Autoindagação – Prática




"Não há nada errado no mundo, exceto as pessoas que o tornam mau." - Sri Nisargadatta Maharaj


AUTOINDAGAÇÃO – PRÁTICA


Principiantes na prática da autoindagação (autoinquirição ou autoinvestigação) eram orientados por Sri Ramana Maharshi para que centrassem sua atenção no sentido interior do “Eu” e mantivessem esse sentir tanto tempo quanto possível. Dizia também que, se sua atenção se distraísse com outros pensamentos, deveriam revertê-la em direção ao Eu-Pensamento tão logo percebessem seu desvio.

Sugeria vários auxílios a fim de dar assistência a esse processo. A pessoa poderia se perguntar: “Quem sou eu?”, ou “de onde surge esse eu?” Entretanto o objetivo final era a continuidade da consciência do Eu que assume ser responsável por todas as atividades do corpo e da mente. Nos estágios iniciais a prática da atenção no sentido do “Eu” é uma atividade mental que toma forma de um pensamento ou perceção. Conforme a prática vai se desenvolvendo o “Pensamento-Eu” passa a experimentar um sentido subjetivo do “Eu” e, quando este sentido deixa de se ligar aos pensamentos e objetos, desaparece completamente.

O que resta é uma experiência de ser no qual o sentido de individualidade cessou temporariamente de operar. A experiência pode ser intermitente no início mas com a repetição da prática torna-se cada vez mais fácil de se atingir e conservar. Quando a auto-indagação atinge esse nível aparece uma consciência de ser livre de esforço. A esse nível o esforço individual não é mais possível, pois o “Eu” que faz o esforço cessou temporariamente de existir. Ainda não é a autorrealização, pois o “Eu-Pensamento” reaparece periodicamente mas é o mais alto nível de prática espiritual. A repetição da experiência deste estado de ser enfraquece e destrói as vasanas (tendências mentais acumuladas de outras encarnações) que fazem com que o “Eu-Pensamento” surja e, quando seu apego a elas se enfraquece suficientemente, o poder do Eu destrói essas tendências residuais de modo tão completo a ponto de o “Eu-Pensamento” nunca mais surgir.

Este é o estado final e irreversível da autorrealização. Esta prática de auto-atenção ou consciência do “Eu-Pensamento” é uma subtil técnica que ultrapassa os usuais métodos repressivos de controlar a mente. Não é um exercício de concentração, nem tem por meta suprimir os pensamentos, apenas invoca a consciência da fonte de onde surgiu. O método e o objetivo da auto-indagação é “morar” na fonte da mente e ser consciente daquilo que realmente se é ao se desviar a atenção daquilo que não se é. Nos estágios iniciais o esforço no sentido de transferir a atenção dos pensamentos para o próprio pensador é essencial, mas uma vez que a consciência do sentido do Eu se estabeleceu de modo firme, o esforço posterior a isso é contra-producente.

Daí em diante trata-se mais de um processo de “ser” do que de “fazer”, um processo de ser sem esforço do que um esforço para ser. Para ser aquilo que já se é, é algo sem esforço, pois a existência (o Ser) está sempre presente e é sempre experienciado. Por outro lado pretender ser algo que não se é (exemplos o corpo e a mente) requer um esforço mental contínuo, muito embora o esforço esteja quase sempre num nível subconsciente. Segue-se que, em estágios mais avançados da auto-indagação, o esforço livra a atenção da experiência de ser, enquanto a cessação do esforço mental o revela.

Finalmente, o Eu não é descoberto como resultado de se fazer alguma coisa, mas apenas por ser. Veja como Ramana frisou certa vez:

Não medite – seja!
Não pense que você é – seja!
Não pensa a respeito de ser – você é!

A autoindagação não deve ser entendida como uma prática para ser feita em determinadas horas e em certas posturas. Ela deve prosseguir mesmo durante nosso caminhar, independentemente do que se estiver fazendo. Sri Ramana não viu qualquer conflito entre o trabalho e a auto-indagação e sustentou que um pouco de prática poderia ser executada sob quaisquer circunstâncias. Algumas vezes disse que períodos regulares de prática formal seriam benéficos para os principiantes, mas nunca advogou longos períodos de meditação sentada e sempre desaprovou quando qualquer de seus devotos expressasse o desejo de abandonar suas atividades mundanas em favor de uma vida totalmente dedicada à meditação.




Discípulo – O Sr. diz que a pessoa pode realizar o Eu apenas procurando-o? Qual é o caráter dessa busca?

Maharshi– Você é a mente ou pensa que é a mente. A mente nada mais é que pensamentos. Bem atrás de cada pensamento particular há um pensamento central que é o “Eu”, isto é você. Vamos chamar este “Eu” de primeiro pensamento. Focalize este Eu-Pensamento e indague o que ele é. Quando esta indagação se tornar forte em você, então não poderá pensar em outros pensamentos.

Discípulo– Quando faço isso e me fixo em mim mesmo, isto é, no Eu-Pensamento, os outros pensamentos veem e desaparecem, mas eu digo a mim mesmo “Quem sou Eu?” E não vem qualquer resposta. Atingir esta condição é a prática. É assim mesmo?

Maharshi– Isto é um erro que o povo comete. O que acontece quando você faz uma séria auto-indagação em busca do Eu é o desaparecimento do “Eu-Pensamento” e então algo diferente surge de suas profundezas e se encarrega de você, mas não é o Eu que inicia a indagação.

Discípulo – Que algo é esse?

Maharshi – Este é o Eu real, o Supremo Eu. Não é o ego. É o próprio Ser Supremo.

Discípulo – Mas o Sr. disse frequentemente que a pessoa deve rejeitar outros pensamentos quando se inicia a auto-indagação, porém os pensamentos são intermináveis. Se um pensamento é rejeitado outros surgem e parece não existir mais fim para eles.

Maharshi – Eu não disse que você deve rejeitar os pensamentos. Fixe-se em você mesmo, isto é, no “Eu-Pensamento”. Quando seu interesse o mantém nesta simples ideia, os outros pensamentos serão automaticamente rejeitados e desaparecerão.

Discípulo– Então a rejeição dos pensamentos não é necessária?

Maharshi– Não. Poderá ser necessária uma vez ou outra. Você imagina que não haverá fim, se a pessoa prossegue rejeitando cada pensamento que surge. Não é verdade. Existe um fim. Se você é vigilante e faz um sério esforço para rejeitar cada pensamento que surge logo verá que se aprofundou mais e mais em seu próprio Eu. A partir deste nível não há mais necessidade de fazer um esforço para rejeitar pensamentos.

Discípulo – Então é possível manter-se sem esforço, sem tensão?

Maharshi – Não apenas isso, pois lhe será impossível de fazer qualquer esforço além de certo limite.

Discípulo – Futuramente quero me iluminar. Não devo fazer qualquer esforço?

Maharshi– No momento é impossível para você não fazer esforço. Quando se aprofundar mais será impossível fazer qualquer esforço. Se a mente se tornar introvertida através da autoindagação na fonte do Aham-Vritti, as vasanas desaparecerão. A luz do Eu incide sobre as vasanas e produz o fenómeno da reflexão que chamamos de mente. Assim, quando as vasanas se extinguem, a mente também desaparece, sendo absorvida na luz da única realidade, o coração. Este é o total e o conteúdo que um aspirante precisa conhecer. O que dele se requer, de modo imperativo, é uma indagação séria e unidirecional na fonte do Aham-Vritti.

Discípulo – Como o principiante deve iniciar esta prática?

Maharshi – A mente se submeterá somente por meio da indagação: “Quem sou eu?” O pensamento “Quem sou eu?” Destruindo todos os outros pensamentos será finalmente destruído tal como a vara que é usada para atiçar o fogo na pira funerária. Caso outros pensamentos surjam e a pessoa deixar que se apoderem dela, fazer a pergunta: “A quem eles surgiram?” Que importa quantos pensamentos possam surgir? No mesmo momento que cada um surja; a pessoa de modo atento, fizer a pergunta “A quem este pensamento surgiu”, terá como resposta: “A mim.” Se fizer então a indagação “Quem sou eu?”, a mente retornará a sua fonte (o Eu) e o pensamento que surgiu também desaparecerá. Ao se repetir esta prática o poder da mente em habitar sua fonte aumentará. Muito embora as tendências em direção aos objetos dos sentidos (vishaya vasanas), as quais se perpetuaram por várias encarnações, possam surgir em número incontável, tal como as ondas do oceano, é certo que todas morrerão à medida que a meditação da pessoa em direção a sua real natureza se torne mais e mais intensa. Sem dar guarida nem mesmo ao pensamento de dúvida: “se é possível destruir todas essas tendências (vasanas) e permanecer como o próprio Eu”; o indivíduo deverá manter sua atenção imediata e persistentemente fixada em seu Eu.

Enquanto persistirem na mente tendências em direção aos objetos dos sentidos, a pergunto “quem sou eu?” É necessária. À medida que os pensamentos surjam a pessoa deverá aniquilar todos eles, aqui e ali através da auto-indagação no seu local de aparecimento. Não dar atenção a outras ideias (anya) significa desapego (vairagya) ou desinteresse (nirasa). Não abandonar o Eu (Divino)é sabedoria (jnana). Na verdade esses dois aspetos – desapego e conhecimento – são a mesma coisa. Tal como um pescador de pérolas prendendo-se a uma pedra mergulha fundo no oceano e a encontra, qualquer pessoa que mergulhar em seu interior com desapego poderá encontrar a pérola do Eu. Se a pessoa recorre de modo ininterrupto à lembrança de sua real natureza (swarupa-smarama) será o suficiente para atingi-lo. Indagando a si mesmo: “Quem está escravizado?” E ao mesmo tempo conhecendo sua real natureza (swarupa) é a própria libertação. Manter a mente sempre fixa somente no Eu é também denominado “auto-indagação”; enquanto que a meditação (dhyana) é pensar que se é o Absoluto (Brahman), o qual é existência-consciência-bem-aventurança (sat-chit-ananda).

Discípulo – Os yoguis dizem que a pessoa deve renunciar ao mundo e se isolar na selva se quiser encontrar a verdade.

Maharshi – Não há necessidade de renunciar à atividade mundana. Se você meditar por uma ou duas horas todos os dias poderá se incumbir de seus deveres. Se você meditar de modo correto então a corrente mental, induzida pela meditação, continuará a fluir durante seu trabalho. É como se existissem duas maneiras de expressar a mesma ideia; a mesma linha que se observa na meditação será expressa em suas atividades.

Discípulo–
Qual será o resultado de se fazer isso?

Maharshi –
Conforme pratique verá que sua atitude com relação às pessoas, acontecimentos e objetos se modificará. Suas atividades tenderão a se desenrolar de acordo com sua meditação.

Discípulo – Então o Sr. não concorda com os yoguis?

Maharshi – O homem deveria renunciar a seu egoísmo pessoal que o prende a esse mundo. Abandonar o falso Eu é a verdadeira renúncia.

Discípulo – Como é possível tornar-se altruísta enquanto se leva uma vida de atividades?

Maharshi – Não existe conflito entre o trabalho e a sabedoria.

Discípulo – O Sr. quer dizer que a pessoa pode continuar a exercer por exemplo, suas antigas atividades profissionais e ao mesmo tempo obter a iluminação?

Maharshi – Por que não? Mas neste caso a pessoa não deverá pensar que é a antiga personalidade que está executando o trabalho, porque sua consciência se transferirá gradualmente até que se centre naquele que se acha além do pequeno Eu.

Discípulo – Se a pessoa está empenhada no trabalho restará pouco tempo para meditar.

Maharshi – Determinar um tempo para meditação é uma atitude para meros iniciantes na senda espiritual. Um homem adiantado começará a gozar a profunda beatitude quer esteja trabalhando ou não. Enquanto suas mãos estiverem na lida social, ele manterá sua cabeça na pura solidão.

Discípulo – Então o Sr. não ensina o caminho da yoga?

Maharshi – O yogui tenta dominar a mente tal como um vaqueiro usa uma vara para empurrar o touro, mas no caminho da gnana (conhecimento) o buscador persuade o touro ao lhe oferecer um punhado de capim.

Discípulo – Como se faz isso?

Maharshi – Você terá que fazer a si mesmo a pergunta “Quem sou eu?”. Esta investigação levará por fim à descoberta de algo no seu interior que se acha além da mente. Resolva este problema e todos os outros problemas serão solucionados.

Discípulo – Buscando o “Eu” não há nada para ser visto.

Maharshi– Em consequência de você estar acostumado a se identificar com o corpo e a visão dos olhos, dirá que não vê nada. O que existe para ver? Quem é que vê? E como ver? Existe apenas uma consciência a qual, manifestando-se como “Eu-Pensamento”, identifica-se com o corpo, projeta-se através dos olhos e vê os objetos ao seu redor. O indivíduo acha-se limitado no estado de vigília e espera ver coisas diferentes. A evidência de seus sentidos será o selo da autoridade. Mas ele não admite que aquele que vê, aquilo que é visto e a visão são todas manifestações da mesma consciência nomeadamente o “Eu, Eu”. A contemplação ajuda a pessoa a superar a ilusão que o “Eu” deve ser visual. Na realidade nada existe de visual. Como é que você percebe o “Eu” agora? Você segura um espelho diante de si a fim de conhecer seu próprio ser? A consciência é o “Eu”. Realize-o e isto é toda verdade.

Discípulo – Ao se indagar sobre a origem dos pensamentos existe uma perceção do “Eu”. Mas isso não me satisfaz.

Maharshi – Certo. A perceção do “Eu” está associada com a forma, talvez com o corpo. Não deve existir coisa alguma associada ao puro Eu. O Eu é indissociável, a realidade pura, por meio de cuja luz o corpo e o ego brilham. Ao se acalmar todos os pensamentos resta a pura consciência. Imediatamente após o despertar do sono e antes mesmo de se ter consciência do mundo lá está o puro “Eu-Eu”! Fixe-se nele sem dormir ou sem permitir que os pensamentos se apossem de você. Se isso se consegue de modo firme não importará se o mundo é visto. Aquele que vê permanece sem ser afetado pelos fenómenos. O que é o ego? Indague. O corpo é algo insensível e não pode dizer “Eu”. O Eu é pura consciência não-dual. Ele não pode dizer “Eu”. Ninguém diz “Eu” durante o sono. O que é o ego, então? É algo intermediário entre o corpo inerte e o Eu. Ele não tem local de assento (locus standi). Se é procurado desaparecerá como um fantasma. À noite um homem pode imaginar que há um fantasma a seu lado por causa de um jogo de sombras. Se olhar mais de perto descobrirá que o fantasma não se acha realmente lá, e aquilo que ele imaginou ser um fantasma era apenas uma árvore ou uma estaca. Se ele não tivesse examinado mais de perto, o fantasma poderia assustá-lo. Tudo o que se requer é olhar de perto e o fantasma desaparecerá. O fantasma nunca esteve lá. O mesmo acontece com o ego. É um elo intangível entre o corpo e a pura consciência. Não é real. Enquanto a pessoa não observá-lo de perto ele continuará a dar aborrecimento. Mas quando a pessoa o procura, verá que não existe.

Há uma outra história que ilustra isso. As festas de bodas dos hindus frequentemente se estendem por cinco ou seis dias. Numa dessas ocasiões um estranho foi confundido pelos convidados da noiva como pessoa muito importante para o noivo e assim foi tratado por eles com especial atenção. Os convidados do noivo vendo que o estranho estava sendo tratado pelos convidados da noiva de forma especial entenderam que deveria ser um homem importante para a noiva e assim também se mostraram muito respeitosos para com ele. O estranho sentiu-se muito feliz durante a festa, porém estava consciente de sua real posição. A certa altura da festa, os convidados do noivo pretendendo abordar o estranho a respeito de determinado assunto, perguntaram aos convidados da noiva aonde poderiam encontrá-lo. O estranho logo percebeu o problema e fugiu. O mesmo acontece com o ego, se procurado, desaparece. Se não, continuará trazendo problemas.

Discípulo– Se eu tento fazer a autoindagação “Quem sou eu?”, adormeço. Que devo fazer?

Maharshi – Persista sua indagação durante seu período desperto. Isto será o suficiente. Se você continua fazendo a indagação até dormir, esta persistirá também durante o sono. Tão logo desperte continue a fazer a autoindagação.

Discípulo – Como posso obter a paz. Não parece que a obtenho através da vichara.

Maharshi – A paz é nosso estado natural. É a mente que obstruí o estado natural. Se você não experimenta a paz significa que a vichara está sendo feita apenas na mente. Investigue sobre o que é a mente e ela desaparecerá. Não existe tal coisa como mente separada do pensamento. No entanto, por causa da emergência do pensamento, você imagina algo de onde ele surge e o denomina de mente. Quando você investiga para saber o que é, perceberá que na verdade não existe tal coisa chamada mente. Quando a mente desaparece, você realiza a eterna paz.

Discípulo – Quando estou empenhado na indagação sobre a fonte de onde se origina o “Eu”, chego a um estágio de interrupção da mente além do qual sinto-me impossibilitado de ir mais além. Não tenho qualquer tipo de pensamento, um branco. Uma ténue luz predomina e sinto que não tenho corpo físico. Não tenho qualquer tipo de cognição, nem visão de corpo e forma. A experiência dura quase meia hora e é prazerosa. Estarei correto ao concluir que tudo isso é necessário para assegurar a felicidade eterna e que a libertação ou salvação, ou o que quer que a pessoa o denomine, seria continuar tal prática até que esta experiência pudesse ser mantida continuadamente por horas, dias e meses?

Maharshi – Isto não significa salvação. Esta condição é chamada de manolaya ou uma interrupção temporária dos pensamentos. Manolaya quer dizer concentração, parada temporária dos movimentos do pensamento. Tão logo esta concentração cesse, os pensamentos velhos ou novos irromperão como de costume; mesmo que este estado temporário dure mil anos, não levará a uma total destruição do pensamento, que se chama de libertação do nascimento e morte. O praticante deve sempre se manter alerta e indagar interiormente quem tem essa experiência, quem sente este prazer. Sem esta indagação ele prosseguirá num longo transe ou sono profundo (yoga nidra). Devido a falta de um guia apropriado neste estágio da prática espiritual, muitos têm se desiludido tornando-se presa de um falso sentido de libertação e apenas poucos têm conseguido chegar de maneira satisfatória à meta pretendida.

A história a seguir ilustra muito bem este caso. Um yogui estava fazendo penitência (tapas) por vários anos às margens do rio Ganges. Quando atingiu um alto grau de concentração, acreditou que se continuasse neste estágio por prolongados períodos expressaria a libertação. Antes de atingir a concentração profunda, teve sede e pediu ao discípulo para lhe trazer um pouco d’água do Ganges.

Antes porém que o discípulo trouxesse a água, entrou em yoga nidra e assim permaneceu neste estado por incontável número de anos, durante os quais muita água rolou sob a ponte. Quando acordou dessa experiência imediatamente exclamou: “Água, água”, mas não havia mais nem discípulo, nem visão do Ganges. A primeira coisa que ele pediu foi água porque, antes de atingir a concentração profunda, o mais importante nível de pensamento em sua mente era água e sua concentração, por mais profunda e prolongada que fosse, conseguiria apenas aquietar temporariamente seus pensamentos. Quando recobrou a consciência, o mais emergente pensamento foi lançado com toda rapidez e força de uma corrente que irrompesse através de um dique. Se este é o caso que diz respeito a um pensamento que tomou forma imediatamente antes dele iniciar a meditação, não resta dúvida que pensamentos que se enraizaram anteriormente também permanecerão sem ser aniquilados. Poderá ele dizer que atingiu a libertação sem que haja aniquilado os pensamentos?

Os Sadhakas (buscadores) raramente entendem a diferença entre interrupção temporária da mente (manolaya) e permanente destruição dos pensamentos (manolasa). Na manolaya há interrupção temporária das ondas mentais e, embora este período possa durar mil anos, os pensamentos que foram temporariamente descartados, revivem tão logo cesse a manolaya. A pessoa deve observar seu progresso espiritual cuidadosamente. Não deve se deixar levar pelo fascínio provocado pela calma da mente. No momento que a pessoa experimenta isso deve retornar à consciência e indagar interiormente a quem ocorreu esta experiência de calma mental. Embora não permitindo que qualquer pensamento surja, a pessoa não deve, ao mesmo tempo, ser fascinado por este sono profundo (yoga nidra) ou auto-hipnotismo. Muito embora isso seja um sinal de progresso em direção à meta, ainda constitui o ponto de divergência entre o caminho da libertação e o yoga nidra. O meio mais fácil, o meio direto, o caminho direto para a salvação é a auto-indagação. Por meio dessa indagação você dirigirá a força do pensamento mais profundamente até que atinja sua fonte e submerja nela.

É então que você terá a resposta que vem do seu interior e permanecerá lá, destruindo todos os pensamentos de uma vez e para sempre.

Discípulo – Este “Eu-Pensamento” brota de mim, mas não conheço o Eu.

Maharshi – Tudo isso são apenas conceitos mentais. Agora você está se identificando com o falso Eu, que é o “Eu-Pensamento”. Este Eu-Pensamento aflora e submerge, enquanto que a verdadeira expressão do Eu acha-se além de ambos. Não pode haver uma rutura em seu ser. Aquele que em você dorme é o mesmo que agora está desperto. Não há infelicidade durante o período do sono profundo. No entanto a infelicidade existe agora no estado de vigília. Que aconteceu neste momento, a ponto de se experimentar essa diferença? Não havia nenhum “Eu-Pensamento” durante seu sono profundo enquanto que agora ele se acha presente. O verdadeiro “Eu” não está aparente e o falso “Eu” está desfilando. Este falso Eu é o obstáculo ao seu correto conhecimento. Descubra de onde surge esse falso Eu. E a partir daí ele desaparecerá. Você será então o que realmente é, isto é, o Ser Absoluto.

Discípulo – Como proceder? Não fui bem-sucedido até agora.

Maharshi – Procure a fonte do “Eu-Pensamento”. Isto é tudo o que a pessoa deve fazer. O universo existe em função do “Eu-Pensamento”. Se isto desaparece, a miséria também acaba. O falso “Eu” acabará somente quando sua fonte for encontrada. E mais: as pessoas frequentemente perguntam como se controla a mente. Eu então lhes digo, “mostre-me a mente e você saberá então o que fazer.”  O fato é que a mente é apenas um feixe de pensamentos. Como você pode extingui-la ao pensar em fazer algo ou por meio de um desejo? Seus pensamentos e desejos são integrantes e parcelas da mente. A mente é simplesmente engordada a partir do surgimento de novos pensamentos. Portanto é tolice tentar matar a mente por meio da própria mente. O único meio de obtê-lo é encontrar sua fonte e fixar-se nela. A mente então desvanece por si mesma. A Raja-yoga ensina “Chitta Vritti Nirodha” (controle das atividades da mente). Eu digo porém Atma Vichara (autoinvestigação). Este é o meio prático. “Chitta Vritti Nirodha” surge no sono, no desmaio ou na inanição. Tão logo a causa desaparece vem a reativação dos pensamentos.

Qual é a sua utilidade então? No estado de letargia há paz e não há sofrimento. Mas o sofrimento volta quando o estupor é removido. Assim Nirodha (controle) é inútil e não pode ser um benefício duradouro. Como a ajuda pode ser duradoura? Ao se encontrar a causa do sofrimento. O sofrimento se deve à perceção dos objetos. Se não surgirem, não haverá pensamentos contingentes e assim o sofrimento é varrido. Como os objetos cessam de existir? Eis a próxima pergunta. Os srutis (escrituras) e os sábios dizem que os objetos são pura criação mental. Eles não têm existência substancial. Investigue o assunto e descubra a veracidade da afirmação. O resultado levará à conclusão de que o mundo se acha na consciência subjetiva. O Eu é pois a única realidade que permeia e envolve o mundo. Uma vez que não exista dualismo, os pensamentos não surgirão para perturbar sua paz. Isto é a realização do Eu. O Eu é eterno e também é realização.

Abhyasa (prática espiritual) consiste em retirar-se para o interior, no Eu, toda vez que você for perturbado por um pensamento. Não se trata de concentração ou destruição da mente, mas de interiorizar-se no Eu.

Discípulo – Por que a concentração é ineficaz?

Maharshi – Pedir à mente que mate a mente é como pretender que o ladrão se faça de policial. Ele irá com você e pretenderá apanhar o ladrão, mas nada será conseguido. Assim você deve introverter-se e verificar de onde a mente surge e assim ela cessará de existir.

Discípulo – Ao introverter a mente, não estaremos ainda empregando a mente?

Maharshi – É claro que estamos empregando a mente. É sabido e admitido que somente com a ajuda da mente ela poderá ser morta. Mas ao invés de admitir dizendo que a mente existe e que quer matá-la, deverá procurar a fonte de onde surge e descobrirá que ela não existe mesmo. A mente voltada para fora resulta em pensamentos e objetos. Voltada para o interior torna-se o Eu.

Discípulo – Mesmo assim, não entendo. O “Eu” que o Sr. se refere agora é o “Eu” errado. Como eliminar o “Eu” errado?

Maharshi – Você não precisa eliminar o “Eu” errado. Como pode o “Eu” eliminar a si mesmo? Tudo quanto você necessita fazer é buscar sua origem e estabelecer-se lá. Seus esforços só poderão ir até esse ponto. Então aquele que se acha acima tomará conta de tudo. Você nada poderá fazer. Nenhum esforço será necessário para alcançá-lo.

Discípulo – Se “Eu” sou sempre, aqui e agora, por que não percebo isso?

Maharshi – É assim. Quem diz que não é sentido? É o “Eu real” quem diz isso, ou o falso “Eu”? Verifique. Verá que é o falso “Eu”. O falso “Eu” é a obstrução. Ele deverá ser removido a fim de que o verdadeiro “Eu” não fique escondido. O sentimento de que não está realizado é o obstáculo à realização. De fato já está realizado e não há nada a realizar. De outro modo a realização seria algo novo. Se nunca existiu, deverá existir para todo o sempre. Tudo que nasce deverá também morrer. Se a realização não é eterna não valerá a pena obtê-la. Portanto o que buscamos não é algo que deverá surgir como novo. É somente aquilo o que é eterno mas que se acha desconhecido devido às obstruções.  É isto que buscamos. Tudo que precisamos é remover as obstruções. Aquilo que é eterno é desconhecido por causa da ignorância, a ignorância é a obstrução. Supere a ignorância e tudo estará bem. A ignorância é idêntica ao “Eu-Pensamento”. Encontre sua fonte e ele evaporará. O “Eu-Pensamento” é como um espírito, embora não palpável, surge simultaneamente com o corpo, floresce e desaparece com ele. A consciência do corpo é o “Eu” errado. Abandone esta consciência do corpo. Consegue-se isso buscando a fonte do “Eu”. O corpo não diz “Eu sou”. É você quem diz “Eu sou o corpo”. Encontre quem é este “Eu”. Buscando sua fonte, ele desaparecerá.

Discípulo – Quanto tempo pode a mente ficar ou manter-se no coração?

Maharshi– O período de extensão da prática.

Discípulo – E o que acontece após esse período?

Maharshi – A mente retorna ao presente estado normal. A união no coração é substituída e percebida por uma variedade de fenómenos. Isto é chamado de mente dispersa. A mente identificada com o coração é chamada de mente em repouso. Quando a pessoa pratica mais e mais desta maneira, a mente tornar-se-á extremamente pura devido a remoção de seus defeitos e a prática se tornará tão fácil que a mente purificada mergulhará no coração tão logo inicie a auto-indagação.

Discípulo – É possível para uma pessoa que uma vez teve a experiência de Sat-Chit-Ananda (o Ser Absoluto), durante a meditação, identificar-se com o corpo quando está fora dela?

Maharshi – Sim, é possível, porém ela irá gradualmente perdendo a identificação com a continuação da prática. A iluminação do ser dissipa a treva da ilusão para sempre. Qualquer conquista que se atinja sem que se tenha extirpado as vasanas não será durável. Os esforços devem ser feitos no sentido de erradicar as vasanas. O conhecimento do Eu só poderá permanecer firme depois que as vasanas forem eliminadas. Temos que lutar contra as tendências mentais há muito tempo acumuladas. Todas desaparecerão. Somente serão rapidamente eliminadas por aqueles que trilharam um caminho espiritual (sadhana) no passado, mas nos outros casos o tempo será maior.

Discípulo – Essas tendências desaparecerão gradualmente ou serão todas eliminadas num dia?

Maharshi – Quando o sol desponta, a escuridão desaparece gradativamente ou de uma só vez?

Discípulo – Como posso dizer se estou fazendo progresso por meio da autoindagação?

Maharshi – O grau de ausência de pensamentos é a medida do seu progresso em direção à auto-realização. Mas a autorrealização em si não admite o progresso. É sempre a mesma. O “Eu” permanece sempre realizado. Os obstáculos são os pensamentos. O progresso se mede pelo grau de remoção dos obstáculos que impedem que entendamos que o Eu está sempre realizado. Desse modo os pensamentos devem ser analisados com objetivo de perceber a quem eles surgem. Assim vá a sua fonte de onde eles não surgem.

Discípulo – As dúvidas estão sempre surgindo. Daí minha pergunta.

Maharshi– Uma dúvida surge e é esclarecida. Outra aparece e é aclarada, dando margem a que outra desponte e assim por diante. Portanto não há possibilidade de esclarecer todas as dúvidas. Veja a quem estas dúvidas aparecem. Vá a sua fonte e fixe-se nela. Então elas deixarão de aparecer. É deste modo que as dúvidas devem ser esclarecidas.

Discípulo – Devo continuar a fazer a autoindagação “Quem sou eu?” Sem responder? Quem pergunta a quem? Qual bhavana (atitude) que a mente deve assumir no período da indagação? Quem é o “Eu”: o Eu (divino) ou o ego?

Maharshi – Na auto-indagação (“Quem sou eu?”) O Eu é o ego. A pergunta tem por significado indagar qual é a fonte ou origem deste ego. Você não precisa manter qualquer bhavana (atitude) na mente. Tudo o que se requer é que você abandone a bhavana que é o corpo, que mostra esta ou aquela característica, com este ou aquele nome, etc. Não carece ter uma bhavana sobre sua real natureza. Ela existe como sempre é. É real e não uma bhavana.

Discípulo – Mas não é engraçado que o “Eu” deva procurar o “Eu”? A auto-indagação – Quem sou eu? Não é afinal uma fórmula vazia? Ou devo fazer a mim mesmo a pergunta indefinidamente, repetindo-a como um mantrã?

Maharshi – A autoindagação certamente não é uma fórmula vazia e é mais do que a repetição de qualquer mantrã. Se a autoindagação (quem sou eu?) Fosse apenas uma pergunta puramente mental, não seria de muito valor. O objetivo real dela é focalizar toda a mente em sua fonte. Não se trata, portanto, do fato de um “Eu” buscando um outro “Eu”. Muito menos expressa uma fórmula vazia pois envolve uma intensa atividade de toda a mente a fim de se manter na pura autoconsciência.

Discípulo – É suficiente que eu dedique um tempo pela manhã e outro à noite a esta atma-vichara? Ou devo fazê-la sempre, mesmo quando estou escrevendo ou caminhando?

Maharshi– Qual é sua real natureza? Escrevendo, caminhando, ou sendo? A realidade única e inalterável é ser. Até que você realize aquele estado de puro ser, deverá prosseguir na auto-indagação. Se você tiver se estabelecido neste estado não haverá mais preocupações. Ninguém buscará a fonte dos pensamentos se eles não surgirem. Uma vez que você pense “eu estou caminhando” ou “eu estou escrevendo”, faça a pergunta: “quem está fazendo isso?”.

Discípulo – Se eu continuo rejeitando os pensamentos posso chamar isso de vichara?

Maharshi– Isto poderá ser um degrau inicial, mas a verdadeira vichara começa quando você se liga ao Eu (Divino) e fica livre das atividades da mente, ou seja, as ondas de pensamentos.

Discípulo – Então a vichara não é intelectual?

Maharshi – Não. Ela é antara vichara, isto é, busca interior. Conter a mente e investigá-la é indicado para os iniciantes. Mas afinal o que é a mente? É uma projeção do Eu (Divino). Veja para quem ela surge e de onde nasce e veremos que o “Eu-Pensamento” é a causa-raiz da mente. O “Eu-Pensamento” desaparece e percebe-se uma expandida e infinita “Eu-consciência.”

Discípulo – Eu perguntei à “Mãe” no ashram de Sri Aurobindo, o seguinte: “Consigo manter minha mente em branco, sem pensamentos, de modo a que Deus se mostre em seu ser real. Mas não percebo nada”. Ela me respondeu: “Sua atitude é correta. O poder descerá de cima. É uma experiência direta”. Devo fazer algo após isso?

Maharshi – Seja o que você realmente é. Não há nada que desça ou se torne manifestado. Tudo o que se necessita é perder o ego. Aquilo que existe está sempre presente. Até mesmo neste momento você é ele. Você não é algo separado dele. O branco da mente é percebido por você. Você está aí para poder percebê-lo. O que é que você está esperando? O pensamento: “Eu não vi”, a expectativa de ver e o desejo de obter algo, todos são operações do ego. Você caiu nas armadilhas do ego. Seja você mesmo e nada mais! Logo que você nasce você consegue algo. Se você consegue algo terá que deixá-lo. Portanto, livre-se de toda essa redundância. Seja o que você é. Veja quem é e permaneça no Eu, livre de nascimento, ir e voltar (reencarnação).

Discípulo – Como conhecer o Eu?

Maharshi – Conhecer o Eu significa ser o Eu. Você pode dizer que não conhece o Eu? Embora você não possa ver seus próprios olhos, a não ser com um espelho, por acaso negará a existência deles? De modo similar, você é consciente do Eu mesmo que ele não se ache objetivado, ou você o nega pelo fato de não estar objetivado? Quando você diz “eu não posso conhecer o Eu”, significa impedimento em termos de conhecimento relativo. Pelo fato de ter sido acostumado a este conhecimento relativo você se identifica com ele. Esta errónea identificação forjou a dificuldade de perceber o óbvio Eu Divino porque este não pode ser objetivado. Por isso você pergunta “como conhecer o Eu?”.

Discípulo – O Sr. fala sobre ser. Ser o que?

Maharshi – Sua obrigação é ser e não ser isto ou aquilo. “Eu sou o que sou” resume toda verdade. O método se resume nas palavras “permaneça quieto”. Que significa permanecer quieto? Significa destruir o ego. Isto porque qualquer aspeto ou forma é causa de problemas. Livre-se das noções de “eu sou isto ou aquilo”. E o que se requer para realizar o Eu é permanecer quieto. Que há de mais fácil do que isso? Desse modo Atma-Vidya (autoconhecimento) é o meio mais fácil de obtê-lo.  A verdade sobre a própria pessoa vale a pena ser pesquisada e conhecida. Tomando essa verdade como alvo de sua atenção, o indivíduo deve conhecê-la de maneira aguçada no coração. Este conhecimento sobre a própria pessoa será revelado somente à consciência que for aquietada, clara e livre da atividade da agitada e sofredora mente. Saiba que a consciência que sempre brilha é o coração na feição do “Eu” sem forma, o qual é conhecido pela pessoa que permanece quieta, sem pensamentos sobre qualquer coisa existente ou não existente. Estar só é a perfeita realidade.


Bhagavan Ramana Maharshi
  Fonte:
Ramana Maharshi
Autoindagação – Prática
Seja como você é
https://osmirclemente.wordpress.com/3057-2/

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