A Essência dos Ensinamentos de Ramana Maharshi - Michael James




"Não dormir. Ser como um astro. Arder silencioso e firme na noite escura." - Paulo Borges


A ESSÊNCIA DOS ENSINAMENTOS DE SRI RAMANA MAHARSHI

POR MICHAEL JAMES

Os ensinamentos de Sri Ramana Maharshi são muito simples, e portanto, podem ser expressos em poucas palavras.

É a nossa mente que é muito complexa, daí, algumas vezes, serem necessárias muitas palavras para conseguir desenraizar todas as nossas crenças e ideias, e chegarmos ao nosso centro, o "Eu sou" (o nosso senso de presença).

O "Eu" é o centro de todas as nossas experiências, já que o que quer que experienciemos, é somente experienciado pelo nosso "Eu". O "Eu" é também o cerne dos ensinamentos de Sri Ramana Maharshi.

Tudo o que experienciamos pode ser incerto e ilusório, e tudo aquilo em que acreditamos pode estar errado, portanto, é necessário para nós duvidarmos de tudo, mas o que nós não podemos duvidar é que "Eu sou", porque para podermos sequer acreditar em algo, ou duvidarmos de algo, o "Eu" tem de existir.

Embora seja bastante certo e claro que "Eu sou", não é certo nem claro, sabermos "o que 'Eu' sou'", já que nós neste momento, experienciamos um corpo e uma mente como sendo o nosso "Eu", no entanto, temos boas razões para duvidarmos se este corpo ou se esta mente (efémeros e transitórios) são realmente o nosso "Eu".

Embora, neste momento, experienciemos este corpo como sendo o "Eu", durante o estado de sonho experienciamos outro corpo (criado pela mente) como sendo,o "Eu".

Portanto, durante o estado de sonho experienciamos o "Eu", mas não experienciamos o nosso corpo do estado de vigília. Então este corpo (do estado de vigília) e o "Eu" não podem ser idênticos.

Se este corpo fosse o "Eu" não poderíamos experienciar o "Eu" quando não experienciamos este corpo (como acontece no estado de sonho).

Tanto no estado de vigília como no estado de sonho, nós experienciamos a nossa mente pensante como sendo o "Eu", mas, no estado de sono profundo não experienciamos esta mesma mente.

Embora, a mente desapareça no estado de sono profundo, nós experienciamos a sua ausência (da mente).

Portanto, nós existimos e devemos estar conscientes da nossa existência durante o estado de sono profundo, para podermos experienciar a ausência da mente ou de qualquer outra coisa neste estado (de sono profundo).

Embora, nós geralmente acreditemos que não estamos conscientes de nada durante o sono profundo, seria muito mais correto dizermos que nós estamos conscientes do nada.

A diferença sobre o que estou aqui a transmitir pode ser ilustrado pela seguinte analogia:

Se uma pessoa que seja completamente cega, e uma pessoa completamente saudável da visão estiverem numa sala totalmente escura, é lógico que a pessoa cega não conseguirá ver nada, mas também não poderá reconhecer que naquela sala não existe luz nenhuma.

A pessoa com a visão completamente normal, também não conseguirá ver nada, no entanto, esta mesma pessoa conseguirá reconhecer a total ausência da luz naquela sala.

O facto de conseguirmos reconhecer a ausência de qualquer experiência durante o sono profundo, claramente indica que nós existimos durante esse mesmo estado de sono profundo, para podermos assim experienciar a ausência de qualquer experiência, ou do vazio.

O facto de nós experienciarmos o vazio, também pode ser demonstrado de outras maneiras. Por exemplo, se nós não experienciássemos o estado de sono profundo, estaríamos consciente somente dos outros dois estados (estado de vigília e de sonho), e não estaríamos conscientes de nenhuma lacuna entre cada estado (estado de vigília e de sonho).

Mas nós estamos conscientes de que, às vezes, existe uma lacuna, à qual nós chamamos de sono profundo, no qual não experienciamos nem o estado de vigília nem o estado de sonho.

Nós não supomos a existência apenas a existência deste terceiro estado (sono profundo), nós realmente experienciamo-lo.

É por isso que dizemos, após acordarmos de um sono tranquilo e profundo dizemos: "Eu dormi muito bem."

Por que é que é importante compreendermos que experienciamos o estado de sono profundo, já que este estado é desprovido de alteridade ou de multiplicidade?

Porque a nossa experiência de sono profundo ilustra o facto que nós experienciamos o senso de "Eu" na ausência da própria mente. Portanto, a mente não pode ser aquilo que Eu sou.

A única experiência que existe em todos estes três estados é o "Eu sou" (senso de Presença).

"Sou Eu que estou a experienciar este estado de vigília, fui Eu que experienciei o estado de sonho, e também fui Eu que experienciei a ausência de ambos, durante o estado de sono profundo."

Portanto, o "Eu" é distinto de tudo que tenhamos experienciado em qualquer destes três estados.

Uma vez que tenhamos compreendido isto, deverá ser claro para nós que a nossa presente experiência do senso de "Eu" é confusa e pouco clara porque nós agora experienciamos este corpo e esta mente, que são efémeros e transitórios, como sendo "Eu".

Apesar de sabermos com toda a certeza que "Eu sou", não sabemos com certeza o que "Eu sou", e assim é necessário para nós investigarmos este "Eu" para determinarmos o que este "Eu" realmente é.

Para experienciarmos o "Eu", tal como ele realmente é, precisamos de isolá-lo de tudo o resto. E a única maneira de isolarmos o "Eu" é focarmos a nossa atenção nele, e retirarmos a nossa atenção de tudo o resto.

Este processo é denominado de Atma-Vichara (autoinvestigação ou autoinquirição). Método que Sri Ramana Maharshi nos ensinou, como sendo o método mais adequado para experienciarmos o "Eu". Daí que Sri Ramana Maharshi também chamou a esta prática "Quem sou eu?"

Esta é a soma e a substância do ensinamento de Sri Ramana Maharshi, e é tudo aquilo que precisamos compreender para começarmos a investigar o que realmente somos.

Contudo, as pessoas abordam este ensinamento a partir de diversos pontos de vista, e cada pessoa tem a sua ideia preconcebida. Assim, as pessoas perguntam-me uma enorme variedade de questões, e este mesmo ensinamento pode ser expresso de diferentes maneiras para servir as necessidade de cada pessoa.

Daí tantas palavras tenham sido escritas e faladas por mim e por outras pessoas sobre os ensinamentos do mestre. Mas o que quer que seja escrito ou dito sobre os ensinamentos devemos sempre focar a nossa necessidade investigar e experienciar o que o "Eu" realmente é.


Michael James



TURIYA: O ESTADO NATURAL DO SER


Pergunta: O que é o estado Turiya (palavra sânscrita que significa o quarto)?

Ramana Maharshi: Existem apenas três estados, vigília, sonho e sono. Turiya não é um quarto estado, ele é o que sublinha esses três. Mas as pessoas não o compreendem de imediato. Por isso, é dito que esse é o quarto estado e é a única Realidade. Na verdade ele não está à parte de tudo, pois forma o substrato de todos os acontecimentos, ele é a única verdade e é o teu próprio Ser (o nosso Eu). Os três estados aparecem como fenómenos fugazes sobre ele e depois se afundam para dentro dele. Portanto, eles são irreais. As imagens em um cinema são apenas sombras passando sobre tela. Elas tem seu aparecimento, se movem para frente e para trás, mudam de uma para outra, dessa forma são irreais, enquanto que a tela o tempo todo mantém-se inalterada. Da mesma forma, numa pintura: as imagens são irreais e a tela é real. Assim também é connosco: o mundo dos fenómenos, dentro ou fora, são apenas fenómenos passageiros e não são independentes de nosso Ser. Somente o hábito de olhar para eles como sendo reais e localizados fora de nós é que é responsável por deixar escondido o nosso verdadeiro Ser e aparente todo o restante.

A única Realidade sempre presente, o Ser, ao ser encontrado, fará todas as outras coisas irreais desaparecerem, deixando como resíduo o conhecimento de que elas não são nada além do Ser.

Turiya é apenas um outro nome para o Ser. Cientes dos estados de vigília, sonho e sono, continuamos inconscientes do nosso próprio Ser. No entanto, o Ser está aqui e agora, é a única Realidade. Não há nada mais. Enquanto dura a identificação com o corpo o mundo parece estar fora de nós. Apenas realize o Ser e ele não estará mais fora.

Pergunta: Eu consigo entender a unidade na variedade, mas não consigo percebê-la.

Ramana Maharshi: Porque você está na variedade você diz que entende a unidade, que tem flashes da realidade, que se lembra dela, etc., você considera esta variedade como sendo real. Por outro lado, a Unidade é a realidade, e a variedade é falsa. A variedade deve ir antes que a unidade se revele, antes que revele a sua realidade. Ela é sempre real. Ela não envia flashes de seu ser nesta variedade falsa. Pelo contrário, esta variedade obstruí a verdade.

Pergunta: A graça é necessária para a remoção da ignorância.

Ramana Maharshi: Com certeza. Mas a Graça está o tempo todo aí. A Graça é o Ser. Não é algo a ser adquirido. Tudo o que é necessário é conhecer sua existência. Por exemplo, o sol é só brilho. Ele não vê escuridão. Ao passo que as pessoas falam da escuridão fugindo do sol enquanto ele se aproxima. Da mesma forma, a ignorância também é um fantasma e não é real. Devido à sua irrealidade, ao descobrirmos sua natureza irreal, se diz que ela foi removida. Novamente, o sol está lá e também está brilhando. Você está rodeado pela luz solar. Ainda assim, para você conhecer o sol você tem que voltar seus olhos na direção dele e olhar para ele. Da mesma forma, a Graça só é encontrada através de práticas, embora esteja aqui e agora.

Pergunta: Espero eu, que pelo constante desejo de me render, uma Graça crescente seja experimentada.

Ramana Maharshi: Renda-se de uma vez por todas e acabe com os desejos. Enquanto o senso de ser o fazedor é mantido existe os desejos; isso também é a personalidade. Se isso for embora o Ser será descoberto brilhando de maneira pura. O senso de 'fazedor' é o aprisionamento, e não as próprias ações. "Aquietai-vos e sabeis que Eu sou Deus." Aqui, quietude é a rendição total, sem nenhum vestígio de individualidade. A quietude prevalecerá e não haverá agitação da mente. A agitação da mente é a causa do desejo, do senso de fazedor e da personalidade. Se ela é interrompida, há serenidade. Desse modo, "Saber" significa "Ser". E não é um conhecimento relativo envolvendo a tríade - conhecimento, sujeito e objeto.

Pergunta: Após o retorno da consciência-corpo...

Ramana Maharshi:
O que é a consciência-corpo? Diga-nos isso primeiro. Quem é você à parte da consciência? O corpo é encontrado porque há consciência-corpo que surge da "consciência-eu", que novamente surge da Consciência.

Consciência → 'consciência-eu' → consciência-corpo → corpo.

Há sempre a consciência e nada mais que isso. O que você está agora considerando ser a consciência-corpo deve-se à sobreposição. Se houvesse somente a consciência e nada além dela, o significado da Escritura 'Atmanastu kamaya bhavati priyam sarvam' (Todos são queridos por causa do amor do Ser) se tornaria claro.


Michael James

A Essência dos Ensinamentos de Ramana Maharshi - Por Michael James
Tradução livre de:
http://happinessofbeing.blogspot.pt/2014/10/the-essential-teachings-of-sri-ramana.html
Turiya: O estado natural do Ser:
http://seresdeluz.portaldosanjos.net/2013/05/turiya-o-estado-natural-do-ser-por.html

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