O Caminho Breve





"O verdadeiro obstáculo à entrada da Graça é simplesmente a preocupação dos pensamentos do homem consigo próprio." - Paul Brunton


— O Caminho Breve —


Há dois modos de ir ao encontro da própria realidade interna:

• O caminho longo, fundamentado no autoaperfeiçoamento, na autopunição e no esforço humano;

• O caminho breve, fundamentado no completo esquecimento do eu e no direcionamento da mente para a Vida verdadeira, por meio da constante lembrança dela e pela identificação com ela.

Na primeira abordagem, pode-se progredir até certo ponto. Mas, na segunda, o poder superior vem em auxílio com a Graça.

Um dos mais valiosos instrumentos no caminho breve é a lembrança constante. Pode ser a lembrança de uma experiência mística, de uma intuição, de uma ideia ou de símbolos inspiradores. Em essência, é realmente a disponibilidade de inserir a atmosfera transcendental na vida cotidiana.

O homem no caminho breve dirige-se diretamente ao seu objetivo. Procura recordar o fato de haver uma essência sagrada presente em si mesmo, neste exato momento, uma essência que vive dentro dele agora, não distante ou inacessível.

Quanto mais compreende este fato e lhe dá atenção, mais se considera capaz de sentir a grande calma provinda desta perceção e mais seus pensamentos se tornam quietos e harmoniosos.

Se alguém pergunta quais são as chaves para o caminho breve, poderá ter respostas simples e diretas:

Primeiro, pare de buscar a essência interna, pois ela o segue não importa aonde você vá;

Segundo, acredite na presença dela, com você e dentro de você;

• Terceiro, continue tentando compreender a verdade da vida essencial, até poder abandonar outros pensamentos sobre ela. Você não pode adquirir o que já é seu; por isso deixe de sustentar a falsa ideia do ego e afirme a ideia real.

O caminho breve usa:

• O estudo metafísico da natureza da realidade;

• A lembrança constante da realidade durante a vida diária no mundo material;

• A rendição ao pensamento da realidade na quietude.

Em todas essas atividades não há nenhuma referência ao ego pessoal; não há pensamento, lembrança ou reflexão a respeito de si mesmo, mas apenas uma união transcendente com o que está acima de todas as referências humanas. Assim é o caminho breve.

Numa síntese sobre o caminho breve, pode-se dizer que onde se estiver, seja qual for o lugar, sejam quais forem as situações e as pessoas em volta, deve-se pensar que se está na presença divina, deve-se ofertar a si mesmo para a irradiação do Mundo Ardente.

A ideia da existência de um duplo caminho não é nova, apesar de pouco conhecida. No século cinco, o budista Seng-Chao, ensinou que todo esforço, estudo e prática de exercícios não eram suficientes para obter-se a iluminação; eram tão somente uma preparação necessária.

No caminho longo, o homem está preocupado com as técnicas que deve praticar e as disciplinas a que deve submeter-se. No caminho breve ele está preocupado com o Eu interior, com o estudo de Seus significados, a lembrança de Sua presença e a reflexão sobre Sua natureza e atributos.

Se o caminho longo busca a salvação sobretudo pela construção do caráter e da concentração do pensamento, o caminho breve busca-a sobretudo pela reverente meditação diretamente sobre o Eu Interior.

Se o propósito imediato do caminho longo é educar, disciplinar e preparar o ego, o propósito imediato do caminho breve é transcendê-lo.

O caminho longo concentra-se em aspetos mais ou menos subtis do ego, o caminho breve concentra-se no Eu Superior. Esta é a diferença básica entre eles.

No caminho longo o buscador se orienta seguindo o lado externo dos sinais, das instruções e das informações. No caminho breve o buscador tenta perceber a essência interna das mesmas.

A maioria das pessoas que iniciam o caminho breve geralmente já tiveram um lampejo do Eu interior, caso contrário achariam muito difícil entender o que o caminho breve significa.

O caminho longo, através de seus estudos e práticas, é o período de preparação para a busca avançada. É chamado de caminho longo porque nele há muito trabalho a ser feito e muito desenvolvimento do caráter e das emoções a ser realizado. Depois de feita essa preparação, esse alinhamento básico, o aspirante entra no caminho breve para completar o trabalho. Isso leva comparativamente menos tempo e como tem a possibilidade de, a qualquer momento conduzir á auto-iluminação, termina de repente. O que se estava tentando fazer no caminho longo continua por si mesmo, uma vez que se tenha entrado por inteiro no caminho breve.

No caminho longo se está preocupado com o ego pessoal e por isso, dá-se atenção aos pensamentos negativos. No caminho breve o indivíduo recusa-se a aceitar pensamentos de baixa vibração, voltando-se, em vez disso, para o Eu Superior, Impessoal. Assim, as lutas desaparecerão. Essa mudança de atitude é chamada de “esvaziamento”. No momento em que tais ideias e sentimentos negativos aparecem, em vez de usar o método do caminho longo de se concentrar no tipo oposto de pensamento, tal como calma em vez de raiva, o método do caminho breve consiste em simplesmente deixar cair essa ideia negativa no Vazio, no Nada.

Tal mudança ou elevação, só pode ser realizada, se feita rápida e firmemente e voltando-se para o Eu interno. A constante lembrança do Eu interior é imprescindível ao longo de todo o caminho breve. O caminho longo trabalha no ego; mas o caminho breve usa o resultado desse trabalho que preparou o indivíduo, para entrar em comunhão com o Eu Interior, para torná-lo recetivo à presença Dele, o que inclui Sua graça.

Para se entender o caminho breve, é útil compará-lo com o caminho longo o qual consiste numa série de exercícios e esforços, que pouco a pouco irão desenvolvendo a concentração, o caráter e o conhecimento. Mas o caminho longo não conduz à meta. No caminho longo mede-se com frequência o próprio progresso. É um caminho sem fim, porque sempre haverá uma nova circunstância que trará novas tentações e provas e colocará o aspirante diante de novos desafios. Não importa quão espiritual o ego se torne, não penetra na luz mais branca, mas permanece na luz cinzenta. No caminho longo você precisa lidar com impulsos perturbadores que surgem do eu inferior e com a negatividade que vem do ambiente. Mas os esforços terminarão por invocar a Graça, que abre as perspetivas do caminho breve.

A característica mais evidente do caminho longo é a sensação de que se tem que lutar para ser um buscador. É uma luta intermitente e “interminável” contra a natureza animal e o ego humano. Esta sensação está ausente no caminho breve. Este é uma aspiração profunda, uma busca contínua da atenção ao Eu Interior.

Enquanto o caminho longo baseia-se na crença de que o homem tem poder para atingir o Bem, o caminho breve baseia-se na crença oposta de que todos os esforços neste sentido terminam em futilidades e fracasso. É aí que ele tem que invocar um poder maior do que seu pequeno ego. Pois apesar de o ego estar disposto a fazer tudo para melhorar e espiritualizar-se, ele se recusa a “perder a vida” por Deus.

Os que procuram ajuda pessoal, são imensamente mais numerosos que aqueles que buscam a Verdade Impessoal.

Monsenhor Zanet, dirigente espiritual da Abadessa Madre Angélique de Port Royal, escreveu-lhe:

“Rogo que se ocupe menos com a virtude, pois está muito apegada a ela, e mais preocupada com isso do que Deus lhe pede que esteja. Não será jamais através de seus cuidados ou atenção consigo mesma que será virtuosa. Esta é uma dádiva que vem do alto para obtenção da qual será necessário mais do que seus cuidados”. 

Este sábio também escreveu:

“Se suas próprias iras a desagradam, suporte-as, pois são excelentes para arruinar sua autoestima”.

Ele também lhe disse que era loucura estar tão obcecada pela própria falta de merecimento, que se recuse a Graça.

Enquanto o caminho longo coloca inteiramente sobre os ombros do homem a responsabilidade por seu crescimento e salvação, o caminho breve coloca-a em Deus.

O que se consegue através do caminho longo é forçado, é o resultado de alguns exercícios, do trabalho no caráter, de seguir-se alguma técnica. Mas tudo é produto do ego. O caminho breve nos leva ao oposto, a um renascimento, a um novo homem transformado, á salvação em si. Mas isto ocorre naturalmente, quase sem a participação do ego, pois acontece através da Graça.

No caminho longo analisamos o passado e estudamos os acontecimentos presentes para aprender as lições da experiência. No caminho breve descartamos a análise e dispensamos esse estudo; em vez disso contemplamos a Deus em nós e a essência neutra das coisas e dos acontecimentos. Se o primeiro caminho nos traz tristes reflexões, o segundo nos traz alegres intuições.

Muitos momentos nos quais a vergonha provocada pela terrível consciência de seus defeitos podem aparecer no caminho longo, mas não têm possibilidade de existir no caminho breve. Nele há a perceção do processo de purificação e a gratidão pela compreensão da verdade.

O caminho de lidar-se com as limitações uma por uma, não só é longo e lento demais, mas também é incompleto e negativo. Ocupa-se com o que não ser e o que não fazer. Isto é bom, mas não é o bastante. Pertence ao pequeno ego. É preciso acrescentar-se a isso o caminho de lembrar-se de seu Ser mais alto. Isto é entrar em uma frequência positiva. Mais que isso, traz a Graça que termina o trabalho que foi começado. Transporta-nos do passado do ego ao Eterno Novo do Eu Superior.

O caminho longo é salpicado de desencorajamento. Somente aqueles que buscaram transformar-se, remodelar seu caráter e negar suas fraquezas, sabem o que é chorar de insatisfação sobre seus fracassos. É por isso que se precisa do caminho-breve-da-lembrança-de-Deus. Pois com este segundo caminho para preencher e completar o primeiro, a Graça pode entrar na batalha a qualquer momento, e com ela a vitória repentina põe fim às lutas de muitos anos, e o perdão de repente apagará seus erros e apegos.

Como se parece com um labirinto, o aparente infindável e tortuoso caminho longo! Quão reto e direto é o caminho breve!

Santa Teresa parece negar a possibilidade de conciliar os dois momentos da vida, quando escreve:

“Trazer alma e corpo em harmonia, caminhando de acordo com a justiça e apegando-se à virtude, é o passo de uma galinha — nunca nos trará a liberdade do espírito.”

Swami Premananda:

“Eu digo às pessoas: não larguem as coisa, elas largarão vocês. Você tem que sair da escuridão? Não, você só tem que abrir-se para a Luz. Enquanto você estiver resistindo a alguma coisa, ela estará constantemente com você.”

No caminho breve não há espaço para a lembrança de mal-entendidos, ou o sentimento de culpa por fatos passados.

Enquanto o caminho longo é frequentemente muito angustiante — por causa da auto-análise para encontrar aqueles defeitos que nos impedem de caminhar — o caminho breve é compensador; uma busca da Alegria interior.

O homem que envereda pelo caminho longo está quase sempre procurando compensar seus vazios e desapontamentos, enquanto que o homem que vai pelo caminho breve geralmente está atraído pela alegria do preenchimento do Eu Interior.

A pessoa pode identificar-se com o ego ou com o Eu Interior. O caminho longo quer purificar e aperfeiçoar o ego, mas o caminho breve quer encontrar Deus.

O caminho breve leva menos tempo, porque o aspirante se volta e passa a olhar diretamente para a Meta. O caminho breve significa que você começa a tentar lembrar de viver na subtil atmosfera dos núcleos internos, em vez de se preocupar com o ego e medir o desenvolvimento espiritual dele. Você ignora a negatividade e gira cento e oitenta graus, do ego para o Eu profundo.

As visitas do Eu Interior são anunciadas por um sentimento devocional e também por pensamentos e ações intuitivas. Com frequência os dois caminhos podem ser trilhados ao mesmo tempo, mas não necessariamente do mesmo modo; porque nesse caso, os movimentos considerados do caminho longo já são executados sob a Luz da consciência ampliada de quem já compreendeu o caminho breve.

O caminho breve, só é de fato possível após certo grau de maturação atingido no caminho longo. O caminho longo e o breve se complementam e podem ser percorridos concomitantemente até que a consciência atinja a realização. Exceto em condições especiais, o caminho breve não pode ser assumido como única via. De modo geral, indica-se uma combinação equilibrada dos dois caminhos em que se constrói a base e o ser se abre para a Graça. No caminho longo fortalece-se os pontos positivos do caráter, aprende-se a detetar e a trabalhar os pontos negativos, impulsos inferiores e desejos — está é a construção da base. No caminho breve aprende-se a estar recetivo as irradiações do Mundo interior, acolhê-las e integrar-se nelas — esta é a abertura. Desse modo, a Graça pode atuar e o indivíduo dará seus passos com firmeza, discernimento, harmonia e sábia ousadia, para pouco a pouco, seu ego ser absorvido pelas energias da Alma. O caminho breve é a síntese.

O caminho direto, fundamenta-se na total polarização da mente e do coração na realidade interior; é portanto a trajetória daquele que se entrega única e exclusivamente ao Eu Supremo.

O caminho breve não é um exercício, uma fórmula, mas um ponto interno a ser invocado, um estado de consciência no qual a pessoa se aproxima do Amor verdadeiro ou encontra paz Nele. Há, entretanto, dois exercícios que podem ajudar a conduzir ao caminho breve, mas eles têm um caráter bem diferente dos exercícios do caminho longo. Muitas vezes o aspirante não está pronto para iniciar esses dois exercícios, até que tenha um ou mais vislumbres do Eu Interior.

O “exercício da recordação”, consiste em tentar lembrar-se do vislumbre do Eu Superior, não apenas durante os períodos reservados para a meditação, mas também em cada momento, durante todo o período de trabalho do dia — assim como uma mãe, que tendo perdido seu filho, não pode deixar de pensar nisso, não importa o que esteja fazendo externamente, ou como um apaixonado que mantêm de modo incessante a vivida imagem de sua amada no fundo de sua mente. De forma similar, você mantêm a lembrança viva do Eu Interior durante esse exercício e deixa-o brilhar no fundo, enquanto você continua seu trabalho diário. Mas o espírito do exercício não pode ser perdido. Não pode ser mecânico ou frio. Chegará o tempo em que a recordação irá cessar como exercício de contacto consciente e deliberado, para passar por si mesma a um estado no qual será mantida sem ajuda da vontade do ego.

A recordação é a preparação necessária para o segundo exercício, no qual você tenta obter uma imediata identificação com o Eu Interior. Assim como um ator se identifica com o papel que representa no palco, você age, pensa e vive durante sua vida diária “como se” fosse o Eu Interior. Esse exercício não é meramente intelectual, mas também inclui sentimentos e ações intuitivas. É um ato de imaginação criativa, no qual ao passar claramente a representar a parte do Eu Interior você torna possível, pela sua Graça, que ele entre mais e mais na sua Vida.

Quando Krishna diz: “Ao abandonar todos os esforços pessoais, refugie-se em Mim”, ele resume o caminho breve e, poucas palavras.

Eckhart diz: “Já possuo tudo que me cabe na eternidade”.

O fundamento metafísico do caminho breve é o oposto do fundamento do caminho longo. O primeiro vê somente Bem no Universo e apenas uma existência real. O segundo vê bem e mal em constante conflito e milhões de egos, cuja separatividade é muito real para ele. O caminho breve olha para a Meta como sendo agora e sempre presente, enquanto que o caminho longo a julga localizada no final de uma longa jornada no caminho da busca.

O praticante do caminho longo considera a iluminação como algo a ser atingido no futuro, quando todos os requisitos estiverem satisfeitos, enquanto que o adepto do caminho breve considera a iluminação como algo a atingir aqui e agora. Só o Presente é real.

O Caminho longo cria ansiedade, porque o indivíduo quer fazer progresso e parece-lhe difícil. O caminho breve compensa isto, porque percebe que não há nada a ser alcançado; que já se está lá.

O indivíduo dá a cada momento o melhor que há nele, então, viver de momento em momento se torna uma gloriosa aventura.

O caminho longo diz respeito à luta do homem para se aproximar do divino, já o caminho breve diz respeito à intuição da Presença divina no indivíduo.

O caminho longo exige um contínuo esforço da vontade; o caminho breve uma contínua atenção amorosa.

Não lamente a dificuldade de realizar essa mudança básica no pensar. O Eu Interior está aí. Acredite Nele.

Amor ao Criador - Deus está no Presente.

Paul Brunton
Paul Brunton
Fonte:
Paul Brunton
(Paul Brunton, Trigueirinho e outros)
Citação inicial
https://www.facebook.com/LIVROSDETRIGUEIRINHO/

Comentários

Mensagens mais visualizadas dos últimos 7 dias