Ser Deus | 1ª Parte




"Ó Arjuna, este é o estado de superconsciência da mente. Alcançando tal estado, não se é enganado. Conquistando este estado, mesmo no fim da vida, uma pessoa alcança a verdadeira meta da vida humana, tornando-se uno com Deus." - Krishna (Bhagavad-Gita, 2.72)


SER DEUS

{1ª PARTE}


PORQUÊ

Os pensadores ocidentais procuram sempre uma chave oculta, um significado e uma motivação suprema que expliquem a natureza das coisas, do universo e da humanidade. Mesmo proclamando que o mundo é absurdo, um simples produto do acaso, um acidente químico, ainda lhe atribuímos um sentido: negativo.

Aos olhos dos orientais, uma tal conduta é extravagante, pois não pode ter significado fora daquele que a concebe. Nenhuma ideia pode ser exterior e anterior ao espírito que a anuncia. A realidade original, de onde procede o conjunto dos fenómenos observáveis e das conceções possíveis, está, portanto, além do senso e do contra-senso, além de uma finalidade ou de uma ausência de finalidade.

Sobre isso os sábios da Índia estão muito longe dos filósofos e teólogos ocidentais, que durante séculos se obstinaram em elucidar o porquê da criação, como se a interrogação pudesse ser extraída e isolada da consciência que interroga. Chega-se assim a uma deprimente sucessão de perguntas e respostas, do género: "Por que o mundo existe? Porque Deus quis. Por que Deus quis? Porque Ele é Amor. Por que Ele é Amor? Porque é Deus. Por que Ele é Deus?... Porque... "

As crianças têm uma grande predileção por essa espécie de diálogo ao qual os pais costumam pôr fim, irritados: "Vá brincar! Você compreenderá mais tarde!.. " Eles mesmos, claro, estão longe de compreender.

Para o vedanta, o porquê das coisas está necessariamente ligado à relatividade, quer dizer, às aparências e a Maya. No plano do absoluto não há mais por quê, pois não há mais um eu separado que possa fazer a pergunta.

COMO O UM SE TORNA MÚLTIPLO?

O campo de investigações do pesquisador hindu refere-se mais à maneira como a inefável realidade do um-sem-um-segundo produz a dualidade, a multiplicidade, as diferenciações e as limitações do mundo fenomenal.

Na conceção judaico-cristã corrente, Deus constrói o universo, definitivamente, tal como um artesão amassa a argila para confecionar um vaso ou como um supertécnico fabrica uma máquina hipercomplexa. Para o Oriente, a criação não tem nem começo nem termo definitivo, ou melhor, ela começa e termina indefinidamente, a cada segundo.

Certamente há ritmos e ciclos. Assim, nosso cosmos, que apareceu há alguns milhares de anos, deverá desaparecer um dia em consequência de uma dissolução geral, mas um outro processo cósmico virá substituí-lo e assim sucessivamente, até o infinito; esses períodos de manifestação e não-manifestação são comparáveis à alternância dos dias e das noites ou da vida e da morte.

Dito isso, o fundo do problema - como o Um se toma múltiplo? - diz respeito a uma realidade atual, absolutamente imediata e constante. Não se trata de um processo excecional, que se teria produzido num passado hipotético, fabulosamente recuado (como o Génese do Antigo Testamento), mas de alguma coisa que acontece sem cessar, imediatamente, no âmago de nosso ser e da manifestação inteira.

No seio mesmo da unidade primordial, da perfeita não-dualidade, ao mesmo tempo plenitude e vacuidade indescritíveis, surge um impulso criador, uma vontade de vir-a-ser, de tomar nome e forma. Esse impulso criador é o formidável poder, a prodigiosa energia que movimenta o espaço-tempo, acende a fornalha dos sóis, anima a efervescência vibratória da matéria, os turbilhões de átomos e galáxias e depois secreta a vida e difunde a inteligência.

O SENHOR DOS MUNDOS

Esse insondável poder é chamado Ishvara. Simboliza o aspeto dinâmico e personalizado de Brahman quando este é considerado o criador universal.

Ishvara é o senhor dos mundos, a origem e o fim, o alfa e o ómega, o germe inicial e o último ponto de reabsorção. Representa assim o ato - sonho ou jogo - pelo qual o um-sem-um-segundo suscita a dualidade.

Os poderes de Ishvara e de Maya são apenas um. É o limiar onde a absoluta perfeição, cessando de ser auto-suficiente, inventa, projeta, exprime. É o momento em que começa o diálogo do vazio e do pleno, do interior e do exterior, do centro e da periferia, em que os corpos celestes se atiram no abismo, perseguindo-se a si mesmos em círculos gravitacionais desenfreados, em que as células, dividindo-se infinitamente, tornam-se uma multidão de outras para serem ainda elas mesmas, em que a consciência, fugindo da paz de seu próprio silêncio imutável, identifica-se com miríades de eus ruidosos e contraditórios.

Ishvara é o "eu" do "eu sou", que se afirma em cada existência fragmentária, em cada criança que nasce, em cada criatura viva encadeada aos seus desejos e medos de entidade isolada.

Ascender a Ishvara é reencontrar a fonte, o denominador comum, a origem de toda vida e de toda manifestação. Ascender a Ishvara, o supremo Senhor, é ascender ao "eu" criador primordial e universal, além do qual somente há não-dualidade, Brahman, sem eu nem outro.

Ishvara, o divino Eu cósmico, engendra neste instante e ao mesmo tempo milhares de sistemas planetários, de nebulosas, de campos eletromagnéticos e inúmeras combinações orgânicas e psíquicas que formam minha própria pessoa.

De certa forma, posso afirmar tranquilamente que eu sou Ishvara, com a condição de não reduzir o Senhor à fina película de lembranças e motivações a que chamo normalmente "eu".

A propósito, a maneira como me empenho para produzir, segundo após segundo, meu corpo, meus pensamentos, minhas emoções é tão misteriosa quanto à existência continuamente renovada do universo "exterior". Quando percebo a que ponto minha pessoa está indissoluvelmente ligada ao seu ambiente, devo começar a suspeitar que uma mesma energia compõe e engendra tudo.

Criador, preservador, destruidor Ishvara é, tradicionalmente, representado sob um triplo aspeto que exprime o ritmo temário de todo fenómeno relativo, de todo processo manifestado.

Com efeito, todo ser, objeto ou acontecimento submetido ao vir-a-ser deve ter um começo, um meio e um fim, um nascimento, um desenvolvimento e uma morte, uma aurora, um zénite e um crepúsculo. Essas três fases, universalmente observáveis, são simbolicamente representadas pelas seguintes divindades: Brama, o criador, Vishnu, o preservador, Shiva, o destruidor.

Trata-se de uma trindade, quer dizer, de um mesmo dinamismo global visto sob três ângulos complementares: o término de um ciclo é igualmente o início de um outro, toda criação implicando uma destruição, a substituição do antigo pelo novo; toda preservação pressupõe criação e destruição, produção e uso de energia. Esse ritmo ternário é percetível no plano mais quotidiano e mais íntimo: por exemplo, inspiro, retenho o ar, expiro. Ele está no coração da sílaba sagrada AUM.

A vogal A, que é o som mais espontâneo, mais aberto, traduz bem a fase inicial: é a primeira exclamação, o apelo primordial, o grito da criança que acaba de nascer.

A vogal U constitui um som intermediário, mais fechado, mais defensivo, feito à imagem de um mundo que se estabiliza e se preserva.

O M final exprime o declínio, o último suspiro do moribundo.

A sílaba AUM simboliza, globalmente, o conjunto da manifestação - como, aliás, os três estados vigília, sonho e sono profundo, e, mais' além, até mesmo o silêncio que sustém a sílaba, a realização do Eu.

Observe-se que, invertendo a sílaba AUM, obtém-se o MA, que em todas as línguas designa a mãe. Foneticamente, "Ma" está próximo de moi (me, mim) ou do inglês mine (meu, minha). Há também um parentesco fonético entre AUM, amém, alma, homem e am, do inglês I am, eu sou.




O DANÇARINO DIVINO

Aos olhos dos hindus, a criação divina assemelha-se menos à obra um pouco estática de um ceramista ou de um escultor do que ao gesto de um dançarino.

As miríades de estrelas, de criaturas, de acontecimentos que formam a trama cambiante do mundo fenomenal são os incontáveis gestos maravilhosamente sincronizados, a extraordinária sarabanda eletromagnética do fabuloso dançarino com milhares de braços, de pernas e de rostos.

Trata-se de uma criação contínua, a infinita coreografia executada pelo Senhor mesmo.

"Da mesma forma que o homem torna-se dançarino no momento em que começa a dançar, o Brahman não-qualificado, não-manifestado, manifesta-se primeiro sob uma forma infinitamente subtil, depois um pouco mais grosseira, depois ainda mais grosseira, e todos os planos da criação começam a ser, ou melhor, a vir-a-ser, pois que tudo está em constante movimento. Se o dançarino se imobiliza em cena, não é mais um dançarino, torna-se uma estátua. Deus não cessa de dançar, caso contrário à criação pararia. O que é 'real' num espetáculo de dança? Não é a dança e nem mesmo o dançarino, mas sim o homem. Se a dança for suprimida, o dançarino será ao mesmo tempo suprimido, mas o homem que temos sob os olhos continuará. A ideia de que Deus possa desaparecer afigura-se incompreensível à mentalidade ocidental comum. Deus criador desaparece ao mesmo tempo em que sua criação. Se Deus cessa de criar, o Deus criador desaparece. Mas a realidade suprema, o não-manifestado, continua e não pode desaparecer”.(Arnaud Desjardins, Pour une Mort sans Peur, La Table Ronde)

Enquanto for uma sucessão de acontecimentos orgânicos e psíquicos, eu sou uma pirueta, um piscar de olhos, uma furtiva e minúscula figura executada pelo divino dançarino. A mão abre-se: eu nasço; ela traça alguns movimentos de acordo com uma cadência bem específica: cumpro meu destino; o punho fecha-se: eu morro. Esse gesto particular termina, mas a dança e o dançarino continuam. Enquanto gesto - minhas sensações, minhas emoções, meus pensamentos, minha história individual - sou apenas uma pulsação efémera, impercetível estremecimento. Enquanto dançarino, sou eterno, imutável, omnipresente.

A dança não tem nenhum sentido, nenhuma finalidade - apenas o prazer gratuito de dançar, a satisfação maravilhada do dançarino.

DEUS NÃO É SÉRIO

No Ocidente Deus é levado terrivelmente a sério, chegando mesmo ao trágico. Quando falamos dele, usamos um tom grave, enfático, às vezes ameaçador, com mímicas consternadas ou um ar de mártires. Entretanto, existem no misticismo cristão fórmulas como "um santo triste é um triste santo" ou "que meu júbilo permaneça". Mas nossa impressão geral no tocante ao domínio espiritual é compassiva, tensa, sinistra: quanto mais nos aproximamos de Deus, menos somos naturais, descontraídos, espontâneos. É preciso reprimir os impulsos, bater no peito e cobrir a cabeça com cinzas a fim de expiar o pecado original e fazer-nos perdoar pela paixão do crucificado.

Nossa primeira imagem do divino, aquela que assombra a nossa infância e incomoda o nosso inconsciente coletivo há gerações, é a visão de um Deus que sofre, que é torturado para a redenção dos nossos pecados. Face a esse Deus - Pai ou Filho -, estamos numa posição de criminosa culpabilidade.

Por outro lado, como criaturas, estamos vertiginosa e desesperadamente separados do criador.

Tudo isso não induz, absolutamente, a explosões de riso.

Se esse Deus omnipotente e absolutamente sério constrói um universo bem distinto dele mesmo sua obra é, então, uma catástrofe mortal e delirante, um encadeamento de fracassos, frustrações e horrores.

Na Índia as noções de alegria e humor divino são capitais. A própria criação é sempre comparada à brincadeira sem fim de uma criança enlevada. É o que os hindus chamam o Jogo (Lila) do Senhor. "Se, como Dante sugere”, escreve Alan Watts, "os hinos que glorificam a Santa Trindade se assemelham ao riso do universo, qual teria sido a graça que o provocou?" (Etre Dieu)

O JOGO DIVINO

Essa ideia de um jogo cósmico e metafísico é uma das chaves do hinduísmo. Do ponto de vista do Jogador, nada é definitivamente trágico. Mas, para que o deslumbramento nunca seja desmentido, para que o interesse pelo jogo se mantenha continuadamente, é necessário que haja risco, incerteza, renovamento, efeito de surpresa, possibilidade de ganho e perda, aparência de tensão e de conflito. Para que o jogo seja verdadeiramente apaixonante e convincente, é necessário que o jogador esqueça que está jogando, que se deixe levar pelo encanto e contradições da partida.

Essa Lila do Senhor é, portanto, igualmente Maya.

No fundo, porém, o jogador sabe perfeitamente que se trata de um jogo - o jogo do eu e do outro, o jogo da vida e da morte, do prazer e da dor, do bem e do mal, do conhecido e do desconhecido, do acaso e da necessidade. A qualquer momento o Jogador pode dizer: "Não há nada a temer, tudo isto é um jogo". Então seu semblante se ilumina e ele tem o sorriso do Buda, de Ramakrishna ou de Ramana Maharshi.

Mas, quando se absorve em seu jogo, o Jogador identifica-se com a partida - com as inúmeras partidas jogadas simultaneamente -, confunde-se com os milhares de acontecimentos, de objetos, de criaturas fugazes que formam a trama do mundo fenomenal.

"Minha majestade, ó sábio, é sem limites. Sem depender do que quer que seja, Eu, a pura consciência indivisa, fulguro sob a forma dos mundos infinitos. E, manifestando-Me sob essa forma, não infrinjo a Minha natureza de consciência estranha a toda dualidade. Minha majestade reside, antes de tudo, no cumprimento deste prodígio: suporte de todas as coisas, presente em todo lugar, continua retirada do mundo. Enganada por minha própria Maya, desconhecendo-Me a mim mesma, Eu transmigro desde os tempos imemoriais; depois, tornando-Me discípula de um mestre, reconheço-Me novamente. Embora eternamente livre, devo libertar-Me novamente sem cessar. E de novo Eu recrio, semelhante a ela mesma, a infinita diversidade do universo, sem recorrer a nenhum material. Tais são os múltiplos aspetos de Minha soberana majestade. A marcha do mundo inteiro, esse imenso desenrolar de acontecimentos, revela apenas uma ínfima parte dela." (La Doctrine Secrete de ia Déesse Tripura)


Imagens do templo Veerabhadra em Lepakshi. 
Estado de Andra Pradesh (Índia). Foi construído no século 16

UM PODER MÁGICO ILIMITADO

Essa perspetiva é um pouco difícil de compreender para um ocidental, na medida em que imaginamos sempre um Deus omnisciente, omnipotente, exercendo sobre o universo um controle total, um domínio absoluto, quer dizer, a imagem de um ego hipertrofiado ao infinito, de uma vontade inteiramente rígida e tensa, aferrolhada em seus próprios esquemas e princípios, encadeada no seu próprio imperativo de tudo regulamentar - o contrário de uma espontaneidade criadora, inebriada com suas próprias descobertas.

Considerando a questão sob outro ângulo, se tivéssemos um poder mágico limitado, a possibilidade de satisfazer instantaneamente aos nossos desejos mais sublimes, mais terríveis, incomensuráveis, com total certeza de cada resultado, não tardaríamos a defrontar-nos com a monotonia e o tédio. O que seria, em suma, bastante deprimente.

E, naturalmente, seríamos conduzidos sempre graças ao nosso poder mágico - a inventar obstáculos, armadilhas, engodos, ou seja, a suscitar o inesperado, o imprevisível, o incontrolável.

Uma criança que brinca, por exemplo, de amarelinha ficaria mortalmente aborrecida se chegasse da primeira vez e sem errar à última casa. A ignorância da etapa seguinte, a incerteza do amanhã, os riscos de contratempos e de fracassos são as condições indispensáveis para manter o entusiasmo do Jogador e a atração pela partida.

É exatamente assim que se desenvolve a nossa existência. Noutras palavras, tudo se passa como se tivéssemos efetivamente esse poder mágico ilimitado de satisfazer aos nossos desejos e como se, para tornar mais interessante todo o processo, nos entretêssemos forjando uma rede incrivelmente subtil e ramificada de regras espaciais e temporais, de limitações orgânicas e psíquicas, um campo vibratório admiravelmente complexo de dados incontroláveis e parâmetros imprevisível, incluindo a hipótese de nossa própria destruição final.

Através da prodigiosa diversidade de partidas iniciadas, ganhas e perdidas, o Jogador permanece como tal, eternamente idêntico a si mesmo, guardando eternamente intacto seu potencial de surpresa.

O JOGO DO EU E DO OUTRO

No plano do fenómeno humano e do processo individual, o Jogador joga para ser Eu, uma incalculável miríade de Eus que aparecem, desaparecem e reaparecem sob formas e situações incessantemente diferentes. Joga assim para ver-se a si mesmo através de inúmeras bocas, fazer-se amor através de inúmeros corpos, recordar-se de si mesmo, comover-se, pensar-se, imaginar-se através de inúmeros psiquismos, esquecer-se e apagar-se através de inúmeras mortes, para poder recomeçar-se através de inúmeros nascimentos.

E todos esses eus que aparecem, tremulam e definham na superfície de seu ser, todos esses reflexos que se iluminam, piscam e se extinguem na luz de seu olhar não são outras coisas senão o seu ser, o seu olhar.

Essa perspetiva metafísica esclarece particularmente o lancinante problema do Bem e do Mal.

Na maior parte das teologias ocidentais, Deus é identificado (e por isso mesmo limitado) com o Bem absoluto, inocentado de todo mal, cuja responsabilidade recai apenas sobre a criatura, que escolhe livremente o caminho da mentira e do crime.

Esse ponto de vista acarreta paradoxos opressivos e intransponíveis: se Deus não "desejou" o mal, como pôde modelar um mundo imperfeito e criaturas corruptíveis? Ou então é preciso admitir que Deus não é esse soberano todo-poderoso, este mestre incontestável; é preciso supor que divide seu poder' com um dúplice maléfico, o Diabo - e ele deixa, é claro, de ser o Criador único de todas as coisas.

Encarada dessa maneira, a questão é insolúvel: a despeito das mais belas acrobacias escolásticas, os filósofos e os teólogos perderam o seu latim. E jamais alguém pôde responder ao terrível por quê de uma mãe prostrada diante do cadáver de seu filho. Se Deus é infinitamente bom, então sua obra é um miserável fracasso - malgrado os piedosos discursos sobre "as vias impenetráveis da Providência".

Tendo lançado a culpa exclusivamente sobre o homem (pecado original), a mentalidade religiosa regressa da Bíblia precipitou-nos, individual e coletivamente, numa espécie de cruzada encarniçada visando extirpar, a qualquer preço, o mal do universo. Um tal militantismo inspira comportamentos cada vez mais constrangedores, empreitadas cada vez mais totalitárias e neuróticas, que visam eliminar um dos aspetos do real a fim de conservar apenas o outro, como se pudesse existir o alto sem o baixo, a esquerda sem a direita, o branco sem o negro. "Somos os filhos, os aliados, os soldados do Senhor. O Senhor é inteiramente branco: exterminemos o negro!" É evidente que se pode dizer exatamente o contrário, e é o que fazem os satanistas: "O Senhor é inteiramente negro, o branco é uma ofensa, suprimamos o branco!"

"Em outras palavras, não joguemos o jogo do negro-e-branco, o jogo universal do alto-baixo, do anda-pára, do sólido-espaço e do cada um-todos, mas o jogo do negro contra o branco ou, mais habitualmente, do branco contra o negro. Então, não compreendendo que os pólos negativos e positivos do ritmo são inseparáveis, tememos que o negro ganhe a partida. Mas o jogo do 'branco-deve-ganhar' não é mais um jogo. É um combate - um combate perseguido por um sentimento de frustração crónica, pois agir assim é tão tolo quanto procurar conservar as montanhas livrando-se dos vales. Eis por que há milénios a história da humanidade se reduz a um conflito tremendamente fútil, a uma parada esplêndida de triunfos e de tragédias fundada sobre um tabu: o que se opõe resolutamente ao reconhecimento do fato de que o negro e o branco formam um par. Sem dúvida, não há outro exemplo de um nada que não vai a parte alguma com uma majestade tão fascinante." (Alan Watts, Le Livre de Ia Sagesse, Denoêl)

Para o vedanta, o antagonismo do Bem e do Mal é apenas um jogo de contrastes, um efeito claro-escuro inerente à natureza essencialmente rítmica da manifestação. Por trás das lutas e das diferenças há a unidade fundamental do Jogador, o um-sem-um-segundo, o isso dos Upanishads.

O Bem sem o Mal é tão inconcebível quanto, no decorrer de um jogo qualquer, encarar a possibilidade de ganhar sem aceitar a possibilidade de perder. O único problema é a tendência que tem o Jogador de identificar-se com os ganhos e as perdas assim que, esquecendo que é o Jogador, se assume como tal ganhador ou tal perde dor. Notemos, entretanto, que mesmo esse esquecimento faz parte do Jogo.

PATRICK RAVIGNANT
Continua...
Leia a segunda parte Aqui



Fonte do texto:
A sabedoria da Índia
Patrick  Ravignant

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