Abandone Tudo e Você Ganha Tudo | Ao Surgir a Consciência, o Mundo Surge | Além da Mente Não Há Sofrimento | Sri Nisargadatta Maharaj




"O meu Guru (Aquele que dissipa as trevas da ignorância) ordenou que Eu me agarrasse ao sentido de "Eu sou" (de Presença), e  que não desse atenção a mais nada. Eu simplesmente obedeci. Não segui nenhuma técnica especial de respiração ou de meditação, nem segui nenhum estudo das escrituras. O que quer me que acontecesse, e que afastasse a minha atenção de mim mesmo, Eu teria que retornar sempre ao sentido de "Eu sou". Pode parecer muito simples, até mesmo básico. A única razão para Eu ter feito isso foi porque o meu Guru assim me disse. E funcionou! A obediência ao Guru é um poderoso solvente de todos os desejos e medos." - Sri Nisargadatta Maharaj


ABANDONE TUDO E VOCÊ GANHA TUDO

(Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj)


Pergunta: Nesse exato momento, qual é seu estado?

Maharaj: Um estado de não-experiência. Nele, toda experiência está contida.

Pergunta: Você pode entrar na mente e no coração de outro homem e compartilhar sua experiência?

Maharaj: Não. Tais coisas requerem treinamento especial. Sou como um comerciante de trigo. Sei pouco sobre pães e bolos. Posso mesmo não conhecer o gosto de uma papa de trigo. Mas, sobre o grão de trigo, sei tudo, e bem. Eu conheço a fonte de toda experiência. Mas as inumeráveis formas particulares que a experiência pode tomar eu não conheço. Nem tenho necessidade de conhecer. De momento a momento, de algum modo, conheço o pouco que necessito saber para viver minha vida.

Pergunta: Sua existência particular e minha existência particular - ambas existem na mente de Brahma?

Maharaj: O universal não é consciente do particular. A existência como uma pessoa é um assunto pessoal. Uma pessoa existe no tempo e no espaço, tem nome e forma, início e fim; o universal inclui todas as pessoas, e o absoluto está na raiz de tudo e além de tudo.

Pergunta: Não estou interessado na totalidade. Minha consciência pessoal e sua consciência pessoal - qual é o elo entre as duas?

Maharaj: Qual pode ser o elo entre dois sonhadores?

Pergunta: Podem sonhar um com o outro.

Maharaj: Isto é o que as pessoas estão fazendo. Todos imaginam os ‘outros’ e buscam uma ligação com eles. O buscador é o elo, não há nenhum outro.

Pergunta: Seguramente, deve haver algo em comum entre os muitos pontos de consciência que nós somos.

Maharaj: Onde estão os muitos pontos? Em sua mente. Você insiste que seu mundo é independente de sua mente. Como poderia sê-lo? Seu desejo de conhecer a mente de outras pessoas deve-se ao desconhecimento de sua própria mente. Em primeiro lugar, conheça sua própria mente, e descobrirá que a questão de outras mentes não surgirá de forma alguma, pois não existem outras pessoas. Você é o fator comum, a única ligação entre as mentes. Ser é consciência; ‘eu sou’ aplica-se a todos.

Pergunta: A Realidade Suprema (Parabrahman) pode estar presente em todos nós. Mas qual é a utilidade dela para nós?

Maharaj: Você é como um homem que diz: ‘Necessito de um lugar onde guardar minhas coisas, mas qual a utilidade do espaço para mim?’ ou ‘Preciso de leite, chá, café ou refrigerante, mas para a água não tenho nenhuma aplicação’. Você não vê que a Suprema Realidade é a que faz tudo possível? Mas se você perguntar qual a utilidade que ela tem para você, eu deverei responder: ‘Nenhuma’. Nos assuntos da vida quotidiana, o conhecedor do real não tem vantagem alguma: pode até estar em desvantagem. Estando livre do desejo e do temor, não se protege. A própria ideia de lucro é estranha a ele; ele detesta acumulação; sua vida é constante despojar-se, compartilhar, dar.

Pergunta: Se não há vantagem em ganhar o Supremo, então por que se dar ao transtorno?

Maharaj: Há transtorno apenas quando você se apega a algo. Quando você não se apega a nada, nenhum problema surge. O abandono do menor é a conquista do maior. Abandone tudo e você ganhará tudo. Então a vida se tornará o que ela deve ser: pura radiação de uma fonte inesgotável. Nessa luz, o mundo aparece vagamente como um sonho.

Pergunta: Se meu mundo for meramente um sonho e você uma parte dele, o que pode fazer por mim? Se o sonho não é real, se não tem existência, como pode a realidade afetá-lo?

Maharaj: Enquanto durar, o sonho tem uma existência temporária. É seu desejo de apegar-se a ele que cria o problema. Deixe-o ir. Pare de imaginar que o sonho é seu.

Pergunta: Você parece admitir como certo que pode haver um sonho sem um sonhador e que me identifico com o sonho por minha própria vontade. Mas sou o sonhador e também o sonho. Quem vai deixar de sonhar?

Maharaj: Deixe que o sonho se desdobre até seu próprio fim. Você não pode ajudá-lo. Mas você pode ver o sonho como um sonho, negando-lhe o selo de realidade.

Pergunta: Estou aqui, sentado diante de você. Estou sonhando e você está me observando falar em meu sonho. Qual a ligação entre nós?

Maharaj: Minha intenção de acordá-lo é a ligação. Meu coração quer que você desperte. Vejo-o sofrer em seu sonho e sei que você deve despertar para acabar com suas angústias. Quando você vê seu sonho como sonho, você desperta. Mas não estou interessado em seu próprio sonho. É suficiente para mim que eu saiba que você deve despertar Você não precisa levar seu sonho a uma conclusão definida, ou tomá-lo nobre, ou feliz, ou belo: tudo o que você necessita é compreender que você está sonhando. Pare de imaginar, pare de acreditar. Veja as contradições, as incongruências, a falsidade e a aflição do estado humano, a necessidade de ir além. Dentro da imensidade do espaço flutua um minúsculo átomo de consciência e, nele, o universo inteiro está contido.

Pergunta: Há sentimentos no sonho que parecem reais e duradouros. Desaparecem ao despertar?

Maharaj: No sonho, você ama alguns e não outros. Ao acordar, você descobre que é o próprio amor que a tudo abraça. O amor pessoal, quão intenso e genuíno, invariavelmente ata; amar em liberdade é amar a todos.

Pergunta: As pessoas vêm e vão. Ama-se quem se encontra, não se pode amar a todos.

Maharaj: Quando você é o próprio amor, você está além do tempo e dos números. Amando um você ama a todos, ama a cada um. Um e todos não são exclusivos.

Pergunta: Você diz que está em um estado atemporal. Isso significa que passado e futuro estão abertos para você? Você encontrou Vashistha Muni, o Guru de Rama?

Maharaj: A pergunta está no tempo e se refere ao tempo. Novamente, você está me perguntando sobre o conteúdo do sonho. A atemporal idade está além da ilusão do tempo, não é uma extensão do tempo. O que a si mesmo chamava Vashistha conheceu Vashistha. Eu estou além de todos os nomes e formas. Vashistha é um sonho em seu sonho. Como eu poderia conhecê-lo? Você está muito interessado no passado e no futuro. Tudo se deve a seu desejo de continuar, de proteger-se contra a extinção. E como você quer continuar, quer que outros o acompanhem, daí seu interesse na sobrevivência deles. Mas o que você chama de sobrevivência não é senão a sobrevivência de um sonho. A morte é preferível a isto. Há uma possibilidade de despertar.

Pergunta: Você está consciente da eternidade, portanto você não está interessado na sobrevivência.

Maharaj: É ao contrário. A liberdade de todo desejo é eternidade. Todo apego implica temor, pois todas as coisas são transitórias. E o medo o faz um escravo. A liberdade do apego não vem com a prática; ela é natural, quando se conhece seu verdadeiro ser. O amor não se apega; apegar-se não é amar.

Pergunta: Assim, não há nenhuma maneira de ganhar o desapego?

Maharaj: Não há nada a ganhar. Abandone todas as imaginações e conheça- se como você é. O autoconhecimento é desapego, Todo desejo é devido a um sentido de insuficiência. Quando você sabe que não lhe falta nada, que tudo o que existe é você e seu, o desejo cessa.

Pergunta: Para conhecer-me devo praticar a Consciência?

Maharaj: Não há nada a praticar. Para conhecer a si mesmo, seja você mesmo. Para ser você mesmo, pare de se imaginar sendo isto ou aquilo. Apenas seja. Deixe sua verdadeira natureza emergir. Não perturbe sua mente com a busca.

Pergunta: Levará muito tempo se eu só me dedicar a esperar pela autorrealização.

Maharaj: O que você tem que esperar quando já está aqui e agora? Você tem apenas que olhar e ver. Olhe para seu ser, para seu próprio ser. Você sabe que você é, e você gosta disto. Abandone toda a imaginação, isto é tudo. Não confie no tempo. O tempo é morte. Quem espera - morre. A vida existe apenas agora. Não me fale sobre o passado e sobre o futuro - eles existem apenas em sua mente.

Pergunta: Você também morrerá.

Maharaj: Eu já estou morto. A morte física não fará nenhuma diferença no meu caso. Eu sou o ser eterno. Estou livre de desejo e de medo, pois não recordo o passado, ou imagino o futuro. Onde não há nomes e formas, como poderia haver desejo e medo? Com o estado sem desejos vem a atemporal idade. Estou seguro, porque o que não é não pode tocar o que é. Você se sente inseguro porque você imagina o perigo. Certamente, seu corpo como tal é complexo e vulnerável, e necessita de proteção. Mas você não. Uma vez que você compreenda seu próprio ser inexpugnável, você estará em paz.

Pergunta: Como posso encontrar paz quando o mundo sofre?

Maharaj: O mundo sofre por muitas razões válidas. Se você quer ajudar o mundo, deve ir além da necessidade de ajuda. Então todo seu fazer, assim como seu não fazer, ajudarão o mundo mais efetivamente.

Pergunta: Como pode a não ação ser útil onde a ação é necessária?

Maharaj: Onde a ação é necessária, a ação acontece. O homem não é o ator. Sua ação é estar consciente do que acontece. Sua própria presença é ação. A janela é a ausência da parede, e oferece ar e luz porque está vazia. Seja vazio de todo conteúdo mental, de toda imaginação e esforço, e a própria ausência de obstáculos causará o irromper da realidade. Se você quiser realmente ajudar uma pessoa, afaste-se. Se você estiver emocionalmente comprometido em ajudar, você falhará nisto. Você pode estar muito ocupado e satisfeito com sua natureza caritativa, mas não muito será feito. Um homem é realmente ajudado quando não necessita mais de ajuda. Tudo o mais é apenas futilidade.

Pergunta: Não há tempo suficiente para sentar e esperar que a ajuda aconteça. Deve-se fazer alguma coisa.

Maharaj: Sem dúvida - faça. Mas o que você pode fazer é limitado; só o ser é ilimitado. Dê ilimitadamente - de você mesmo. Tudo o mais você pode dar em pequenas doses apenas. Só você é incomensurável. Ajudar é sua própria natureza. Até quando você come e bebe, você ajuda seu corpo. Para você mesmo, você não necessita de nada. Você é pura dádiva, sem começo nem fim, inesgotável. Quando você vê a aflição e o sofrimento, fique com eles. Não se precipite na atividade. Nem o aprendizado nem a ação podem ajudar realmente. Fique com a aflição e descubra suas raízes — ajudar a compreender é a ajuda real.

Pergunta: Minha morte se aproxima.

Maharaj: Seu corpo é limitado no tempo, não você. Tempo e espaço estão apenas na mente. Você não é limitado. Apenas compreenda a si mesmo - isso em si é eternidade.




AO SURGIR A CONSCIÊNCIA, O MUNDO SURGE


Pergunta: Quando um homem comum morre, o que acontece para ele?

Maharaj: Segundo sua crença, assim acontece. Como a vida antes da morte é apenas imaginação, assim é a vida depois dela. O sonho continua.

Pergunta: E o que acontece com o gnani?

Maharaj: O gnani não morre porque ele nunca nasceu.

Pergunta: Ele aparece assim para os outros.

Maharaj: Mas não para ele mesmo. Nele mesmo ele é livre das coisas - físicas e mentais.

Pergunta: Não obstante, você deve conhecer o estado do homem que morreu. Ao menos de suas próprias vidas passadas.

Maharaj: Até encontrar meu Guru, eu sabia muitas coisas. Agora nada sei, pois todo conhecimento está apenas no sonho e não é válido. Conheço- me e não encontro nem vida nem morte em mim, apenas puro ser - não ser isto ou aquilo, mas simplesmente ser. Mas, no momento em que a mente, extraindo de seu estoque de memórias, começa a imaginar, ela preenche o espaço com objetos e o tempo com eventos. Como nem mesmo conheço este nascimento, como poderia conhecer nascimentos passados? É a mente que, em movimento, vê tudo se movendo e, tendo criado o tempo, inquieta-se sobre o passado e o futuro. Todo o universo se sustenta na consciência (maha tattva), a qual surge onde há ordem e harmonia perfeitas (maha sattva). Como todas as ondas estão no oceano, assim todas as coisas físicas e mentais estão na Consciência. Por conseguinte, a própria Consciência é essencial, não seu conteúdo. Aprofunde-a, amplie-a e todas as bênçãos fluirão em você. Você não necessita buscar nada, tudo virá a você da maneira mais natural e sem esforço. Os cinco sentidos e as quatro funções da mente - memória, pensamento, compreensão e individualidade; os cinco elementos - terra, água, fogo, ar e éter; os dois aspetos da criação - matéria e espírito, todos estão contidos na Consciência.

Pergunta: Ainda assim, você deve acreditar que viveu antes.

Maharaj: As escrituras dizem assim, mas não sei nada sobre isto. Conheço- me como Eu sou; como eu apareci, ou aparecerei, não está dentro de minha experiência. Não é que não me lembre. De fato, não há nada a lembrar. A reencarnação implica um eu que reencarna. Não há tal coisa. O feixe de memórias e esperanças chamado o ‘eu' imagina-se existindo eternamente e cria o tempo para acomodar sua falsa eternidade: para ser, não necessito nenhum passado ou futuro. Toda a experiência nasce da imaginação; eu não imagino, assim nenhum nascimento ou morte acontecem para mim. Apenas aqueles que pensam que nasceram podem pensar em renascer. Você está me acusando de ter nascido - declaro-me inocente!

Tudo existe na Consciência, e a Consciência nem morre nem renasce. É a própria realidade imutável.

Todo o universo da experiência nasce com o corpo e morre com o corpo; tem seu começo e fim na Consciência, mas a Consciência não conhece começo nem fim. Se você pensar cuidadosamente e matutar sobre isto por bastante tempo, você chegará a ver a luz da Consciência em toda sua claridade, e o mundo desaparecerá gradualmente de sua visão.

É como olhar para uma vareta acesa de incenso; você verá a vareta e a fumaça em primeiro lugar; quando você perceber o ponto em brasa, você compreenderá que ele tem o poder de consumir montanhas de varetas e de encher o universo com fumaça. Atemporalmente, o eu se atualiza sem esgotar suas possibilidades infinitas. Na metáfora da vareta de incenso, a vareta é o corpo e a fumaça é a mente. Enquanto a mente estiver ocupada com suas contorções, não perceberá sua própria fonte. O Guru vem e volta sua atenção para a fagulha interior. Por sua própria natureza, a mente está voltada para fora: sempre tende a buscar a fonte das coisas entre as próprias coisas; ouvir que se deve buscar a fonte no interior é, de alguma maneira, o início de uma nova vida. A Consciência toma o lugar da consciência; na consciência há o 'eu', o qual é consciente, enquanto a Consciência é unificada; a Consciência é ciente de si mesma. O 'eu sou' é um pensamento, enquanto a Consciência não o é; não há nenhum ‘Eu sou consciente' na Consciência. A consciência é um atributo enquanto a Consciência não o é; pode-se ser cônscio de ser consciente, mas não consciente da Consciência. Deus é a totalidade da consciência, mas a Consciência está além de tudo - do ser e do não ser.

Pergunta: Eu comecei com a pergunta sobre a condição de um homem depois da morte. Quando seu corpo é destruído, o que acontece à sua consciência? Ele leva consigo seus sentidos de visão, audição, etc., ou os deixa para trás? E se ele perde seus sentidos, o que acontece a sua consciência?

Maharaj: Os sentidos são meros modos de perceção. Quando os modos mais grosseiros desaparecem, emergem estados mais finos de consciência.

Pergunta: Não há nenhuma transição para a Consciência depois da morte?

Maharaj: Não pode haver transição da consciência para a Consciência, pois a Consciência não é uma forma de consciência. A consciência pode apenas tomar-se mais subtil e refinada e é o que acontece depois da morte. À medida que os vários veículos do homem morrem, os modos de consciência induzidos por eles também desaparecem gradualmente.

Pergunta: Até que apenas reste a inconsciência?

Maharaj: Veja-se falando da inconsciência como de algo que vem e vai! Quem existe para ser consciente da inconsciência? Enquanto a janela está aberta, há luz do sol na sala. Com a janela fechada, o sol permanece, mas vê a escuridão na sala? Há escuridão para o sol? Não existe a inconsciência, pois ela não é experimentável. Nós inferimos a inconsciência quando há um lapso na memória ou na comunicação. Se eu parar de reagir, você dirá que estou inconsciente. Na realidade, posso estar mais agudamente consciente, apenas incapaz de comunicar ou de relembrar.

Pergunta: Estou fazendo uma simples pergunta: há cerca de quatro bilhões de pessoas no mundo e todas estão obrigadas a morrer. Qual será a condição delas após a morte - não fisicamente, mas psicologicamente? A consciência delas continuará? E, se continuar, em que forma? Não me diga que não estou fazendo a pergunta certa, ou que você não conhece a resposta, ou que em seu mundo minha questão não tem sentido; no momento em que você começa a falar sobre seu mundo e sobre o meu mundo como diferentes e incompatíveis, você constrói um muro entre nós. Ou nós vivemos em um mundo ou sua experiência não tem nenhuma utilidade para nós.

Maharaj: Certamente, nós vivemos em um mundo. Apenas eu o vejo como ele é, enquanto você não. Você se vê no mundo, enquanto eu vejo o mundo em mim mesmo. Para você, você nasce e morre, enquanto, para mim, o mundo aparece e desaparece. Nosso mundo é real, mas sua visão dele não o é. Não há muro nenhum entre nós, exceto o que foi construído por você. Não há nada errado com os sentidos, é sua imaginação que o leva para o caminho errado. Ela cobre o mundo como ele é com o que você imagina que o mundo seja - algo que existe independentemente de você e, ainda assim, seguindo intimamente os seus padrões herdados ou adquiridos. Há uma profunda contradição em sua atitude, a qual você não vê, e que é a causa da aflição. Você se apega à ideia de que nasceu em um mundo de dor e aflição; eu sei que o mundo é filho do amor, tendo seu começo, crescimento e realização no amor. Mas eu estou até mesmo além do amor.

Pergunta: Se você criou o mundo devido ao amor, por que ele está tão cheio de dor?

Maharaj: Tem razão - do ponto de vista do corpo. Mas você não é o corpo. Você é a imensidão e o infinitude da consciência. Não assuma o que não é verdadeiro e você verá as coisas como eu as vejo. Dor e prazer, bom e mau, certo e errado são termos relativos e não devem ser tomados absolutamente. Eles são limitados e temporários.

Pergunta: Na tradição budista se diz que um Nirvani, um Buda iluminado, tem a liberdade do universo. Ele pode conhecer e experimentar por si mesmo tudo o que existe. Pode ordenar e interferir na natureza, na cadeia de causalidade, mudando a sequência dos eventos, desfazendo inclusive o passado! O mundo ainda está com ele, mas ele está livre no mundo.

Maharaj: O que você descreve é Deus. Certamente, onde há um universo, haverá também sua contrapartida, que é Deus. Mas eu estou além de ambos. Havia um reino em busca de um rei. Eles acharam o homem certo e o fizeram rei. Ele não havia mudado de maneira alguma. Meramente lhe foram dados o título, os direitos e os deveres de um rei. Sua natureza não foi afetada, apenas suas ações. É de modo similar com o homem iluminado; o conteúdo de sua consciência experimenta uma transformação radical. Mas ele não se desencaminha. Ele conhece o imutável.

Pergunta: O imutável não pode ser consciente. A consciência é sempre de mudança. O imutável não deixa nenhum sinal na consciência.

Maharaj: Sim e não. O papel não é o escrito, ainda assim carrega o escrito. A tinta não é a mensagem, tampouco a mente do leitor o é - mas todos eles tomam possível a mensagem.

Pergunta: A consciência provém da realidade ou é um atributo da matéria?

Maharaj: A consciência como tal é a contrapartida subtil da matéria. Como a inércia (tamas) e a energia (rajas) são atributos da matéria, assim a harmonia (sattva) manifesta-se como consciência. Você pode considerá-la de certo modo como uma forma de energia muito subtil. Onde a matéria se organiza em um organismo estável, a consciência aparece espontaneamente. Com a destruição do organismo, a consciência desaparece.

Pergunta: O que sobrevive então?

Maharaj: Aquilo do qual a matéria e a consciência são apenas aspetos, o que nem nasce nem morre.

Pergunta: Se está além da matéria e da consciência, como pode ser experienciado?

Maharaj: Pode ser conhecido por seus efeitos em ambas; busque-o na beleza e na felicidade. Mas você não compreenderá nem o corpo nem a consciência, a menos que vá além de ambos.

Pergunta: Por favor, fale-nos com sinceridade: você é consciente ou inconsciente?

Maharaj: O iluminado (gnani) não é nem um nem outro. Mas, em sua iluminação (gnana), tudo está contido. A Consciência contém toda a experiência. Mas o que está ciente está além de toda a experiência. Ele está além da própria Consciência.

Pergunta: Há o fundamento da experiência, chame-a matéria. Há o experienciador, chame-a mente. O que faz a ponte entre os dois?

Maharaj: A própria abertura entre os dois é a ponte. Aquilo que em uma ponta parece matéria e, na outra, mente, é em si mesmo a ponte. Não separe a realidade em mente e corpo, e não haverá nenhuma necessidade de pontes.

Ao surgir a consciência, o mundo surge. Quando você considera a sabedoria e a beleza do mundo, você o chama Deus. Conheça a fonte de tudo isto, a qual está em você mesmo, e notará que foram respondidas todas as suas perguntas.

Pergunta: O que vê e o visto são um ou dois?

Maharaj: Há apenas visão; o que vê e o visto estão contidos nela. Não crie diferenças onde não há nenhuma.

Pergunta: Comecei com a pergunta sobre o homem que morreu. Você disse que suas experiências se desenvolverão de acordo com suas expectativas e crenças.

Maharaj: Antes que você nascesse, você esperava viver de acordo com um plano que você mesmo havia estabelecido. Sua própria vontade foi a espinha dorsal de seu destino.

Pergunta: Certamente, o karma interferiu.

Maharaj: O karma molda as circunstâncias: as atitudes são as suas próprias. No final das contas, seu caráter dá forma à sua vida, e só você pode dar forma ao seu caráter.

Pergunta: Como se dá forma ao caráter de alguém?

Maharaj: Por vê-lo como é, e lamentando-o sinceramente. Este ver-sentir completo pode fazer milagres. É como moldar uma imagem em bronze; só o metal, ou só o fogo será inútil; nem o molde será de alguma utilidade; você tem que fundir o metal no calor do fogo e vertê-lo no molde.



ALÉM DA MENTE, NÃO HÁ SOFRIMENTO

Pergunta: Vejo-o sentado na casa de seu filho esperando o almoço ser servido. E me pergunto se o conteúdo de sua consciência é similar ao meu, ou parcialmente diferente, ou totalmente diferente. Você está faminto e sedento como eu estou, esperando impacientemente que o alimento seja servido, ou você está em um estado totalmente diferente de mente?

Maharaj: Não existe muita diferença na superfície, mas há muito disto em profundidade. Você se conhece apenas através dos sentidos e da mente. Você se considera ser o que eles sugerem; não tendo conhecimento direto de você mesmo, você tem simples ideias; todas são medíocres. de segunda mão, obtidas por rumores. O que você pensa que é você tem como verdadeiro; o hábito de imaginar-se perceptível e descritível é muito forte em você.

Vejo como você vê, ouço como você ouve, experiencio como você experiencia. alimento-me como você se alimenta. Também sinto sede e fome. e espero que o alimento seja servido na hora. Quando privado de alimento ou doente, meu corpo e minha mente ficam fracos. Percebo tudo isto bastante claramente, mas, de algum modo, não estou nisto e me sinto como se flutuasse acima disto, distante e desapegado. Mesmo assim, não distante e não desapegado. Há indiferença e desapego como há sede e fome; há também a Consciência disto tudo e um sentido de imensa distância, como se o corpo e a mente, e tudo o que acontece para eles, estivessem em algum lugar muito além do horizonte. Sou como uma tela de cinema - clara e vazia - as imagens passam sobre ela e desaparecem, deixando-a tão clara e vazia como antes. A tela não é afetada de nenhum modo pelas imagens, nem as imagens são afetadas pela tela. A tela interceta e reflete as imagens, não as forma. Ela não tem nada a ver com os rolos de filme. Estes são como são, blocos de destino (prarabdha), mas não meu destino, os destinos das pessoas que aparecem na tela.

Pergunta: Você não quer dizer que as pessoas no filme têm destinos! Eles pertencem à história, a história não é deles.

Maharaj: O que há a seu respeito? Você dá forma à sua vida ou é ela que lhe dá forma?

Pergunta: Sim, você está certo. A história da vida desdobra a si mesma, e sou um de seus atores. Não tenho nenhuma existência fora dela, como ela não tem existência sem mim. Sou meramente uma personagem, não uma pessoa.

Maharaj: A personagem se transformará em uma pessoa quando começar a dar forma à sua vida em vez de aceitá-la como ela vem, e identificando- se com ela.

Pergunta: Quando faço uma pergunta e você responde, o que acontece exatamente?

Maharaj: A pergunta e a resposta - ambas aparecem na tela. Os lábios se movem, o corpo fala e, novamente, a tela está clara e vazia.

Pergunta: Quando você diz que a tela está clara e vazia, o que quer dizer?

Maharaj: Quero dizer livre de todo conteúdo. Para mim mesmo, eu não sou nada percetível ou concebível, não há nada a que eu possa indicar e dizer: 'Eu sou isso’. Vocês se identificam com tudo muito facilmente; para mim isso é impossível. O sentimento 'Eu não Sou isto nem aquilo, nem nada é meu' é tão forte em mim que tão logo eu pense em uma coisa ou um pensamento apareça, imediatamente aparece também o sentimento 'eu não sou isso'.

Pergunta: Você quer dizer que passa seu tempo repetindo Eu não sou isto, eu não sou aquilo’?

Maharaj: Claro que não. Estou apenas verbalizando para que você entenda. Pela graça de meu Guru, realizei, de uma vez por todas, que não sou nem objeto, nem sujeito e não preciso lembrar-me disto o tempo todo.

Pergunta: Acho difícil compreender o que você exatamente quer dizer ao falar que não é nem o objeto nem o sujeito. Neste mesmo instante, à medida que falamos, não sou o objeto de sua experiência e, você, o sujeito?

Maharaj: Olhe, meu polegar toca meu indicador. Ambos tocam e são tocados. Quando minha atenção está no polegar, o polegar é o que sente e o indicador - o eu. Mude o foco da atenção e a relação é invertida. Eu percebo. de alguma forma, que por mudar o foco da atenção, converto-me na própria coisa que vejo, e experiencio o tipo de consciência que ela tem; converto-me na testemunha interior da coisa. Chamo esta capacidade de entrar em outro ponto focal da consciência - o amor; você pode dar a isto o nome que quiser. O amor diz: ‘Eu sou tudo e a sabedoria diz: ‘Eu sou nada’. Entre os dois, minha vida flui. Desde que em qualquer ponto do tempo e do espaço posso ser ambos, o sujeito e o objeto da experiência, expresso-o por dizer que sou ambos e nenhum, e além deles.

Pergunta: Você faz todas estas extraordinárias declarações sobre você mesmo. O que o faz dizer estas coisas? O que você quer dizer ao afirmar que está além do tempo e do espaço?

Maharaj: Você pergunta e a resposta chega. Observo a mim mesmo - observo a resposta e não vejo nenhuma contradição. Para mim é claro que estou lhe falando a verdade. Tudo é muito simples. Apenas você deve confiar no que digo, pois eu sou muito sério a respeito. Como já lhe disse, meu Guru me mostrou minha verdadeira natureza — e a verdadeira natureza do mundo. Tendo realizado que eu sou com o mundo, e ainda assim além dele, tomei-me livre de todos os desejos e medos. Eu não racionalizei que deveria ser livre, eu simplesmente me encontrei livre, inesperadamente, sem o mínimo esforço. Esta liberdade do medo e do desejo permaneceu comigo desde então. Outra coisa que notei foi que não preciso fazer um esforço; o ato segue o pensamento, sem atraso ou fricção. Também me dei conta que os pensamentos sempre se cumpriam por si mesmos; as coisas se encaixavam em seus lugares - suave e corretamente. A mudança principal foi na mente que se tornou imóvel e silenciosa. respondendo rapidamente, mas não perpetuando a resposta. A espontaneidade se tomou um modo de vida, o real tomou-se natural e o natural tomou-se real. E acima de tudo, um afeto infinito, o amor, escuro e silencioso, irradiando em todas as direções, abraçando tudo, fazendo tudo interessante e belo, significativo e auspicioso.

Pergunta: Falaram-nos que vários poderes ióguicos surgem espontaneamente em um homem que compreendeu seu próprio ser verdadeiro. Qual é sua experiência nestes assuntos?

Maharaj: O corpo quíntuplo do homem (físico, etc.) tem poderes potenciais além de nossos sonhos mais selvagens. Não só o universo inteiro está refletido no homem, mas também o poder para controlar o universo está à espera de ser usado por ele. O homem sábio não anseia utilizar tais poderes exceto quando a situação os exige. Ele nota que os dons e habilidades da personalidade humana são totalmente adequados aos assuntos da vida diária. Alguns dos poderes podem ser desenvolvidos através de treinamento especializado, mas o homem que ostenta tais poderes ainda está em servidão. O homem sábio não considera nada como próprio. Quando, em algum momento e lugar, algum milagre é atribuído a alguma pessoa, ele não estabelecerá qualquer relação causai entre os fatos e a pessoa, nem permitirá que se tire quaisquer conclusões. Tudo aconteceu com aconteceu porque tinha que acontecer; tudo acontece como acontece porque o universo é como ele é.

Pergunta: O universo não parece ser um lugar feliz no qual viver. Por que há tanto sofrimento?

Maharaj: A dor é física; o sofrimento é mental. Além da mente não há nenhum sofrimento. A dor é apenas um sinal de que o corpo está em perigo e requer atenção. Da mesma forma, o sofrimento nos adverte que a estrutura de memórias e hábitos, que nós chamamos de pessoa (vyakti), está ameaçada pela perda ou pela mudança. A dor é essencial para a sobrevivência do corpo, mas nada obriga você a sofrer. O sofrimento se deve inteiramente ao apego e á resistência; é um sinal da nossa falta de vontade de seguir em frente, de fluir com a vida.

Como uma vida saudável é livre da dor, assim uma santa vida é livre do sofrimento.

Pergunta: Ninguém tem sofrido tanto quanto os santos.

Maharaj: Eles lhe disseram isto, ou você diz isto por si próprio? A essência da santidade é a total aceitação do momento presente, a harmonia com as coisas como elas acontecem. Um santo não quer que as coisas sejam diferentes do que elas são; ele sabe que, considerando todos os fatores, elas são inevitáveis. Ele é amigável com o inevitável e, portanto, não sofre. Pode conhecer a dor, mas isto não o arrasará. Se ele puder, fará o necessário para restaurar o equilíbrio perdido - ou deixará que as coisas sigam seu curso.

Pergunta: Ele pode morrer.

Maharaj: O que, então? O que ele ganhará por viver e o que ele perderá por morrer? O que nasceu deve morrer; o que nunca nasceu não pode morrer. Tudo depende do que ele acredita ser.

Pergunta: Imagine que você caia mortalmente doente. Você não iria lamentar-se e ressentir-se?

Maharaj: Mas eu já estou morto, ou melhor, nem vivo nem morto. Você vê meu corpo comportando-se do modo habitual e tira suas próprias conclusões. Você não admitirá que suas conclusões não limitam ninguém exceto você. Você vê que a imagem que tem de mim pode ser totalmente errada. Sua imagem de você mesmo está errada também, mas é seu problema. Mas você não necessita me criar problemas e então me pedir que os resolva. Não estou nem criando problemas nem os resolvendo.



Eu Sou Aquilo
Sri Nisargadatta Maharaj
55-56-57

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