Arunachala - David Godman


Arunachala


"O corpo do homem é uma limitação. Somente o Espírito se abre para o infinito." - Michel Quoist

ARUNACHALA

Por David Godman


Eu estou sentado perto da sagrada montanha de Arunachala em Tamil Nadu, Sul da Índia. 

Pediram-me para explicar porque é que este é considerado um lugar santo, um lugar sagrado para tantas pessoas. E porque é que algumas dessas pessoas, tais como Ramana Maharshi, dizem que este é o lugar mais santo e sagrado no mundo.

Eu vou retroceder no tempo, e vou começar com o mito que deu origem à sacralidade de Arunachala.

A história tradicional hindu deste lugar, é que há muito tempo atrás, Brahma e Vishnu, dois dos três principais deuses hindus, estavam a ter uma disputa sobre qual deles era o maior. Shiva não estava presente mas estava ciente dessa disputa, e decidiu ensinar a estes dois deuses uma lição. 

Então, Shiva veio aqui e manifestou-se como uma longa e infinita coluna de luz, e desafiou os outros dois deuses que estavam em disputa a descobrirem uma das duas extremidades dessa coluna de luz. 

Quem descobrisse, seria o maior dos dois e maior que o próprio Shiva. 

Vishnu tomou a forma de um javali e começou a escavar a terra em busca da extremidade inferior da coluna de luz, e Brahma tomou a forma de um cisne e começou a voar em sentido ascendente à procura do topo da coluna.

Vishnu penetrou e penetrou na terra durante milhares de anos, até que desistiu e regressou. Prostrou-se perante Shiva e disse-lhe que era maior do que ele próprio porque não conseguiu encontrar o fundo da coluna de luz.

Entretanto, Brahma já tinha voado bem alto por milhares de anos, e estava a ficar, incompreensivelmente, um pouco cansado, mas não queria desistir. Viu uma flor que flutuava para baixo desde o topo da coluna de luz. 

Como esta história é mitológica existem também flores que falam, e Brahma questionou a flor, querendo saber de onde é que ela tinha vindo, e quão longe ainda ficava o topo da colina. 

A flor disse-lhe para ele não perder mais nenhum tempo porque ela já vinha descendo há muitos milhares de anos e ele nunca conseguiria chegar ao topo da coluna de luz.

Brahma já estava muito cansado e pensou em usar a flor num esquema enganoso. Ele disse à flor que se ela dissesse a Shiva que ele a tinha apanhado no topo da coluna de luz, ele ajudá-la-ia a descer até ao chão. A flor concordou em contar a mentira a Shiva. Brahma ficou muito satisfeito, e pensou que já tinha vencido o desafio e seria considerado o maior dos deuses.

Quando chegaram ao chão, a flor contou a Shiva que Brahma a tinha colhido no topo da coluna, mas é claro que Shiva já sabia que esta era uma história enganosa e que Brahma nunca tinha ido até ao topo da coluna de luz. Shiva amaldiçoou Brahma dizendo-lhe que a partir daquele momento não iriam existir templos dedicados a Brahma na Índia, e que ninguém iria adorá-lo. Esta era a sua maldição. 

Shiva também amaldiçoou a flor e disse que ela nunca seria considerada como um género de flor usada para adoração nos templos.

Hoje em dia, existem somente dois templos na Índia inteira dedicados a Brahma e este género de flor jamais é usado hoje em dia nos templos da Índia inteira.

Brahma e Vishnu acabaram por serem humildes e reconheceram a superioridade de Shiva em relação a eles, e prostraram-se a ele, pedindo-lhe pelo seu perdão.

De acordo com a tradição a coluna de luz era demasiado brilhante e deslumbrante para alguém olhar para ela sem ficar cego. Os deuses pediram então a Shiva se ele podia manifestar-se numa forma que seria Shiva na mesma, mas que pudesse ser vista, visitada e adorada por peregrinos sem que ninguém ficasse cego pela sua luz.

Shiva aceitou o convite e solidificou-se na montanha que é Arunachala. A chave para compreender a perspetiva de um hindu que vê esta montanha, é que nós não estamos meramente a falar de uma montanha onde Shiva vive ou que esteja associada com Shiva de alguma maneira. Esta montanha, para milhares e milhares de hindus do Sul da Índia é o próprio Shiva.

Esta montanha é um Lingam vivo. Ela não representa Shiva, a montanha é a própria forma física de Shiva.

Jnanasambandhar, que muito provavelmente, é o mais antigo santo Tamil e que escreveu sobre este lugar há mil e quinhentos anos atrás, chamou à montanha "Jnana-tiral" que em Tamil, significa uma condensação de Jnana (Yoga do Conhecimento).

Esta era uma das descrições favoritas de Bhagavan Ramana Maharshi sobre a montanha sagrada Arunachala. É Shiva condensado, solidificado numa forma que é puro Conhecimento, que é Deus, e que está fisicamente presente num local da Terra onde peregrinos podem-se aproximar e adorá-Lo.

Existem claro, outros lugares sagrados no Sul da Índia. De acordo com a tradição Shaiva, que são seguidores de Shiva, existem cinco principais templos dedicados a Shiva no Sul da Índia, e cada um deles está associado a cada um dos cinco elementos. Existe um templo da terra, um templo do água, um templo do ar, etc.

Como a infinita coluna de luz surgiu ocasionalmente na mitologia como sendo uma coluna de fogo, Arunachala tornou-se o Lingam de Fogo do Sul da Índia.

Embora se possa dizer que é um dos principais lugares do Sul da Índia onde os peregrinos se dirigem em peregrinação, para muitos devotos este lugar é o próprio Deus, e que não existe nenhum outro lugar na terra assim.

O Lingam é considerado sob diferentes formas: existe a própria montanha como um Lingam, e existe também o Lingam do templo principal, localizado na lado Leste da montanha, o templo Arunachaleswara. De acordo com as escrituras, a montanha é igualmente o Lingam do templo.

Portanto, tradicionalmente não existe nenhuma separação entre o Lingam localizado no interior do templo principal e a montanha Arunachala. Os dois são a forma de Shiva, e os dois são adorados pelos Shaivas como o próprio Shiva.

OS SANTOS DE ARUNACHALA

Esta montanha exerceu uma espécie de atração magnética em pessoas espiritualmente maduras, desde que há registos deste lugar.

As mais antigas visitas verificável desta montanha que eu tenha conhecimento, é a de santos que vieram cá no século cinco d. C.. E quando cá vinham cantavam orações dedicadas a Arunachala devido à sua grandeza e sacralidade.

É muito claro pelas suas reverentes canções e pelas suas observações, que eles estavam a descrever um lugar que tinha já uma rica e mais antiga história.

Eles não vinham cá e diziam que este era um local sagrado recente, pelo contrário, eles vinha cá e diziam que este era um lugar vindo de um tempo imemorial como sendo uma manifestação de Shiva, e cantavam canções em adoração a este facto.

Foi questionado a Ramana Maharshi, que é provavelmente o mais famoso recente devoto da montanha, se o poder desta montanha é resultado da crença de toda a gente crer que ela é especial, ou se existe algo inerentemente poderoso na própria montanha que provoca a vinda das pessoas aqui, independentemente das suas crenças. Ramana respondeu que, analogamente ao fogo, esta montanha é  tal como um fogo, e se você puser um dedo no fogo, acredite nisso ou não, você irá queimar o seu dedo. 

Ele disse que esta montanha é uma montanha de fogo espiritual. Ela atrai pessoas, e todas as pessoas que se aproximem dela, aquecem-se e no fim são carbonizadas por este fogo.

Existe uma linha em particular que Bhagavan usou uma ou duas vezes. Ele disse que houve um santo que viveu no lado Este da montanha há cerca de quatrocentos anos atrás, e que num dos seus poemas ele escreveu: "Arunachala, tu atrais para Ti própria todos aqueles que são ricos no Jnana Tapas".

Eu preciso explicar o que é que isto significa. Jnana significa a experiência última da Realidade, a iluminação, e Tapas é o árduo esforço que se faz para se obter esse objetivo sagrado. Portanto, o que ele está a dizer é que todas as pessoas que tenham um forte anseio pela libertação, um forte anseio por Jnana, de alguma forma, Arunachala, o poder de Arunachala tem conhecimento disso, e começa a atrair essas mesma pessoa para virem para cá.

Historicamente, pelo menos durante, no mínimo 1500 anos, este poder de Arunachala atraiu uma grande quantidade de santos.

Alguns vinham para cá e cantavam as suas orações, e um grupo significativo de pessoas que sentiram a sua atração, e que vieram para cá, que viveram aqui, que passaram toda a sua vida aqui confirmaram aquilo outros grandes santos disseram, ou seja, que existe um poder neste lugar que não depende da mera crença, mas que existe um poder neste lugar que é uma emanação, uma radiação da Divindade, e se você conseguir se sintonizar com esta emanação, com esta radiação, você mesmo se tornará divino.

ARUNACHALA E SRI RAMANA

As pessoas costumavam vir para o Ashram de Ramana Maharshi quando ele estava vivo e diziam que tinha sido o poder de Ramana que as tinham atraído para irem lá, e algumas vezes ele costumava dizer que as pessoas estavam projetando tudo isso nele próprio, mas aquilo que tinha encaminhado ele próprio a Arunachala tinha sido o poder de Arunachala. Portanto, ele dizia que o que estava a atrair esses devotos era o mesmo poder que o tinha atraído a ele também. Para Ramana Maharshi o derradeiro poder, a derradeira atração vinha da própria montanha e do seu poder. Arunachala atrai-nos para nos rendermos aos seus pés.

Isto foi o que aconteceu no próprio caso de Bhagavan Ramana maharshi, portanto ele tinha uma autoridade única e genuína para falar sobre isto.

Ramana nasceu a algumas centenas de quilómetros de distância daqui, de Arunachala, e após alguma agitação na sua ainda jovem vida, quando ele tinha 16 anos de idade e vivia em Madurai, teve uma espontânea experiência de Iluminação. Veio para Tiruvannnamalai e viveu o resto da sua vida neste lugar sagrado.

Porquê Tiruvannamalai? É muito interessante. Ele disse num dos seus poemas: "Desde a minha  infância que a imensidão de Arunachala apareceu na minha consciência." O que isto quer dizer é que mesmo muito antes de Ramana ter a simples capacidade de pensar sobre Arunachala, antes de ele mesmo poder saber o que esta montanha era, algo dentro dele soube intuitivamente, instintivamente que Arunachala era Deus, de alguma forma. Ele disse que Arunachala estava presente nele como um conhecimento instintivo mesmo antes de lhe surgir o pensamento coerente, e que esteve presente nele durante toda a sua vida. Como criança, e no género de bagagem cultural que ele estava inserido, ele disse que a sua projeção desse sentimento interior era que Arunachala era algum género de Céu, de Paraíso, que não era um lugar que pudéssemos visitar na Terra. Ele tinha uma imagem da montanha do santo lume, como se ela pertencesse a algum reino celestial. O mais sagrado reino celestial imaginável.

Imaginem o choque dele, quando chegou a adolescente, e soube que um dos seus familiares tinha acabado de chegar de Arunachala, Tiruvannnamalai. Ele questionou o familiar sobre esse lugar que tinha visitado, sobre a sua autenticidade, como sendo um lugar real aqui na Terra. O familiar disse-lhe que ficava a apenas algumas centenas de quilómetros de distância de onde viviam, e que muita gente ia lá.

Isto deixou Ramana um pouco dececionado, por ele via Arunachala como fazendo parte de um mundo inalcançável, etéreo, celeste, equivalente ao próprio Deus. Mas depois, eu penso que os sentimentos anteriores, a antiga convicção que Arunachala afinal não fazia parte de um distante reino celestial, mas que ela era o próprio Deus manifestando-se na terra reafirmou-se em Ramana Maharshi.

Após a sua experiência de iluminação quando ele ainda vivia em Madurai, ele sentiu uma espécie de compulsão para sair de sua casa, e que o único destino possível para ele seria Arunachala. Nessa altura ele considerava Arunachala como seu Pai, mas eu pensou que ele mais tarde rearticolou esse sentimento, como sendo o seu Guru, mas na nota que ele deixou para a sua família, quando desistiu da sua vida em Madurai e veio para cá, ele disse: "Na busca pelo meu Pai." Ele sabia que vinha para ver o seu Pai espiritual, e que nunca mais regressaria a casa.

Ele chegou aqui a Tiruvannamalai com dezasseis anos de idade, em 1896, sabendo antecipadamente que ele vinha ver o seu Pai, unir-se com o seu Pai, estar com o seu Pai, e apresentar-se pessoalmente aos pés do seu Pai. Permitindo em seguida que a vida seguisse o seu próprio curso.

Ele chegou aqui no dia 1 de Setembro de 1896, e a primeira coisa que aconteceu foi ele atravessar um templo vazio, e todas as portas parecerem abrirem-se à frente dele. Ele dirigiu-se ao Lingam principal existente no fim do templo, totalmente sozinho, nem mesmo os sacerdotes estavam lá, atravessou a barreira de segurança que não era suposto atravessar, e abraçou fisicamente o Lingam do templo. Isto não era permitido, e Ramana guardou segredo disto durante muito tempo. Mas ele disse que, desde o momento da sua experiência de iluminação em Madurai até ao momento que abraçou o Lingam no templo houve sempre uma sensação de calor, de ardor no seu corpo, e no momento que abraçou aquele Lingam foi como toda essa sensação finalmente assentasse, se tivesse dissipado, e nunca mais apareceu.

Se lembram-se do que eu disse, o Lingam é considerado como uma manifestação de Shiva. A montanha Arunachala é o grande Lingam, e o Lingam no templo Arunachaleswara é a versão mais pequena.

Ramana fisicamente encenou uma união com o seu próprio Guru, com o seu próprio Deus. Ao ultrapassar aquela barreira e ao abraçar o Lingam ele permitiu que o seu corpo apreendesse a união, que já tinha ocorrido com Ramana em madurai.

Ele trouxe o seu corpo até à forma física do seu Guru, o seu Deus, abraçou essa forma física. Aquela sensação de calor ardente que esteve sempre no seu corpo durante semanas desapareceu.

Ele saiu do santuário interior do templo, e nunca mais lá regressou. O seu assunto com aquele Lingam em particular tinha terminado.

Ele veio para Tiruvannamalai, uniu-se ao seu Deus, e a partir daquele momento, ele apenas deixou que o destino seguisse o seu curso.


O fogo no cume de Arunachala durante o Festival Kartikai Deepam


O FESTIVAL KARTIKAI DEEPAM

Eu penso que a maioria das pessoas na Índia conhecem Tiruvannamalai, talvez devido a Ramana Maharshi, mas mais provavelmente devido ao festival religioso Deepam. Deepam significa "Luz", e é uma celebração da tradicional história de Brahma-Vishnu que eu contei à pouco, onde Shiva manifestou-se como uma coluna de luz, e que mais tarde solidificou-se numa forma capaz de ser adorada pelos peregrinos.

Então, uma vez por ano, por volta da lua cheia, entre a segunda metade do mês de Novembro e a primeira metade do mês de Dezembro existe um mês Tamil chamado Kartikai, e durante essa altura sucede-se este festival.

É um festival enorme, e no último dia desse festival estão aqui presentes em Tiruvannamalai cerca de dois milhões de pessoas, e uma luz é acendida no topo da montanha. Ela é acendida ao pôr-do-sol, no último dia do festival, e depois é reacendida nos dez dias seguintes.

A maioria das pessoas que aqui vêm para o festival caminham pela manhã ao redor do sopé de Arunachala, e isto é um fenómeno extraordinário. É um rio tão compacto e tão veloz de pessoas, que não existe nenhuma hipótese de se atravessar a estrada. Não existe um único espaço vazio. Essas pessoas regressam em alturas diferentes, ao meio dia, à tarde, e então sentam-se e aguardam pelo acender da chama no topo da montanha. E é isto, ver a luz de fogo é o momento chave para a maior parte das pessoas, e depois disso vão para casa. Mas, todo este festival é realmente uma celebração do estatuto da montanha como sendo uma manifestação de Shiva, e como é permitido aos devotos terem uma forma visível de Shiva para adoração, porque a coluna de luz original da manifestação de Shiva era uma luz demasiado encadeante para as pessoas verem.

A ATRAÇÃO DE ARUNACHALA

Ramana Maharshi veio para cá no ano de 1896 com a idade de dezasseis anos, e mesmo com as diversas tentativas de quererem levá-lo para outras zonas da Índia, ele nunca foi persuadido a afastar-se mais do que um quilómetro e meio do sopé da montanha.

Ele passou aqui toda a sua vida adulta, e morreu aqui aos setenta anos de idade, em 1950. Jamais perdeu a sua visão da montanha durante esses cinquenta e quatro anos.

Qual era a sua atração?

Se você estiver neste estado de Jnana (Yoga do Conhecimento), então você saberá que existe algo nesta colina que faz com ela deixe de ser um mero conjunto de rochas, porque você verá, você sentirá e você saberá.

Jnana...

A Realidade sem forma que os hindus chamam Jnana. Essa é a Verdade, a Realidade, Aquilo que é Real.

Uma vez uma pessoa escreveu uma carta para o Ashram, dizendo: "Por favor, tire uma rocha da parte mais sagrada da montanha e me envie, porque eu quero uma rocha da parte mais sagrada da montanha." Ramana Maharshi riu-se e disse: "Cada pequena pedra desta montanha é sagrada. Não existe lugar mais sagrado ou lugar mais poderoso, você pode tirar uma rocha de qualquer parte que você quiser, porque é totalmente indiferente, já que toda esta montanha é sagrada."

Há algo acerca desta montanha, que eu acho que ele viu, que ele sabia que era a luz, o conhecimento, a sabedoria. Estes são todos sinónimos do Ser. O poder que emana desta forma física de luz, desta forma física de conhecimento, trouxe e manteve Ramana Maharshi aqui, e nunca houve nenhuma maneira de levá-lo embora de Arunachala. Esta montanha era o seu Guru, o seu Deus. Este era o seu destino: ele ia se sentar aqui e passar o resto da sua vida aqui.

Eu posso citar uma ou duas pessoas. Eu fiz uma pesquisa sobre um santo famoso, que veio originalmente de Karnataka, chamado Guhai Namashivaya. Ele veio cá no século dezasseis, e ele tinha um Guru em Karnataka que lhe disse que ele podia vir aqui, depois de ter tido um sonho dizendo-lhe que ele devia vir.

Este homem veio, e de certa maneira a vida deste santo espelha a vida do próprio Ramana Maharashi, já que ele também considerou a montanha como sendo seu Guru, ele confiou na Graça e no poder de Arunachala, e através do seu poder, ele realizou o Ser, e depois passou cada dia do resto da sua vida escrevendo poemas acerca da montanha, louvando-a, agradecendo-lhe, dizendo que tinha sido a montanha que lhe tinha trazido a sua própria libertação.

Ramana Maharshi, em certo sentido, não é único em relação a Arunachala, ele é apenas um dos últimos grandes e maduros santos que foram atraídos para este lugar, pelo poder deste lugar, e que foram de alguma maneira puxados para esta montanha pelo seu poder, e a montanha escolheu não os libertar daqui, portanto, eles passaram o resto da suas vidas aqui.

UMA HISTÓRIA PESSOAL

Eu vim para Arunachala, Tiruvannamalai nos anos setenta, pensando que eu vinha para aqui por causa de Ramana Maharshi, mas depois eu pensei tal como Ramana habitualmente dizia aos seus devotos: "Você começa com essa ideia, que aqui vem por causa de mim, mas no fim você percebe que é o poder desta montanha que o trouxe aqui."

Eu não estou a dizer que sou alguma coisa especial, eu sou apenas uma das inumeráveis, incontáveis pessoas que sentiram a sua atração, que sentiram o seu magnetismo, o poder deste lugar, sendo atraídas para a montanha, como um ferro é atraído pelo magneto, sem qualquer força competitiva para afastar-se, e que acabaram passando aqui toda a sua vida.

Mantém-me aqui, e porque eu não estava no mesmo maduro e iluminado estado como outras pessoas, eu lutei com o poder de Arunachala tentando fugir algumas vezes. Cada vez que eu tentei fazer alguma coisa em outro lugar, o que quer que fosse, não corria bem. Se eu fosse sentar-me com algum mestre corria tudo bem, mas se eu tentasse dar uma escapada, tudo corria desastrosamente errado, e cada vez que eu regressava aqui, tudo voltava a correr muito bem. Finalmente eu percebi: "Ok, não vires as costas ao teu destino aqui. O teu destino é estar aqui, e fazer as coisas que tu fazes. Se tentares fugir não vai funcionar."

Eu lembro-me de um dia que circundava a montanha, por volta dos anos setenta - e eu vim para aqui muito novo, com muito pouco dinheiro, apaixonando-me imediatamente pelo lugar, mas sempre houve este sentimento dentro de mim: "Eu estou somente em visita. Eu não tenho muito dinheiro, e mais tarde ou mais cedo terei que comprar um bilhete e voltar para casa." Portanto, viver aqui não foi uma decisão consciente da minha parte -, era de manhã, e subitamente, parei. Eu estava a caminhar e o passo seguinte não se sucedeu, e senti-me rodar noventa graus em direção à montanha, e algo em mim, nesse momento soube imediatamente que algum poder tinha-me trazido a Arunachala, algum poder fazia-me ficar, que não era a minha decisão, e que quando esse poder acabasse, ele poderia cuspir-me e eu teria que me ir embora, tivesse meios ou não para me sustentar.

Esse mesmo poder enviou-me a Tiruvannamalai, para aqui estar por uma razão. A partir desse momento nunca mais me preocupei com o tempo que aqui estaria, como é que eu me ia sustentar. Até esse momento estava sempre a olhar para a minha carteira, quanto dinheiro é que eu ainda tinha. A partir desse momento foi um total deixar fluir, um total relaxamento. Foi uma espécie de epifania. 

Um reconhecimento que eu estava em casa, e que a minha casa não está noutro lado qualquer que eu tivesse de regressar.

A minha casa era esta montanha, este lugar, fazendo aquilo que mais amo. Depois disso todas as circunstâncias da minha vida encaixaram. Eu estou aqui desde esse momento em que caminhava pela montanha há quarenta anos atrás. Eu continuo aqui continuando a fazer aquilo que mais amo, e não tenho nenhum plano para estar em mais lugar nenhum.


CAMINHANDO PELA MONTANHA SAGRADA ARUNACHALA 
(o vídeo tem doze minutos de duração):

https://www.youtube.com/watch?v=EbNvTdhrCUM



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