Aparências




Uma rã vivia em um poço. Era uma rã insignificante e tinha vivido no poço durante muito tempo. Tinha nascido e sido criada ali. Um dia outra rã, que tinha vivido perto do mar, passou por aquele lugar e caiu no poço. A rã que vivia no poço perguntou à recém-chegada: "De onde você vem?". A rã do mar respondeu: "Venho do mar". A rã do poço tornou a perguntar: "O mar! É grande?". A rã do mar respondeu: "O mar é muito grande". A rã do poço estirou suas pernas e disse: "Ah! Seu mar não é assim tão grande!". A rã do mar disse: "É muito maior". A rã do poço saltou de um lado a outro do poço e perguntou: "O mar por acaso é tão grande como o meu poço?". "Minha amiga – respondeu a rã do mar – como você pode comparar o mar com seu poço?" A rã do poço disse então, com arrogância: "Nada pode ser maior que isto! Esta rã é uma mentirosa e deve ser deixada aqui". O mesmo acontece com os fanáticos de mente estreita. Sentados em seus pequenos poços, pensam que o mundo inteiro não é maior que seus poços.

APARÊNCIAS

Um sannyasin (monge, renunciante) vivia nas proximidades de um templo. Frente ao templo havia uma casa onde vivia uma prostituta. Vendo a quantidade de homens que entravam naquela casa, um dia o sannyasin chamou a mulher e a censurou asperamente, dizendo:

- Você é uma grande pecadora. Peca dia e noite. Oh, quão miserável será sua condição depois da morte!

A pobre prostituta se sentiu extremamente aflita por sua condição pecaminosa e com sincero arrependimento orou a Deus, implorando Seu perdão. Mas como a prostituição era sua profissão, não lhe foi fácil adotar outra espécie de vida para ganhar seu sustento. Deste modo, toda vez que sua carne pecava ela se recriminava e com profunda constrição de coração, rezava a deus para que lhe concedesse mais perdão.

O sannyasin, ao ver que seu conselho não havia produzido nenhum efeito na mulher, pensou: “Vou ver quantas pessoas visitam essa mulher no curso de sua vida”. Daquele dia em diante o sannyasin contava todas as pessoas que entravam na casa da prostituta, colocando ao lado uma pedrinha. Com o passar do tempo, o número de pedrinhas aumentava até que formou um grande monte. O sannyasin tornou a chamar a prostituta e lhe disse:

- Mulher, vê esse monte? Cada pedrinha corresponde a um dos pecados mortais que você cometeu desde que eu a adverti que deixasse sua má vida. Agora volto a lhe dizer. Cuidado com as consequências de suas más ações!

A pobre desgraçada começou a tremer, ao ver como tinham se acumulado seus pecados e orou a Deus, vertendo desconsoladas lágrimas de sincero arrependimento: “Oh Senhor! Não serei libertada da miserável vida que estou levando?”.

Sua pregação foi ouvida e, naquele mesmo dia, o anjo da morte passou pela sua casa e ela deixou de existir neste mundo. Por uma estranha vontade de Deus, o sannyasin também morreu no mesmo dia.

Os mensageiros de Vishnu desceram do céu e levaram o corpo espiritual da contrita mulher às regiões celestiais. Em troca, os mensageiros de Yama ataram o corpo subtil do sannyasin e o levaram para as regiões inferiores. O sannyasin, vendo a boa sorte da prostituta gritou:

- É esta a subtil justiça de Deus? Eu, que passei toda minha vida em ascetismo e pobreza sou levado ao inferno, enquanto que a prostituta, que viveu constantemente em pecado está subindo ao céu!”.

Ouvindo isto os mensageiros de Vishnu disseram:

- Os desígnios de Deus são sempre justos. O que um pensa, isto é o que colhe. Você levou uma vida de ostentação e vaidade, tratando de conseguir honra e fama e Deus deu-lhe essas coisas. Você nunca teve sincero desejo por Deus. Esta mulher, ao contrário, orou fervorosamente a Deus dia e noite, mesmo que seu corpo vivesse em pecado. Olhe o tratamento que está recebendo seu corpo, lá na terra. Como você nunca pecou com o seu corpo, seu cadáver foi adornado com guirlandas de flores e levado em procissão, com música, para dar-lhe sepultura no rio sagrado. Em troca, o corpo desta prostituta que muito pecou é agora despedaçado por abutres e chacais. Mas como ela foi pura de coração vai agora às regiões dos puros. Seu coração esteve sempre ocupado em contemplar os pecados da prostituta e, desse modo, se tornou impuro. É por isso que você vai à região dos impuros. A verdadeira prostituta foi você e não ela.


Buda estava em Vaishali, onde Amrapali viveu, Amrapali era uma prostituta. No tempo de Buda, na Índia, era comum que as mulheres mais bonitas de qualquer cidade não seriam permitidas casar com qualquer pessoa, pois isso irá criar desnecessário ciúmes, inveja, conflito, luta. Assim as mais belas mulheres tinham que se tornar nagarvadhu - esposas da cidade inteira.

Isso não era vergonhoso de maneira alguma; pelo contrário, elas eram muito respeitadas. Não eram prostitutas comuns. Só eram visitadas por aqueles muito ricos, ou reis, príncipes, generais a classe mais alta da sociedade.

Amrapali era muito bonita. Um dia ela estava no seu terraço e viu um jovem monge Budista. Ela nunca tinha se apaixonado por alguém, mas ela sentiu-se subitamente apaixonada um jovem de uma tremenda presença, perceção, graça. O jeito que ele caminhava... Ela desceu correndo e disse a ele, dentro de três dias a estação chuvosa vai começar... Ela sabia que monges budistas não se movem durante quatro meses durante os quatro meses da estação de chuvas. Amrapali disse, eu lhe convido para ficar na minha casa durante os próximos quatro meses.

O jovem monge respondeu, vou perguntar ao meu mestre. Se ele permitir, ficarei.

O jovem monge foi, tocou nos pés de Buda e contou a história toda, ela me pediu para ficar os quatro meses na casa dela. Eu disse a ela que iria consultar meu mestre, então estou aqui... farei o que você disser.

Buda olhou em seus olhos e disse, você pode ficar.

Isso foi um choque. Dez mil monges... Houve grande silêncio mas muita raiva, muita inveja. Depois que o jovem saiu para ficar com Amrapali, os monges começaram a trazer fofocas todos os dias, toda a cidade está em rebuliço. Só se fala numa coisa que um monge budista está na casa de Amrapali.

Buda disse, vocês deveriam guardar silêncio. Eu confio no meu monge. Eu olhei nos de seus olhos não havia nenhum desejo. Se eu tivesse dito não, ele teria se chateado. Eu disse sim... ele simplesmente foi. E eu confio na consciência dele, na sua meditação. Porque vocês ficaram tão agitados e preocupados?

Após quatro meses o jovem voltou, tocou nos pés de Buda e com ele estava Amrapali, vestida como uma monja budista. Ela tocou nos pés de Buda e disse, eu dei o máximo de mim para seduzir seu monge, mas foi ele que me seduziu. Ele me convenceu pela sua presença e perceção que a verdadeira vida consiste em segui-lo.

E Buda então disse para a assembleia de monjes, agora, estão satisfeitos ou não? Se a meditação for profunda, se a perceção for clara, nada pode perturbá-la. Amrapali tornou-se uma das mulheres iluminadas entre os discípulos de Buda.



Fontes dos contos:
O monte de pedrinhas: O Sagrado Ensinamento de Ramakrishna
O jovem monge e a prostituta: facebook.com/OSHOBrazil

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