O Conhecimento de Si Mesmo | Aldous Huxley




O CONHECIMENTO DE SI MESMO

"Em outras criaturas viventes, a ignorância de si é natureza; no homem, é vício." - Boecio

O vício pode definir-se como uma linha de conduta em que a vontade consente e que tem resultados que são maus, primeiro por ser eclipsadores de Deus, e em segundo termo, porque são física e psicologicamente danosos às pessoas ou à seus semelhantes. A ignorância de si mesmo é algo que corresponde a esta descrição. Em suas origens, é voluntária; pois, pela introspeção e escutando os julgamentos alheios sobre nosso caráter, podemos todos, se o desejarmos, alcançar um perspicaz conhecimento de nossas taras e fraquezas e dos motivos reais de nossas ações, que não são sempre os confessados e anunciados. Se a maioria de nós ignora, isso é porque o conhecimento de si mesmo é doloroso e preferimos os prazeres da ilusão.

Enquanto às consequências de tal ignorância, são males segundo todo critério, do utilitário ao transcendental. Porque a ignorância de si mesmo leva a uma conduta irrealista, com o que ocasiona toda classe de transtornos para todos os interessados; e mais ainda, porque, sem o conhecimento de si mesmo, não pode haver verdadeira humanidade; nem, portanto, efetivo desânimo; nem, mesmo, conhecimento unitivo da divina Base que está debaixo do eu, ordinariamente eclipsada por este.

A importância, a indispensável necessidade do conhecimento de si mesmo foi sublinhada pelos santos e doutores de todas as grandes tradições religiosas. Para nós os ocidentais, a voz mais familiar é a de Sócrates. Mais sistematicamente que Sócrates, os expositores hindus da Filosofia Perene insistiram no mesmo tema. Aí está, por exemplo, o Buda, cuja dissertação sobre "O estabelecimento da atenção" expõe (com esse esgotamento positivamente inexorável, característico das Escrituras pali) toda a arte do conhecimento de si mesmo em todo os seus ramos —conhecimento do corpo, dos sentidos, dos sentimentos, dos pensamentos próprios. Esta arte do conhecimento de si mesmo é praticada tendo em vista dois objetivos. O objetivo imediato é o de que é "um irmão, por isso o que faz ao corpo, continua considerando o corpo de tal modo que permanece fervoroso, sereno e atento, sem ânsia nem melancolia. É o mesmo quanto a sentimentos, pensamentos e ideias; continua considerando-os de modo que permanece fervoroso, sereno e atento; vencido o anseio e a melancolia comuns no mundo". Mediante esta desejável condição psicológica e além dela, encontra-se a finalidade última do homem, o conhecimento do que jaz sob o eu individualizado. Em seu próprio vocabulário, os escritores cristãos expressam as mesmas ideias.

"O homem tem em si muitas peles que cobrem as profundidades de seu coração. O homem sabe muitas coisas; mas não se conhece si mesmo. Trinta ou quarenta peles ou couros, como de boi ou de urso, grossas e duras, cobrem a alma. Entra em seu próprio terreno e aprende ali a se conhecer a si mesmo." - Mestre Eckhart

"Os néscios consideram-se despertos agora, tão pessoal é seu conhecimento! Pode ser como príncipe, pode ser como pastor; mas todos tão seguros de si mesmos!" - Chuang Tsé

Esta metáfora do despertar dos sonhos apresenta-se, uma e outra vez, nas diversas exposições da Filosofia Perene. Em tal contexto, a libertação poderia definir-se como o despertar das necessidades, pesadelos e prazeres ilusórios do que ordinariamente se chama vida real, no ensinamento da eternidade. A "serena certeza da beatitude do despertar" — essa maravilhosa frase com que Milton descreveu a experiência da mais nobre classe de música — chega, suponho, tão perto da iluminação e salvação como podem fazer as palavras.

"Você (o ser humano) é o que não é. Eu sou o que sou. Se perceber esta verdade em sua alma, jamais lhe enganará o inimigo; escapará de todos os seus laços." - Santa Catalina de Siena

"O conhecimento de nós mesmos nos ensina de onde viemos, onde estamos e onde vamos. Viemos de Deus e estamos no desterro; e porque nosso poder de afeto tende para Deus, advertimos esta condição de desterro." - Ruysbroeck

O progresso espiritual se obtém mediante o crescente conhecimento do eu como nada e da Divindade como a Realidade que abrange tudo. (Tal conhecimento, é óbvio, não tem valor se for meramente teórico; para ser eficaz, deve advertir-se como uma experiência intuitiva imediata, e se deve obrar em consequência.) Sobre um grande mestre da vida espiritual, escreve o professor Etienne Gilson. "O deslocamento do temor pela caridade mediante a prática da humildade; eis aqui no que consiste toda a ascese de São Bernardo, seu começo, seu desenvolvimento e seu término." Temor, preocupação e ansiedade formam o núcleo central do eu individualizado. O temor não pode eliminar-se pelo esforço pessoal, mas, só pela absorção do eu em uma causa maior que seus próprios interesses. A absorção em alguma causa desembaraça a mente de alguns de seus temores, mas só a absorção no amor e conhecimento da Base divina pode desembaraçar de todo temor. Pois quando a causa é inferior a mais alta, o sentimento de temor e ansiedade é transferido do eu à causa, como quando o heróico sacrifício pela pessoa ou a instituição amada é acompanhado pela ansiedade em relação àquilo por que se faz o sacrifício.

Enquanto que se o sacrifício é feito por Deus, e por outros, pelo amor de Deus, não pode haver temor nem ansiedade permanente, pois nada pode ser ameaça para a divina Base, e até o fracasso e o desastre devem aceitar-se como de acordo com a vontade divina. Em poucos homens e mulheres é o amor de Deus bastante intenso para eliminar estes projetados temor e ansiedade por pessoas e instituições amadas. A razão terá que procurá-la no fato de que poucos homens e mulheres são bastante humildes para ser capazes de amar como deveriam. E carecem da necessária humildade, porque carecem do conhecimento, plenamente advertido, de seu próprio nada pessoal.

"A humildade não consiste em ocultar nossos talentos e virtudes, em nos considerar piores e mais ordinários do que somos, mas em possuir um claro conhecimento de tudo o que falta em nós e em não nos exaltar pelo que temos, posto que Deus nos deu isso generosamente e que, com todos Seus dons, nossa importância é ainda imensamente pequena." - Lacordaire

"À medida que a luz aumenta, vemos que somos piores do que pensávamos. Assombramo-nos de nossa anterior cegueira ao ver surgir de nosso coração toda uma corja de maus sentimentos, como sujos répteis que saem a rastros de escondida cova. Mas não devemos nos assombrar nem nos turvar. Não somos piores do que fomos; pelo contrário, somos melhores.

Mas, enquanto nossas faltas diminuem, a luz mediante a qual as vemos se faz mais brilhante, e nos enchemos de horror. Enquanto não há sintoma de coração, não advertimos a profundidade de nosso mal, achamo-nos em um estado de cega presunção e dureza, vítimas do próprio engano.

Enquanto seguimos a corrente, não temos consciência de seu rápido curso, mas, quando queremos resisti-la, embora seja muito pouco, ela se faz sentir." - Fénelon

"Minha filha, constrói duas celas. Primeiro uma cela real, para que não ronde e fale muito, a não ser que seja necessário, ou possa fazê-lo por amor a seu próximo. Logo, construa uma cela espiritual, que sempre poderá levar contigo, e é esta a cela do verdadeiro conhecimento de si mesmo; encontrará aí o conhecimento da bondade de Deus para consigo. Aqui há realmente duas celas em uma; e se viver em uma delas, também deve viver na outra; em outro caso, a alma se desesperará ou será presunçosa. Se residisse só no conhecimento de si mesma, desesperaria; se residisse no conhecimento de Deus sozinho, veria tentada à presunção. Uma deve ir com a outra, e assim alcançará a perfeição." - Santa Catalina de Siena


Imagens e Vídeo (abaixo) do filme "Thor", de 2011


A GRAÇA E O LIVRE-ARBÍTRIO

Para a libertação terá que sair do tempo para a eternidade, e isto se obtém por obediência e docilidade à eterna Natureza das Coisas. Nos deu o livre arbítrio para que pela vontade eliminemos nossa obstinação, e assim cheguemos a um contínuo viver em "estado de graça".

Todas nossas ações devem dirigir-se, em última instância, a nos fazer passivos em relação à atividade e o ser da Realidade divina. Somos, por assim dizê-lo, harpas eólicas, dotadas da faculdade de expor-se ao vento do Espírito ou de fechar-se ao seu embate.

"O Espírito do Vale nunca morre.
Chamem-lhe a Fêmea Misteriosa.
E a soleira da Fêmea Misteriosa
é a base de onde surgem o Céu e a Terra.
Está aí, dentro de nós, todo o tempo.
Extrai dela tanto como queira; jamais se esgota."
- Lao Tsé

Em toda exposição da Filosofia Perene, a alma humana é considerada feminina com respeito à Divindade, o Deus pessoal e até a Ordem da Natureza. A húbris, que é o pecado original, consiste em considerar ao eu pessoal como confidencialmente masculino com respeito ao interno Espírito e à externa Natureza, e em atuar em consequência.

São Paulo traçou uma útil e luminosa distinção entre a psyché e o pneuma. Mas esta última palavra não conseguiu nunca fazer-se popular, e o termo psyché, incuravelmente ambíguo, veio a usar-se para designar indiferentemente a consciência pessoal e o espírito. E por que, na Igreja ocidental, deram os escritores devotos em falar da humana anima (que para os romanos significava a alma inferior, animal) em vez de empregar a palavra tradicionalmente reservada à alma racional, isto é, animus? A resposta, conforme suspeito, é que estavam muito ansiosos de sublinhar por todos os meios em seu poder a feminilidade essencial do espírito humano em suas relações com Deus. Pneuma, que é gramaticalmente neutro, e animus, que é masculino, consideraram-se menos adequados que anima e psyché. Considerem este exemplo concreto: dada a estrutura do grego e do latim, seria muito difícil, para os que falavam estas línguas, identificar algo que não fora uma alma gramaticalmente feminina com a heroína do Cantar dos Cantares —figura alegórica que, por longas centúrias, representou o mesmo papel, no pensar e sentir cristãos, que as Gopis na teologia e devoção dos hindus.

"Toma nota desta verdade fundamental. Tudo o que obra na natureza e na criatura, exceto o pecado, é operação de Deus na natureza e na criatura. A criatura não tem em seu poder a não ser o livre uso de sua vontade e seu livre-arbítrio não tem outro poder que o de concorrer com a operação de Deus na natureza, ou resistir a ela. A criatura, com seu livre-arbítrio, não pode trazer nada à existência, nem fazer nenhuma alteração na operação da natureza; só pode trocar seu próprio estado ou lugar na operação da natureza, e assim sentir ou achar algo em seu estado que não sentia ou achava antes." - William Law

Definida em termos psicológicos, a graça é algo que nos ajuda, distinto de nosso eu pessoal consciente de si mesmo. Temos experiência de três classes de ajuda: graça animal, graça humana e graça espiritual. A graça animal vem quando vivemos em pleno acordo com nossa própria natureza no plano biológico —não danificando nosso corpo com excessos, nem estorvando o funcionamento de nossa interna inteligência animal com ânsias e aversões conscientes, a não ser vivendo saudavelmente e nos abrindo à "virtude do sol e o espírito do ar".

A recompensa de estar assim em harmonia com o Tao ou o Logos em seus aspetos físico e fisiológico é uma sensação de bem-estar, um ensinamento de que a vida é boa, não por razão alguma, mas somente por ser vida. Não há caso quando nos achamos na condição de graça animal, de propter vitam vivendi perdere causa; pois neste estado não há distinção entre as razões de viver e a vida mesma. A vida, como a virtude, é então sua própria recompensa. Mas, é óbvio, a plenitude da graça animal está reservada aos animais. A natureza do homem é tal que este deve levar uma vida consciente de si mesmo no tempo, não em uma devota eternidade subracional entre o bem e o mal. Em consequência, a graça animal é algo que conhece só espasmodicamente em poucas frequentes invocações da consciência de si mesmo, ou como acompanhamento de outros estados, em que a vida não é sua própria recompensa, mas sim tem que ser vivida por uma razão externa a ela.

A graça humana nos vem de pessoas ou de grupos sociais, ou de nossos próprios desejos, esperanças e imaginações, projetados fora de nós e de algum modo persistentes, no meio psíquico, no estado do que poderia chamar-se objetividade de segunda mão. Todos tivemos experiência dos diferentes tipos de graça humana. Há, por exemplo, a graça que, durante a infância, vem da mãe, do pai, da ama ou do professor querido. Em uma etapa posterior experimentamos a graça dos amigos; a graça de homens e mulheres moralmente melhores e mais prudentes que nós; a graça do guru ou diretor espiritual. Logo há a graça que nos vem por causa de nosso afeto à pátria, partido, Igreja ou outra organização social —uma graça que ajudou até aos indivíduos mais débeis e tímidos a realizar coisas que, sem ela, seriam impossíveis. E finalmente há a graça que obtemos de nossos ideais, sejam altos ou baixos, concebidos em termos abstratos ou incorporados em personificações imaginárias. A este último tipo pertenceriam, ao que parece, muitas das graças experimentadas pelos piedosos fiéis das diversas religiões.

Podemos pensar que, frequentemente, a ajuda recebida pelos que devotamente adoram ou rogam a algum santo, deidade ou Avatar pessoal, não é uma graça genuinamente espiritual, a não ser uma graça humana, que volta para adorador do vórtice de força psíquica criado por repetidos atos (deles e de outros) de fé, desejo e imaginação.

A graça espiritual não pode ser recebida continuamente nem em sua plenitude, salvo por aqueles que mediante a vontade eliminaram sua obstinação até o ponto de poder dizer com verdade: "Não eu, mas Deus em mim." Existem, entretanto, poucas pessoas tão irremediavelmente auto-condenadas à prisão dentro de sua própria personalidade, que sejam totalmente incapazes de receber as graças que de momento em momento são oferecidas a toda alma. Espasmodicamente a maioria de nós consegue esquecer, embora seja só parcialmente, nossa preocupação pelo "eu", "meu", "minha", e assim chega a ser capazes de receber, embora só seja parcialmente, as graças que, naquele momento, oferecem-nos.

A graça espiritual tem sua origem na divina Base de todo ser, e é concedida com o propósito de ajudar ao homem a conseguir sua finalidade última, que é sua volta, do tempo e do eu, à essa Base. Parece-se com a graça animal em proceder de uma fonte completamente outra que nossos eus humanos conscientes de si mesmos; no fato, é o mesmo que a graça animal, mas manifesta-se em um nível mais alto da ascendente espiral que conduz da matéria à Divindade.

Em qualquer caso dado, a graça humana pode ser totalmente boa, assim que ajuda ao receptor na tarefa de alcançar o conhecimento unitivo de Deus; mas, por causa de sua origem no eu individualizado, sempre é um pouco suspeita, e em muitos casos, é óbvio, a ajuda que dá, dirige-se ao lucro de fins muito diferentes do verdadeiro fim de nossa existência.

"Toda a bondade que temos é emprestada e Deus a tem por própria obra; Deus e sua obra é Deus." - San Juan de la Cruz

"A inspiração perpétua é tão necessária à vida de bondade, santidade e felicidade como a perpétua respiração é necessária à vida animal." - William Law

"Reciprocamente, é evidente, a vida de bondade, santidade e beatitude é uma condição necessária da inspiração perpétua. As relações entre ação e contemplação, ética e espiritualidade, são cíclicas e recíprocas. Cada uma é por sua vez causa e efeito. Foi ao declinar o Grande Caminho quando surgiram a bondade e a moralidade humanas." - Lao Tsé

Os verbos chineses carecem de tempos. Esta afirmação a respeito de um hipotético acontecimento histórico refere-se ao mesmo tempo ao presente e ao futuro. Significa simplesmente que, com o surgir da consciência de si mesmo, a graça animal já não é suficiente para a conduta da vida e tem que se completar com eleições conscientes e premeditadas entre o bem e o mal —eleições que têm que se fazer à luz de um código ético claramente formulado.

Mas, como os sábios taoistas não se cansam de repetir, os códigos éticos e escolhas deliberadas feitos pela vontade superficial são melhores só em um segundo lugar. A vontade individualizada e a inteligência superficial têm que se usar com o propósito de recuperar a velha relação animal com o Tao, mas em um plano mais elevado, espiritual. A meta é uma inspiração perpétua procedente de fontes situadas além do eu pessoal; os meios são a bondade e a moralidade humanas, que conduzem à caridade, que é conhecimento unitivo do Tao, ao mesmo tempo Base e Logos.

"Senhor, despe meu ser de tal natureza, que continuamente possa aumentar sua capacidade de receber Sua graça e Sua bondade. E este poder, que tenho do Senhor, do qual tenho uma imagem viva de Sua omnipotência, é o livre-arbítrio. Por ele posso alargar ou restringir minha capacidade para Sua graça." - Nicolás de Cusa

"Shun interrogou ao Ch'eng dizendo:

—Pode um alcançar o Tao de modo que o tenha para si?

—Seu mesmo corpo —respondeu Ch'eng— não é seu. Por que o seria o Tao?

—Se meu corpo —disse Shun— não é meu, me diga: de quem é?

—É a delegada imagem de Deus —respondeu Ch'eng—. Sua vida não é sua. É a delegada harmonia de Deus. Sua individualidade não é sua. É a delegada adaptabilidade de Deus. Sua posteridade não é sua. É delegado passo de Deus. Move-se, mas não sabe como.

Está em repouso, mas não sabe como. Gosta, mas não sabe a causa. Estas são operações das leis de Deus. Como, pois, alcançaria o Tao de modo que o tivesse para si?"

- Chuang Tsé

"Está em minha faculdade o servir a Deus ou não lhe servir. Servindo-lhe aumento meu próprio bem e o bem de todo o mundo. Não lhe servindo, renuncio a meu próprio bem e privo ao mundo desse bem que eu podia criar." - León Tolstoi

"Deus não o privou da operação de seu amor, mas você lhe privou de sua cooperação. Deus não o rechaçaria nunca, se você não rechaçasse seu amor. Oh, muito bom Deus, você não abandona senão for abandonado, você não aparta seus dons até que apartamos nosso coração!" - São Francisco de Sales

"Ch'ing, o mestre carpinteiro, esculpia madeira destinada ao sustento de instrumentos musicais. Quando terminou, a obra apareceu, a todos os que a viram, como de execução sobrenatural e o príncipe Lu o interrogou dizendo:

—Que mistério há em sua arte?

—Nenhum mistério, Alteza —replicou Ch'ing—. E entretanto há algo. Quando me disponho a fazer tal sustento, guardo-me de toda diminuição de meu poder vital. Primeiro reduzo minha mente a uma quietude absoluta. Três dias nesta condição, e esqueço-me de toda recompensa que possa ganhar. Cinco dias, e olvido-me de toda fama que possa adquirir. Sete dias, e perco consciência de minhas quatro extremidades e de minha estrutura física. Logo, sem nenhum pensamento da Corte em minha mente, minha destreza se concentra, e desapareceram todos os elementos perturbadores de fora. Entro em algum bosque de montanha, procuro uma árvore apropriada. Contém a forma requerida, que depois é elaborada. Vejo o sustento em minha mente e me ponho à obra. Fora disto, não há nada. Ponho minha capacidade natural em relação com a da madeira. O que se acreditava ser a execução sobrenatural em meu trabalho era devido somente a isto."

- Chuang Tsé

A inspiração do artista pode ser uma graça humana ou espiritual, ou uma mescla de ambas. Uma elevada realização artística é impossível sem, pelo menos, as formas de mortificação intelectual, emotiva e física apropriadas à classe de arte que se pratica. Além disso e por cima desta mortificação, que poderíamos chamar profissional, alguns artistas praticaram a classe de desalentar si mesmos que é a pré-condição indispensável do conhecimento unitivo da Base divina. Frade Angélico, por exemplo, preparava-se para seu trabalho por meio da oração e a meditação; e pela precedente entrevista de Chuang Tsé vemos quão essencialmente religioso (e não meramente profissional) era o modo como o artífice taoista abordava sua arte.

Aqui podemos observar de passagem que a mecanização é incompatível com a inspiração. O artesão podia fazer, e frequentemente fazia, um trabalho completamente mau. Mas, como Ch'ing, o mestre carpinteiro, estimava sua arte e estava disposto a todo o necessário para fazer-se dócil à inspiração, seu trabalho podia ser, e às vezes era, tão bom que parecia "como de execução sobrenatural". Entre as muitas e enormes vantagens de uma eficaz maquinaria automática, há esta: é completamente a prova de tolos; mas, precisamente por ser a prova de tolos, é também a prova de graça. O homem que atende tal máquina é impenetrável a toda forma de inspiração estética, seja de origem humana ou genuinamente espiritual. "A indústria sem arte é brutalidade." Mas, de fato, Ruskin calunia aos brutos. O industrioso pássaro ou inseto está inspirado, quando troveja, pela infalível graça animal do instinto —pelo Tao segundo se manifesta no plano imediatamente superior ao fisiológico. O operário industrial, junto a sua máquina a prova de tolos e de graça, faz seu trabalho em um universo, feito pelos homens, de pontuais automaticamente; um universo que se acha inteiramente fora da esfera do Tao em qualquer nível, animal, humano ou espiritual.

Neste aspeto podemos mencionar essas súbitas teofanias que são às vezes outorgadas à crianças e, às vezes, à adultos, que podem ser poetas ou mercenários, doutos ou ingénuos, mas que têm em comum o não ter feito nada para preparar-se para o que lhes aconteceu. Estas graças gratuitas, que inspiraram muito a arte literária e a pictórica, algum esplêndido e algum (quando a inspiração não se viu fecundada pelo talento nato) pateticamente inadequado, parece em geral pertencer a uma ou outra de duas classes principais: súbita e profundamente impressões da perceção da Realidade final como Amor, Luz e Beatitude, e uma não menos impressionante perceção da mesma como um Poder obscuro, pavoroso e inescrutável. Em memoráveis forma, Wordsworth registou sua experiência de ambos os aspetos da divina Base.

Houve um tempo em que rio, bosque e prado,
a terra e o que nela se via,
tudo me parecia
de celestial luz embelezado.
e assim sucessivamente. Mas não era esta a única visão.
Com vigor
o remo afundava no calado lago
e, ao me elevar na remada, o bote
sulcava a água como um cisne;
logo, depois do rugoso escarpado, limite
da vista até então, um enorme
pico negro, ao parecer infuso
de força voluntária, sua tremenda
cabeça levantou. E enquanto remava,
remava eu, crescendo ainda
aquela horrenda, turva forma erguia-se
entre mim e as estrelas...
Mas depois de ter visto espetáculo tal, por
muitos dias
envolveu meu cérebro um indeciso,
nebuloso sentimento de ignotos
modos de ser; sobre meus pensamentos
cerne de uma escuridão, chamem
vácuo abandono, solidão.

É significativo que as mentes primitivas pareçam mostrar-se, principalmente, recetivas para com este segundo aspeto da Realidade. O formidável Deus a quem Job se submete finalmente é um "ignoto modo de Ser", cujas criações mais características são Behemot e Leviatã.

É a classe de Deus que reclama, segundo a frase de Kierkegaard, "teleológicas suspensões da moralidade", principalmente em forma de sacrifícios de sangue, até sacrifícios humanos. A deusa hindu, Kali, em seus aspetos mais terríveis, é outra manifestação do mesmo ignoto modo de Ser.

E por muito selvagens contemporâneos a Base Subjacente é apreendida e teologicamente racionalizada como puro Poder não mitigado, que tem que ser aplacadoramente adorado e, se for possível, dirigido à usos proveitosos por meio de uma magia compulsiva.

Considerar Deus como mero Poder, e não, de uma vez, como Poder, Amor e Sabedoria, é ocorrência natural na mente humana ordinária, não regenerada. Só os totalmente desapegados de seu eu estão em condições de saber experimentalmente que, apesar de tudo, "tudo estará bem" e, de algum modo, já tudo está bem. "O filósofo que nega a divina providência —diz Rumi— é um estranho à perceção dos Santos." Só aqueles que têm a perceção dos Santos podem saber durante todo o tempo e por experiência imediata que a divina Realidade se manifesta como um Poder que é amante, compassivo e sábio. O resto que não nos achamos ainda em posição espiritual de fazer mais que aceitar crédulos suas conclusões. Se não fora pelos testemunhos que eles deixaram, inclinaríamo-nos mais a estar de acordo com Job e os primitivos.

"As inspirações nos acautelam, e até antes de que se pense nelas se fazem sentir; mas, depois de sentidas, depende de nós o consentir nelas, para as secundar e sentir sua atração, ou o dissentir e rechaça-las. Fazem-se sentir sem nós, mas não podem nos fazer consentir sem nós." - São Francisco de Sales

"Nosso livre-arbítrio pode estorvar o curso da inspiração, e quando o favorável vendaval da graça de Deus assoprar as velas de nossa alma, podemos nos negar a consentir e, por isso, estorvar o efeito à favor do vento; mas, quando nosso espírito navega e viaja prosperamente, não fazemos mais que o vendaval da inspiração sopre a nosso favor, nem tampouco que nossas velas se enchem com ele, nem damos movimento ao navio de nosso coração, mas simplesmente recebemos o vendaval, consentimos em sua emoção e deixamos que nosso navio navegue a seu favor, não estorvando com nossa resistência." - São Francisco de Sales

"A graça é necessária para a salvação, e o livre-arbítrio igualmente —mas a graça para dá-la, e o livre-arbítrio para recebê-la. Portanto, não deveríamos atribuir parte da boa obra à graça e parte ao livre-arbítrio; é realizada em sua totalidade pela comum e inseparável ação de ambos, totalmente pela graça, totalmente pelo livre-arbítrio, mas brotando na primeira para voltar ao segundo." - São Bernardo

São Bernardo distingue entre voluntas communis e voluntas propria. Voluntas communis é comum em dois sentidos; é a vontade de compartilhar e é a vontade comum ao homem e a Deus.

Para fins práticos é equivalente à caridade. Voluntas propria é a vontade de obter e reter para si, e é a raiz de todo pecado. Em seu aspeto cognitivo, voluntas própria é quão mesmo sensum proprium, que é a própria opinião, acariciada porque é própria e, portanto, sempre moralmente errónea, embora possa ser teoricamente correta.

Dois estudantes da Universidade de Paris foram visitar o Ruysbroeck e lhe pediram que lhes dissesse uma breve frase ou divisa que pudesse lhes servir como regra de vida.

“Vós estis tam sancti sicut vultis, respondeu Ruysbroeck. "Sois tão santos como queirais." Deus está obrigado a obrar, a verter-se em ti, enquanto te encontres disposto.”

"A vontade é o que tem todo o poder; faz o céu e faz o inferno; pois não há inferno a não ser onde a vontade da criatura se separa de Deus, nem há céu a não ser onde a vontade da criatura obra com Deus." - William Law

"Homem, considera-te a ti mesmo! Eis aí na ansiosa, perpétua luta do bem e do mal; toda a natureza trabalha constantemente para produzir a grande redenção; toda a criação sofre e se agita em dores de parto para libertar-se da vaidade do tempo; e estarás dormido? Tudo o que ouves ou vês não te dizes nada, não te mostras nada a não ser o que a eterna luz ou a eterna trevas produziu pois, como o dia e a noite se repartem a totalidade de nosso tempo, assim o céu e o inferno repartem nossos pensamentos, palavras e atos. Move-te como queiras, fazes ou propões o que queiras, deves ser agente de um ou de outro. Não podes permanecer quieto porque vives no perpétuo obrar da natureza temporária e eterna, se não atuares com o bem, o mal que há na natureza te arrastas consigo. Tens a altura e a profundidade da eternidade em ti e, portanto, algo que faças, seja em gabinete, campo, loja ou igreja, estas semeando o que cresce e deves colher na eternidade." - William Law

"Deus espera uma só coisa de ti: que saias de ti mesmo, assim que és um ser criado e deixes a Deus ser Deus em ti." - Mestre Eckhart

Para os que gozam em especulações teológicas apoiadas em textos de Escrituras e postulados dogmáticos, existem milhares de páginas de controvérsia católica e protestante sobre a graça, as obras, a fé e a justificação. E para estudantes de religião comparada existem doutos comentários sobre o Bhagavad Gita, as obras de Ramanuja e os posteriores vaishnavitas, cuja doutrina da graça tem surpreendente semelhança com a de Lutero; há histórias do budismo que devidamente, seguem o desenvolvimento dessa religião da doutrina hinayânica de que a salvação é fruto de esforçada ajuda de si mesmo até a doutrina mahayânica de que não pode obter-se sem a graça de Buda Primitivo, cuja interna consciência e "grande coração compassivo" constituem a eterna Talidad (Totalidade) das coisas. Para o resto de nós, parece-me que as precedentes entrevistas de escritores compreendidos dentro da tradição cristã e dos primeiros taoistas proporcionam uma exposição adequada dos fatos observáveis da graça e da inspiração e sua relação com os fatos observáveis do livre-arbítrio.

Aldous Huxley

"Acho que me perdi
Estou ficando bom nesse negócio de recomeçar do zero
Toda vez que eu regresso

Estou aprendendo a andar de novo
Acredito que esperei tempo demais

Estou aprendendo a falar de novo
Você não vê que já esperei tempo bastante?"
 - Foo Fighters (Walk)

FOO FIGHTERS - WALK:

https://www.youtube.com/watch?v=qz9vTaWDq9s


Origem dos textos:
Aldous Huxley
A Filosofia Perene

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