Viva os fatos, Não as Fantasias | A Matéria é a Própria Consciência | Sri Nisargadatta Maharaj




"O meu Guru (Aquele que dissipa as trevas da ignorância) ordenou que Eu me agarrasse ao sentido "Eu sou" (de Presença), e que não desse atenção a mais nada. Eu simplesmente obedeci. Não segui nenhuma técnica especial de respiração ou de meditação, nem nenhum estudo das escrituras. O que quer que acontecesse, e que afastasse a minha atenção de mim mesmo, Eu teria que retornar sempre ao sentido de "Eu sou". Pode parecer muito simples, até mesmo básico.
A Única razão para Eu ter feito isso foi porque o meu Guru assim me disse. E funcionou! A obediência ao Guru é um poderoso solvente de todos os desejos e medos. (...) Tudo desapareceu - eu mesmo, meu Guru, a vida que vivi, o mundo que me rodeava. Somente a paz permaneceu e um silêncio insondável. (...) Na quietude da mente, vi-me como Eu sou - desvinculado." - Sri Nisargadatta Maharaj


VIVA OS FATOS, NÃO AS FANTASIAS

(Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj)


Pergunta: Você diz que tudo quanto vê é você mesmo. Também admite que você vê o mundo como o vemos. Aqui está o jornal de hoje com todos os horrores que estão acontecendo. Desde que o mundo é você mesmo, como pode explicar tal mau comportamento?

Maharaj: Em que mundo você está pensando?

Pergunta: Em nosso mundo comum, no qual vivemos.

Maharaj: Você tem certeza que nós vivemos no mesmo mundo? Não me refiro à natureza, ao mar ou a terra, às plantas e aos animais. Eles não são o problema, nem o espaço sem fim, ou o tempo infinito, o poder inesgotável. Não se engane por me ver comer e fumar, ler e falar. Minha mente não está aqui, minha vida não está aqui. Seu mundo feito de desejos e suas satisfações, de temores e suas fugas, definitivamente não é o meu mundo. Eu nem mesmo o percebo, exceto através do que você me fala sobre ele. É seu mundo privado de sonho, e minha única reação a ele é pedir-lhe que pare de sonhar.

Pergunta: Certamente, as guerras e revoluções não são sonhos. Mães doentes e crianças famintas não são sonhos. A riqueza obtida ilegalmente e usada mal não é um sonho.

Maharaj: O que mais?

Pergunta: Um sonho não pode ser compartilhado.

Maharaj: Nem tampouco o estado de vigília. Todos os três estados - vigília, sonhar e sono profundo -são subjetivos, pessoais, íntimos. Todos acontecem e estão contidos dentro da pequena bolha na consciência chamada ‘eu’. O mundo real está além do eu.

Pergunta: Eu ou não eu, os fatos são reais.

Maharaj: Claro que os fatos são reais! Vivo entre eles. Mas você vive com fantasias, não com fatos. Os fatos nunca entram em conflito, enquanto sua vida e seu mundo estão cheios do contradições. A contradição é a marca do falso.

Por exemplo, você se queixa que as pessoas são abjetamente pobres. Ainda assim você não compartilha suas riquezas com elas. Você presta atenção à guerra no vizinho, mas dificilmente pensa nela quando for em algum país distante. Os destinos variáveis de seu ego determinam seus valores; ‘Eu penso’, ‘Eu quero’, ‘Eu devo tornam-se absolutos.

Pergunta: Todavia, o mal é real.

Maharaj: Não mais real que você. O mal está no tratamento incorreto dos problemas criados pela incompreensão e pelo abuso. E um círculo vicioso.

Pergunta: Pode-se romper o círculo vicioso?

Maharaj: Um círculo falso não precisa ser rompido. E suficiente vê-lo como é - inexistente.

Pergunta: Mas é bastante real para submeter-nos e infligir indignidades e atrocidades.

Maharaj: A insanidade é universal. A sanidade é rara. Ainda assim há esperança, porque, no momento em que percebemos nossa insanidade, estamos no caminho para a sanidade. Esta é a função do Guru - fazer-nos ver a loucura de nossa vida diária. A vida o faz consciente, mas o mestre o faz ciente.

Pergunta: Senhor, você não é o primeiro nem será o último. Desde tempos imemoriais as pessoas estão irrompendo na realidade. Ainda assim, quão pouco nossas vidas são afetadas! Os Ramas e os Krishnas, os Budas e Cristos vêm e vão e continuamos como somos, agitando-nos em suor e lágrimas. O que fizeram os grandes cujas vidas testemunhamos? O que fez você, senhor, para aliviar a escravidão do mundo?

Maharaj: Só você pode desfazer o mal que criou. Seu próprio egoísmo insensível está na raiz de todo mal. Coloque primeiro em ordem sua casa e verá que seu trabalho está feito.

Pergunta: Os homens de sabedoria e amor que nos precederam colocaram-se em ordem, frequentemente, a um custo tremendo. Qual foi o resultado? Uma estrela cadente, por mais brilhante que seja. nào faz a noite menos escura.

Maharaj: Para julgá-los e a seus trabalhos você deve tomar-se um deles. Uma rã em um poço nada sabe sobre os pássaros no céu.

Pergunta: Você quer dizer que entre o bem e o mal não há barreira?

Maharaj: Não há barreira porque não há nem bem nem mal. Em cada situação concreta só há o necessário e o desnecessário. O necessário é certo, o desnecessário é errado.

Pergunta: Quem decide?

Maharaj: A situação decide. Cada situação é um desafio que exige uma resposta correta. Quando a resposta é correta, o desafio é satisfeito e o problema cessa. Se a resposta é errada, o desafio não é satisfeito, e o problema permanece sem solução. Seus problemas sem solução - isto é o que constitui o seu karma. Resolva-os corretamente e seja livre.

Pergunta: Parece que você sempre me faz retroceder para mim mesmo. Não há nenhuma solução objetiva para os problemas do mundo?

Maharaj: Os problemas do mundo foram criados por inumeráveis pessoas como você, cada uma cheia de seus próprios desejos e temores. Quem poderia libertá-lo de seu passado pessoal e social exceto você mesmo? E como o fará a menos que veja a necessidade urgente de ser primeiro livre de desejos nascidos da ilusão? Como você pode ajudar verdadeiramente enquanto você mesmo necessita de ajuda?

Pergunta: Em que modo os sábios antigos ajudaram? De que maneira você ajuda? Poucos indivíduos aproveitam, sem dúvida; sua orientação e exemplo significam bastante para eles, mas de que modo você afeta a humanidade, a totalidade da vida e da consciência? Você diz que é o mundo e que o mundo é você; que impacto você causou no mundo?

Maharaj: Que tipo de impacto você espera?

Pergunta: O homem é estúpido, egoísta, cruel.

Maharaj: O homem também é sábio, afetuoso e bom.

Pergunta: Por que a bondade não prevalece?

Maharaj: Ela prevalece - em meu mundo real. Em meu mundo, mesmo o que você chama de mal serve ao bem e, portanto, é necessário. E como as erupções e as febres que limpam o corpo das impurezas. A doença é dolorosa, mesmo perigosa, mas se tratada corretamente, ela cura.

Pergunta: Ou mata.

Maharaj: Em alguns casos, a morte é a melhor cura. Uma vida pode ser pior do que a morte, a qual é apenas raramente uma experiência desagradável, quaisquer que sejam as aparências. Portanto, tenha piedade dos vivos, nunca dos mortos. Este problema de coisas boas e más em si mesmas não existe em meu mundo. O necessário é bom e o desnecessário é mau. Em seu mundo, o agradável é bom e o doloroso é mau.

Pergunta: O que é necessário?

Maharaj: Crescer é necessário. Superar é necessário. Deixar para trás o bom visando o melhor é necessário.

Pergunta: Com que fim?

Maharaj: O fim está no princípio. Você termina aonde começa - no Absoluto.

Pergunta: Então, por que todos estes problemas? Para voltar para onde eu comecei?

Maharaj: De quem são os problemas? Quais problemas? Você tem pena da semente que deve crescer e multiplicar-se até se transformar numa imensa floresta? Você mata uma criança para salvá-la dos problemas da vida? O que está errado com a vida, mesmo com mais vida? Remova os obstáculos ao crescimento e todos os seus problemas pessoais, sociais, económicos e políticos simplesmente se dissolverão. O universo é perfeito como um todo, e o esforço da parte para alcançar a perfeição é um caminho de alegria. Voluntariamente sacrifique o imperfeito pelo perfeito, e não haverá mais conversas sobre o bem e o mal.

Pergunta: Ainda assim, temos medo do melhor e nos apegamos ao pior.

Maharaj: Esta é nossa estupidez, na fronteira da insanidade.




 A MATÉRIA É A PRÓPRIA CONSCIÊNCIA

Pergunta: Tive sorte de ter companhia santa durante toda minha vida. É o bastante para a autorrealização?

Maharaj: Depende do que você faz disto.

Pergunta: Falaram-me que a ação libertadora do satsang é automática. Exatamente como um rio leva alguém ao estuário, assim a sutil e silenciosa influência das pessoas boas me levará à realidade.

Maharaj: Isto o levará pelo rio, mas a travessia é coisa sua. A liberdade não pode ser ganha nem mantida sem a vontade de ser livre Você deve lutar pela libertação; o mínimo que você pode fazer é descobrir e remover os obstáculos diligentemente. Se você quer paz, deve lutar por ela. Não obterá paz simplesmente permanecendo quieto.

Pergunta: Uma criança simplesmente cresce. Não faz planos para crescer, nem tem um padrão; nem cresce aos pedaços, uma mão aqui, uma perna ali: cresce de forma integral e inconscientemente.

Maharaj: Porque ela é livre de imaginação. Você pode também crescer assim, mas não deve entregar-se à previsão e planos nascidos da memória e da antecipação. Uma das peculiaridades de um gnani é que ele não está interessado no futuro. Seu interesse no futuro é devido ao medo da dor e desejo de prazer; para o gnani tudo é felicidade; ele é feliz com o que quer que aconteça.

Pergunta: Seguramente, há muitas coisas que fariam miserável mesmo um gnani?

Maharshi: Um gnani pode encontrar dificuldades, mas elas não o fazem sofrer. Educar uma criança do nascimento à maturidade pode parecer uma tarefa difícil, mas, para uma mãe, as lembranças das dificuldades são uma alegria. Não há nada errado com o mundo. O que está errado é o modo em que você o vê. E sua própria imaginação que o engana. Sem imaginação, não há mundo. Sua convicção de que é consciente de um mundo é o mundo. O mundo que você percebe é feito de consciência; o que você chama matéria é a própria consciência. Você é o espaço (Akash) no qual ela se move, o tempo no qual ela perdura, o amor que lhe dá a vida. Extirpe a imaginação e o apego, e o que permanece?

Pergunta: O mundo permanecerá. Eu permanecerei.

Maharaj: Sim, mas quão diferente é quando você pode vê-lo como ele é, não através de uma tela de desejo e medo.

Pergunta: Para que servem todas estas distinções - realidade e ilusão, sabedoria e ignorância, santo e pecador? Todos estão na busca da felicidade, todos lutam desesperadamente, cada um é um Iogue e sua vida é uma escola de sabedoria. Cada um aprende a seu modo as lições de que necessita. A sociedade aprova uns e desaprova outros; não há regras que sejam aplicáveis em toda parte e para sempre.

Maharaj: Em meu mundo, o amor é a única lei. Não peço amor, eu o dou. Tal é minha natureza.

Pergunta: Vejo-o vivendo sua vida de acordo com um padrão. Você faz uma aula de meditação pela manhã, faz conferências e mantém discussões diariamente duas vezes ao dia. há adoração (puja), e cantos (bhajan) religiosos ao anoitecer Parece que você segue escrupulosamente a rotina.

Maharaj: A adoração e os cantos são como eu os encontrei e não vi razão para interferir. A rotina geral está de acordo com os desejos das pessoas com quem vivo ou que vêm escutar. São pessoas trabalhadoras, com muitas obrigações. e os horários lhes são convenientes. Certa rotina repetitiva é inevitável. Mesmo animais e plantas tem seus horários.

Pergunta: Sim, vemos uma sequência regular em toda vida. Quem mantém a ordem? Há um governante interno que estabelece as leis e impõe ordem?

Maharaj: Tudo se move segundo sua natureza. Qual a necessidade de um policial? Cada ação gera uma reação, a qual equilibra e neutraliza a ação. Tudo acontece, mas há uma contínua anulação e, no final, é como se nada tivesse acontecido.

Pergunta: Não me console com harmonias finais. A descrição concorda, mas a perda é minha.

Maharaj: Espere e veja. Você pode acabar com um benefício bom o bastante para justificar os custos.

Pergunta: Há uma longa vida atrás de mim e, frequentemente, pergunto-me se seus muitos eventos aconteceram por acidente ou segundo um plano. Havia uma pauta estabelecida antes de eu nascer pela qual tive que viver minha vida? Se for sim, quem fez os planos, e quem os impôs? Poderia haver desvios e erros? Alguns dizem que o destino é imutável e que cada segundo da vida é predeterminado; outros dizem que o puro acidente decide tudo.

Maharaj: Pode entender isto como quiser. Você pode distinguir um padrão em sua vida ou ver meramente uma cadeia de acidentes. As explicações têm o propósito de agradar a mente. Não são, necessariamente, verdadeiras. A realidade é indefinível e indescritível.

Pergunta: Senhor, você está se esquivando de minha pergunta! Quero sabe como você vê isto. Onde quer que olhemos, encontramos estruturas inteligentes e de beleza incríveis. Como posso acreditar que o universo é caótico e sem forma? Seu mundo, o mundo no qual você vive, pode ser sem forma mas ele não precisa ser caótico.

Maharaj: O universo objetivo tem estrutura, é ordenado e belo. Ninguém pode negá-lo. Mas a estrutura e um padrão implicam coação e compulsão. Meu mundo é absolutamente livre; tudo nele é determinado por si-mesmo. Portanto, continuo dizendo que tudo acontece por si mesmo. Há ordem em meu mundo também, mas não é imposta de fora. Vem espontânea e imediatamente devido à sua eternidade. A perfeição não está no futuro. Ela é agora.

Pergunta: Seu mundo afeta o meu?

Maharaj: Apenas em um ponto - no ponto do agora. Ele lhe dá um ser momentâneo. um sentido efémero de realidade. O contato é estabelecido na Consciência plena. Ele requer uma atenção não consciente e sem esforço.

Pergunta: A atenção não é uma atitude da mente?

Maharaj: Sim. quando a mente está ansiosa pela realidade, dá atenção. Não há nada errado com o mundo, é seu próprio pensamento de estar separado dele que cria desordem. O egoísmo é a fonte de todo o mal.

Pergunta: Volto à minha pergunta. Antes de nascer, meu ser interior decidiu os detalhes de minha vida, ou isto foi inteiramente acidental e à mercê da hereditariedade e das circunstâncias?

Maharaj: Aqueles que pretendem ter selecionado seu pai e sua mãe, e decidido como deveriam viver sua próxima vida, poderão sabê-lo por si mesmos. Eu sei por mim mesmo que nunca nasci.

Pergunta: Vejo-o sentado em minha frente e respondendo minhas perguntas.

Maharaj: Você vê apenas o corpo que, certamente, nasceu e morrerá.

Pergunta: Estou interessado na biografia desse corpo-mente. Foi estabelecida por você ou por algum outro, ou aconteceu acidentalmente?

Maharaj: Há um truque em sua própria pergunta. Não faço distinção entre o corpo e o universo. Um é a causa do outro; na verdade, um é o outro. Mas eu estou fora de tudo isto. Quando estou falando a você que nunca nasci, por que continua perguntando-me sobre quais foram meus preparativos para o próximo nascimento? No momento em que você permite que sua imaginação fie, ela imediatamente fia um universo. Não é de forma alguma como você imagina, e não estou limitado por suas fantasias.

Pergunta: Construir e manter um corpo vivo requerem inteligência e energia. De onde elas vêm?

Maharaj: Há apenas imaginação. A inteligência e o poder são todos consumidos por sua imaginação. Ela o absorveu tão completamente, que você simplesmente não consegue perceber o quanto você já se afastou da realidade. Não há dúvidas de que a imaginação seja altamente criativa.

Universos sobre universos são construídos sobre ela. Todos eles estão no espaço e no tempo, passado e futuro, os quais simplesmente não existem. Não há dúvida que a imaginação é ricamente criativa. Nela são construídos universos dentro de universos. Ainda assim, estão todos no espaço e no tempo, no passado e no futuro, os quais simplesmente não existem.

Pergunta: Li recentemente uma noticia sobre uma criança pequena que foi cruelmente tratada em sua instância. Foi gravemente mutilada e desfigurada. e cresceu em um orfanato, completamente afastada de suo vizinhança. A menina era tranquila e obediente, mas completamente indiferente. Uma das freiras que cuidava das crianças estava convencida de que a menina não era uma retardada mental, mas retraída, fechada em si mesma. Foi solicitado a um psicanalista que aceitasse o caso e, durante dois anos, ele a viu uma vez por semana, tentando quebrar a barreira de isolamento. Ela era dócil e bem-comportada, mas não prestava atenção ao doutor. Este lhe trouxe uma casa de brinquedo, com salas e mobiliário móvel, e bonecos representando o pai; a mãe e seus filhos. Isto produziu uma resposta, a menina ficou interessada. Um dia, as velhas feridas se avivaram e surgiram à superfície. Gradualmente, ela se recuperou, várias operações devolveram a seu rosto e corpo o aspeto normal e ela se tomou uma jovem atraente e eficiente. Isto custou ao doutor mais de cinco anos, mas o trabalho foi feito. Ele foi um Guru real! Não colocou condições nem falou sobre prontidão e elegibilidade. Sem fé, sem esperança, ele tentou e tentou novamente, devido ao amor apenas.

Maharaj: Sim, essa é a natureza de um Guru. Ele nunca desiste. Mas, para ser bem-sucedido, não deve encontrar resistência demais. A dúvida e a desobediência atrasam necessariamente. Dada a confiança e a flexibilidade. ele pode causar rapidamente uma mudança radical no discípulo- A profunda perceção do Guru e a seriedade do discípulo são necessárias- Qualquer que fosse sua condição, a moça de sua história sofreu por f*1 *a de seriedade nas pessoas. Os intelectuais são os mais difíceis. Fala111 bastante, mas não são sérios.

O que você chama realização é uma coisa natural. Quando você estiver pronto, seu Guru estará esperando. O sadhana é sem esforço. Quando a relação com seu mestre é correta, você cresce. Acima de tudo, confie nele. Ele não pode mostrar-lhe o caminho errado.

Pergunta: Mesmo quando ele me pedir para fazer uma coisa aparentemente errada?

Maharaj: Faça-o. A um Sannyasin seu Guru pediu que se casasse. Ele lhe obedeceu e sofreu amargamente. Mas seus quatro filhos foram todos santos e sábios, os maiores no Maharashtra. Esteja feliz com o que quer que venha de seu Guru. e chegará à perfeição sem esforçar-se.

Pergunta: Senhor, você tem qualquer necessidade ou desejo? Posso fazer algo por você?

Maharaj: O que pode dar-me que eu não tenha? Coisas materiais são necessárias para estar satisfeito. Mas eu estou satisfeito comigo mesmo. De que mais necessito?

Pergunta: Certamente, quando está com fome, necessita de comida e, quando enfermo, de remédios.

Maharaj: A fome trará a comida e a enfermidade, os remédios. Tudo é uma ocupação da natureza.

Pergunta: Se trouxer algo que acredito que você necessita, você o aceitará?

Maharaj: O amor que o fez oferecê-lo me faria aceitá-lo.

Pergunta: Se alguém se oferecesse para construir para você um bonito Ashram?

Maharaj: Deixaria que o fizesse, por todos os meios. Que ele gaste uma fortuna, que empregue centenas e alimente milhares.

Pergunta: Não seria um desejo?

Maharaj: Não, de forma alguma. Apenas lhe pediria que o fizesse apropriadamente, não de maneira mesquinha, indiferentemente. Ele tomaria realidade seu próprio desejo, não o meu. Deixaria que o fizesse bem, e que fosse famoso entre os homens e os deuses.

Pergunta: Mas você o quereria?

Maharaj: Não o desejaria.

Pergunta: Você o aceitará?

Maharaj: Não necessito disto.

Pergunta: Você permaneceria nele?

Maharaj: Se fosse obrigado.

Pergunta: O que poderia obrigá-lo?

Maharaj: O amor daqueles que estão em busca da luz.

Pergunta: Sim, vejo seu ponto de vista. Agora, como posso entrar em samadhi?

Maharaj: Se você estiver no estado correto, qualquer coisa que veja o porá em samadhi. Afinal de contas, samadhi não é raro. Quando a mente está intensamente interessada, toma-se uma com o objeto de interesse - o que vê e o visto tornam-se um na visão, o que ouve e o ouvido tornam-se um na audição, o amante e o amado tornam-se um no amor. Toda experiência pode ser a base para o samadhi.

Pergunta: Você sempre está no estado de samadhi?

Maharaj: Absolutamente, não. Samadhi é um estado da mente, no final das contas. Eu estou além de toda experiência, mesmo a do samadhi. Sou o grande devorador e destruidor: o que quer que eu toque se dissolve no vazio (akash).

Pergunta: Eu necessito dos samadhis para a autorrealização.

Maharaj: Você tem toda a autorrealização que necessita, mas você não confia nela. Tenha coragem, confie em si mesmo, vá, fale, atue: dê-se uma oportunidade para provar a si mesmo. Com alguns, a realização acontece impercetivelmente, mas, de alguma maneira, eles precisam ser convencidos. Eles mudaram, mas não se deram conta disso. Esses casos não espetaculares são frequentemente os mais confiáveis.

Pergunta: Pode alguém acreditar ser realizado e estar equivocado?

Maharaj: Certamente. A própria ideia ‘Eu sou autorrealizado' é um erro. No Estado Natural, não há nenhum ‘Eu sou isto’, ‘Eu sou aquilo'.

Eu sou aquilo, por Nisargadatta Maharaj:




FONTE DA CONVERSAÇÃO:
SRI NISARGADATTA MAHARAJ
EU SOU AQUILO
60-61

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