo é ilusão, mas para compreender a ilusão, a ilusão é necessária."

O encontro com o Mestre e a aceitação do ensinamento do Mestre ocorrem dentro da ilusão; como um encontro num sonho. Entretanto, para entender que a ilusão é mera ilusão, é necessário passarmos pela fase de adquirirmos conhecimento e aplicá-lo a nós próprios. O conhecimento que o Mestre transmite na forma de ensinamento não é, em última análise, verdadeiro, no sentido de que o ensinamento é essencialmente apenas um sistema de ideias ou um conjunto de conceitos oferecidos ao aspirante como forma de dar algum sentido às suas experiências. As ideias e os conceitos, por mais úteis que sejam na ilusão, ainda estão dentro dessa ilusão e, portanto, não são verdadeiros.

A aceitação do ensinamento do Mestre acontece devido à fé que o buscador tem no seu Mestre, embora essa separação entre o Mestre e o buscador também seja em última instância falsa. Apesar de tudo, a compreensão e a autorrealização ocorrerão para o buscador. Uma vez que a realização tenha ocorrido, os ensinamentos do Mestre não serão mais necessários, assim como quando você chega à praia, você deixa o barco na beira da água.

1.24 "Se algo não for verdadeiro, apenas deixe-o estar. Por que prejudicar ou destruir aquilo que não é verdadeiro?"

De um modo geral, não é necessário fazer nada sobre as circunstâncias externas da nossa vida. Quando você é um buscador, você precisa ter a certeza de que possui as qualificações necessárias para receber e aceitar o conhecimento do Mestre. Além disso, você deve simplesmente deixar a vida continuar, enquanto concentra o seu tempo livre e a sua energia na compreensão do ensinamento.

Tentar destruir o ego ou forçar a mente a parar o seu fluxo de pensamentos é contraproducente. Tais "esforços" apenas fortalecem o senso da existência do ego e o (falso) papel de fazedor do ego. Após a realização, fica claro que não há mesmo nada que precisasse ou que precise de ser feito porque já não existe um (falso) conceito de "fazedor". A vida continua com os seus padrões sempre em mudança continua, mas a pessoa realizada permanece una com a realidade imutável e omnipresente, o substrato de tudo.

1.25 "O que está aí quando tudo é zero? O que é verdadeiro?"

Ranjit Maharaj costumava dizer "Nada é verdadeiro". Alguém perguntava: "Certamente que as suas palavras são verdadeiras?" Mas ele respondia: "Não, as palavras do Mestre não são verdadeiras e o Mestre também não é verdadeiro".

E, quando ele disse "nada", ele realmente quis dizer isso! Uma maneira de perceber isso é perceber a palavra "nada" como "nenhuma coisa" ("nothing", em inglês em "no thing"), de modo que a frase se torne "nenhuma coisa é verdadeira".

Imagine uma balança com um Zero de um lado e com um Um do outro. Qualquer coisa que possa ser objetivada - pensamentos, sentimentos, sensações e experiências, bem como tudo o que consideremos serem objetos físicos no mundo grosseiro - tudo isso é colocado no lado do Zero da balança e é chamado de "isto" (idam em Sânscrito). No outro lado da balança - o lado do Um - está Aquilo que nunca pode ser objetivado, mas que está sempre lá. Não é uma "coisa" e é chamado de "Aquilo" (Tat em sânscrito). Isso é o que é verdadeiro.

1.26 "Tudo está errado, nada é verdadeiro. Todo o mundo está correndo na direção errada."

Ranjit Maharaj, por vezes, citou uma frase que o seu mestre, Sri Siddharameshwar Maharaj,  escreveu num pequeno livro chamado The Golden Day: "O mundo inteiro está galopando para o inferno".

Nesse livro, Siddharameshwar Maharaj comenta como todas as invenções e dispositivos do século XX apenas aumentam o stress e a infelicidade na vida das pessoas. Cada vez mais a ênfase humana estava sendo colocada na busca da satisfação rápida, na busca de um estilo de vida orientado para o prazer, tudo num ritmo muito acelerado. Ele escreveu a sua crítica na Índia na década de 1930. O que ele teria dito se tivesse vivido para ver os anos 90? O poder da chamada "sabedoria do mundo" apanhou na sua teia quase todo o mundo. No Vedanta, diz-se que milhões de vidas podem surgir antes que realmente surja um nascimento humano em que haja um anseio por Deus e com todas as qualificações necessárias para buscá-Lo. Somente quando esse anseio estiver presente num humano, é que esse mesmo humano começará a ir na direção correta.

1.27 "Você não conhece nada. Aquilo que é verdadeiro, você não pode conhecer."

É característico do ego acreditar que sabe tudo o que precisa saber.

Muitas pessoas falam e agem como se soubessem exatamente como é o mundo, a maneira correta de se viver, a maneira correta de se comportar. Elas nunca questionam a validade de suas opiniões.

Cientistas, materialistas, ateus, assim como (quase todos) os crentes das religiões instituicionalizadas, sentem que estão no caminho certo para a verdade. E, no entanto, todo esse conhecimento científico e mundano é conhecimento sem valor. O conhecimento dos objetos não dura. Ele desaparece completamente quando o conhecedor adormece. Aquilo que verdadeiramente existe, o Ser (o Eu), não pode ser conhecido porque não é um objeto. Os olhos podem-se ver a si mesmos? O Ser é o que você é. Você não pode sair de Si mesmo para se autoconhecer.

1.28 "A ilusão não pode dar nada à realidade, porque a realidade está na base de tudo o que é."

Todos os lugares fascinantes e paisagens magníficas do mundo, todas as belas plantas e flores, a enorme variedade de espécies de animais e as multidões de seres humanos - nenhum deles tem qualquer efeito sobre o Ser. Eles não acrescentam nada à realidade quando surgem e não retiram nada da realidade quando desaparecem.

A realidade, o Ser, é a base de tudo o que aparece, a fonte. O Ser permanece absoluto, completo em Si mesmo, se existirem um bilhão de mundos, e permanece absoluto, completo em Si mesmo se não houver nenhuma manifestação.

1.29 "Quando nada é, tudo é apenas um conjunto de crenças e de conceitos mentais."

Nós vivemos num mundo de interpretações. O mundo em si não tem significado; ele apenas tem o  significado que nós damos a ele. Uma criança pequena não experimenta um mundo de coisas, um mundo de objetos separados, mas experimenta apenas a si mesma. Gradualmente, à medida que os conceitos e crenças se acumulam nela, o mundo toma forma, baseado no senso de "eu" (ego que se vai desenvolvendo). Nada (nenhuma coisa) está fora do sentido da nossa própria existência. Tudo está contido nisso. A multiplicidade da criação aparente emerge do senso de "eu" como uma grande árvore se desdobrando a partir de uma pequena semente. A aparência do mundo denso depende dos pensamentos e dos conceitos do mundo subtil, e a aparência do mundo subtil depende, por sua vez, do espaço e do nada do mundo causal. Antes do princípio, não há nada lá, e depois, no princípio, é "a Palavra". Essa palavra é "eu".

1.30 "Os cinco elementos que compõem o corpo retornarão aos cinco elementos. O poder retorna ao poder. Apenas o nome e a forma, que são ilusões, desaparecem."

Quando a morte ocorre, os elementos do corpo físico voltam ao pó e às cinzas, enquanto a  consciência pura retira-se imaculada da forma individual com a qual foi identificada. O que chamamos morte é limitada apenas ao nome e à forma. Porque é que o nome e a forma são ilusórios? Porque eles aparecem e desaparecem. Se o tempo pudesse ser bastante acelerado, veríamos um ser humano emergir do nada, crescer da infância para a adolescência, da adolescência para a idade adulta e da idade adulta para a velhice, e retornar ao nada em apenas uma questão de segundos. Até mesmo a fama de um Shakespeare desapareceria após alguns minutos. Tal experiência do tempo seria desagradável para nós, porque os nossos sentidos estão acostumados a um processo de crescimento e decadência que decorre muito devagar. No entanto, esta aceleração temporal não seria uma forma menos correta de se ver o processo de aparecimento e desaparecimento, apenas seria uma forma ainda desconhecida para nós. A realidade não entra neste ciclo; a realidade permanece como o pano de fundo imutável, no qual ocorre o jogo de nascimento e morte.

1.31 "Mesmo que tudo pareça ser, nada é. Tudo se parece tal como um truque de cartas."

Sri Nisargadatta Maharaj disse que, embora se possa dizer que o mundo apareça, não se pode dizer que o mundo Seja. Aquilo que é, tem uma existência real, enquanto que, aquilo que apenas aparece não é verdadeiro. O poder de Maya faz este mundo aparecer e nos engana para nós o considerarmos como sendo verdadeiro. É assim que o poder de Maya vela ou oculta o Ser com a ignorância.

Na ignorância, você se esquece da sua verdadeira natureza como o Ser e se leva a ser uma entidade separada entre muitos outros. Enquanto você permanecer ignorante do Ser, a sua verdadeira natureza, você não conseguirá ver através do truque desta aparente criação. A autoinquirição, transporta-nos ao autoconhecimento, removendo essa ignorância, e com ela, a remoção da ilusão da nossa existência como sendo uma entidade separada.

Ranjit Maharaj

Tradução livre de:
A natureza ilusória do mundo
O Caminho do Pássaro
Citações de Ranjit Maharaj
Comentários de Andrew Vernon
http://misticismonaturalmn.blogspot.pt/2016/11/the-illusory-nature-of-world-sri-ranjit.html

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