A Busca do Seu Rosto original




"Não devemos construir a nossa casa numa ponte. Nós temos de atravessar essa ponte."


 A BUSCA DO SEU ROSTO ORIGINAL


É necessário entender a palavra "personalidade". Vem de "persona", que significa "máscara". Na Grécia Antiga os atores costumavam usar máscaras; essas máscaras chamavam-se "persona"; porque o som estava a vir de trás da máscara. "Sona" significa "som". De trás da máscara saía o som. Da palavra "persona" surgiu a palavra "personalidade".

Toda a personalidade é falsa. A boa personalidade, a má personalidade, a personalidade de um pecador e a personalidade de um santo - são todas falsas. Você pode usar uma máscara muito bonita ou uma máscara feia, não faz qualquer diferença.

A realidade é sua essência.

A personalidade é também uma parte necessária do crescimento. É como se apanhasse um peixe no mar e o atirasse para a praia; o peixe salta novamente para o mar. Agora, pela primeira vez, saberá que sempre viveu no mar, pela primeira vez saberá que "o mar é a minha vida". Até aqui, antes de ter sido apanhado e atirado para a praia, podia nunca ter pensado no mar; podia nunca se ter apercebido da existência do mar. Para conhecer alguma coisa é preciso perdê-la primeira.

Para ter consciência do paraíso, é preciso perdê-lo primeiro. A menos que o tenha perdido e recuperado não compreenderá a sua beleza.

Adão e Eva perderam o Jardim do Éden; faz parte do crescimento natural. Só um Adão que deixa o belo Jardim de Deus se pode tornar Cristo um dia - ele pode voltar. Adão deixar o Éden é exatamente o mesmo que o peixe ser apanhado e atirado para a praia, e Jesus é o peixe a saltar novamente para o mar.

Os povos primitivos, por exemplo, têm algo em comum com as crianças muito pequenas. São belos, espontâneos, naturais, mas principalmente, não têm noção do que são, não têm qualquer consciência. Vivem alegremente, mas a sua alegria é inconsciente. Primeiro têm de a perder. Têm de se tornar civilizados, educados , conhecedores, têm de se tornar uma cultura, uma civilização, uma religião.

Têm de perder toda a sua espontaneidade, têm de esquecer tudo acerca da sua essência e, subitamente, um dia começam a sentir falta dela. É algo que é inevitável acontecer.

Isso está a acontecer em todo o mundo e está a acontecer numa escala tão grande porque esta é a primeira vez que a humanidade se torna realmente civilizada.

Quanto mais civilizado for um país, maior é a sensação de falta de sentido. Os países pouco desenvolvidos ainda não têm essa sensação - não podem tê-la. Para termos essa sensação de vazio interior, de ausência de sentido, de absurdo, é preciso termo-nos tornado muito civilizados.

É por isso que sou a favor da ciência, porque ajuda tirar os peixes para a praia. E uma vez na praia quente, na areia quente, o peixe começa a sentir muita sede. Nunca tinha sentido sede antes. Pela primeira vez sente falta do oceano à sua volta, da frescura, das águas que lhe dão vida. Está a morrer.

Esta é a situação atual do homem civilizado, do homem educado: está a morrer. Há uma grande necessidade de compreender tudo isto. Queremos saber o que deve ser feito, como podemos entrar outra vez no oceano da vida.

Nos países pouco desenvolvidos, como é o caso da Índia, não existe este sentimento de ausência de sentido. Muito embora alguns intelectuais indianos escrevam acerca disso, a sua escrita não tem profundidade, porque não corresponde à situação da mente indiana. Alguns intelectuais indianos escrevem acerca da ausência de sentido, do absurdo, quase da mesma forma que Soreen Kierkegaard, Jean-Paul Sartre, Jaspers, Heidegger... Eles leram acerca destas pessoas, ou talvez tenham visitado o Ocidente, e começam a falar da ausência de ausência de sentido, náusea, absurdo, mas isso soa a falso.

Falei com intelectuais indianos - soam muito a falso, porque não é um sentimento deles; é emprestado. É Soren Kierkegaard a falar através deles, é Friedrich Nietzsche a falar através deles; não é a voz deles. Eles não têm realmente consciência do que Soren Kierkegaardestava a falar; não sofreram a mesma angústia. O sentimento deles é estranho, estrangeiro; aprenderam-no como papagaios. Falam acerca disso, mas toda sua vida diz e mostra outra coisa. O que eles dizem e o que a vida deles demonstra são coisas diametralmente opostas.




É muito, muito raro um intelectual indiano cometer suicídio - nunca ouvi falar de nenhum -, mas muitos intelectuais ocidentais cometeram suicídio. É muito raro encontrar um intelectual indiano que tenha enlouquecido; é um fenómeno muito comum no Ocidente, os intelectuais enlouquecerem. Os verdadeiros intelectuais enlouqueceram quase inevitavelmente; é a sua experiência de vida.

Toda a civilização ao seu redor, a personalidade superdesenvolvida, tudo se tornou uma prisão. Eles estão a ser mortos por esta razão. O simples peso da civilização é demasiado e insuportável. Eles estão a sentir-se sufocados, não conseguem respirar. Até mesmo o suicídio parece ser uma libertação ou, se não conseguem cometer suicídio, a loucura parece ser um outro escape. Pelo menos, ao enlouquecer, uma pessoa esquece completamente a civilização, esquece todo o absurdo que acontece em nome da civilização. A loucura é uma maneira de esquecer a civilização.

Mas sentir que a vida é totalmente desprovida de sentido é estar numa encruzilhada: ou se escolhe o suicídio ou se escolhe o sannyas (renúncia ao mundano); ou se escolhe a loucura ou se escolhe a meditação. É um ponto de viragem muito importante.

Todas as personalidades são falsas. Há uma essência interior que não é falsa,, que você traz consigo quando nasce, que sempre existiu.

Alguém pergunta a Jesus: "Sabe alguma coisa acerca de Abraão?" E Jesus diz: "Existo muito antes de Abraão existir."

Que afirmação absurda, mas com um significado tão grande! Abraão e Jesus - há uma grande lacuna entre eles; Abraão precedeu Jesus por mais de três mil anos. E Jesus diz: "Existo antes de Abraão existir." Ele está a falar da essência. Não está a falar de Jesus, está a falar de Cristo. Está a falar do eterno. Não está a falar do pessoal, está a falar do universal. 

A cultura zen diz que a menos que conheçamos o nosso rosto original, o que tínhamos antes mesmo  de o nosso pai ter nascido, nunca seremos iluminados. O que é este rosto original? Tínhamo-lo mesmo antes de o nosso pai nascer e voltaremos a tê-lo quando morrermos e o nosso corpo for queimado e não sobrar nada a não ser cinzas - nessa altura voltaremos a ter esse rosto.

O que é este rosto original? A essência - chamemos-lhe a alma, o espírito, o Eu; estas palavras significam a mesma coisa, Nascemos como uma essência, mas se continuarmos a ser uma essência, sem que a sociedade nos crie uma personalidade, continuaremos a ser como animais. Aconteceu com algumas pessoas.

Por exemplo, foi encontrada no Norte da Índia, perto dos Himalaias, uma criança de onze anos de idade que foi criada por lobos, uma 'criança-lobo'. Claro que os lobos só lhe podem dar a personalidade de um lobo, por isso a criança era humana, a essência existia, mas tinha a personalidade de um lobo.

Isso aconteceu muitas vezes. Os lobos parecem ter a capacidade de criar crianças humanas; parecer ter um certo amor, uma certa compaixão pelas crianças humanas. Estas crianças não têm nada da corrupção que a sociedade humana acaba por dar, os seus seres não estão poluídos, são essência pura. 

São como os peixes no oceano - não sabem quem são. E é muito difícil dar-lhes uma personalidade humana, uma vez que foram criadas por animais; é um trabalho demasiado difícil. Quase todas as crianças morreram nesse esforço. Não conseguem aprender os costumes humanos, agora é demasiado tarde. Já estão moldadas; já se tornaram personalidades fixas. Aprenderam a ser lobos. Não conhecem qualquer moralidade, não conhecem qualquer religião. Não são hindus, cristãos, muçulmanos. Não se preocupam com Deus - Nunca ouviram falar Nele. Tudo o que conhecem é a vida de um lobo.

Se a personalidade humana é uma barreira - e só é uma barreira se nos agarrarmos a ela -, então tem de ser atravessada: é uma escada, uma ponte. Não devemos construir a nossa casa na ponte, é verdade, mas temos de atravessar a ponte.

A personalidade humana é parcial. Numa sociedade melhor daremos às crianças personalidades, mas também a capacidade de se livrarem delas. É isso que falta agora; damos-lhes personalidades, personalidades demasiados rígidas e elas ficam presas, aprisionadas nelas e nunca lhes damos uma maneira de se livrarem delas. É como dar a uma criança uma armadura e não lhe dar nenhuma ideia de como a tirar, de como, um dia quando crescer, tirar a vestimenta.

O que estamos a fazer com os seres humanos foi exatamente o que se fez na China antiga com os pés das mulheres. Desde a infância davam às raparigas sapatos de ferro para os pés delas nunca crescerem, para ficarem muito pequenos. Os pés pequenos eram muito apreciados. Só as famílias aristocráticas podiam permitir-se isso porque era muito difícil para a mulher fazer o que quer que fosse. A mulher nem sequer conseguia andar corretamente, pois os pés eram demasiados pequenos para suportar o corpo. Os pés estavam mutilados e a pessoa tinha de usar um apoio para caminhar. 

Uma mulher pobre não podia permitir-se isso, por isso os pés pequenos eram um símbolo da aristocracia.

Podemos rir-nos, mas continuamos a fazer a mesma coisa. Atualmente, no Ocidente, as mulheres caminham com sapatos absurdos, com saltos altíssimos! Não há problema de fazer uma coisa dessas no circo, mas esses saltos assim tão altos não são para caminhar. Mas são apreciados, porque quando uma mulher caminha com saltos muito altos, torna-se sexualmente muito atraente: as nádegas dela destacam-se mais. E como é difícil caminhar, as nádegas movem-se mais do que se moveriam normalmente. Mas isto é aceite, isto está correto. Mas outras sociedades rir-se-ão disto.

Em todo o mundo as mulheres usam sutiãs e pensam que isso é muito convencional e tradicional. De facto, o sutiã faz a mulher parecer mais sensual, é só para dar ao seu corpo uma forma que não tem. 

Serve para ajudar os seios a destacarem-se e para terem um aspeto muito jovem e não descaído. E as mulheres nas sociedades tradicionais, sociedades que insistem em que as mulheres usem sutiãs, pensam que estão a ser muito religiosas e muito ortodoxas. Só estão a enganar-se a si mesmas - o sutiã é um acessório sexual. Tal como com o sutiã, há algumas sociedades primitivas que usam coisas estranhas. Por exemplo, os lábios são tornados maiores e mais espessos. Desde a infância penduram-se pesos nos lábios para ficarem muito espessos e grandes. Isto é um símbolo de uma mulher muito sensual - os lábios grossos e grandes podem, obviamente, dar um beijo melhor! Em algumas sociedades primitivas o homem até costumava usar um chumaço nos órgãos genitais para os fazer parecer maiores, tal como as mulheres usam sutiãs. Agora rimo-nos destas pessoas tão tolas, mas é a mesma história! Até as pessoas mais jovens em todo o mundo estão a usar calças muito justas - só para dar destaque aos seus genitais. Mas quando uma coisa é aceite, ninguém se incomoda muito com ela.

A civilização não devia tornar-se uma prisão. É absolutamente necessário termos uma personalidade, mas deve ser uma personalidade que se possa pôr e tirar facilmente, como se fosse roupa leve, não como peças de aço. A roupa de algodão serve perfeitamente, para podermos vesti-la e tirá-la e não sermos obrigados a usá-la continuamente. É a isso que eu chamo uma pessoa razoável: uma pessoa que viva na sua essência, mas no que diz respeito à sociedade vista uma personalidade. Essa pessoa usa a personalidade, é senhora do seu ser.

A sociedade requer que se tenha uma certa personalidade. Se levar a sua essência para a sociedade, estará a arranjar problemas a si e aos outros. As pessoas não compreenderão a sua essência; a sua verdade pode ser demasiado perturbadora para elas. Não há necessidade! Não precisa de andar nu perante a sociedade; pode usar roupa.

Mas devemos poder estar nus na nossa própria casa, a brincar com os nossos filhos; a beber chá numa manhã de Verão no jardim, no relvado, devemos poder estar nus. Não há necessidade de ir para o emprego nu - não há necessidade! Usar roupa é perfeitamente adequado; não há necessidade de se expor perante toda a gente. Isso seria exibicionismo, isso seria outro extremo. Um extremo é as pessoas não poderem sequer ir para a cama sem roupa, um outro extremo é haver monges jainas a andar nus no supermercado, ou sadhus hindus nus. E o que é estranho é que estes jainas e estes hindus se opõem às mulheres ocidentais, porque elas com os braços descobertos, porque não usam roupas adequada.

Num país quente como a Índia é muito difícil para as pessoas vindas do Ocidente usarem muita roupa. Aos olhos do visitante ocidental que vem cá parece absurdo ver os indianos de fato e gravata. Parece mesmo absurdo! Não há problema no Ocidente - está frio e a gravata serve de proteção -, mas na Índia assemelha-se a uma tentativa de suicídio. No Ocidente é normal usar sapatos e meias, mas na Índia? No entanto, as pessoas imitam os Ocidentais. Andam o dia inteiro de sapatos e meias, num país quente. O vestuário ocidental (as calças justas, o casaco, a gravata e o chapéu) não é adequado ao clima indiano e dá às pessoas um ar ridículo. Na Índia é necessário usar roupa larga. Mas também não há necessidade de cair no outro extremo, a ponto de começar a andar por aí nu, a ir nu de bicicleta para o mercado. Não precisa de arranjar problemas a si e aos outros.

Devemos ser naturais e com isso quero dizer que devemos poder vestir a personalidade quando é necessário na sociedade. Ela funciona como um lubrificante, ajuda, porque há milhares de pessoas.

Os lubrificantes são necessários, caso contrário as pessoas estaria constantemente em conflito, estariam constantemente umas contra as outras. Os lubrificantes são úteis, mantêm a vida a correr suavemente.

A personalidade é boa quando comunicamos uns com os outros, mas é uma barreira quando começamos a comunicar connosco próprios. A personalidade é boa quando nos relacionamos com seres humanos, mas é uma barreira quando nos relacionamos com a existência.


Osho
Origem das palavras de Osho:
Farmácia do Espírito
A citação inicial foi baseada nas palavras originais do amado mestre Osho

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