Deus é Unicidade | Ramesh Balsekar




"O antigo, fulgurante Ser, o Espírito que habita interiormente, subtil, profundamente oculto no lótus do coração, é difícil de ser conhecido. Porém, o homem sábio, que segue o caminho da meditação, conhece-o, e se torna liberto tanto do prazer como da dor.
O homem que aprendeu que o Eu está separado do corpo, dos sentidos e da mente, e que o conheceu por completo, a alma da verdade, o princípio subtil - tal homem verdadeiramente o alcança, e se torna extremamente satisfeito, pois encontrou a fonte e o local onde habita toda a felicidade. Verdadeiramente acredito, Ó Nachiketa, que as portas da felicidade estão abertas para vós."
- Katha Upanishad 


Sobre a imagem do cisne: Paramahamsa, também escrito paramahansa ou paramhansa, é um titulo de honra em sânscrito de cariz religioso-teológico e aplicado aos mestres espirituais hindus de elevado estatuto que são considerados como tendo atingido (realizado) a iluminação. O titulo pode ser traduzido como o "supremo cisne" e é baseado na característica de os cisnes estarem igualmente confortáveis tanto na terra como na água. Similarmente, o verdadeiro sábio está igualmente em casa tanto nos reinos da matéria e do espírito. O cisne é também, de acordo com a lenda Indiana, capaz de separar o leite da água. Portanto, o cisne simboliza a capacidade de um mestre auto-realizado de separar a verdade da ilusão insubstancial.

Paramahamsa é um palavra Sânscrita traduzida como o "Cisne Supremo". A palavra é composta de  "parama" significando supremo ou transcendente, e de "hamsa" que significa cisne em sânscrito. O prefixo parama é do mesmo elemento visto no título de Parameshwara.

Eruditos Ingleses traduzem eufemisticamente "hamsa" como cisne (swan), porque na tradição inglesa um ganso (goose), uma ave domesticada, tradicionalmente denota irresponsabilidade e tolice.

Mas na tradição Hindu os gansos selvagens são notados por suas características disciplinares de, vigor, graça, e beleza. Isto é especificamente verdadeiro pelo Anser indicus, a qual sua rota migratória vai da Ásia Central até à Índia e vice-versa, forçando-o a voar sobre os Himalaias duas vezes ao ano. Feito que o torna apto a voar mais alto do que qualquer pássaro conhecido. E é por isso que Deus é também indicado como o "Paramahamsa". "Hamsa" pode ser um trocadilho religioso ou alegórico com um significado filosófico. Uma etimologia tal sugere que as palavras "aham" e 'sa' estão unidos para se tornar "hamsa". Aham é 'eu' e 'sa' é 'ele' significado 'Eu sou Ele'. Aqui 'Eu' se refere ao jivatma - a alma vivente e 'Ele' a alma suprema. Isso faz parte da filosofia Advaita que indica uma conexão da jivatama (alma vivente) e Paramatma (a alma suprema). A palavra 'Aham' é comum para muitas religiões. De 'aham', 'ahamkara' - o 'ego' é derivado. As grafias alternativas são devido à romanização diferentes da palavra em sânscrito.

Na mitologia, O hamsa é o vahana, o suporte ou veículo, da divindade Brahma. Nos Vedas e nos Purânas é um símbolo para a alma. O hamsa é dito ser a única criatura que é capaz de separar o leite da água depois de terem sido misturados entre si; simbolicamente esta é a representação da discriminação espiritual. É simbolicamente um ser espiritualmente desenvolvido que é capaz de controlar a energia da respiração de tal forma que ele só absorve as vibrações puras de todas as energias diferentes que mundo contém. Para o Paramahamsa (o supremo cisne celestial), por outro lado, toda a criação é o próprio Deus, não há mais nada senão só Deus. Esta pessoa é uma alma plenamente realizada, totalmente liberada de todos os laços com o mundo, que não conhece obrigações, nem desejos ou aversões. Ele é isento de qualquer necessidade, porque ele é completamente imerso em Deus.

Na teologia, Paramahamsa é um título religioso/teológico, é aplicado a uma classe de adeptos renunciantes Hindus, mestres liberados, que tendo atingido o supremo estado de yoga, ou nirvikalpa, samadhi, pode sempre distinguir entre o real (sa) do irreal (ham). O mantra hamsa indica o som feito pela exalação ("ha") e inalação ("sa") da respiração.



"A consciência é tudo o que existe" - Ramesh Balsekar


DEUS É UNICIDADE 

 (CONVERSAS COM RAMESH BALSEKAR*)


Pergunta: Parece esperar-se, entre os espiritualmente sofisticados, dizer que Deus é um conceito. Estou surpreso de ver quanta gente discute este assunto. Então, pergunto: o que é Deus?

Ramesh Balsekar: Que pergunta! E você perguntando isto? Como poderia ser possível tal coisa como Deus? Deus não é um objeto.

Pergunta: Deus não é um objeto, então é o quê?

Ramesh Balsekar: Deus é subjetividade - o único sujeito de todos os objetos -, sujeito do sujeito-objeto que pensamos ser, erroneamente é claro.

Pergunta: O que o senhor quer dizer?

Ramesh Balsekar: O que você é fenomenalmente? Nada, exceto uma aparência na consciência. Você pensa que é o sujeito de todos os demais objetos. Mas, de fato, você e eu e todos os objetos sencientes subjetivamente, numenalmente, apenas poderíamos ser tudo que o Númeno** - ou o Supremo - é.

Pergunta: O que exatamente o senhor quer dizer?

Ramesh Balsekar: Quero dizer que o Supremo - e cada um de nós (não como objetos fenoménicos) - é a presença do que-nós-somos, que é a ausência do que-nós-pensamos-que-somos.

Pergunta: E o que é isto?

Ramesh Balsekar: Nossa total ausência objetiva fenomenal, que pode ser a subjetiva numenal PRESENÇA DE DEUS.

Pergunta: O senhor seguramente não quer dizer que os fenómenos objetivos desaparecem?

Resposta: Claro que não. "Nossa total ausência objetiva" refere-se ao desaparecimento não de um fenómeno objetivo como tal, mas da identificação com um fenómeno objetivo que nós pensamos que somos. Em outras palavras, nós não somos "essa" coisa (que pensamos que somos), mas Aquilo que não pode ser nenhuma "coisa".

Pergunta: Por que o senhor diz que Deus não é um objeto?

Ramesh Balsekar: Se Deus fosse um objeto, ele seria um dos milhares de deuses objetivos, e não o Supremo como você presumidamente indica.

Pergunta: Não estou pensando nos ídolos, que são deuses objetivos.

Ramesh Balsekar: No momento em que Deus é conceitualizado, converte-se em um deus, porque qualquer conceito de Deus automaticamente torna-se um ídolo. E, por certo, uma imagem de uma deidade ou santo, se em um templo ou em uma igreja ou em qualquer outro lugar de adoração, é um ídolo, se considerado como um símbolo ou outra coisa qualquer. E, todas as orações e oferecimentos a um objeto, símbolo ou outro aspeto, material ou conceitual, são orações e oferecimentos para um ídolo.

Pergunta: Isto é blasfémia!

Ramesh Balsekar: Eu apenas disse o que é óbvio. Blasfémia e ofensa podem ser admissíveis apenas na mente em que tal noção surgiu. Então, o que é blasfémia? Vou lhe dizer. Blasfémia é toda e qualquer ação feita de um modo diferente do que na presença de Deus. Isto está claramente estabelecido no Bhagavad-Gita. E vamos deixar claro, na presença de Deus, eu não quero dizer um objeto, um ídolo. Independente da presença ou ausência de um objeto, um ídolo, o que a "presença de Deus" quer dizer é a ausência da presença do ser. Isto significa a imanente divindade.

Pergunta: O que o senhor quer dizer pela ausência da presença do ser?

Ramesh Balskar: Um ser que ora humildemente para Deus, e um ser, sem qualquer identificação pessoal, que É Deus, são essencialmente o mesmo. Vamos deixar claramente entendido que "humildade" não significa "sem orgulho", porque então a humildade seria tão somente o oposto do orgulho. "Humildade" metafisicamente implica a ausência de qualquer ente sujeito à humildade ou ao orgulho.

Pergunta: Tudo isto é extremamente esclarecedor, mas, o senhor sabe, percebo que o senhor demoliu algo consagrado pelo tempo.

Ramesh Balsekar: Consagrado pelo tempo o quê? Slogans, clichés, soporíficos?

Pergunta: Talvez. Mas eles deram e dão algum sentido de segurança.

Ramesh Balsekar: Você sabe o que Nisargadatta Maharaj disse sobre esses símbolos de segurança? Acho que ele nunca pediu para alguém abandoná-los mesmo que esse sentido de segurança fosse falso. Ele apenas sugeria que a pessoa podia prosseguir como antes, até que eles desaparecessem por si mesmos. O que ele queria transmitir era: "Vamos ao menos compreender. Quando o sentido de culpa que pode surgir pelo deliberado desaparecimento deles perder a força de seus condicionamentos, estes símbolos de falsa segurança perdem importância".

Pergunta: Claro que poderia haver outras considerações para o prosseguimento de tais práticas.

Ramesh Balsekar: Certamente. O próprio Maharaj sinceramente realizava puja (oblações) três vezes ao dia porque seu Guru pediu-lhe. Ele dizia que isto não fazia mal algum e poderia trazer muitos benefícios àqueles não-dotados de inteligência suficiente para seguir no caminho da autoinquirição.

Pergunta: Parece-me que nesta discussão sobre Deus ignoramos certos conceitos - sim, consagrados pelo tempo, como por exemplo, o "amor". Não é dito 'que Deus é amor?

Ramesh Balsekar: Você disse que amor é um conceito e que Deus é amor. Por consequência, Deus é um conceito. E, é claro, "amor" é apenas o oposto de "ódio". Não estou desatento quanto ao uso da
palavra no sentido convencional, mas uma palavra imprecisa pode causar confusão e mal-entendidos.

Pergunta: Qual a palavra que o senhor prefere?

Ramesh Balsekar: Na verdade, "AMOR", se usado não como uma expressão de separação baseado na emoção, mas para indicar compaixão, Karuna, é o que mantém o mundo (junto) em "at-one-ment" (unicidade). Preferência, como diferença, é puramente um fenómeno na dualidade. Entretanto, eu usaria a palavra "unicidade", embora o uso de qualquer palavra, de certa forma parece aviltante, porque nenhuma palavra poderia descrever o indescritível e, é claro, uma palavra em si mesma é uma criação temporal.

Pergunta: Então, "unicidade" é a palavra. Deus é unicidade. Ela transmite um sentido de totalidade.

Ramesh Balsekar: Também não vamos esquecer que "amor" é uma expressão de separatividade, porque se espera que você ame os "outros". Na unicidade não amamos os outros - nós somos os outros; e nossa relação fenomenal com "eles" é não-objetiva, direta, espontânea e imediata.

Pergunta: O que o senhor me diz sobre a "oração"?

Ramesh Balsekar: Claro, a oração. Você rezaria para - mais chuva e melhor colheita, ou talvez o aumento da produção industrial? Ou para um substancial aumento das exportações?

Pergunta: Agora, não sejamos irreverentes.

Ramesh Balsekar: Ah, asseguro-lhe que não sou. O que eu quis dizer era que a palavra oração geralmente é entendida como uma solicitação, o que pode ser percebido pelo fato de a palavra "oração" ser geralmente seguida de "para". Oração verdadeiramente significa comunhão. De fato, oração é comunhão, do mesmo modo que meditação é quando não existe o meditador e nada sobre o que se meditar.

Pergunta: O que o senhor está tentando dizer?

Ramesh Balsekar: Nada, de modo algum - exceto talvez que não possa haver de fato nenhum significado em se rezar para (e adorar) um conceito de uma deidade paternal e misericordiosa como "Deus", ou em amaldiçoar e abominar um conceito de um inimigo impiedoso como "o Demónio", pela simples razão que eles nada são além do que nós Somos.

Pergunta: Então, o que o senhor diria para eu fazer?

Ramesh Balsekar: Eu diria para você não fazer nada, ou não faça nada. Este é todo o ponto. Como Nisargadatta Maharaj disse, a compreensão é tudo. APENAS SEJA. Isto seria "experienciar" o Ensinamento.



Notas:

* Ramesh S. Balsekar (25 de maio de 1917 - 27 de setembro de 2009) foi um discípulo do falecido Sri Nisargadatta Maharaj , um renomado mestre de Advaita Vedanta. Desde a infância, Balsekar ficou atraído por Advaita, um ensinamento não dual, particularmente dos ensinamentos de Ramana Maharshi e Wei Wu Wei . Ele escreveu mais de 20 livros, foi presidente do Banco da Índia e recebeu convidados diariamente em sua casa em Mumbai até pouco antes de sua morte.

**Númeno ou noúmeno (do grego νοούμενoν) é um objeto ou evento postulado que é conhecido sem a ajuda dos sentidos. Na filosofia antiga, a esfera do númeno é a realidade superior conhecida pela mente filosófica. Também pode ser entendido como a essência de algo, aquilo que faz algo ser o que é. O termo é geralmente usado em contraste ou em relação com fenómeno, que em filosofia se refere ao que aparece aos sentidos, isto é, é um objeto dos sentidos. Platão utilizou esse conceito para se referir ao seu mundo das ideias.

No entanto, este termo é melhor conhecido da filosofia de Immanuel Kant. No kantismo, o númeno é o real tal como existe em si mesmo, de forma independente da perspetiva necessariamente subjetiva em que se dá todo o conhecimento humano; coisa em si (Ding an sich), nômeno, noúmeno (embora possa ser meramente conceituado, por definição é um objeto incognoscível). Por perspectiva subjetiva devemos entender por aquilo que é percebido por um sujeito, portanto númeno é um real que não depende do sujeito para existir, e por isso o conceito de númeno se opõe ao conceito de fenómeno, ou seja, aquilo que é percebido de forma subjetiva. Equivale ao real absoluto independente da perceção humana, ou realidade objetiva, à qual nossos sentidos e razão fazem apenas uma representação. Schopenhauer critica a visão kantiana[1], acusando-o de ter se apropriado do termo, que se referia para os antigos gregos ao conhecimento abstrato. Kant utiliza a palavra para descrever as "coisas em si mesmas", além de seus fenómenos, o que dá à palavra um significado diferente do original, pois ao invés de conceitos abstratos passam a descrever o mundo exterior.

Advém do alemão Noumenon, plural noumena, palavra criada pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), a partir do grego nooúmena usada por Platão ao falar da ideia, propriamente 'aquilo que é pensado, pensamento', neutro plural substantivado de nooúmenos, particípio presente passivo de noéó 'pensar'.


Ramesh Balsekar

Explicação de Paramahansa: Wikipédia
Fonte do diálogo:
http://satsangbrasil.blogspot.pt/2017/07/deus-e-unicidade-conversas-com-ramesh.html

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