Purusha e Prakriti | Helena P. Blavatsky




"Aos olhos do infinito, todo o orgulho nada mais é do que cinza e poeira." - Leon Tolstoi

"Dormia no terraço, ao ar livre, e os raios oblíquos do sol matinal me despertavam. Vestia-me às pressas, punha debaixo do braço uma toalha, um romance francês, e ia-me banhar no riacho, à sombra de um bétula que ficava a meia versta de casa. Depois, estirava-me e lia, parando às vezes para contemplar o lilás sombrio da superfície do riacho que começava a se agitar ao sopro da brisa da manhã, ou o campo dourado de centeio que ficava na margem oposta."...  - Leon Tostoi


PURUSHA E PRAKRITI 

SEGUNDO O GLOSSÁRIO TEOSÓFICO DE HELENA 
PETROVNA BLAVATSKY

PURUSHA

Purusha (é uma palavra sânscrita) que significa "Homem" (Homem Celeste). Espírito; o mesmo que Nârâyana* sob outro aspeto. O "Eu espiritual". [Na filosofia Samkhya designa-se com este nome o Espírito, em contraposição à Matéria (Prakriti ou Pradhâna)]. É um Princípio elementar, primordial, simples, puro, espiritual, consciente, eterno, não-criado, não-produtor, imutável, inativo, mera testemunha ou espectador das operações da Prakriti e que, "como espelho cósmico, nele se reflete e se revela todo o Universo, ou seja, todas as mudanças que se operam na Prakriti, no curso da evolução". (Shultz) Segundo a filosofia secreta, o Purusha e a Prakriti são os dois aspetos primitivos da Divindade Una e desconhecida. (Doutrina Secreta, 1, 82) Em sua origem, são a mesma coisa; porém, ao chegarem ao plano da diferenciação, cada um deles evolui numa direção oposta, caindo o Espírito gradualmente na Matéria e esta ascendendo à sua condição original, aquela de pura substância espiritual. Ambos são inseparáveis e, contudo, estão sempre separados.

Assim como no plano físico dois pólos iguais se repelem, enquanto que dois pólos opostos se atraem, com o Espírito e a Matéria ocorre o mesmo; são os dois pólos da mesma Substância homogénea, o Princípio radical do Universo. (Doutrina Secreta, 1, 267-268.)

Em sua condição livre, o Purusha é tão distinto de tudo o que conhecemos e tão acima do alcance de nossa limitada compreensão, que só pode ser definido através de negações, ou seja, "não é nem isto nem aquilo", "nem de tal ou de qual modo". Contudo, pode-se afirmar que é Pensamento abstrato, sem objeto, e a Luz que ilumina a vida espiritual.

É também o Espírito de Vida que anima a Matéria (Prakriti), e por seu contacto lhe dá atividade, da qual se originam as mudanças sucessivas que experimenta e que vão repercutir sobre o próprio Purusha. Ao contrário de Prakriti, é simples, não composto, e portanto é absolutamente isento de modos ou qualidades (gunas), que caraterizam a Matéria. O Purusha é o sétimo Princípio, o Atman, o Sujeito ou verdadeiro Eu, e daí que, segundo a filosofia Samkhya, o número de Purushas é incontável, pois cada corpo, cada ser da criação tem seu próprio Purusha Particular ou individual. Da união do Purusha com a Prakriti (ou seja, do Espírito com a Matéria) originam-se todos os seres animados e inanimados. O Purusha, como já se disse, é inativo, porém toda a atividade da Prakriti é empregada exclusivamente a seu favor e proveito, visto que, apresentando objetos de sensação e conhecimento ao Espírito, este entesoura experiência, chegando assim ao conhecimento de Si mesmo e, por conseguinte, à libertação.

Opostamente ao Purusha múltiplo fa filosofia Samkhya, apresentada acima, onde é o Eu ou o Espírito individual de cada ser, há o Purusha único da filosofia Yoga, que é o Ishvara, Deus ou Senhor Supremo de nosso Universo.

Além dos significados de Espírito, Espírito divino, Espírito individual, Espírito do universo ou Alma do mundo, Espírito radical ou primordial, a palavra Purusha tem muitas outras aceções: Homem; Homem celeste; varão; Ser ou Princípio masculino; causa ou potência criadora ou geratriz, Criador, Princípio vivificador ou animador, Ser, Princípio, Causa; pessoa, indivíduo, ser humano, herói, servidor, amigo etc.




PRAKRITI

Prakriti (é uma palavra sânscrita) que significa a Natureza em geral; a Natureza em contraposição ao Purusha - a natureza espiritual e o Espírito, que juntos são os "dois aspetos primitivos da Divindade única e desconhecida". (Doutrina Secreta, 1, 82) Prakriti significa a Natureza ou o mundo material, a Matéria primordial e elementar, a causa ou essência material de todas as coisas, a Matéria no mais alto sentido da palavra, desde o mais denso e grosseiro (o mineral) até o mais subtil e etéreo (o éter, a mente, o intelecto) e significa também a natureza espiritual, que são apenas os dois aspetos primitivos da Divindade Una e desconhecida. (Doutrina Secreta, 1, 82.) O Purusha e a Prakriti (Espírito e Matéria) são, em sua origem, a mesma coisa; porém, ao chegarem ao plano da diferenciação, cada um deles começa seu progresso evolutivo em direções opostas. Assim, pois Brahman é essencialmente Espírito e Matéria. (Ib., 1, 267,457) A Prakriti é dual na metafísica religiosa, porém, segundo as doutrinas esotéricas, é setenária, como todo o universo. (Ib., 1, 39)

A Prakriti ou Natureza (a Raiz de tudo) não é criada, não é uma produção, mas é produtora. Segundo o Samkhya-Karika, as produções (tattvas, formas ou princípios) da Prakriti, também chamadas de sete Prakritis ou Naturezas da Prakriti são: Mahat (ou Maha-Buddhi), Ahamkara (ego) e os cinco Tanmatras. Cada partícula ou átomo da Prakriti contém Jiva (vida divina) e é o corpo do Jiva que contém; assim como cada Jiva é por sua vez, o corpo do Espírito supremo, uma vez que " Parabrahaman impregna cada Jiva, bem como cada partícula da Matéria". (1, 569)

A rigor, Prakriti e Pradhâna** não são palavras sinónimas; há diferenças entre ambas. A Prakriti é um aspeto do Pradhâna; este último (Prakriti subtil) é a base original, a causa material, sem princípio nem fim, causa não-desenvolvida, não-evolucionária, a Matéria não-manifestada, a Natureza material visível e invisível. (1, 595, 636)

Segundo a filosofia Samkhya-Yoga, existem dois princípios igualmente não-criados e eternos: Purusha e Prakriti (Espírito e Matéria, que, por sua mútua união, dão origem a todos os seres animados e inanimados. (Bhagavad Gita, 13, 26) Porém, diferem completamente entre si, pois opostamente ao Purusha, a Prakriti é inconsciente, produtora, sempre ativa e incessantemente sujeita a movimentos, mudanças e transformações. A Prakriti, além disso, não é uma substância simples, como o Purusha, mas é constituída pelos três gunas (modos, qualidades, ou atributos) denominados respetivamente sattva, rajas e tamas, que não simples acidentes da matéria, mas que de são sua própria natureza e entram em sua composição, como os ingredientes que integram o produto.

Os três gunas estão universalmente difundidos na natureza material; existem em todas as criaturas, determinando o carácter ou condição individual pela proporção em que se encontram em cada um dos seres. Graças à sua atividade e potência produtora, a Prakriti (Matéria) pode apresentar-se em dois estados distintos: 1º Matéria caótica, sem diferenciação ou manifestação (avyaksa), isto é, a massa informe destinada a converter-se em todo tipo de formas ou produtos materiais, e 2º) matéria diferenciada ou manifestada (vyaksa), que constitui as inumeráveis formas ou diferenciações acidentais e transitórias dos seres da Natureza; formas ou entidades que, após uma existência longa ou breve, morrem, dissolvendo-se no oceano de matéria informe da qual surgiram.

Produtos da prakriti são, como já se disse, o Buddhi, Ahamkara (ego) e outros princípios que, por desempenharem funções tão nobres e elevadas causam surpresa ao figurarem entre os produtos materiais. Porém, isso é bastante lógico: quando se considera o Buddhi, o primeiro e o mais espiritual, por assim dizer, de todos eles, é limitado, ativo, sujeito a mudanças e modificações e distinto em cada indivíduo, diferenciando-se nesse aspeto do Purusha (Espírito), que é imortal, imutável, passivo ou mero espetador das operações da Natureza.

A Prakriti, como foi dito anteriormente, é inconsciente, porém, adquire uma consciente aparente, um toque de consciência, digamos, graças à sua união com o Purusha, do mesmo modo que um cristal incolor nos parece vermelho, quando nele se reflete um objeto de tal cor. A associação de ambos os princípios foi comparada com a aliança entre um paralítico (o consciente, porém inativo Purusha) e um cego (a inconsciente, porém ativa Prakriti). Se o cego levar sobre os seus ombros o guia paralítico, ambos podem chegar ao término de sua peregrinação, formando assim o homem perfeito.


Notas:

* Narâyâna (sânscrito) - Aquele "que se move sobre as águas" do Espaço. Epíteto de Vishnu, em seu aspecto de Espírito Santo, que se move sobre as Águas da Criação (Mani, livro 2). Na simbologia esotérica, representa a manifestação do princípio vital, difundindo-se no Espaço Infinito ["As águas foram chamadas de nârâs porque foram produzidas por Nara (o Espírito Divino, o Espírito nascido de si mesmo) e, por serem elas o primeiro lugar do movimento (ayana) de Nara, este foi denominado de Nârâyana (o que se move sobre as águas) (Leis de Manu, 1, 10). É preciso notar que por Nara ou Nârâyana deve se entender Brahma, o Criador. Entre os Iniciados do Norte, a ciência sagrada ou sabedoria secreta é representada pela Água; esta última é a produção ou corpo de Nara (Paramatman) e assim Nârâyana significa; "aquele que reside no abismo" ou está submerso nas Águas da Sabedoria. (Doutrina Secreta, 2,520)]


** Pradhâna (sânscrito) - Matéria indiferenciada, chamada em outras partes e em outras escolas de Âkaza e designada pelos vedantinos com o nome de Mûlaprakriti ou Raiz da matéria. Em resuma: a Matéria primordial ou original. [Pradhâna, ou seja, Mûlaprakriti dos vedantinos, é a massa imensa de matéria em estado caótico, informe ou indiferenciada, a matéria original, a causa primordial do universo, a substância de que são formadas todas as coisas da Natureza; o princípio não-criado e eterno, oposto ao Purusha (Espírito). Nas escolas Samkhya e Yoga, a palavra Pradhâna é sinónimo de Prakriti. Contudo, o autor do sistema Vedanta estabelece algumas diferenças entre as duas, aplicando o nome de Pradhâna à matéria ou causa material do Universo e de Prakriti à Natureza. (Darzana, pag. 64) O termo Pradhâna é igualmente empregado para designar as natureza material. Significa também: a pessoa ou coisa principal, chefe, cabeça, etc. Algumas vezes este nome é utilizado para designar o Espírito Supremo e, de facto, o Pradhâna é um aspecto do Parabrahman, segundo lemos na Doutrina Secreta, 1, 277.]

FILOSOFIA SAMKHYA - PURUSHA E PRAKRITI

(Um vídeo esclarecedor sobre o Purusha e Prakriti na filosofia Samkhya)

Este vídeo apresenta uma introdução à filosofia Samkhya indiana, abordando seus conceitos fundamentais: Purusha (a essência do ser humano) e Prakriti (a natureza). Purusha é a resposta proporcionada pelo Sankhya à pergunta: "Quem sou eu?". Trata-se de uma visão do ser humano completamente diferente da que é oferecida pela filosofia ocidental e que é fundamental para se compreender os aspectos mais profundos do Yoga tradicional indiano, sintetizado por Patañjali na sua obra Yoga-Sutra. Este vídeo foi produzido pela equipe Shri Yoga Devi (http://www.shri-yoga-devi.org) e tem narração de Roberto de Andrade Martins. O fundo musical é "Dhun Kafi", por Ravi Shankar (Youtube)





Textos:
Purusha e Prakriti:
Helena Petrovna Blavatsky (Glossário teosófico)
Citações de Leon Tolstoi:
https://educacao.uol.com.br/biografias/leon-tolstoi.htm?cmpid=copiaecola
Vídeo:

Comentários

Mensagens mais visualizadas dos últimos 7 dias