A Atenção




Quando Ali perante Maomé, perguntou-lhe: “Que devo fazer para não perder meu tempo?”, o profeta lhe respondeu: “Aprende a conhecer-te a ti mesmo!” Um conselho inestimável. Por quê? Que o próprio Maomé responda através das suas palavras inseridas no Corão: “Aquele que compreende a si próprio compreende o seu Deus”.

A ATENÇÃO

(...) Aparentemente, esse esforço no sentido de contemplar o pensamento do Eu é inexequível como tentar agarrar a própria sombra. O pensamento do Eu é o mínimo irredutível a que podem chegar as indagações de um homem — estando o ego em repouso. O caráter do pensamento do Eu só pode ser determinado observando a revelação por ele feita da sua natureza. Trata-se de uma tarefa que só poderá ser feita a partir da abstração de todos os demais pensamentos. Talvez a Natureza não permita que uma tal tentativa seja bem sucedida por mais de um instante, mas esse instante deve bastar para que se tenha uma rápida visão do eu real, o eu tal como ele é à sua própria luz.

Se examinarmos com cuidadosa concentração o curso da nossa vida interior e observarmos o nascimento de um pensamento, o que de fato poderemos fazer nos momentos de quietude mental, se nos dissociarmos assim da inerência no intelecto propriamente dito, descobriremos que aquilo que dá realidade, vida e valor ao pensamento é uma consciência atenta. Sem o poder de emprestar atenção a alguma coisa o homem não teria existência consciente em nenhum mundo: físico, intelectual ou transcendental. A importância da atenção não pode ser subestimada. Na verdade, a atenção é a alma do pensamento e a raiz da perceção. Quando voltada para o exterior, permite-nos tomar consciência do mundo externo ao mesmo tempo em que ilumina os objetos. Por isso, sem focar no interior a faculdade da atenção, jamais poderemos esperar conhecer o reino oculto por detrás dos pensamentos — o reino do ser espiritual, o eu real.

Faz-se necessária uma mudança do campo de observação para que possamos efetuar essa descoberta. O hábito mantém nossas atenções inteiramente voltadas para o campo das coisas externas e para o mundo mental correspondente que delas decorre. As imagens que têm sua origem, direta ou não, neste campo nos assaltam de forma incessante a ponto de impedir que o eu tome consciência de sua própria natureza. A nossa mente se encontra permanentemente viajando. Mas, se nos recusássemos a permitir que a nossa atenção corresse sempre para essas imagens mentais, libertando a mente para estudar-se a si mesma, automaticamente nos libertaríamos das limitações do intelecto e deparar-nos-íamos com horizontes mais nobres. O hábito que nos obriga a adotar um ponto de vista materialista a respeito do universo existe dentro de nós, observadores que somos, se tal hábito pudesse ser interrompido — e pode — um universo espiritual poderia então revelar-se à nossa atenção interiorizada. Enquanto vivermos absorvidos na multidão dos pensamentos será impossível, ou extremamente difícil, asseverar aquilo que se acha por detrás do pensamento.

É preciso estudar o funcionamento da mente, reconhecer a sua dependência final da atenção, e a seguir aproveitar ao máximo esse conhecimento. Que melhor aproveitamento poderia ser encontrado do que o preenchimento do vácuo entre os pensamentos e a alma e do que o ganho daquela maravilhosa compreensão que tal preenchimento promete?

O tipo de atenção que torna possível o pensamento precisa ser desviado do mundo exterior para o interior, pois é o único meio de acesso ao EU FUNDAMENTAL. Dirigida para o recesso do ser, a atenção nos permite contemplar nossa própria significação à luz que emana do EU. A atenção é de fato uma manifestação da essência do homem, daquela alma que sobrepaira o intelecto, o sentimento e o corpo. Se nos fosse possível cultivar nossa atenção de maneira a dominá-la completamente, não nos seria preciso outro recurso para chegarmos às mais elevadas verdades espirituais e psicológicas, ou para descobrirmos os segredos da vida, do sono e da morte.

A providência seguinte será, então, isolar esse pensamento do EU com toda a força da nossa atenção e conservá-lo cativo durante algum tempo; é preciso que penetremos no seu segredo e forcemos a obtenção da resposta a esta pergunta: “Que sou eu?”

Pois a lógica, como quase sempre sugere a experiência no estado desperto, já não pode fornecer uma solução; chegou a um impasse e não pode mais avançar. A argumentação só serviu para nos convencer de que o EU está além de qualquer argumentação, pois está além do intelecto. A nossa busca só termina com a perceção direta do eu.

Assim o leitor foi conduzido, como que por um ténue fio, através do mundo do intelecto até a fronteira daquele esplendor maravilhoso que existe no seu âmago. Mostrou-se-lhe algo que até então ele talvez não houvesse sequer suspeitado: que assim como o mundo externo deve ser alcançado através dos órgãos sensoriais, assim também o mundo interno da alma deve ser alcançado pela faculdade de uma consciência atenta, liberta da tirania dos pensamentos ALEATÓRIOS, dos sentimentos flutuantes e das emoções externas.

Mas desenredar o pensamento do Eu não significa pensar no assunto. Não se chega a tanto fazendo declarações mentais ou inferências a respeito. Embora a sequência de auto-observações críticas e argumentos lógicos tenha sido vital para nos fazer chegar a este ponto, ela só servirá, caso seja levada ainda mais adiante, para não impedir o nosso progresso. A atividade mental precisa agora ceder diante da quietude mental. Tão logo nos entregamos a tal processo somos de novo desviados do caminho e atirados de volta na sempre presente sequencia de pensamentos e ideias que nos mantêm afogados em sensações múltiplas e nos impede de chegar ao EU.

A única maneira de penetrar e captar o pensamento do EU a esta altura é abandonar todo o raciocínio divagador a respeito. O que se requer é apenas uma atenção total, restrita ao campo da autoconsciência e mantida sempre sobre si mesma, sobre o EU-nela-mesma.

Mostrou-se que a atenção é a alma inerente ao pensamento, e está por isso um degrau acima do pensamento. Em consequência, apenas uma atenção redobrada e concentrada pode contemplar o pensamento do EU.

Na prática, o pensamento não pode contemplar-se a si mesmo a menos que se coloque num posto de observação mais alto. Mas tão logo o consiga é preciso que modifique a sua natureza e se transforme em atenção pura.

Qual o significado de todas estas declarações? Qual a momentosa implicação anterior a estas observações do processo do pensamento, elas próprias o resultado de um exame atento por parte de antigos videntes e sábios?

Eis a resposta: o ato de pensar consuma-se em seu grau mais elevado como atividade quando chega ao ponto de considerar o pensamento do eu, atendendo-se firmemente ao eu, mas deixando de lado o processo normal de logicidade de raciocínio. Mas a capacidade de controlar o fluxo dos pensamentos precisa ser conquistada antes que nos possamos aproximar do sentido do eu e percebê-lo sem disfarces sob o complexo das ondas mentais.

O destino certo do pensamento é atingido quando para aqui, quando se enquadra na compreensão de que precisa ser agora subjugado e dar lugar à faculdade mais subtil da atenção pura. Diretamente ligada ao ego e apenas a ele; dar lugar a uma consciência fixa que não salta de ideia para ideia, mas se prende de forma irresistível ao pensamento primordial do homem.

Por isso, todos os pensamentos aleatórios precisam também desaparecer antes que possamos avançar ainda mais no sentido da natureza do eu. Aí então temos o direito de esperar que o eu oculto se mostre espontaneamente. E não precisamos supor esse eu como uma invenção da imaginação metafísica. Pelo contrário, uma vez que ele é o centro mais recôndito que vibra antes e durante o raciocínio, o sentimento e a ação, deve ser também a mais alta intensidade de nossa vida individual.

A própria busca da compreensão dessa fonte misteriosa em que se origina o pensamento ajuda a preparar a única condição dentro do qual a compreensão é possível — a condição de uma atenta observação voltada para o interior que permite à consciência, ainda que por breve espaço de tempo, deixar de entregar-se à sua costumeira atividade de pensar.

É preciso que tornemos a nossa atividade cerebral afiada como uma navalha e para tanto necessitamos acalmá-la. Quando todos os pensamentos se aquietam e a mente chega à tranquilidade total, então esta pode contemplar o seu próprio eu com plena consciência, mas não antes disso.

Assim o nosso pensamento se voltou ao sentido de si mesmo. Tal não teria sido possível já no princípio de nossa busca. Primeiramente foi preciso separar o pensamento do corpo e fazer com que ele encarasse sua vida corporal como algo externo a si. A seguir foi necessário que o pensamento examinasse a natureza emocional e constatasse que também esta é estranha a si. Por fim o pensamento examinou-se a si mesmo e aprendeu a encarar as miríades de pensamentos como alguma coisa objetiva. O segredo da penetração no eu mais profundo envolve assim a drenagem da atenção do mundo externo para o mundo interior. Para dizer a verdade, esse eu não poderia viver atrás de nós, mas sim dentro de nós.

Não há o receio de sermos conduzidos a uma região de pura fantasia, desde que a nossa orientação seja adequada, pois nada pode estar mais perto, ser mais íntimo e mais real do que o nosso próprio eu.

Quando Ali perante Maomé, perguntou-lhe: “Que devo fazer para não perder meu tempo?”, o profeta lhe respondeu: “Aprende a conhecer-te a ti mesmo!”

Um conselho inestimável. Por quê? Que o próprio Maomé responda através das suas palavras inseridas no Corão: “Aquele que compreende a si próprio compreende o seu Deus”.

Acontece que a asserção bíblica de que o homem foi feito à imagem de Deus é verdadeira, mas tal imagem está dentro do homem. Não se trata de nenhum absurdo. Deus está sempre dentro do homem, da mesma forma pela qual o homem está dentro de Deus. Aceitar essa afirmação com enfadada resignação, como fazem aqueles que não conseguem compreender as suas implicações, é uma coisa; senti-la como uma realidade viva, uma força divina, é outra.

O tempo dedicado ao estudo da composição do nosso ser não é desperdiçado. Estamos tão ocupados em responder os inúmeros problemas decorrentes das atividades externas — os quais não têm fim — que o maior dos problemas “Que sou eu?” permanece sem resposta. Quando, porém, encetamos a busca da nossa própria alma somos inspirados por um poder mais alto: nossa divindade inerente, que, por sua vez, é o melhor penhor do nosso êxito final. Temos em nós tanto da centelha divina quanto o tinham os sábios e santos que pontificaram na história da humanidade, mas estes tinham consciência do fato, ao passo que nós apenas tateamos. E por ser um fato real — e não uma ficção metafísica — pode-se demonstrá-lo experimentalmente, pois a centelha divina existe em estado de separação, isto é, em separado do corpo físico, das emoções e até mesmo dos pensamentos.

PAUL BRUNTON

Paul Brunton

Fonte do ensinamento espiritual:
Paul Brunton em, A Busca do Eu Superior
Pensar Compulsivo
http://pensarcompulsivo.blogspot.pt/

Comentários

Mensagens mais visualizadas dos últimos 7 dias