Buda e o Vipassana


A Estátua Gigante de Buda em Bodhgaya - Bihar, Índia. 
Tem 20 metros de altura, e começou a ser construída em 1982; 
foi inaugurada e consagrada pelo 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, 
O Líder Espiritual do Budismo Tibetano em 1989


"O autêntico buscador nada tem a ver com Deus; ele quer conhecer a si próprio. Conhecer a si próprio é a coisa mais fundamental, porque a partir daí vem todo o conhecimento, toda a luz. Se o indivíduo conhece a si mesmo, ele conhecerá Deus também. Na verdade, só quando o indivíduo conhece a si mesmo é que ele se torna capaz de conhecer o supremo, porque bem no âmago de seu ser o supremo está presente."  - Osho


BUDA E O VIPASSANA

Buda trouxe ao mundo uma visão inteiramente nova da meditação. Antes dele, a meditação era algo que se praticava uma ou duas vezes por dia - uma hora pela manhã e outra à noite. Buda interpretou o processo da meditação de uma forma totalmente nova. Eis o que referiu sobre este tema:

- Este regime em que a meditação é praticada durante uma hora pela manhã e outra hora à noite, podendo ser praticada quatro ou cinco vezes por dia, não acrescenta grande valor. A meditação não pode ser feita à margem da vida, durante uma hora ou quinze minutos. A meditação tem de ser intrínseca à vida, tem de ser sinónima de vida, tal como a respiração. Ninguém respira apenas durante uma hora pela manhã e outra hora ao final do dia, e se alguém o fizesse jamais chegaria ao final do dia. A meditação tem de ser como a respiração. Uma pessoa adormecida respira. Uma pessoa em coma respira.

Buda defende que a meditação seja um fenómeno constante, pois só assim se tornará um processo transformador. Por esse motivo desenvolveu uma nova técnica de meditação.
A sua mais importante dádiva ao mundo foi o vipassana.

Em páli, a língua que Buda Gautama falava, o termo vipassana...

Comecemos do início: Buda dominava perfeitamente o sânscrito, pois tinha recebido uma educação de príncipe e conhecia a literatura mais erudita da sua época. No entanto, preferiu não falar em sânscrito, porque o sânscrito era a língua dos intelectuais, dos brâmanes e dos sacerdotes, e não a língua do povo. A singularidade do sânscrito destaca-se entre todas as línguas do mundo: era uma língua apenas usada pelos eruditos, para falarem entre si, e dada a sua inacessibilidade, acabou por ser mistificada pelas massas. Uma vez traduzido, o sânscrito nada tem de especial, embora possua uma sonoridade muito musical. Em termos de construção é a mais perfeita de todas as línguas. Por outro lado, é muito exaustiva, pois baseia-se num alfabeto de cinquenta e duas letras. O alfabeto da língua inglesa tem apenas vinte e seis, o que significa que os restantes vinte e seis sons nem sequer existem nesta língua. O sânscrito é muito rico, porque exprime todos os sons possíveis. O seu alfabeto engloba certas subtilezas - sons particularmente difíceis de pronunciar, ou raramente utilizados, mas, ainda assim, passíveis de serem utilizados.

No entanto, Buda Gautama optou por falar a língua das massas, o que foi um ato revolucionário, tendo em conta que as línguas das massas não são, sequer, regra geral, gramaticalmente corretas. O facto de serem utilizadas por pessoas comuns que ao longo do tempo vão introduzindo alterações fonéticas e sonoras torna as palavras mais fáceis de pronunciar e mais simples. O páli é uma língua de pessoas simples, e de certa forma, inocentes e ignorantes. «Vipassana» é uma palavra páli. Em termos literais, significa «olhar», e em termos metafóricos significa «observar» ou «testemunhar».

Buda Gautama adotou um tipo de meditação que poderia ser designado como essencial. As técnicas de meditação correspondem a diferentes formas de testemunhar, embora o ato de testemunhar seja um elemento inevitável, preponderante em todos os tipos de meditação, e foi precisamente essa parte essencial que Buda manteve, eliminando todos os demais componentes.

Tendo Buda sido um pensador muito científico, atribuiu três estágios ao ato de testemunhar.

O primeiro estágio é o do corpo, o mais fácil de testemunhar. É bastante fácil observar um mão em movimento, um corpo em movimento, cada passo que é dado. É fácil observarmo-nos a comer uma refeição, por exemplo. O primeiro passo do vipassana, e o mais simples, consiste na observação dos atos do corpo. Qualquer método científico começa no estágio mais simples. Quando se testemunha o corpo, surgem novas experiências surpreendentes. Se o leitor movimentar uma das suas mãos com uma consciência concentrada e totalmente direcionada para esse acontecimento, sentirá que a mão emana uma certa graciosidade e um certo silêncio. Quando o mesmo movimento é executado sem essa consciência do testemunhar, torna-se mais rápido, e como que perde tal a graciosidade. Buda caminhava muito devagar, como que em câmara lenta, e muitas pessoas manifestavam o desejo de saber porquê, ao que ele respondia:

- Faz parte da minha meditação, caminhar como se estivesse a percorrer um riacho gélido no Inverno... lentamente e com todo o cuidado, devido à baixa temperatura da água e à forte corrente, observando cada passo, para não escorregar nas pedras que se encontram no fundo.

O método mantém-se, e o objeto muda a cada passo.

O segundo passo do vipassana consiste na observação da mente. A observação dos pensamentos é um estágio mais subtil. Se você foi bem sucedido na observação do corpo, em princípio não encontrará dificuldades neste estágio. Os pensamentos são ondas subtis - ondas eletrónicas, ondas de rádio -, mas são tão materiais quanto o corpo. Não são visíveis, da mesma forma que o ar também não o é, embora este seja tão material como as pedras. O mesmo acontece com os pensamentos: são materiais mas invisíveis. Este é o segundo estágio, o intermédio. Neste processo, o leitor movimenta-se rumo à invisibilidade, mas no segundo estágio ainda se encontra no plano material... a observar os seus pensamentos. A única condição que se impõe é a de não julgar .

É fundamental não julgar, pois no momento que uma pessoa começa a julgar esquece-se de observar. Não se trata de condenar o ato de julgar: não se pode julgar porque a partir do momento em que se começa a julgar - «este é um bom (ou um mau) pensamento...» - pára-se de testemunhar. Quando o leitor começa a julgar também começa a pensar, e envolve-se, perdendo o distanciamento e, com ele, a oportunidade de permanecer à beira da estrada a observar o trânsito. O truque é não participarmos e, para tanto, há que não louvar, não valorizar e não condenar, não tomar qualquer atitude quanto ao que está a passar-se, quanto ao que observamos na nossa mente. A ideia é observarmos os nossos pensamentos com se fossem nuvens a passar no céu, sem emitirmos juízos de valor -«esta nuvem escura é ameaçadora», ou «aquela nuvem branca assemelha-se a um sábio» - quanto ao que vemos. Nuvens são nuvens. Não são boas nem são más. O mesmo se passa com os pensamentos, que são apenas pequenas ondas ondas mentais que atravessam a mente.

Quando observamos sem julgar, temos grandes surpresas. Quando conseguimos estabilizar o processo de observação, os pensamentos começam a escassear. O peso e a medida desses dois parâmetros varia numa proporção constante. Assim, um nível de estabilização da observação de cinquenta por cento corresponde a um desaparecimento de cinquenta por cento dos pensamentos. Quando conseguimos estabilizar o processo de observação a sessenta por cento, então, apenas quarenta por cento dos pensamentos estão presentes. Quando a observação pura atinge os noventa e nove por cento, só muito raramente surge na mente um pequeno pensamento solitário - correspondente a um por cento de tráfego na estrada -, o que, por sua vez, significa que a hora de ponta foi abolida. Quando uma pessoa consegue eliminar totalmente os juízos de valor e tornar-se apenas testemunha, isso equivale a ter-se tornado um espelho, pois os espelhos nunca julgam. Uma mulher feia vê-se ao espelho. O espelho não a julga. Uma mulher bonita vê-se ao espelho, e não faz qualquer diferença. O espelho mantém-se puro, independentemente de alguém olhar para ele ou de quem olha para ele, ou seja, não é afetado pela imagem que reflete, nem pela ausência de imagens. O ato de testemunhar transforma os seres em espelhos.

Esta é uma grande conquista na meditação, pois trata-se da parte mais difícil e que representa metade do percurso. Neste estágio, o leitor já conhece o segredo, precisando apenas de o aplicar a objetos diferentes.

No estágio seguinte (o terceiro estágio do vipassana), há que passar dos pensamentos a outras experiência mais subtis - emoções, sentimentos, estados de espírito. Há uma deslocação do plano mental para o plano do coração, mantendo-se a condição de não julgar, e apenas observar. Aqui, a grande surpresa é a descoberta de que somos possuídos pela maior parte das nossas emoções, sentimentos e estados de espírito... Vejamos: quando o leitor se sente triste ou fica triste, é possuído pela tristeza. Quando se enraivece, o processo não é parcial, ou seja, fica cheio de raiva, a raiva toma conta de todas as fibras do seu ser. Quando começamos a observar o coração, constatamos que a experiência de sermos possuídos desaparece. A tristeza aparece e desaparece, ou seja, não permanecemos tristes. A felicidade aparece e desaparece - tão-pouco produzimos felicidade. Por outras palavras, o que se move no níveis mais profundos do coração não nos afeta e, quando tomamos consciência disso pela primeira vez, temos um vislumbre de conhecimento. Deixamos de ser escravos, puxados e empurrados em todas as direções, vulneráveis a todas as emoções, sentimentos e pessoas, a quem concedemos o direito de nos perturbarem por razão nenhuma.

É no terceiro estágio do ato de testemunhar que se pode dizer que uma pessoa atinge, pela primeira vez o conhecimento. Nesse estado, nada a perturba, nada pode manipulá-la, tudo permanece distante ou muito abaixo. É como se a pessoa se situasse no topo de uma colina.

Quando uma pessoa se torna uma testemunha perfeita do seu corpo, da sua mente e do seu coração, não lhe resta outra coisa senão esperar. Quando os três estágios do ato de testemunhar tenham sido perfeitamente cumpridos, o quarto passo - a recompensa - acontece por si próprio. É um salto quântico do coração para o ser, para o próprio núcleo da existência.

Não é algo que possa ser feito. Apenas acontece, e é importante que o leitor não esqueça isto. Não tente fazer com que aconteça, porque é absolutamente garantido que falhará. Esse acontecimento é preparado através da vivência de três estágios. O quarto estágio é uma recompensa da existência, é um salto quântico. Num dado momento, a nossa força de vida, a nossa arte de testemunhar, toca o centro do ser, como se tivéssemos regressado a casa.

O leitor pode chamar a esse estado «autorrealização», ou «iluminação», ou «libertação suprema». Depois disso não há mais nada a descobrir. Nesse estágio, terá chegado ao final da sua busca, terá tocado a verdade e a essência da existência, e conhecido o grande êxtase que ela traz consigo, como uma espécie de sombra que a acompanha e a envolve.




Segue-se uma história:

(Nota: esta extraordinária história já é muito divulgada, mas devido à sua importância para qualquer buscador espiritual, na minha opinião, continuo a partilhar)

Num certo dia quente de Verão, Buda, viajou de uma aldeia para outra e pelo caminho sentiu sede. Como já era velho, pediu ao seu discípulo Ananda:

- Ananda, lamento pedir-te isto, mas terás de regressar. A três ou quatro quilómetros daqui há um pequeno riacho. Tenho muita sede. Traz-me água por favor.

Ananda respondeu:

- Não tens de lamentar. É com grande alegria que te sirvo. Sou eu que te agradeço, não precisas de me agradecer. Fica aqui, debaixo desta árvore, e descansa. Seguirei para o riacho.

Ananda regressou. Ele sabia exatamente onde ficava o riacho pelo qual tinham passado. A Água era límpida, como só acontece nos riachos de montanha. No entanto, quando Ananda se aproximou para tirar água, verificou que tinha passado por ali um carro de bois que deixara o ribeiro totalmente enlameado, ou seja, a lama que estava depositada no fundo tinha subido até à superfície, e, com ela, folhas velhas e apodrecidas que flutuavam. Ananda decidiu não levar a Buda daquela água turva, pelo que regressou para junto dele, e disse-lhe:

- A situação é esta. Não pude trazer-te água, mas não te preocupes. A uns seis quilómetros daqui poderás descansar. Há um grande rio, e levar-te-ei água. Apesar de ser tarde e da tua sede, não vejo outra alternativa.

Buda retorquiu:

- Mas mesmo assim eu prefiro beber a água daquele riacho. Desperdiçaste tempo desnecesariamente. Deverias ter-me trazido daquela água.

- Mas - contrapôs Ananda - a água estava suja e lamacenta, com folhas podres a flutuarem por todo o lado. Como é que eu podia trazer-te uma água em tal estado?

Buda insistiu:

- Vai e traz-me dessa água.

Se o mestre pedia... Relutante, Ananda regressou ao riacho, mas teve uma surpresa: quando chegou, as folhas á não flutuavam na água, pois tinham sido levadas pela corrente, e apenas se viam vestígios de lama e de poeira, que entretanto tinham assentado. Ananda entendeu o sentido da mensagem e sentou-se junto ao riacho. Fora por isso que Buda insistira para que regressasse àquele lugar. Ao ver como tudo tinha mudado, pensou que se tivesse simplesmente esperado, a água cristalina teria reaparecido rapidamente.

Assim fez. Esperou, e pouco depois já tinha água límpida diante de si. Regressou para junto de Buda, a quem levou água.

Buda perguntou:

- Ananda, compreendeste a mensagem?

- Sim, compreendi - retorquiu Ananda, em lágrimas. - Não te tinha contado ainda que, quando cheguei ao riacho pela primeira vez, o carro de bois passou diante de mim, agitando a água toda. Aproximei-me para tentar apaziguar o riacho, mas quanto mais tentava, mais perturbado ele parecia. Quanto mais me aproximava, mais lama e mais folhas via. Quando percebi que não iria apaziguar o riacho, pus-me a caminho. Desculpa não te ter contado isto. Fui um tolo. Não era assim que eu iria conseguir ajudar o riacho e restabelecer o seu estado natural. Deveria simplesmente ter esperado, e observado.

As coisas acontecem por si próprias. As folhas seriam naturalmente levadas pela corrente, e a poeira e a lama acabariam por assentar. O facto de ter permanecido ali sentado a olhar o riacho ajudou-me a tomar consciência da mensagem: aquele riacho é como a minha mente, cheia de pensamentos apodrecidos e desatualizados e de lama, e eu estou continuamente a tentar estabiliz´-la. Se saltar para dentro da mente, o cenário agrava-se, e gera uma atitude pessimista de incerteza quanto à possibilidade de atingir, nesta vida, o que Buda refere como «o estado de ausência da mente». Hoje, pelo contrário, ao observar aquele riacho, senti-me invadido por uma grande esperança de que o riacho da minha mente um dia também se estabilize dessa mesma maneira. Aquele momento em que permaneci ali sentado trouxe-me um pequeno vislumbre.

Buda respondeu:

- Eu não tenho sede. És tu quem tem sede. Não foi para me trazeres água que te pedi para ires, e sim para compreenderes uma determinada mensagem. Pelo caminho avistei esse carro de bois no topo da colina e calculei o momento em que passaria pelo riacho. Foi por isso que te pedi água naquele momento.

Senta-te junto ao riacho da tua mente, e não faças nada. Nada é esperado da tua pessoa. Mantém-te tranquilo, como se os acontecimentos não tivessem nada que ver contigo, como se aquilo que se passa na mente estivesse a passar-se algures, fora de ti. Tu não és a mente. A mente é outra entidade. Tu és um mero observador. Buda chamou maajjhim nikai a todo este processo filosófico. Ele aconselhava-nos a permanecermos sempre no centro, qualquer que seja a polaridade. Quando testemunhamos, mantemo-nos sempre no centro. Quando abrimos mão do estado de testemunha, apegamo-nos ou então repudiamos. Quando repudiamos, movimentamo-nos para o extremo oposto, e quando nos apegamos, tentamos permanecer no extremo em que nos encontramos, sem nunca conseguirmos posicionar-nos no centro. O mais importante é observar, testemunhar, sem apego, sem repulsa. Se há uma dor de cabeça, há que aceitá-la, pois é um facto, tal como uma árvore, uma casa ou a noite. Há que aceitar a dor de cabeça, e fechar os olhos, sem tentar fugir.

Quando estamos felizes, há que aceitar a felicidade, sem apego, e sem nos esforçarmos para não nos tornarmos infelizes, sem tentarmos seja o que for. Se a infelicidade surgir, há que permiti-la. Devemos manter-nos como observadores no topo de uma colina, apenas olhando em volta. Vem a manhã, e depois a noite, e o Sol volta a nascer, e a pôr-se, e surge a escuridão e o céu estrelado, e tudo isto se repete indefinidamente, e o leitor pode apenas ser um observador posicionado no topo de uma colina, um observador que não entra em ação, e apenas vê o que se passa. Chegou a manhã e constata simplesmente esse facto, sabendo que à manhã haverá de suceder-se a tarde, e depois a noite, porque a noite se sucede sempre à manhã, e quando a noite surge o leitor constata esse facto, sabendo que a manhã surgirá de seguida, porque a manhã se sucede sempre à noite.

Quando há sofrimento, o leitor também pode apenas ser o observador, ciente de que chegará o momento em que esse sofrimento se dissipará, dando lugar ao seu oposto complementar. Da mesma forma, quando a felicidade estiver presente, terá consciência que não perdurará indefinidamente. Quando há felicidade, a infelicidade está sempre escondida algures, iminente. O importante é tornarmo-nos testemunhas. Podemos testemunhar sem sentirmos atração ou repulsa, mantendo-nos no centro, e quando o pêndulo pára no centro podemos, pela primeira vez, ver o mundo tal como ele é.

Quando nos movimentamos, não conseguimos distinguir entre o nosso próprio movimento e o movimento do mundo, e ficamos confusos. Quando paramos, podemos, por fim, olhar o mundo, e ver, pela primeira vez, a realidade tal como ela é. Uma mente que não se movimenta conhece a realidade, e uma mente em movimento não pode conhecer a realidade. A mente é como uma máquina fotográfica. Quando uma pessoa fotografa em movimento, não consegue obter imagens nítidas; tudo o que obtém é confuso e difícil de compreender. Na maior parte dos casos, a consciência está em permanente movimento, e o que captamos da realidade é apenas um pesadelo, uma grande confusão em que tudo é indistinto e impercetível. Quando, pelo contrário, nos mantemos no centro, com o pêndulo imobilizado, com a consciência focalizada, centrada, temos acesso à perceção da realidade. Só uma mente que não se move pode aceder à verdade.

A religião de Buda Gautama pode ser condensada numa única palavra - liberdade. É essa a sua mensagem essencial, a sua fragrância. Nunca ninguém enalteceu tanto a liberdade. Na visão de Buda, a liberdade é o valor supremo, o summum bonum. Não há nada de mais elevado, daí que seja fundamental entendermos a razão pela qual Buda dá tanto ênfase à liberdade. Nem Deus, Nem o Paraíso, nem o amor são enfatizados. Apenas a liberdade o é, e há uma razão para isso: tudo o que é precioso apenas pode surgir num clima de liberdade. O amor apenas pode crescer num clima de liberdade. Sem liberdade, o amor não pode crescer. Sem liberdade, o que cresce em nome do amor é apenas concupiscência. Sem liberdade, não há Deus. Sem liberdade, aquilo que se toma por Deus é apenas imaginação, medo, ganância. Não há paraíso sem liberdade. O paraíso é liberdade. Se o leitor pensa que existe paraíso sem liberdade, esse paraíso é desprovido de valor e de realidade. Não passa de sonho e fantasia.

Todos os grandes valores da vida crescem no seio da liberdade, daí que a liberdade seja o valor supremo e uma culminação. Para conhecer Buda, há que saborear a liberdade de que ele fala.

Não se trata de uma liberdade exterior. Não é liberdade política, social, económica, e sim espiritual. Para Buda, a «liberdade» é um estado de consciência não contaminado pelos desejos, totalmente desligado dos desejos, e não aprisionado pela ganância ou pela ambição. Para Buda, a «liberdade» é um estado de consciência sem mente, ou seja, um estado de ausência da mente. É um estado de vazio, pois se houver alguma coisa, a liberdade será impedida, daí que a liberdade pressuponha o vazio.

O termo «vazio» - shunyata - foi muito mal compreendido pelas pessoas, dada a sua conotação negativa. Sempre que ouvimos a palavra «vazio», pensamos em algo negativo. Contudo, na linguagem de Buda, o vazio não é negativo. Pelo contrário, é absolutamente positivo, mais positivo do que a ideia de uma suposta plenitude, porque o vazio está cheio de liberdade, uma vez que tudo o mais foi removido. O vazio é espaço do qual todas as fronteiras foram eliminadas. O vazio é ilimitado, e só num espaço ilimitado é possível a liberdade. O vazio de Buda não é um vazio vulgar, ou seja, não é a mera ausência seja do que for, e sim a presença de algo de invisível.

Quando por exemplo se esvazia uma sala, retirando quadros, mobília e respetivo conteúdo, a sala fica vazia porque deixou de conter mobiliário, quadros e outros objetos, mas há algo de invisível que começa a preencher o espaço. Essa invisibilidade não ocupa espaço. Pelo contrário, cria espaço. À medida que se vão removendo as peças de mobiliário, a sala vai-se tornando cada vez maior. Quando tudo é removido, mesmo as paredes, a sala adquire o tamanho do céu.

Este processo de remoção é análogo ao da meditação. A ideia é uma pessoa remover-se inteiramente a si mesma, não deixando nada, nem o seu próprio eu. É nesse silêncio total que reside a liberdade. É nessa imensa quietude que cresce a flor de lótus de mil pétalas da liberdade, que emana uma fragrância maravilhosa de paz, compaixão, amor e beatitude.

 Osho

Osho
Origem das palavras de Osho:
Encontros com Pessoas Extraordinárias

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