Ego: O Estado Atual da Humanidade


 Salvador Dalí  (1904 - 1989) 
Foi um importante pintor catalão, 
conhecido pelo seu magnífico trabalho surrealista. 



"Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta." - Carl Jung


EGO: O ESTADO ATUAL DA HUMANIDADE

Por Eckhart Tolle

As palavras, não importa se são verbalizadas e transformadas em sons ou se permanecem como pensamentos, podem lançar um encanto quase hipnótico sobre nós. É muito fácil nos perdermos por causa delas, sermos hipnotizados pela crença implícita de que, quando vinculamos um termo a alguma coisa, sabemos o que ela é. Mas, na verdade, não sabemos. Apenas encobrimos o mistério com um rótulo. Tudo - um pássaro, uma árvore, uma simples pedra e, certamente, um ser humano - é, em última análise, incognoscível. Isso ocorre porque todas as coisas têm uma profundidade insondável. Tudo o que podemos perceber, sentir e pensar a respeito é a camada superficial da realidade, menos do que a ponta do iceberg.

Sob a aparência superficial, todas as coisas estão ligadas não apenas a tudo o que existe como também à Origem de toda a vida da qual procedemos.

Até mesmo uma pedra - e mais facilmente uma flor ou um pássaro - pode nos mostrar o caminho de volta a Deus, à Origem, a nós mesmos. Quando olhamos para algo assim ou o seguramos e depois o deixamos ir sem lhe impor uma palavra nem um rótulo mental, uma sensação de assombro, de maravilha, surge dentro de nós. A essência desse elemento comunica-se connosco de modo silencioso e reflete nossa própria essência para nós.

Isso é o que os grandes artistas sentem e conseguem transmitir com sua arte. Van Gogh não disse "isto é apenas uma cadeira velha". Ele olhou, e olhou, e olhou. E sentiu a Existência da cadeira. Depois, sentou-se de frente para a tela e pegou o pincel. A cadeira em si tinha um valor irrisório. A pintura desse mesmo objeto vale hoje milhões de dólares.

Sempre que não encobrimos o mundo com palavras e rótulos, retorna à nossa vida a sensação do milagre, que foi perdida muito tempo atrás, quando a humanidade, em vez de usar o pensamento, deixou-se possuir por ele. Uma profundidade volta à nossa vida. As coisas recuperam sua novidade, seu frescor. E o maior de todos os milagres é vivenciar o eu essencial antes de quaisquer palavras, pensamentos, rótulos mentais e imagens. Para que isso aconteça, precisamos desvincular nossa perceção do eu - da Existência - de todas as coisas que se misturaram ou se identificaram com ele. Este livro trata justamente dessa separação. Quanto mais rápidos somos em ligar rótulos verbais ou mentais a coisas, pessoas ou situações, mais superficial e sem vida nossa realidade se torna.
Assim, mais fracos nos mostramos em relação a ela, ao milagre da vida que continuamente se desenrola dentro de nós e ao nosso redor. Com essa atitude, podemos ganhar inteligência, mas perdemos sabedoria, assim como alegria, amor, criatividade e vivacidade. Essas qualidades ficam ocultas na lacuna silenciosa entre a perceção e a interpretação. É evidente que necessitamos usar palavras e pensamentos. Ambos têm sua própria beleza; no entanto, será que precisamos ser aprisionados por eles?

As palavras reduzem a realidade a algo que a mente humana é capaz de entender, o que não é muita coisa. A linguagem consiste em cinco sons básicos que se originam nas cordas vocais. Eles são as vogais a, e, i, o, u. Os outros sons são consoantes produzidas pela pressão do ar: s, f, g, e assim por diante. Você acredita que uma combinação desses sons básicos é suficiente para explicar quem é você, o propósito supremo do universo ou até mesmo o que uma árvore ou uma pedra são em essência?

O EU ILUSÓRIO

A palavra "eu" incorpora o maior erro e a verdade mais profunda, dependendo de como é utilizada. No uso convencional, não só é um dos termos empregados com maior frequência (juntamente com as palavras correlatas "mim", "meu", "comigo", etc.) como é um dos mais enganosos. Na sua aplicação quotidiana normal, "eu" contém o erro primordial, uma perceção equivocada de quem a pessoa é, um sentido ilusório da identidade.

Isso é o ego. É o que Albert Einstein, que possuía um admirável entendimento não só da realidade do espaço e do tempo como da natureza humana, chamou de "ilusão de ótica da consciência". Essa identidade ilusória se torna então a base de todas as interpretações - ou melhor, das más interpretações - posteriores da realidade, de todos os processos de pensamento, das interações e dos relacionamentos. A realidade do indivíduo passa a ser um reflexo da ilusão original.

O lado bom disso é que, se formos capazes de reconhecer a ilusão como tal, ela se dissolverá. A identificação da ilusão é seu fim. Sua sobrevivência depende do nosso erro em considerá-la a realidade. Quando compreendemos quem não somos, a realidade do que somos aparece por si mesma. Isso é o que acontecerá enquanto você estiver lendo devagar e cuidadosamente este capítulo e o próximo, que tratam do mecanismo do falso eu a que chamamos ego. Assim, qual é a natureza dessa identidade ilusória?

Aquilo a que costumamos nos referir quando dizemos "eu" não é quem nós somos. Por um ato monstruoso de reducionismo, a profundidade infinita de quem somos confundiu-se com um som produzido pelas cordas vocais ou pelo pensamento do "eu" na nossa mente e com qualquer outra coisa com que o "eu" esteja identificado. Portanto, a que se referem o "eu" comum e os termos relacionados "mim", "meu" ou "comigo"?

Quando uma criança aprende que uma sequência de sons produzida pelas cordas vocais dos pais é seu nome, ela começa a fazer com que uma palavra, que na sua mente se torna um pensamento, corresponda a quem ela é.

Nessa fase, algumas crianças se referem a si mesmas na terceira pessoa. "João está com fome." Pouco tempo depois, aprendem a palavra mágica "eu" e a equiparam ao seu nome, ao qual já atribuíram o significado de quem elas são.

Então outros pensamentos aparecem e se fundem com a perceção original do "eu". O passo seguinte são pensamentos de "mim" e "meu" para designar as coisas que, de alguma forma, são parte do "eu". Isso é a identificação com objetos, o que significa conferir às coisas - em última análise, pensamentos que representam coisas - uma perceção do "eu", extraindo assim uma identidade delas. Quando algo que a criança chama de "meu brinquedo" se quebra ou é tirado dela, surge um intenso sofrimento. Não porque o objeto tenha um valor intrínseco - a criança logo perde o interesse por ele e o substitui por outro item qualquer -, e sim por causa do pensamento "meu". O brinquedo torna-se parte do desenvolvimento da perceção da identidade, do "eu".

Desse modo, à medida que a criança cresce, o pensamento original do "eu" atrai outros pensamentos para si mesmo e passa a se identificar com diversos elementos, como nacionalidade, género, raça, religião, profissão, bens materiais, o corpo percebido pelos sentidos, etc. Outras coisas com as quais o "eu" se identifica são papéis - mãe, pai, marido, esposa, e assim por diante -, opiniões e conhecimento acumulados, o gostar e o não gostar, além de fatos que aconteceram no passado e cuja lembrança são pensamentos que posteriormente definem a perceção da identidade como "eu e minha história". Esses são apenas alguns dos aspetos dos quais as pessoas extraem sua perceção de quem elas são. No fim das contas, eles não passam de pensamentos reunidos de maneira precária por conterem todos o sentido da identidade egóica. Essa construção mental é aquilo a que em geral alguém se refere quando diz "eu". Para ser mais preciso: na maior parte do tempo, não é a pessoa que está falando quando pronuncia ou pensa "eu", mas algum aspeto dessa construção mental, a identidade egóica. Após o processo do despertar, a palavra "eu" ainda é usada, no entanto ela passa a vir de um lugar muito mais profundo dentro de nós.

Quase todas as pessoas ainda estão identificadas com o fluxo incessante da mente, do pensamento compulsivo, em sua maior parte repetitivo e sem importância. Não existe nenhum "eu" fora dos seus processos de pensamento e das emoções que os acompanham. E é esse o significado de ser espiritualmente inconsciente. Quando informadas de que existe uma voz na sua cabeça que nunca pára de falar, as pessoas costumam ter duas reações: ou perguntam "que voz?" ou a negam com raiva - e isso, sem dúvida, é a própria voz, aquele que pensa, a mente não observada. Podemos considerá-la quase uma entidade que se apossou das pessoas.

Há quem nunca se esqueça da primeira vez em que conseguiu romper a identificação com seus pensamentos, momento em que foi capaz de sentir brevemente a mudança de identidade, deixando de ser o conteúdo da sua mente para se tornar a consciência lá no fundo. No caso de outros indivíduos, isso acontece de uma maneira tão subtil que eles mal percebem ou apenas notam uma abundância de alegria ou paz interior sem saberem o que originou esses sentimentos.

A VOZ NA NOSSA CABEÇA

Tive meu primeiro lampejo de consciência quando era aluno do primeiro ano na Universidade de Londres. Eu tomava o metro duas vezes por semana para ir à biblioteca da universidade, em geral por volta das nove horas da manhã, quase no fim do horário de maior movimento. Certa vez, uma mulher com pouco mais de 30 anos sentou-se à minha frente. Eu já a tinha visto algumas vezes naquele trem. Não era possível deixar de notá-la. Embora o vagão estivesse cheio, os assentos ao seu lado permaneciam desocupados. O motivo era, sem dúvida, o fato de que ela parecia um pouco insana. Muito tensa, falava consigo mesma sem cessar em voz alta e irada. Estava tão absorta nos próprios pensamentos que dava a impressão de ignorar a presença das pessoas ao seu redor. Mantinha a cabeça baixa e ligeiramente voltada para a esquerda, como se estivesse conversando com alguém sentado no lugar vago ao seu lado. Embora eu não me lembre com exatidão das suas palavras, o monólogo que essa mulher desfiava era algo como: "E então ela me disse... e depois eu disse que ela era uma mentirosa que ousava me acusar... você sempre tirou vantagem da confiança que eu tinha em você e me traiu..." Seu tom de voz era raivoso como o de uma pessoa que fora enganada, que precisava defender sua posição ou se sentiria aniquilada.

Enquanto o trem se aproximava da estação Tottenham Court Road, ela se levantou e se dirigiu à porta sem interromper a torrente de palavras que lhe brotava dos lábios. Como eu também ia saltar ali, fui andando atrás dela. No nível da rua, a mulher começou a caminhar para a Bedford Square, ainda envolvida no diálogo imaginário. Minha curiosidade aumentou. Como ela estava se deslocando na mesma direção que eu tomaria, decidi segui-la.

Embora permanecesse envolvida naquela conversa fantasiosa, a mulher parecia saber para onde estava indo. Logo estávamos próximos à imponente estrutura do Senate House, um edifício de 1930, onde se localizavam o prédio da administração central da universidade e a biblioteca. Fiquei chocado. Seria possível que estivéssemos nos encaminhando para o mesmo lugar? Sim, era para onde ela ia. Será que a mulher era uma professora, uma aluna, uma funcionária administrativa, uma bibliotecária? Talvez fizesse parte de um projeto de pesquisa psicológica. Nunca soube a resposta. Procurei me manter 20 passos atrás dela, mas, no momento em que entrei no prédio (onde, ironicamente, funcionava a sede da Polícia do Pensamento na versão cinematográfica do romance 1984, de George Orwell), ela já tinha desaparecido num dos elevadores.

Fiquei impressionado com o que acabara de testemunhar. Aos 25 anos, eu era um aluno maduro do primeiro ano da faculdade e me considerava um intelectual em desenvolvimento. Estava convencido de que todas as respostas aos dilemas da existência humana podiam ser encontradas por meio do intelecto, isto é, pelo pensamento. Não compreendia ainda que o pensamento sem a consciência é o principal dilema da existência humana. Para mim, os professores eram sábios que tinham todas as respostas, enquanto a universidade era um templo do conhecimento. Como poderia uma pessoa insana como aquela fazer parte disso?

Ainda estava com a mente voltada para aquela mulher enquanto lavava as mãos no banheiro da biblioteca. Pensei: "Espero não acabar como ela." O homem ao meu lado olhou na minha direção. Fiquei chocado de repente ao perceber que havia não apenas pensado naquelas palavras como as tinha murmurado. "Ai, meu Deus, já estou como ela", pensei. Não seria minha mente incessantemente ativa como a dela? Havia diferenças mínimas entre nós. A emoção subjacente que predominava por trás do pensamento da mulher parecia ser a raiva. No meu caso, era sobretudo a ansiedade. Ela pensava em voz alta. Eu, na maior parte do tempo, apenas pensava. Se ela fosse maluca, então todo mundo seria louco também, inclusive eu. Só havia diferenças de grau.

Por um momento, fui capaz de me distanciar da minha própria mente e vê-la de uma perspetiva mais profunda, como ela era. Percebi uma breve mudança - do processo de pensar para o estado de consciência. Eu ainda estava no banheiro, porém sozinho agora, olhando para meu rosto refletido no espelho. No momento em que me desliguei da minha mente, ri em voz alta. Deve ter soado como uma birutice, no entanto era o riso da sanidade, aquele do Buda barrigudo. "A vida não é tão séria quanto minha mente a faz parecer." Era o que a risada parecia dizer. Contudo, aquilo foi apenas um lampejo, e eu o esqueceria bem rápido. Acabei passando os três anos seguintes num estado de ansiedade e depressão, completamente identificado com minha mente. Foi preciso que eu chegasse muito perto do suicídio para que minha consciência retornasse. Depois disso ocorreu bem mais do que um lampejo.

Eu me libertei do pensamento compulsivo e do falso eu criado pela mente.

Aquele episódio envolvendo a mulher não só me deu a primeira centelha de consciência como despertou minha primeira dúvida quanto à validade absoluta do intelecto humano. Meses mais tarde, um fato trágico fez com que essa dúvida aumentasse. Numa manhã de segunda-feira, eu e outras pessoas chegamos à universidade para assistir à palestra de um professor cujas ideias eu admirava muito. Mas fomos informados de que ele havia cometido suicídio no fim de semana - atirara em si mesmo. Fiquei atordoado. Ele era um professor altamente respeitado e parecia ter respostas para tudo. No entanto, até aquele momento, eu não conseguia identificar nenhuma alternativa para o cultivo do pensamento. Ainda não compreendia que pensar é apenas um minúsculo aspeto da consciência que somos. Além disso, não sabia nada sobre o ego, quanto mais sobre como detectá-lo em mim mesmo.

O CONTEÚDO E A ESTRUTURA DO EGO

A mente egóica é completamente condicionada pelo passado. Esse condicionamento é duplo: consiste em conteúdo e estrutura.

No caso de uma criança que está chorando e sofrendo profundamente porque lhe tiraram um brinquedo, esse objeto representa o conteúdo. Ele pode ser trocado por qualquer outro conteúdo, isto é, por qualquer outro brinquedo ou objeto. O conteúdo com o qual alguém se identifica é condicionado pelo ambiente, por sua criação e pela cultura dominante. Tanto faz se a criança é rica ou pobre e também não importa se o brinquedo é um pedaço de madeira no formato de um animal ou um aparelho eletrónico sofisticado: o sofrimento causado pela perda do objeto será o mesmo. A causa dessa dor aguda está oculta na palavra "meu" e é estrutural. A compulsão inconsciente para ressaltar a própria identidade por meio da associação com um objeto é construída na própria estrutura da mente egóica.

Uma das mais básicas estruturas mentais que possibilita a existência do ego é a identificação. A palavra "identificação" deriva dos termos latinos idem, que significa "o mesmo", e faceré, que corresponde a "fazer". Portanto, quando nos identificamos com algo, "fazemos dele o mesmo". O mesmo que o quê? O mesmo que nós. E lhe atribuímos a perceção do eu - assim ele se torna parte da nossa "identidade". Um dos níveis mais básicos de identificação é com as coisas, tanto que dizemos meu brinquedo, que mais tarde se torna meu carro, minha casa, minhas roupas, e assim por diante. Tentamos nos encontrar nas coisas, porém nunca conseguimos fazer isso inteiramente e acabamos nos perdendo nelas. Essa é a sina do ego.




A IDENTIFICAÇÃO COM AS COISAS

Quem trabalha no setor de publicidade sabe muito bem que, para vender produtos supérfluos ou desnecessários, é preciso convencer as pessoas de que esses objetos acrescentarão algo à maneira como elas se veem ou são vistas pelos outros, ou seja, que adicionarão alguma coisa à sua perceção do eu. Os anúncios fazem isso, por exemplo, nos dizendo que vamos nos destacar da multidão usando tal produto e, assim, por implicação, seremos mais plenamente nós mesmos. Outras propagandas criam uma associação na nossa mente entre o produto e alguém famoso, jovem, atraente ou de aparência feliz. Até mesmo imagens do início da carreira de celebridades que agora já estão velhas ou mortas funcionam bem para esse propósito. O pressuposto implícito é de que, comprando determinado item, nos tornamos, por meio de uma apropriação mágica, como essas pessoas ou então assumimos sua imagem superficial. Assim, em muitos casos, não estamos adquirindo um produto, mas um "meio de realçar nossa identidade". As grifes de estilistas são, em termos básicos, identidades que compramos. Elas são caras e, portanto, "exclusivas". Se todo mundo pudesse adquiri-las, seu valor psicológico se perderia e nós ficaríamos apenas com seu valor material, que talvez represente apenas uma fração do preço que pagamos por elas.

Com que tipo de coisa cada um de nós se identifica é algo que varia de pessoa para pessoa, considerando a idade, o sexo, a renda, a classe social, a moda e a cultura dominante, entre outros fatores. Aquilo com que alguém se identifica tem tudo a ver com o conteúdo, enquanto a compulsão inconsciente para se identificar é estrutural. Essa é uma das maneiras mais básicas pelas quais a mente egóica funciona.

Paradoxalmente, o que mantém a chamada sociedade de consumo é o fato de que tentar encontrar a si mesmo por meio de coisas não funciona: a satisfação do ego tem vida curta. Assim, a pessoa continua buscando mais, continua comprando, continua consumindo.

É claro que, nessa dimensão material em que nosso eu superficial vive, as coisas são uma parte necessária e inevitável da vida.

Precisamos morar em algum lugar, necessitamos de roupas, móveis, ferramentas, transporte, etc. Há também coisas que valorizamos por causa da sua beleza ou da sua característica inerente. Devemos reverenciar o universo das coisas, e não menosprezá-lo. Cada objeto tem uma Existência, é uma forma temporária cuja origem está na Vida Única, informe, a origem de todas as coisas, de todos os corpos, de todas as formas. Nas culturas mais antigas, as pessoas acreditavam que tudo, até mesmo os objetos supostamente inanimados, possuíam um espírito próprio - e a esse respeito elas se encontravam mais próximas da verdade do que estamos hoje em dia. Quando se habita um mundo embotado pela abstração mental, não se sente mais a vida pulsante do universo. A maioria de nós não se encontra numa realidade viva, e sim numa realidade concetualizada.

Mas não podemos reverenciar as coisas verdadeiramente se as usamos como meios para ressaltar nosso eu, isto é, se tentamos nos encontrar por meio delas. E isso o que o ego faz. Sua identificação com as coisas cria sentimentos de apego e obsessão em relação a elas, o que, por sua vez, forma a sociedade de consumo, bem como suas estruturas económicas, onde a única medida de progresso é sempre mais. A busca descontrolada por mais, pelo crescimento infinito, é um distúrbio e uma doença. É a mesma disfunção apresentada pela célula cancerosa, cuja única meta é se multiplicar, inconsciente de que está provocando seu próprio fim ao destruir o organismo de que faz parte. Alguns economistas são tão atraídos pelo conceito de crescimento que não conseguem se desligar dessa palavra, assim eles se referem à recessão como um período de "crescimento negativo".

Uma grande parte da vida de muita gente é consumida por uma preocupação obsessiva com as coisas. É por isso que uma das doenças do nosso tempo é a proliferação de objetos. Quando uma pessoa não consegue mais sentir a vida que ela própria é, em geral tenta preencher sua existência com coisas. Se esse for seu caso, sugiro, como uma prática espiritual, que você analise seu relacionamento com o universo das coisas por meio da observação de si mesmo e, em particular, de tudo o que é designado com a palavra "meu".

É preciso que esteja alerta e seja honesto para descobrir, por exemplo, se seu sentido de valor pessoal está ligado aos bens que possui. Será que determinadas coisas lhe despertam um sentimento subtil de importância ou superioridade? A falta delas o faz se sentir inferior a quem tem mais? Você menciona de modo informal as coisas que possui ou as exibe para aumentar seu sentido de valor aos olhos das pessoas e por meio delas aos seus próprios olhos? Costuma ficar ressentido ou irado e, de alguma forma, se sente diminuído na perceção do seu eu quando constata que alguém tem mais do que você ou quando perde um bem valorizado?

O ANEL PERDIDO

Quando eu visitava pessoas como conselheiro e mestre espiritual, ia duas vezes por semana à casa de uma mulher cujo corpo estava tomado pelo câncer. Era uma professora primária com pouco mais de 40 anos de idade.

Segundo os médicos, ela não teria mais do que meses de vida. Vez por outra, trocávamos algumas palavras durante esses encontros, no entanto quase sempre nos sentávamos juntos em silêncio. Durante esse tempo, ela teve seus primeiros lampejos do silêncio dentro de si, algo que, ao longo de sua atarefada vida de professora, nunca soubera que existia.

Certa vez, porém, ao chegar, encontrei-a num estado de grande aflição e raiva. Perguntei o que havia acontecido.

Seu anel de diamante, de grande valor monetário e sentimental, havia desaparecido. Ela estava certa de que fora furtado pela acompanhante que cuidava dela por algumas horas todos os dias. Disse que não entendia como alguém conseguia ser tão insensível e desumano para fazer isso com ela.

Depois me perguntou se devia interrogar a mulher ou se seria melhor chamar a polícia imediatamente. Respondi que não podia lhe dizer como agir, mas pedi que descobrisse até que ponto um anel ou qualquer outra coisa era importante àquela altura da sua vida.

- Você não entende - ela afirmou. - Esse era o anel da minha avó. Eu o usava todos os dias e só parei porque fiquei doente e minhas mãos começaram a inchar. É mais do que um simples anel para mim. Como posso não estar aborrecida?

A rapidez da sua resposta, a raiva e a atitude defensiva em sua voz eram indicações de que ela ainda não se tornara presente o suficiente para olhar para dentro, desprender sua reação de um acontecimento e observar ambos. A raiva e a atitude defensiva que demonstrou eram sinais de que o ego ainda falava por seu intermédio. Eu disse:

- Vou lhe fazer algumas perguntas, mas, em vez de me dizer algo agora, veja se consegue encontrar as respostas dentro de você. Farei uma pausa depois de cada uma delas. Quando surgir uma resposta, talvez ela não venha necessariamente na forma de palavras.

- Estou pronta para escutar. Eu perguntei:

- Você compreende que terá que abandonar o anel em algum momento, talvez brevemente? De quanto tempo mais você precisa antes de estar pronta para se desvencilhar desse apego? Você vai se sentir inferior quando isso acontecer? A pessoa que você é se tornou diminuída pela perda?

Houve alguns minutos de silêncio depois da última indagação. Quando a mulher retomou a palavra, havia um sorriso no seu rosto, e ela parecia em paz.

- A última pergunta me fez compreender algo importante. Primeiro, procurei uma resposta nos meus pensamentos e eles foram: "Sim, é claro que você foi diminuída." Depois, fiz a pergunta de novo a mim mesma: "A pessoa que eu sou se tornou inferior?" Dessa vez, em lugar de pensar na resposta, tentei sentir. E de repente senti o Ser. Isso nunca havia acontecido comigo antes. Se posso sentir o Ser tão fortemente, então o que sou não foi diminuído em nada. Ainda consigo sentir isso agora, algo tranquilo, mas muito vivo.

- Essa é a alegria do Ser - expliquei. - Você só pode senti-la quando se desliga da sua cabeça. O Ser deve ser sentido. Não pode ser pensado. O ego não o conhece porque ele se compõe apenas do pensamento. Na verdade, o anel estava na sua mente como um pensamento que você confundiu com a perceção do Ser. Você pensou que seu Ser ou uma parte dele estava nesse objeto. Seja o que for que o ego busque e a que se apegue, isso é um substituto do Ser que ele não consegue sentir. Você pode valorizar as coisas e se preocupar com elas. Porém, sempre que se prender a esses objetos, saberá que se trata do ego. E nunca estará de fato atada a uma coisa, e sim a um pensamento que contém algo como "eu", "mim" ou "meu". Toda vez que você aceita completamente uma perda, o ego é suplantado e quem você é, o Ser que é consciente de si mesmo, aparece.

Ela disse:

- Agora compreendo uma frase de Jesus que antes não fazia sentido para mim: "E ao que te tirar a capa não impeças de levar a túnica também."

- Está certo - concordei. - O que não quer dizer que você nunca deva trancar sua porta. O significado disso é que, às vezes, desprender-se das coisas é um ato que encerra muito mais poder do que defendê-las ou agarrar-se a elas.

Nas suas últimas semanas de vida, à medida que seu corpo ia ficando cada vez mais fraco, essa mulher se mostrava mais radiante, como se uma luz brilhasse através dela. Desfez-se da maioria dos bens, chegando a dar alguns deles para a pessoa a quem atribuíra o furto do anel. Toda vez que ela doava algo, sua alegria aumentava. Quando sua mãe me ligou para dizer que ela se fora, também mencionou que, após a morte da filha, o anel fora encontrado no armário de remédios do banheiro. Será que sua acompanhante havia devolvido o anel ou ele estivera lá o tempo todo? Ninguém jamais saberá. De uma coisa, porém, temos certeza: a vida nos proporcionará todas as experiências que forem as mais úteis à evolução da nossa consciência. Como saberemos que determinada experiência é aquela de que necessitamos? Porque ela será a experiência pela qual estaremos passando no momento.

É errado então termos orgulho dos nossos bens ou ficarmos ressentidos com as pessoas que têm mais do que nós? De maneira nenhuma. Esse sentimento de orgulho, de precisar aparecer, o engrandecimento aparente do eu por meio de "mais do que" e sua diminuição por meio de "menos do que" não está certo nem errado - isso é o ego. O ego não está errado, ele simplesmente não tem consciência disso. Quando o observamos em nós mesmos, estamos começando a superá-lo. Não devemos levá-lo muito a sério.

Sempre que você detetar um comportamento egóico em si mesmo, sorria. Se possível, procure até mesmo dar uma risada. Como a humanidade pôde aceitar isso por tanto tempo? Acima de tudo, saiba que o ego não é pessoal.

Ele não é quem você é. Se você o considerar um problema particular, isso é apenas mais ego.

A ILUSÃO DA PROPRIEDADE

"Possuir" alguma coisa - o que isso quer dizer realmente? O que significa tornar alguma coisa "minha"? Se alguém parar no centro de uma grande cidade, apontar para um arranha-céu e disser: "Aquele prédio é meu. Sou o dono dele", ou essa pessoa é muito rica, ou está se iludindo, ou é uma mentirosa. Em qualquer um desses casos, ela está contando uma história em que a forma de pensamento "eu" e a forma de pensamento "prédio" se fundem numa coisa só. É assim que o conceito mental de propriedade funciona. Se todo mundo confirmar sua história, é porque deve existir uma papelada assinada que ateste o motivo pelo qual todos concordam com isso. A pessoa é rica. Caso ninguém aceite sua afirmação, ela será mandada para um psiquiatra, pois ou está tendo alucinações ou é uma mentirosa compulsiva.

É importante reconhecer que a história e as formas de pensamento que a constituem, independentemente de todos concordarem com elas ou não, não têm nada a ver com quem a pessoa é. Ainda que a afirmação seja aceita, trata-se, no fim das contas, de uma ficção. Muitos indivíduos não compreendem isso até estarem no leito de morte e constatarem que nada que é exterior, nenhuma coisa, jamais correspondeu a quem eles são. Com a proximidade da morte, todo o conceito de propriedade acaba se revelando sem o menor sentido. Nos seus últimos momentos de vida, as pessoas também entendem que, embora tenham estado em busca de uma perceção mais completa do eu ao longo de toda a sua existência, o que elas estavam de fato procurando, seu Ser, na verdade sempre havia estado ali, mas fora obscurecido de modo significativo por sua identificação com as coisas, o que, em última análise, significa identificação com a mente.

"Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus", disse Jesus. O que significa "humildes de espírito"? Nenhuma bagagem interior, nenhuma identificação. Nenhuma relação com coisas e com conceitos mentais que possuam uma perceção do eu. E o que é o "Reino dos Céus"? A simples, porém profunda, alegria do Ser que está presente quando abandonamos as identificações e nos tomamos "humildes de espírito".

É por isso que renunciar a todos os bens é uma prática espiritual antiga tanto no Oriente quanto no Ocidente. Desistir dos bens, porém, não nos libera automaticamente do ego. Ele tentará assegurar a própria sobrevivência encontrando alguma coisa com a qual se identificar - por exemplo, uma imagem mental da própria pessoa como alguém que superou todos os interesses pelos bens materiais e é, portanto, superior ou mais espiritualizada do que as outras. Há indivíduos que abrem mão de todas as posses, no entanto têm um ego maior do que alguns milionários. Se deixarmos de lado um tipo de identificação, o ego logo encontrará outra. No fim das contas, não importa ao que ele se apega desde que isso tenha uma identidade. Ser contra o consumismo ou não concordar com a propriedade privada seriam outras formas de pensamento, outras mentalidades, capazes de substituir a identificação com os bens. Por meio delas podemos nos considerar certos e classificar os outros como errados. Como veremos adiante, estabelecer uma divisão desse tipo é um dos principais padrões mentais egóicos, uma das maiores demonstrações de inconsciência. Em outras palavras, o conteúdo do ego pode mudar, todavia a estrutura mental que o mantém vivo não se altera.

Um dos pressupostos inconscientes é de que, ao nos identificarmos com algo por meio da ficção da propriedade, a aparente solidez e permanência desse objeto material endossará nossa perceção do eu com mais firmeza e constância. Isso se aplica sobretudo aos imóveis e ainda mais às terras, pois acreditamos que esses são os únicos bens que temos condições de possuir que não podem ser destruídos. O absurdo de termos alguma coisa torna-se ainda mais evidente no caso da terra. Na época da colonização da América do Norte, por exemplo, os nativos consideravam a propriedade da terra um conceito incompreensível. E, assim, eles a perderam quando os europeus os fizeram assinar folhas de papel, que eram igualmente incompreensíveis para sua cultura. Os indígenas sentiam que pertenciam a terra, mas ela não lhes pertencia.

O ego tende a equiparar ter com ser: eu tenho, portanto eu sou. E, quanto mais eu tenho, mais eu sou. Ele vive por meio da comparação. A maneira como os outros nos veem nos transforma em como nos vemos. Se todas as pessoas vivessem em mansões ou fossem ricas, suas casas luxuosas e sua riqueza não serviriam mais para destacar sua perceção do eu. Alguém poderia então se mudar para uma cabana simples, renunciar à fortuna e recuperar uma identidade sendo ele mesmo e sendo considerado mais espiritualizado do que os outros. O modo como um indivíduo é visto pelos demais torna-se o espelho que lhe diz como e quem ele é. Na maioria das vezes, a perceção do ego sobre o valor pessoal está ligada ao valor que a pessoa tem aos olhos dos outros. Ela precisa que eles lhe deem uma perceção do eu. Caso viva numa cultura que, em grande medida, equipara seu valor a quanto e ao que ela possui, é bom que seja capaz de detetar essa ilusão coletiva para não ser condenada a correr atrás de coisas pelo resto da vida na vã esperança de encontrar seu valor e satisfazer sua perceção do eu.

Você quer saber como se livrar do apego às coisas? Nem tente fazer isso. É impossível. Esse vínculo desaparece por si mesmo quando paramos de tentar nos encontrar nas coisas. Nesse meio-tempo, simplesmente tenha consciência de que está ligado a elas. Às vezes, você pode não saber que está vinculado a alguma coisa, quer dizer, identificado com ela, até perdê-la ou sentir a ameaça da perda. Depois disso, se você ficar aborrecido ou ansioso, é porque o apego existe. Caso esteja consciente de que está identificado com algo, a identificação não é mais total. "Eu sou a consciência que está consciente de que existe vínculo." Esse é o começo da transformação da consciência.




QUERER: A NECESSIDADE DE MAIS

O ego se identifica com possuir, mas sua satisfação com isso é de certa forma superficial e passageira. Oculta internamente, ela permanece como um sentimento profundo de insatisfação, de estar incompleto, de "não é o bastante", "não tenho o suficiente", com o que o ego de fato quer dizer: "Não sou o bastante ainda."

Como vimos, ter - o conceito de propriedade - é uma ficção criada pelo ego para adquirir solidez e permanência e se destacar, tornar-se especial.

Mesmo que não sejamos capazes de nos encontrar por meio disso, existe outro impulso mais forte subjacente a esse que pertence à estrutura do ego: a necessidade de mais, o que podemos também chamar de "desejo". O ego não dura muito tempo sem isso. Portanto, querer o mantém vivo muito mais do que ter. Para ele, o apelo de querer é mais forte do que o de ter. E, assim, a satisfação superficial de ter é sempre substituída pelo querer mais. Essa é a necessidade psicológica de mais, isto é, de mais coisas com as quais se identificar. É como um vício, não é verdadeira.

Em alguns casos, essa necessidade psicológica, ou a sensação de que ainda não há o bastante, que é tão característica do ego, é transferida para o nível material e, então, converte-se na avidez insaciável. Em geral, as pessoas que sofrem de bulimia obrigam-se a vomitar para continuar comendo. É sua mente que está faminta, e não seu corpo. Os que sofrem desse distúrbio alimentar poderiam se curar se, em vez de se identificar com a mente, conseguissem entrar em contacto com o próprio corpo e assim sentissem suas verdadeiras carências físicas em lugar das pseudonecessidades da mente egóica.

Alguns egos sabem o que querem e perseguem seu objetivo com uma determinação inflexível e implacável - Gêngis Khan, Stalin, Hider, para dar apenas alguns exemplos inquestionáveis. A energia por trás da sua vontade, porém, cria uma energia oposta de igual intensidade que, por fim, leva à queda desses indivíduos. Nesse ínterim, eles se tornam infelizes e fazem o mesmo com muitas pessoas ou, como mostram episódios clássicos, criam o inferno sobre a Terra. A maioria dos egos tem vontades conflituantes. Eles querem coisas diferentes em momentos distintos ou talvez nem saibam o que desejam.

Só sabem o que não querem: o momento presente. Desconforto, desassossego, tédio, ansiedade, insatisfação, tudo isso é resultado da vontade insatisfeita. Como querer é algo estrutural, nenhum acumulo de conteúdo consegue oferecer uma satisfação duradoura enquanto essa estrutura mental está em ação. O desejo intenso que não tem um objeto específico costuma ser encontrado no ego ainda em desenvolvimento dos adolescentes. É por isso que alguns desses jovens vivem num estado permanente de negativismo e insatisfação.

Todos os seres humanos do planeta poderiam ser facilmente atendidos em suas carências materiais em relação a alimento, água, abrigo, roupas e confortos básicos, não fosse pelo desequilíbrio de recursos criado pela necessidade insana e voraz de querer sempre mais, a ganância do ego. Isso encontra expressão coletiva nas estruturas económicas, como as grandes corporações, que são entidades egóicas que competem entre si por mais. Seu único - e cego - objetivo é o lucro. Elas perseguem essa meta do modo mais implacável possível. A natureza, os animais, as pessoas, até mesmo os funcionários, não são mais do que algarismos no seu balanço comercial, objetos inanimados a serem usados e depois descartados.

As formas de pensamento "mim", "meu", "mais do que", "eu quero", "eu preciso", "eu devo ter" e "não o bastante" pertencem não ao conteúdo, mas à estrutura do ego. O conteúdo pode ser trocado. Enquanto não reconhecemos essas formas de pensamento em nós mesmos, isto é, enquanto elas permanecem inconscientes, acreditamos no que elas dizem. Assim, ficamos condenados a agir de acordo com esses pensamentos inconscientes, a buscar e não encontrar, pois, quando eles entram em ação, nenhum bem, nenhum lugar, nenhuma pessoa, nenhuma condição jamais nos satisfaz. Não há conteúdo capaz de atender nossa vontade enquanto a estrutura egóica permanece atuante. Não importa o que tenhamos nem o que venhamos a conquistar, não seremos felizes. Sempre estaremos procurando alguma coisa além que nos prometa mais plenitude, que nos diga que vai completar a percepção do eu insatisfeito e saciar aquele sentimento de carência que trazemos dentro de nós.

A IDENTIFICAÇÃO COM O CORPO

Independentemente dos objetos, outra forma básica de identificação é com o próprio corpo. Em primeiro lugar, ele é masculino ou feminino - assim, o sentido de ser homem ou mulher adquire um papel significativo na perceção do eu da maioria das pessoas. O género torna-se uma identidade. A identificação com ele é estimulada na mais tenra idade e nos força a assumir um papel, a adotar padrões condicionados de comportamento que afetam todos os aspetos da nossa vida, e não apenas a sexualidade. Muitas pessoas ficam aprisionadas nesse papel, e isso ocorre com mais intensidade nas sociedades tradicionalistas do que no Ocidente, onde a identificação com o género está começando a diminuir um pouco. Em algumas culturas tradicionalistas, o pior destino que uma mulher pode ter é ser solteira ou estéril; no caso do homem, é não ter potência sexual e não ser capaz de gerar filhos. A plenitude da vida é entendida como a completa vivência da identidade sexual da pessoa.

No Ocidente, é a aparência do corpo que, em grande parte, contribui para a perceção de quem pensamos que somos: sua robustez ou debilidade, sua beleza ou feiúra em relação aos outros. Para um número significativo de pessoas, o sentimento de valor pessoal está intimamente ligado à sua força física, à sua boa aparência, a seu preparo físico. Muitos se sentem inferiorizados em seu valor pessoal por considerarem seu corpo feio ou imperfeito.

Em alguns casos, a imagem mental, ou o conceito, "meu corpo" apresenta uma completa distorção da realidade. Uma mulher jovem que seja muito magra pode se considerar gorda e, assim, deixar de comer. Ela já não consegue ver o próprio corpo, tudo o que "vê" é o conceito mental do seu corpo que lhe diz "eu sou gorda" ou "vou engordar". Na raiz desse problema está a identificação com a mente. Como as pessoas estão se tornando cada vez mais identificadas com a mente, o que corresponde à intensificação do distúrbio egóico, tem havido também um aumento impressionante no número de casos de anorexia nas últimas décadas. Se o indivíduo com essa disfunção alimentar pudesse observar o próprio corpo sem a interferência dos julgamentos da mente ou até mesmo reconhecê-los pelo que são em vez de acreditar neles - ou, melhor ainda, se conseguisse sentir o corpo internamente -, isso daria início à sua cura.

Quem está identificado com sua boa aparência, sua força física ou suas habilidades sofre quando esses atributos começam a diminuir ou desaparecer, o que é um processo inevitável. Sua própria identidade, que era baseada nesses elementos, fica então sujeita à ameaça de um colapso. Em qualquer caso, feias ou bonitas, as pessoas extraem uma parte significativa da sua identidade, seja ela negativa, seja positiva, do próprio corpo. Para ser mais exato, obtêm sua identidade da perceção do eu, que, erroneamente, vinculam à imagem ou ao conceito mental do seu corpo, que, em última análise, não é mais do que uma forma física que compartilha o destino de todas as formas - impermanência e, por fim, desintegração.

Equiparar o corpo físico percebido pelos sentidos - que é destinado a envelhecer, definhar e morrer - ao eu sempre causa sofrimento, cedo ou tarde.

Deixar de fazer essa identificação não quer dizer que estejamos negligenciando ou desprezando o corpo. Se ele for forte, bonito ou vigoroso, podemos aproveitar e valorizar essas qualidades - enquanto elas durarem.

Podemos também melhorar nossa condição física por meio de uma nutrição correta e de exercícios físicos. Se não vincularmos o corpo a quem somos, quando a beleza desaparecer, o vigor diminuir ou nos tornarmos incapacitados fisicamente, isso não afetará nosso sentido de valor nem de identidade. Na verdade, quando o corpo começa a se enfraquecer, a dimensão informe, a luz da consciência, consegue brilhar mais facilmente através da forma que se extingue aos poucos.

Não são apenas as pessoas que têm um corpo bonito ou quase perfeito que apresentam maior probabilidade de associá-lo a quem elas são. Qualquer um pode simplesmente se identificar com um corpo "problemático" e tornar uma imperfeição física, uma doença ou uma incapacidade sua própria identidade. Essa pessoa então está sujeita a pensar e falar de si mesma como uma "sofredora" que porta essa ou aquela doença ou incapacidade crónica.

Ela recebe uma grande atenção de médicos e de outros indivíduos que estão sempre confirmando sua identidade conceituai como sofredora ou paciente.

Assim, de modo inconsciente, essa pessoa se prende à enfermidade porque esta se tornou a parte mais importante de quem ela acredita ser. Trata-se de outra forma de pensamento com a qual o ego consegue se identificar. Depois que ele encontra uma identidade, resiste em se dissociar dela. Embora seja incrível, mas não raro, o ego que está em busca de uma identidade mais forte é capaz de criar doenças só para se fortalecer com elas.

SENTINDO O CORPO INTERIOR

Embora a identificação com o corpo seja uma das formas mais básicas do ego, o lado bom disso é que, na maioria das vezes, temos condições de superar essa questão. Não fazemos isso tentando nos convencer de que não somos nosso corpo, e sim desviando a atenção da nossa aparência física e dos pensamentos sobre ela - beleza, feiúra, força, fraqueza, gordura, magreza - para a sensação da energia vital interna. Não importa o aspeto do corpo no plano exterior, pois, além disso, ele é um campo energético intensamente vivo.

Se você não tem familiaridade com a consciência do "corpo interior", feche os olhos por um momento e descubra se existe vida dentro das suas mãos. Não pergunte à sua mente. Ela responderá: "Não sinto nada." Também é provável que diga: "Dê-me algo mais interessante sobre o que pensar."

Então, em vez de dirigir a pergunta a ela, vá direto para suas mãos. Com isso quero dizer o seguinte: torne-se consciente do sentimento subtil de vida que há nelas. Para percebê-lo, basta manter-se atento. Você poderá ter uma ligeira impressão de tremor no início e, depois, uma sensação da energia vital. Caso se concentre em suas mãos por alguns instantes, a sensação dessa energia se tornará mais intensa. Há pessoas que nem sequer precisam fechar os olhos.

Elas são capazes de sentir suas "mãos interiores" ao mesmo tempo em que leem este texto. Em seguida, passe para os pés, fixe a atenção neles por cerca de um minuto e comece a sentir as mãos e os pés simultaneamente. Por fim, inclua outras partes do corpo - pernas, braços, abdómen, tórax, e assim por diante - até estar consciente do corpo interior como uma sensação global de energia vital.

O que chamo de "corpo interior" já não é mais o corpo, e sim energia vital, a ponte entre a forma e o informe. Adquira o hábito de sentir o corpo interior sempre que for possível. Depois de um tempo, você não precisará mais fechar os olhos para isso. Por exemplo, veja se é capaz de senti-lo sempre que estiver escutando alguém. Chega a ser quase um paradoxo: quando estamos em contacto com nosso corpo interior, não estamos mais identificados nem com o corpo nem com a mente. É o mesmo que dizer que não nos identificamos mais com a forma, que estamos nos afastando dessa situação e indo em direção ao sem forma, que podemos também chamar de Ser. Isso é nossa identidade essencial. A consciência do corpo não só nos ancora no momento presente como é uma passagem para fora da prisão que é o ego. Além disso, fortalece o sistema imunológico e a capacidade que o corpo tem de curar a si mesmo.

Foto: Dorian Stretton


O ESQUECIMENTO DO SER

O ego é invariavelmente a identificação com a forma - está sempre nos procurando e, portanto, nos perdendo em algum tipo de forma. As formas não são apenas objetos materiais e corpos físicos. Mais essenciais do que essas formas externas são as formas de pensamento que surgem de modo contínuo no campo da consciência. Elas são formações energéticas, mais subtis e menos densas do que a matéria física, porém são formas de qualquer maneira. Aquilo que costumamos reconhecer de modo consciente como uma voz na nossa cabeça que nunca pára de falar é o fluxo de pensamento incessante e compulsivo. Quando os pensamentos absorvem toda a nossa atenção, isto é, sempre que estamos tão identificados com essa voz e as emoções que as acompanham que nos perdemos de nós mesmos em cada pensamento e em cada emoção, é porque nos encontramos inteiramente identificados com a forma e, portanto, nas garras do ego. O ego é um conglomerado de formas de pensamento recorrentes e de padrões emocionais e mentais condicionados que estão investidos de uma perceção do eu. Ele se estabelece quando o sentido de Existir, do eu sou", que é uma consciência sem forma, mistura-se com a forma. Esse é o significado da identificação. Esse é o esquecimento do Ser, o erro fundamental, a ilusão de separação absoluta que converte a realidade num pesadelo.

DO ERRO DE DESCARTES AO INSIGHT DE SARTRE

O filósofo do século XVII René Descartes, considerado o fundador da filosofia moderna, deu expressão a esse erro fundamental com sua máxima (que considerou a verdade básica): "Penso, logo existo." Essa foi a resposta que ele encontrou para a pergunta: "Há alguma coisa que eu possa saber com certeza absoluta?" Descartes compreendeu que o fato de estar sempre pensando estava além da dúvida, assim igualou o pensamento ao Ser, isto é: a identidade - o "eu sou" - ao pensamento. Em vez da verdade suprema, ele havia detetado a origem do ego, mas não sabia disso.

Passaram-se quase 300 anos antes que outro renomado filósofo francês visse algo naquela afirmação que Descartes, assim como todo mundo, não havia percebido. Seu nome era Jean-Paul Sartre. Ele refletiu muito sobre a afirmação de Descartes "Penso, logo existo" e, de repente, compreendeu algo.

Em suas próprias palavras: "A consciência que afirma 'eu sou' não é a consciência que pensa." O que ele quis dizer com isso? Quando estamos conscientes de que estamos pensando, essa consciência não faz parte do pensamento. É uma dimensão diferente da consciência. E é essa consciência que diz "eu sou". Se não houvesse nada além do pensamento em nós, nem sequer saberíamos que pensamos. Seríamos como alguém que está sonhando e não sabe que está fazendo isso. Estaríamos identificados com cada pensamento assim como aquele que sonha está vinculado a cada imagem no sonho. Muitas pessoas vivem desse jeito, como se andassem nas nuvens, presas a antigos modelos mentais anormais que recriam continuamente a mesma realidade de pesadelo. Quando sabemos que estamos sonhando, é porque estamos despertos no sonho - outra dimensão da consciência se estabeleceu.

A implicação da perceção de Sartre é profunda, mas ele próprio ainda estava identificado demais com o pensamento para reconhecer o pleno significado do que descobrira: uma nova dimensão emergente da consciência.

A PAZ QUE EXCEDE TODA A INTELIGÊNCIA

Existem muitos relatos de pessoas que vivenciaram essa nova dimensão emergente da consciência como resultado de uma perda trágica em determinado momento da vida. Há quem tenha perdido todos os bens, os filhos ou o cônjuge, a posição social, a reputação ou as capacidades físicas.

Em certos casos, em decorrência de desastre ou guerra, tudo isso se foi ao mesmo tempo e esses indivíduos se viram com "nada". Podemos chamar um quadro como esse de situação-limite. Não importa com que elementos essas pessoas estavam identificadas, o que lhes dava a perceção do ser, isso se acabou. Então, de repente e inexplicavelmente, a angústia e o medo intenso que elas sentiam desapareceram, dando lugar à sensação sagrada da presença, uma paz e uma serenidade profundas e uma completa libertação do medo.

Esse fenómeno deve ter sido familiar a São Paulo, que usou a expressão "a paz de Deus que excede toda a inteligência".3 Na verdade, é uma paz que não parece fazer sentido, e quem já passou por essa experiência se pergunta: diante disso, como é possível que eu sinta tanta paz?

Depois que compreendemos o que é o ego e como ele funciona, a resposta é simples. Quando as formas com as quais nos identificamos, que nos dão a perceção do eu, desmoronam ou são removidas, o ego entra em colapso, uma vez que ele é a identificação com a forma. No momento em que não há mais nada com que possamos nos identificar, quem somos nós? Assim que as formas ao nosso redor morrem ou quando a morte se aproxima, nossa perceção da Existência, do "eu sou", fica livre das ligações com a forma: o espírito é liberado da sua prisão na matéria. Passamos a compreender nossa identidade essencial como informe, como uma presença omnipresente do Ser antes de todas as formas, de todas as identificações. Entendemos nossa verdadeira identidade como a consciência propriamente dita em vez de algo ao qual a consciência se vinculara. Essa é a paz de Deus. A verdade suprema de quem nós somos não é "eu sou isso ou eu sou aquilo", mas "eu sou".

Nem todo mundo que vivência uma grande perda passa por esse despertar, isto é, pelo processo de se desassociar da forma. Algumas pessoas criam de imediato uma forte imagem mental ou uma forma de pensamento em que se veem como vítimas -das circunstâncias, de alguém, de um destino injusto ou de Deus. Assim, vinculam-se com intensidade a essa forma de pensamento e às emoções que ela origina, como raiva, ressentimento e autopiedade, que assumem de modo instantâneo o lugar de todas as outras identificações que entraram em colapso por causa da perda. Em outras palavras, o ego logo encontra uma nova forma. E o fato de que ela seja algo profundamente infeliz não o preocupa muito, desde que ele tenha uma nova identidade, boa ou má. Na verdade, esse novo ego será mais retraído, mais rígido e impenetrável do que o antigo.

Quando a perda trágica ocorre, nós ou resistimos a ela ou nos resignamos. Há pessoas que se tornam amargas ou muito ressentidas, enquanto outras se mostram mais solidárias, sábias e afetuosas. A resignação significa a aceitação interior do que aconteceu. Ficamos abertos à vida. A resistência é uma contração interior, um endurecimento da concha do ego.

Permanecemos fechados. Seja qual for a ação que adotemos num estado de resistência interior (que podemos também chamar de negativismo), ela criará mais resistência externa, e o universo não estará do nosso lado, a vida não nos beneficiará. Se as persianas estiverem fechadas, o sol não conseguirá entrar.

Quando nos submetemos internamente, ou seja, no momento em que nos entregamos, uma nova dimensão da consciência se abre. Caso uma ação seja possível ou necessária, essa atitude será alinhada com o todo e apoiada pela inteligência criativa, a consciência incondicional com a qual nos unificamos num estado de recetividade interior. As circunstâncias e as pessoas então se tornam favoráveis, cooperativas. Coincidências acontecem. Se nenhuma ação for possível, repousaremos na paz e no silêncio interior que acompanham a resignação. Descansaremos em Deus.

Eckhart Tolle

Eckhart Tolle

Origem do texto:
Eckhart Tolle
O Despertar de uma Nova Consciência
Como reconhecer o verdadeiro propósito da sua vida e contribuir para a transformação do mundo 

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