Os Poetas - Santos da Índia


Kabir* (1440—1518) 


"Ó Sadhu (homem-santo, monge andarilho, místico)!

Ouve minhas palavras imortais.
Para teu próprio benefício, considera-as bem.
Tu te afastaste do Senhor, da árvore na qual floresceste.
Afastando-te, perdeste o senso. Perdendo o senso, compraste a morte.

Todos os saberes, todos os ensinamentos provém dele. De quem mais?
Se tens isto por certo, o que há para temer? Então, nada teme.
Qualquer nome que invoques nomeia o Sem Nome.
Entende isto e livra-te do ardil das palavras.

Ele habita o coração de todas as coisas.
Por que, então, se refugiar no deserto desolador?
Se pões o Senhor longe de ti, o que reverencias é a distância.
Se o Senhor não está perto, quem é, então, que sustenta este mundo?

Kabir diz: Por que sofres com a dor da separação, se Ele te preenche?
Conhece-te a ti mesmo, ó Sadhu, e o conhecerás integralmente.
Pois, dos pés à cabeça, não há nada em ti que não seja Ele.
Canta com alegria e o sentirás em teu coração."

-Kabir


OS POETAS - SANTOS DA ÍNDIA

de Utpal K. Banerjee

A síntese evocativa e poderosa da poesia, da música, da dança e da religião como exemplificada pelo movimento único de Bhakti (devoção), na Índia medieval é um desses momentos que surgem raramente na história de uma nação. Os poetas-santos eminentes, que deram um credo novo e acessível ao povo indiano em contacto íntimo com os ritmos da sua vida, eram instrumentais na transformação do conceito tradicional de religião, substituindo-o com o conceito do Bhakti, como a essência da fé e o caminho verdadeiro para Deus.

No processo, eles também conseguiram inundar a literatura indiana com canções, poemas e composições musicais escritos na linguagem do homem comum, com simplicidade e franqueza na sua mensagem. Ao mesmo tempo tinham um nível de complexidade que ia muito além.

Não se limitando aos assuntos filosóficos e espirituais, os poetas-santos lutaram contra a ortodoxia formal, as práticas rituais e a profissão de sacerdote. Eles condenaram a falsidade e o fanatismo e pregaram que todos tinham acesso ao Nirvāna (salvação). Isto tinha uma implicação claramente social – visto que Deus pertence ao credo de amor, e as suas criações não tinham nenhuma outra origem. Uma vez que o Ātman (alma) se reúne com o Pāramātman (o Ser Supremo), o aspirante é unido com Deus "como a água se mistura com o leite, a água se funde com a água, o sal se dissolve na água; sem qualquer dualidade" (Dadu, século XVI). Nos séculos XV e XVI, Kabir dizia o mesmo: "O cântaro está na água, há água no cântaro; a água está em toda a parte".

Assim, a ideia central do Bhakti era a crença de que se pode unir com Deus através do amor e devoção não condicionais. O amor tinha sido desde muito tempo uma metáfora para a experiência espiritual e religiosa da Índia. O Yajur Veda diz, “Que todos os seres me vejam como os olhos de um amigo! Que eu vejo todos os seres como os olhos de amigo!”. Um trecho no antigo Brihadaranyaka Upaniṣad semelhantemente compara a consecução de esclarecimento com a experiência de "uma pessoa no abraço de uma Alma inteligente, que não sabe nada dentro ou fora; o seu desejo está saciado".

Historicamente, o movimento devocional foi causado sob a influência do Budismo e Jainismo, os quais deram ímpeto ao hinduísmo para o processo que se pode designar como auto-purificação.

Dentro da tradição hindu, um sentimento forte de protestantismo tem sido sempre ativo resistindo contra o sacerdócio e rituais, advogando a necessidade de voltar para a origem sem rituais. A tendência devocional espalhou-se por toda a parte da Índia e penetrou todos os modos de viver para efetuar as retificações que desde há muito precisavam. Entre estas retificações encontrou-se o sistema de casta, e um membro da casta mais baixa tornava-se muitas vezes no preceptor muito venerado da casta mais alta. Consequentemente, os mais importantes textos religiosos ficaram disponíveis ao povo comum numa linguagem e dicção que podiam ser assimilados facilmente. Além disso tudo, o movimento criou uma das mais ricas tradições da poesia hínica e composição musical do mundo.

Esta tradição, por sua vez, influenciou a maioria das artes visuais e representantes.

O movimento devocional floresceu primeiro no sul da Índia. No século VII uma tradição formou-se de Azhvars (poetas vishnuitas) que incluíram, entre os seus doze poetas principais um rei, um lavrador, um membro da classe oprimida, uma pessoa pertencendo à tribo do suposto criminoso e a poetisa Andal que foi considerada como Meera sulindiana. Prabandham, a compilação das suas canções, consiste em 4.000 versos que ainda são cantados por milhões em grupos corais.

Uma outra tradição que cresceu em torno do século IX, X era a de Thevaram, o ciclo de canções contributo dos santos shivaitas como Nayanar, Appar, Uniya Vacchar, Thirugyan Sammandar e Sundarāmurthy.

Os contos e as lendas dos poetas Thevaram ainda existem nas pinturas, no recinto interno do templo de Brihadeshwara. Também existem ainda as canções de Andal. Ainda se canta a Tiruppavai impregnada do misticismo nupcial no templo de Srivillapur no mês de Margasirsa (de 15 de Dezembro a 15 de Janeiro).

O movimento reformador Shivaita de Basava no século XII deu no surto de uma grande tradição lírico - filosófica em Karnataka.

O movimento devocional adquiriu velocidade à mudança do milénio. Rāmanuja, o preceptor eminente vishnuita do sul da Índia, baseou o seu sistema não tanto sobre o lógico abstrato do monismo de Śaṅkara como sobre as intuições poéticas.

Ele influenciou a disseminação do movimento no norte sendo Rāmānanda de Varanāsi um adepto da sua tradição no século XV. Entre os poetas santos (e os discípulos de Rāmānanda) encontrava-se o sapateiro Ravidās, o tecelão Kabir, o lavrador Dhanna e o barbeiro Sena, além do comerciante Sadna.

Entre eles Ravidās era o mentor da princesa Meera, e Sena era o mentor do rei de Bandhavgarh. Tulsidās, que escreveu o Rāma Charita Manas e tinha acesso a todas as famílias norte indianas até finais do século XVI, que eram influenciadas profundamente por Rāmānanda

O movimento Bhakti consistiu em duas tendências principais.

Filosoficamente, a mais forte era a Nirguṇa (adoração ao invisível), que se ligou ao Ser Supremo e explicou o misticismo em metáforas de amor.

Mas a tendência mais calorosa, compassiva, poética e acessível à imaginação comum era a Saguṇa (adoração do visível).

Alguns poetas-santos de Nirguṇa eram Prem-margi (quer dizer, eles seguiram o caminho de amor), com uma proximidade notável com os poetas Sufis. Outros cantores - sábios de Nirguṇa eram Gyan-margi (quer dizer, eles seguiram o caminho do conhecimento). Estes incluíram Kabir, Nanak, Eknath, Gyaneshwar, Tukaram, Malleshwari e Rāmliṇga Adigal.

Os santos - músicos de Saguṇa seguiram ou Kṛṣṇabhaktidhāra (adoração de Kṛṣṇa) ou Rāmbhaktidhāra (adoração de Rāma). Enquanto o primeiro grupo incluía Jayadev, Sri Chaitānya, Haridās, Surdās, Meera, Vidyapati e Purandaradās, o segundo Tulsidās, keshavdas, Bhasskar e Kamban.

Deve-se citar Kabir especialmente. Era o tecelão e poeta-santo de Uttar Pradesh que estabeleceu Rāma e Rahim como sinónimos completos.

Escrevendo dohas (coplas) e exprimindo o seu amor para Deus Omnipresente, a sua filosofia humanista censurou as convenções de casta, credo e culto. Os seus pensamentos e compreensões espirituais eram incisivos e encontraram um lugar na Adigranth, a escritura sagrada dos Sikhs.

O poeta cego Surdas, um contemporâneo do imperador Akbar e um mentor de Tansen, compôs canções repletas de devoção pura e dilacerante nas suas obras, nomeadamente Sursagar, Sursaravali e Sahityalahari. A sua adulação ao menino Kṛṣṇa revela um conhecimento profundo da psicologia de crianças.

Meera, a princesa-poetisa do século XVI, revoltou-se contra a ortodoxia palaciana pela sua escolha de uma vida ascética, orientada para Deus, de oração e devoção. Como Andal, Meera viu-se como a noiva de Kṛṣṇa e desabafou as suas ânsias espirituais em poesia emotiva que transcendeu barreiras regionais.

Ainda se ouvem as composições de Kabir bem como as de Meera por toda a parte da Índia. Muitos poetas anónimos escreveram os seus líricos em nome destes dois poetas venerados.

Em Maharashtra, Gyaneshwar estabeleceu o edifício místico por meio da sua poesia esquisita.

Namdeva e Eknath construíram sobre este edifício e o pináculo glorioso foi erguido por Tukaram no século XVII com 4.600 abhangs (canções bem construídas).

As canções de Tukaram demonstraram grande simplicidade, devoção profunda e intimista franca com Vithala de Pandharpur, o seu querido Deus pessoal.

Em Karnataka, a filosofia de dualismo promovida por Mādhavachārya deu origem a muitos poetas sob o apelido de Haridās (criado de Deus), que compuseram canções inumeráveis abrangendo orações, filosofia e reformas comunicadas na linguagem simples do povo comum.

A literatura devocional Kannada veio de Narahariteerth no século XIII, de Sripadaraya e Vyasaraya nos séculos XV, XVI e Vijayadas nos séculos XVII, XVIII.

O movimento atingiu o seu cume no século XVI, quando Purandaradāsa e Kanakadhara, sob Vyasaraya, compuseram um grande corpo de canções devocionais.

A literatura de Kirtana de santos vishnuitas imaginaram o eu, como um devoto do Deus.

Na literatura Telugu, kṛṣṇamachārya do século XIV, compôs poesia devocional chamada Champus e prosa chamada Vachana continuados mais tarde por Pothana, Annamachārya, Rāmadāsa e Thyagarāja. Este último viveu no século XVII, como um epíteto de renúncia e compôs quase 800 canções, dando ênfase sobre Nadopāsana (a música com devoção). A sua música tem um conteúdo irresistível com um impacto espiritual inequívoco sobre os auditores até hoje.

Se Purandaradāsa foi o antepassado principal da música carnática, Thyagarāja foi um membro da Trindade, sendo os outros dois Muthuswāmi Dikshitar e Shyama Shastry.

A reunião da estrutura Bhakti com um rico património popular de Bengala deu surto a uma ordem de cantores, poetas e compositores que se chamaram Bauls.

As canções de baul eram uma expressão da rejuvenescência espiritual. Segundo a sua crença, o nosso corpo é o templo do Deus (comparável à filosofia Sahajiya). Eles trataram a consciência como a escritura, não admitiram nenhuma forma externa de adoração e não sustentaram nenhuma forma de organização. Mostrando uma afinidade destacável com os santos Sufis, os bauls também eram os que gostavam de uma vida simples e eram embriagados com a Verdade em qualquer forma. Lalan Shah Fakir, um baul bem conhecido, declarou com claridade incomparável:

“Para que nunca mais tenha uma vida humana como a atual, porque não seguir os ditames da sua mente e se esforçar pela perfeição?”.

O sufismo, a partir do século VII, tinha a crença mística que se podia alcançar o mundo espiritual só por amor (ishq) para Deus e o intelecto não tinha nenhum acesso a ele.

O caminho (tasawwuf) do sufismo constituiu em contrição (tauba), abstinência (vara), austeridade (zuhud), pobreza (faqr), gratidão (shukr), confiança (tawwakul), paciência (sabr) e satisfação (rida).

O desenvolvimento da poesia urdu deve muito aos santos sufis. Amir Khusro, o discípulo bem conhecido de Saikh Nizamuddin Aulia, era o primeiro poeta principal que usou hindustani, e as suas dohas continuam a ser cantadas popularmente por Qawwals.

A poesia sufi em hindi acrescentou um novo efeito lírico ao misticismo. De certo, o hindi estabeleceu uma ligação entre os poetas sufis e os bhaktas, os dois grupos procurando os alcances maiores da Realidade. Os dois eram radicais em que se revoltaram contra o formalismo e ortodoxia religiosos. Os dois esforçaram-se por criar um mundo de felicidade espiritual.

Os poetas sufis de Punjab e Sindh usaram os contos populares cativantes, tais como o de Heer Ranjha, para dar uma expressão ao conceito de amor como uma noção mística. Bulle Shah, eminente poeta mística de Punjab, representou a alma saudosa de Heer como o amador e Deus como amante e todas as suas dificuldades como impedimentos para a sua união.

Havia mais outros poetas-santos, nomeadamente, Vemāna, o procurador da verdade, de Andhra; Pothana, o rebelde contra o poder real; Rahim de Punjab; os poetas de Ashtachhap (Oito Sinais) de Rājastham e de Uttar Pradesh; Rāmprasad Sen e Kamalakanta (adeptos ardentes de Śakti) de Bengala e outros. De certo, todos os santos em realidade, músicos, poetas ou dançarinos são uma unidade composta de todos estes três.

Estendendo-se para o povo comum na sua linguagem quotidiana, os santos Bhakti e sufis praticamente deram origem a uma revolução social.

Visto que o amor sem fim para Deus era o único critério, todos se tornaram iguais. Promovendo um relacionamento direto entre o homem e o seu Deus, os poetas-santos e os sufis eliminaram o clero tradicional (como o Buddha fez no século VI a.C. e Martin Luther na Reformação Europeia). Eles aumentaram a confiança das massas pobre sem tomar em consideração a sua casta e apoiaram integrar os vários elementos do sub-continente indiano numa sociedade que funcionou como uma unidade única. Isto foi a maior harmonia que qualquer movimento podia atingir!


Inquebrável, Ó meu Senhor,
é o amor
que me prende a ti.

Como um diamante,
ele quebra o martelo que o atinge.

Como o brilho que se prende ao ouro,
meu coração vai até ti.

Como o lótus vive na água,
eu vivo em ti.

Como o pássaro
que contempla a noite inteira
a lua que passa,
eu me perdi, morando em ti.

Ó meu Amado,
retorna! 

- Poema de Meera para Krishna (aprox.1498-1550) 

"O amor não revela nenhuma ferida exterior, mas a dor invade cada poro do meu corpo.
A devota Meera oferece este corpo a Krishna" - Meera


* Kabir (1440—1518) foi um dos grandes poetas místicos ou santos-poetas da Índia medieval, tendo composto poemas que evidenciam a fusão entre o movimento de bhakti (devoção) hindu e o sufismo muçulmano, movimentos religiosos que exercem profunda influência cultural em todo o mundo até os nossos dias.

Kabir nasceu numa família de brâmanes hindus e foi mais tarde adotado por muçulmanos, no norte da índia, perto de Varanasi.

Ainda jovem tornou-se discípulo Ramananda, que no norte da Índia difundia a doutrina de bhakti como promulgada por Ramanuja no sul do sub-continente, no século XII.

Kabir foi contemporâneo de outros protagonistas famosos do movimento de bhakti da Índia medieval, tais como Mirabai, Caitanya, Tulsidas e Guru Nanak, o principal preceptor dos sikhs.

Kabir ficou famoso por desdenhar profundamente qualquer tipo de designação ou filiação religiosa, e sua filosofia e ideais de relacionamento amoroso com Deus eram expressos de maneira metafórica, conforme tanto a corrente vedantista do hinduísmo (advaita) quanto a corrente de bhakti, empregando o hindi, na forma vernacular.

Kabir expunha seus princípios religiosos de forma bastante simples, onde a vida nada mais é do que uma interrelação entre Deus (paramatma) e a alma individual (jivatma), visando a união e harmonia. Ele considerava útil para a conclusão desta união a observância de alguns princípios religiosos, alguns tipicamente hindus como o conceito de um Absoluto, a reencarnação e as leis do karma, outros tipicamente sufis como o ascetismo e misticismo, tendo influenciado não somente os hindus e muçulmanos da sua época, como também enormemente os sikhs, a ponto de Kabir ser considerado um dos gurus do principal preceptor dos sikhs, Guru Nanak.

Mas na verdade, em sua obra mais eminente, o Bijak (a Semeadura), ele rejeitava tanto os Vedas quanto o Corão, e advogava a simplicidade do caminho sahaja (o caminho natural; lit “da sua própria maneira”) que a alma individual acaba se unindo ao Absoluto. Sua grande obra filosófica é considerada a quintessência do ecletismo religioso e pode ser resumida com a sua expressão mais famosa: “Koi bole Ram Ram Koi Khudai..”, “quer alguém cante Rama (nome hindu de Deus) ou Khuda (nome árabe de Deus) ...” o objetivo é sempre o mesmo, pois Deus é um só.

Existe uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas, dizendo que tanto hindus quanto muçulmanos brigavam pelos seus restos mortais, os hindus desejando cremá-los conforme a sua tradição e os muçulmanos querendo enterrá-los, seguindo os seus costumes. Quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as muçulmanas e um buquê de suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

A poesia de Kabir tornou-se conhecida no Ocidente em 1915, quando Rabindranath Tagore traduziu, para o inglês, cem de seus poemas, cuja edição foi realizada com a colaboração de Evelyn Underhill. Esta versão está disponível no Projeto Gutenberg.

Em 2003, a obra de Kabir foi traduzida com maior abrangência e rigor, por Vinay Dharwadker. Canções de Kabir foi traduzida por Arvind Krishna Mehrotra.

A tradução brasileira dos cem poemas, foi feita por José Tadeu Arantes, a partir da versão inglesa de Tagore. Doze poemas em versão portuguesa estão disponíveis no blog do tradutor.


Kabir

Os Poetas - Santos da Índia
Fundação Maitreya
http://www.fundacaomaitreya.com/
Cortesia da Revista India Perspectives.
Poema de Kabir
https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/03/22/12-poemas-de-kabir/
Poema de Meera
http://www.shri-yoga-devi.org/home.html
Kabir: Wikipédia

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