KAIVALYA NAVANITA - O Creme da Libertação | 2ª Parte





KAIVALYA NAVANITA

(SEGUNDA PARTE)


DÚVIDAS SUPERADAS

1-
Tal como o homem cava um buraco na terra e delicadamente finca um longo poste nele, enche-o de terra socando-a, para fixá-lo firmemente, assim também eu faço desaparecer as dúvidas, de modo que sua mente, que realizou o Ser sendo a Suprema Consciência, possa permanecer inabalável.

2- O discípulo, de mente pura e auto-realizada, agarra-se ao seu Mestre desde o tempo da errónea identificação do Ser com o corpo até o momento da libertação como um macaquinho se agarra a sua mãe.

3- Percebendo que o carinhoso discípulo permanece a seu lado como sua própria sombra, o Mestre pergunta-lhe: “Você é capaz de ficar imóvel apenas como mera testemunha? Todas as suas dúvidas desapareceram? Ou o senso de diferenciação às vezes se insinua? Diga-me sua situação.

4- Nisto o discípulo curvou-se aos pés do Mestre e disse: “Pai, ousam os fantasmas da diferenciação, que vagueiam somente nas trevas da ignorância, no caos da vida terrena, aparecer à visão interior a plena luz da sabedoria após ter surgido o Sol de vosso ensinamento, do alto de vossa Graça?”...


5- Mesmo depois de se exorcizar o demónio, assim como a pessoa que esteve possuída é ainda protegida por um talismã contra o retorno do mal, assim também, embora minha ignorância tenha sido afastada pelo vosso ensinamento, ainda assim, Senhor, eu busco mais de ti para que eu possa estar firmemente fixado no Ser.

6- Vós dissestes amavelmente: “Conhece isto pelas escrituras (que o Ser é Brahman). 
Brahman não dual não ode ser atingido pela palavra (estudo ou discussão). Deve ser realizado no Coração. O Brahman auto-resplandecente não pode ser alcançado pela mente pobre. Essas duas dúvidas surgiram, por favor esclarecei-me.

7- Mestre: Como Brahman não é objeto dos sentidos de inferência e como Ele é sem segundo Ele está além da perceção direta, inferência ou analogia (Pratyaksha, anumana e upamana.). Saiba também que sendo isento de atributos, Ele não pode ser expresso por palavras.

8- Os Vedas que declaram que brahman está além das palavras, também o definem pelo texto (Isso Tu És). Se você pergunta qual é o correto, saiba que ambos são corretos pois os Vedas jamais são falsos.

9- Uma moça diz: “Não é ele”, “Não é ele” de todos os outros e fica acanhada e silenciosa quando seu namorado é apontado. Do mesmo modo, os Vedas negam claramente o que não é Brahman, como “Não é isto”, “Não é isto”, e indicam Brahman pelo silêncio.

10- Tendo respondido a primeira parte de sua pergunta, passarei a responder a segunda.
O coração governa os sentidos externos, o desempenho de suas faculdades, interna e externamente, como intelecto e mente.

11- Como sua face é vista refletida num espelho, assim a imagem da Consciência Pura (Chit-abhãsa.) é vista no intelecto. Simultaneamente com isto, a mente põe-se a funcionar e isto meu bom filho, é chamado conhecimento.

12- Como o metal fundido toma as formas dos moldes nos quais é derramado, assim a mente toma as formas dos objetos, que se revelam pela luz refletida. Sem a vista e a luz a coisa nas trevas não pode ser descoberta (A luz afasta as trevas mas os objetos devem ser vistos pelo olho. Do mesmo modo a mente modelada são objetos iluminados pela luz refletida da mente.).

13- O auxílio de uma lâmpada acesa e boa vista são necessários para descobrir um objeto na escuridão. Mas para ver o sol apenas boa visão é suficiente. Para ver o universo manifestado é necessário a mente orientada e a consciência refletida (Vritti). Mas para alcançar a realidade unicamente servirá a mente ansiosa pela realização.

14- A união da mente orientada e o Ser refletido é chamado de mente. Brahman pode ser alcançado através da mente pela razão que a mente dirigida para o Ser é necessária para a realização. Brahman não pode ser alcançado pela parte da mente que é consciência refletida.
Assim reconciliando o significado, liberte-se das dúvidas”.

15- Discípulos: “Respeitável Mestre de infalível sabedoria, eu compreendi vosso ensinamento até aqui. Permiti que eu faça outra pergunta: Livre de movimento, ininterrupto, perfeito e transformado Naquele, não é esse o estado da mente chamado Yoga Samadhi (ou União na Paz?) como pode esta mente sempre em movimento como um balanço, fazendo surgir vários mundos num instante, ser acalmada ao ponto de poder permanecer firme no Ser, como a chama protegida da corrente de ar? Dizei-me, por favor”.

16- Mestre: “A mente ativa é constituída de três gunas, quando uma delas se sobressaem as outras duas ficam encobertas. Com a guna sattva se manifestam qualidade divinas; com rajogunas as tendências pertencentes ao mundo ao corpo e aos shastras (Loka vãsana, deha vãsana e shastra vãsana.). Com tamoguna a natureza maléfica (Asuri sampat) se manifesta.

17- Sattva é a verdadeira natureza da mente, enquanto que as outras duas qualidades são apenas adjuntos e podem portanto ser afastadas dela.
Se nos pegamos firmemente à nossa divindade, rajas e tamas são sufocadas tanto que as múltiplas tensões internas e externas desaparecem. Quando isso acontece sua mente resplandece pura e se torna imóvel e sutil como éter. E então, naturalmente ela se torna uma com Brahman, que já É, e permanece em Paz indiferenciada. (Nirvikalpa Samadhi).

18- Quando um espelho limpo é colocado em frente de outro similar as suas superfícies refletoras formarão um todo indistinto. Do mesmo modo, quando a mente pura se torna una com o Infinito, Sat, Chit, Ananda, Brahman, e permanece imaculada, como pode haver multiplicidade ou movimentos na mente? Dizei-me.

19- Discípulo: Como pode o sábio, liberto em vida, exaurir sua prarabda se sua mente se perdeu em Brahman e se tornou una com Ele? Isso não acontece somente para experimentar os resultados? Tal experiência requer a mente, pois não pode haver qualquer tipo de experiência sem a mente. Se a mente persiste como pode ter havido libertação? Estou confuso neste ponto. Por favor esclarecei esta minha dúvida pois não poderei libertar-se a menos que todas as dúvidas sejam eliminadas.

20- Mestre: “A aniquilação da mente é de dois graus: isto é, as tendências da mente (Sarupa: em sua forma) e a própria mente (Arupa: (a mente) que não tem forma). O primeiro se aplica aos sábios libertados em vida e o último aos sábios desencarnados. A eliminação de rajas e tamas deixando apenas sattva é a dissolução das tendências da mente. Quando sattva desaparece com o corpo sutil, dizem que a própria mente também parece.

21- Sattva é puro e forma a própria natureza da mente; quando rajas e tamas (que dão tendências à mente) são destruídas (pelo próprio exercício), a identidade do termo “mente” é perdida. Pois nesse estado, os sábios participarão daquilo que lhes vem ser solicitado; não pensam no passado ou futuro; não se exaltam na alegria ou se lamentam na tristeza; superando suas ações tornam-se não-agentes; testemunhando as tendências da mente nos seus três estados (O de vigília, de sonho e o sono profundo.) eles podem ficar libertos ao mesmo tempo que atravessam a prarabdha. Não há contradição nisso. Não tenha dúvidas sobre esse ponto.

22- Ao ouvir dizer que todo o período de atividade é também o estado de paz, você pode dizer: “A ação não denota a mente em movimento e em tal movimento a Paz não foge? O estado do sábio é como o de uma moça que jamais cessa de estremecer de amor pelo seu eleito mesmo atendendo aos deveres de casa”.

23- Discípulos: “Se o sábio liberto em vida, que transcendeu os incidentes do corpo (O corpo subtil e o grosseiro; casta , credo etc.) perdeu o sentimento de autor e de toda a individualidade e se tornou uno com Brahman, pode ser dito que o experimentador da prarabdha deve ser também o agente. Pode haver experiência para um não autor perfeito? Mestre que afastais toda a aflição! Por favor elucidai este ponto”.
Mestre: “Escute sua fama como Perfeitos Executores, Perfeitos Gozadores e Perfeitos Renunciantes.

24- Como um monte de pedras magnéticas não se movem por si mesmas nem produzem movimentos nas coisas, entretanto peças de ferro são atraídas por elas, eu não ajo por mim nem influo sobre outros e ainda assim o mundo todo está ativo diante de mim. Como o Sol eu permaneço uma testemunha indiferente a todas as funções do corpo, dos sentidos etc. e também do estado de Paz resultante do mergulho da mente em Brahman. Aquele que está possuído dessa firme experiência é o Perfeito Executor.

25- O Perfeito Gozador é aquele que participa de qualquer coisa que se apresenta em seu caminho sem discriminar se é gostoso ou não, limpo ou sujo, saudável ou doentio, como uma chama que consome tudo o que está no caminho. Aquele cuja mente é clara como o cristal, que não é afetada pelas fases que passam, sejam grandes ou pequenas, boas ou más, suas próprias ou de outrem é o Perfeito Renunciante. “O sábio liberto é um exemplar exato dessas três virtudes unidas”.

26- Discípulo: “Como pode ser reconhecido que a tarefa do sábio está terminada (kritakritya), se pela prarabdha ele vive num corpo agindo o ensinamento outros desejosos de libertação? O Mestre que tão bondosamente removeu a causa de minha aflição! Por favor respondei-me”.

27- Mestre: “As ocupações das pessoas são de três espécies: As pertencentes à vida, atual ou posterior, são somente para o ignorante, possuído do desejo de prazer (bhogeccha), sentimento de posse (Mamata) e apego ao corpo. Somente aqueles que anseiam pela libertação se voltam para o estudo da Verdade etc. há algo a obter pelo estudo ou outras ações similares por uma pessoa que é perfeita?”

28- Discípulos: O Suprema Joia entre os Mestres! Escutai-me. É certo que unicamente aquele que deliberadamente afastou-se dos prazeres da vida agora e daqui por diante, pode se dedicar à verdadeira sabedoria. E tendo ele abandonado as atividades terrenas e os rituais para entrar no caminho da Libertação, pode voltar aos seus antigos costumes? Não é necessário escutar, raciocinar e meditar para que a mente se torne firme? Dizei-me a verdade!”

29- Mestre: “Escuta-me, filho prudente. Aqueles que não sabem devem aprender a Verdade (ensinada pelas escrituras e Mestres); os que têm dúvidas devem raciocinar; os que estão presos a conhecimentos errados devem praticar a meditação. Pode haver deficiência para aqueles que se tornaram o Ser real etéreo, a Perfeição-Consciência?

30- Escutai-me, Senhor! Pode o sábio dizer também, como ignorante “eu fiz, eu vi, eu comi e eu fui”? Dizeis que eles estão livres do conhecimento errado. Podem ser admitidas tais expressões na realização de Brahman que é real. Por favor, esclarecei-me neste ponto”.

31- Mestre: “A pessoa que desperta de um sonho fala de sua experiência no sonho. Do mesmo modo o sábio Auto-realizado, embora usando a linguagem do ignorante não está preso ao ego. Um homem que se entrega as chamas na véspera de se transformar em um deus imortal se diz ser apenas um homem, até que o seu corpo fique reduzido a cinzas. Assim também o sábio liberto do ego parece como os outros até desencarnar”.

32- Discípulo: “Se é assim, ó Mestre! Embora os objetos sejam irreais (a associação com eles) não causarão tristezas? Podem eles dar a felicidade de Conhecimento? Isto só pode ser sentido na ausência deles. Não é necessário estar unificando? E se a pessoa pratica-o, pode-se dizer que ela terminou a sua tarefa?”

33- Mestre: “Filho Auto-realizado! As atividades cessam quando o prarabdha termina.
Não é a prática de Samadhi ou o trabalho terreno uma atividade mental? Sendo uno com o Ser transcendental pode ele fazer algo diferente Dele? Se ele estiver praticando o Samadhi não se pode dizer que ele está estabelecido no Ser. (Dizem haver 6 tipos de Samadhi.)

34- Discípulo: “Mestre Supremo! Como é então que alguns entre os que estão estabelecidos no Ser, e nada mais tem a fazer, praticam meditações restringindo o pensamento?

35- Mestre: “Eu já lhe disse que os sábios libertados em vida parecem estar ativos de vários modos, de acordo com seus prarabdhas.
Meu bom menino, escute-me ainda. As atividades do sábio são somente para a elevação do mundo. Ele não espera perder ou ganhar algo. O Altíssimo, que é somente o armazém da Graça para o mundo, não é afetado pelo mérito ou demérito da criação etc.”.

36- Discípulo: “Ó Mestre! Vós que sois sem forma (transcendentalmente), funcionais como Ishwara (comicamente) e apareceis em forma humana (aqui)! Falais de um jñani e Ishwara como sendo o mesmo. Como pode ser assim?
Mestre: “Sim Ishwara e o Jñani são o mesmo porque são libertos do “eu” e “meu”. O jñani é o período Ishwara, a totalidade dos jivas, e também o cosmos”.

37- Discípulo: “Senhor, se como dizeis ele é todos os jivas quando é liberto, como podem os outros permanecerem presos? Se os jivas são diversos como dizem, ele não pode ser todos. Ó Mestre, que tudo conheceis! Por favor respondei esta pergunta detalhadamente”.

38 e 39- Mestre: “O Ser que resplandece como “Eu-Eu” em todos, é Perfeito e indivisível. Mas os jivas são tão diversos quanto as limitações na forma do ego (fazem-nas).
Veja como a lua que delicia o mundo é apenas uma, embora suas imagens refletidas sejam tanta quantos tanques, lagos, reservatórios, correntes, cisternas e cântaros de água existirem.
Onde um deles é distribuído a imagem não mais refletida, mas é reabsorvida pelo seu original, isto é, a lua. Isso não pode acontecer com as outras imagens refletidas. Do mesmo modo, o jiva cujas limitações são destruídas é restituído a sua fonte, o Ser, outros não”.

40- Discípulo: Como pode um jñani ser o mesmo que Isvara, que é Brahma, Vishnu e Shiva, Senhores da Criação, preservação e destruição do universo? Eles podem adivinhar os pensamentos de outros; conhecem o passado, o presente (Mesmo abstrato ou oculto.) e o futuro; e são imanentes em tudo. Ó Mestre de imensas austeridades! Eu não encontro sequer um traço dessas qualidades no jñani”.

41- Mestre: “A água num tanque e uma luz poderosa servem toda a aldeia, enquanto que um pote de água e um lampião servem somente a uma família numa casa. Ó filho, Ishwara e Jñani não diferem em sua jñana (A sabedoria, isto é, a realização “Eu sou Brahman.”). Contudo, associado as limitações de Maya, eles são chamados de superior e inferior.

42- Como os reis e os sidhas (Adeptos que adquiriram o conhecimento de todo o passado e futuro, remoto ou oculto; eles adivinham os pensamentos dos outros; obtém a força de um elefante, a coragem do leão e a velocidade do vento; Voam, flutuam nas águas, penetram na terra, contemplam todos os mundos num relance e executam outros feitos estranhos.) entre os homens, os deuses, tais como Narayana, têm alguns poderes extraordinários como anima (São 8 os poderes: 1)Anima: reduzir sua forma ao mínimo; 2)Mahima: aumentar sua forma ao tamanho de gigante; 3)Laghima: levitação (exemplo, levantar-se através de um raio solar até o orbe; 4)Prakamya: possuir ilimitado alcance sobre os órgãos (como tocar a lua com a ponta dos dedos); 5)Garima: vontade irresistível (por exemplo, penetrar na terra tão facilmente como na água);  6)Isita: domínio sobre todos os seres animados e inanimados; 7)Vasita: faculdade de mudar o curso da natureza; 8)Prapti: capacidade de executar tudo que deseja.) etc. em virtude de austeridades antecedentes extraordinários. Embora os homens não possuem esses poderes e portanto pareçam menos, do ponto de vista de Brahma não há a menor diferença entre eles.

43- Discípulo: Ó Mestre causador da minha libertação! Embora tenha havido muitos sábios no mundo que possuíram esses extraordinários poderes como anima (reduzir) etc. dizeis que esses poderes são do próprio Ishwara. Por favor, esclarecei-me sobre o assunto”.
Mestre: Saiba que os poderes são os frutos de suas devoções ao Glorioso Ser Altíssimo, suas austeridades (Por exemplo: jejuns, preces, rituais.) e práticas de Yoga (Meditações com controle de respiração em postura especial.).

44- Discípulo: Ó Shiva em forma de meu Mestre! Se esses poderes e Libertação são os frutos de tapas, então todos os sábios deveriam possuir a ambos, como os sábios antigos.
Sabemos que os sábios antigos tinham esses Siddhis e também eram libertados ao mesmo tempo. Por que nem todos os jñanis possuem tais poderes?

45- Mestre: “Dos dois tipos de tapas, isto é, tapas para a realização de nossos desejos (Sakãmya) e tapas (Nishkãmya) desapaixonados, o primeiro confere os poderes desejados e o segundo, sabedoria. Cada um pode distribuir somente seus frutos. Essa é a lei. Os sábios antigos, evidentemente, executavam ambos os tapas.

46- Os filhos sem pecado, Janaka, Mahabali, Bhagirata e outros obtiveram só a libertação. Exibiram eles alguns siddhis? (Não) Alguns sábios buscaram apenas siddhis; outros buscaram siddhis e emancipação. Esses siddhis são simplesmente apara exibição e nada mais. Não produzem a libertação”.

47- Discípulo: Se a emancipação é unicamente o resultado de identidade do ser individual com o Ser Universal, como então alguns sábios que foram libertados aqui e agora, se esforçam para obter siddhis?
Mestre: “A prarabdha se consome somente após conferir seus frutos para serem experimentados (como dor ou prazer). Portanto os siddhis obtidos pelos sábios emancipados devem ser considerados como o resultado da prarabdha apenas”.

48 e 49- Discípulo: “Ó Mestre que respondeis tão amavelmente todas as minhas perguntas com textos sagrados e raciocínio a fim de que a minha mente possa permanece inabalável, estou agora livre dos enganos da mente (Os enganos são de 5 tipos: 1)que o mundo é real; 2)que eu sou o corpo; 3)que eu sou o autor e experimentador, 4)que Eu sou separado do Altíssimo e 5)que a Consciência Pura não é o “eu” e sim Shiva.) e permaneço puro e esclarecido. Não há, certamente, prejuízo em limpar um espelho (Refere-se aqui ao antigo espelho metálico) um pouco mais, embora já tenha sido limpo. Ó Senhor que tendes afastado a minha aflição! Vossas palavras são como néctar e não saciam, podem as escrituras dizer algo que não seja absolutamente verdade? Bondoso Mestre, como poderei conciliar as duas declarações; o karma de qualquer pessoa esgota-se somente após dar seus frutos; e o fogo de sabedoria pura queima o karma que está esperando para dar frutos (Sanchita karma) mais tarde?

50- Meu filho, os jivas são ilimitados (em número, capacidade e tipos) e suas ações são também ilimitadas. Em três partes (Karma, upasana e jñana.) os beneficentes Vedas prescrevem, de acordo com as aptidões dos aspirantes, com exames preliminares seguidos de conclusões finais (Siddhanta), como os frutos se seguem às flores.

51- “Não é verdade que os pecadores que devem sofrer nos infernos, podem contudo ser salvos disso por meio de piedosas esmolas, mantras, austeridades, vajña e coisas semelhantes?
Aquele que tem fé na palavra dos Vedas segundo as quais o fogo da jñana queima todo o karma e espera por seus resultados, obtém a Libertação”.

52- Discípulo: “Amado Mestre que habitais sempre no tabernáculo do meu coração! Se a verdadeira sabedoria pode extirpar o karma acumulado em muitas encarnações e libertar a pessoa, porque até mesmo o mais inteligente dos homens não se prevalece dessa sabedoria e cai na roda do karma e perece? Por favor explicai!

53- Mestre: Meu filho, aqueles que têm mente introvertida (Isto é, os que olham a diversidade como um fenómeno ilusório ou os que consideram Brahman como um Todo indivíduo.) realizarão e eterno aquilo.
Tal como o transeunte distraído que cai numa valeta mesmo com os olhos abertos, aquele que tem mente exteriorizada busca a satisfação de seus desejos e cai no mar desprezível dos renascimentos intermináveis e não pode obter a Libertação.”

54- Discípulo: “Não são as ações boas e mais executadas por Ishwara? Que podem faze os jivas que são Suas criaturas? Por que são elas censuradas, nobre Mestre?”
Mestre: “Meu filho, escute-me! Essas palavras são ilusórias, dignas dos ignorantes do verdadeiro significados das escrituras.

55- As criações do Poderoso Senhor e as dos jiva individual são diferentes. A criação do Poderoso é cósmica e consiste de tudo que é móvel e imóvel. A criação indigna do jiva, que consiste de apegos, a paixões, desejos etc. pertencem ao ego e certamente ao Poderoso.

56- As criações do Poderosos Senhor, que funciona de três modos (Como Criador, ou Preservador e o Destruidor.) podem constituir meios para a Libertação enquanto que as dos jivas são as doenças que lhes causam sucessivas reencarnações. A propensão ao nascimento não termina para ninguém, mesmo que termine a criação, mas chegará ao fim com o abandono das paixões e coisas semelhantes.

57- Quem se libertou dos renascimentos ao tempo da dissolução da criação do Senhor? (Ninguém). Apesar da persistência do tempo, espaço e corpo, as pessoas têm sido libertadas mesmo aqui, destruindo a ilusão da criação individual e obtendo conhecimento. Portanto, a escravidão e a ilusão são produzidas pelo próprio jiva e não do Senhor.

58- Há uma árvore chamada Asvatha na qual vivem dois pássaros. Um deles é cheio de desejos, come os frutos dizendo: “Este é doce – este é doce!” O outro que é muito estimado, não come. Compreende esta parábola pela qual o Sagrado Veda descreve o jiva e Ishwara (Esta parábola se encontra no “Mundakopanishad”. O corpo é comparado com uma árvore porque pode ser abatido. Suas raízes estão no alto em Brahman e seus ramos em baixo, como os ares vitais etc. sua duração não pode ser verificada exatamente e portanto é chamada Asvatha (isto é, inseguro), a sagrada figueira. Sua duração coexiste com a ajñana e portanto indeterminada. Os jivas exigem o corpo para experimentar os resultados de seus karmas. Daí ser chama kshetra (morada). Nesta moradia vivem os dois pássaros, isto é, o ego e o Ser Universal que são respetivamente, o experimentador e a Testemunha desinteressada.).

59- Aqueles que por ignorância atribuem a Deus os seus males (Isto é, kama krodha, lobha, moha, mada e matsarya (luxúria, ódio, gula, ilusão, conceito e inveja.), que são seus próprios atos dirigem-se para o desastre, mas o sábio obterá a libertação pura e reconhece os mesmos males como seus próprios atos e não de Deus.

60- Discípulo: “Ó Mestre que sois a Bem-aventurança Encarnada! Como é que Deus que é imparcial, eleva uns e rebaixa outros?”
Mestre: “Ele é como pai que encoraja seus filhos que estão no caminho certo e se opõem aos que estão no caminho errado. Saiba que é uma verdadeira compaixão punir aos que erram e conduzi-los ao caminho reto.

61- Ó filho cuja as algemas da vida terrena estão rompidas! A árvore celestial (Kalpaka vriksha), o fogo e a água protegem aqueles que os buscam para a satisfação de seus desejos, conservando-os quentes e saciando suas sedes. Assim também, Ishwara é bondoso para Seus devotos e não o é com os outros. Agora pense bem e julguem de quem é a falta.

62- Agora meu filho, aqui está o ponto vital: os renascimentos terminarão para aquele que adotar com perseverança o caminho da Libertação, demonstrado por Deus nas escrituras, seguir os sábios, abandonar suas mais tendências, discernir o Real do irreal, rejeitar a ilusão nascida da ignorância e obter a Sabedoria (realizando o Ser). Somente então os renascimentos terminaram para ele. Essa é a verdade.

63- Esta Sabedoria pode ser obtida através de um longo curso de práticas e incessante investigação sobre o Ser.
Discípulo: “Em que consiste esta investigação?”
Mestre: “A investigação consiste em refletir sobre as perguntas: quem é este eu no corpo, inclusive a mente, os sentidos etc.? O que é o consciente? O que é o inconsciente? O que é suas combinações chamadas de cativeiro? O que é a Libertação?”
Discípulo: “O efeito acumulado de todas as ações meritórias de nascimentos anteriores nos confere jñana. Qual a necessidade de investigar o Ser?”
Mestre: “Escuta-me! As ações altruístas oferecidas a Deus auxiliam a afastar as impurezas e tornam a mente pura. A mente que é assim purificada começa a investigar sobre o Ser e obtém o Conhecimento”.

65- Discípulo: “Sagrado Mestre! Não é possível obter o conhecimento correto e afastar a ilusão pelos rituais e outros atos poderosos que conferem a devoção, ausências de paixões, felicidade no outro mundo, poderes sobrenaturais, firmeza nas austeridades, sucesso no yoga, meditação e forma divina, que nos dá o conhecimento reto que remove a ilusão? Qual a necessidade de acrescentar a investigação?”

66- Mestre: “Escuta-me filho: se você quer identificar as pessoas num baile de máscaras você começa a descobrir suas naturezas, hábitos e características que se acham ocultos. Se, ao contrário você corre, pula, dá cambalhotas, sobe em postes, dança e se agita, isso não o auxiliará a reconhecê-los.

67- Do mesmo modo a investigação unicamente pode conduzir ao Conhecimento revelado nos Vedas que somente indiretamente aponta Brahman. O Conhecimento do Ser não pode ser obtido pelo estudo dos Vedas, alimentando os Famintos, executando austeridades, repetindo mantras, conduta reta, sacrifícios, e não sei mais o que.

68- Discípulo: “Ó Mestre de Sabedoria cristalina! O metal sobre um espelho brilhante pode ser removido somente raspando-o. ou alguém já conseguiu removê-lo pelo conhecimento apenas? Do mesmo modo a sujeira da ignorância deveria ser removida pelo karma. Como pode ser retirada pelo Conhecimento que é apenas mental? Dizei-me”.

69- Mestre: “Filho! A mancha metálica sobre o espelho é material e também natural ao cristal (quartzo). É apenas sobreposta nele. É necessário apropriado sem dúvida para remover a mancha do espelho. Mas para saber que a cor preta é sobreposta no cristal é necessário apenas a mente (O Mestre compara a ignorância à cor transmitida ao cristal por um metal colocado atrás dele.).

70- Aqui também é inexistência (Sunya: vazio, vácuo.), inconsciência e tristeza são sobrepostas no Ser-Consciência -Felicidade pelo (jogo de) Maya. Não são nem naturais nem reais. Não há contradição entre as seqüências de karma e avidya (ignorância), embora perecíveis; ao contrário, alimenta-a. Jñana (Realização) é o fogo que queima o karmas e a ignorância.

71- O homem que esqueceu onde deixou suas coisas em casa, não pode reavê-las mesmo chorando cem anos. Mas as recuperara se ele pensar no assunto e as procurar. O Ser é realizado diretamente pelo Conhecimento que destrói e esquecimento (ignorância) a causa raiz de todos os males, mas isso não pode ser obtido por qualquer quantidade de trabalho árduo, embora se prolongue por várias yugas.

72- Discípulo: “Mestre! Por que os Vedas que diz ser Jñana o único meio de Suprema Bem-aventurança, classifica Karma no Karmakhanda, como mérito, pecado é uma mistura dos dois que faz os executores reencarnar como seres celestiais, animais (quadrúpedes, pássaros, árvores, insetos etc.) e seres humanos respetivamente, e ainda prescreve deveres especiais, para as diferentes castas e classes de homens, que conferem felicidade quando bem executados?”

73- Mestre: “Tal com uma mãe amorosa com relação à doença de seu filho que comeu terra, o seduz dizendo ser uma bala o remédio envolto no papel, as animadoras palavras dos Vedas “cumpram seus deveres de chefe de família – executem sacrifícios – tudo é bom!” significa algo diferente. Não é compreendido pelos aspirantes aos prazeres no céu.

74- É natural que os aspirantes ao prazer comam o que querem e abracem a quem pode.
As escrituras ordenariam o que é natural a todos? Não sabem os homens de sobra? Nenhuma ordem é necessária como: “Corvo, seja preto! Fogo, queime; Margosa, seja amarga! Vento, seja veloz!”

75- Quando os Vedas prescrevem: “Se você deseja bebidas fermentadas e carne, beba e coma fazendo sacrifícios; se tiveres impulsos sexuais abrace sua esposa, espera-se que a pessoa desista de outros meios para satisfazer seus desejos. Os Vedas visam unicamente a renuncia total”.
Discípulo: “Nesse caso, por que há essas prescrições afinal?”
Mestre: “São preliminares (Purvapaksha) apenas e não finais (Sidhanta).

76- Note que os Vedas que aconselham: “Bebam o suco fermentado – coma a carne”, diz mais adiante: “Cheire-o”. Note também a ordem: “Deseje a união sexual por causa da criança”. Note ainda (a ordem) “Abandone isto também (isto é, sacrifício, casamento, riqueza e outras posses)”. Note mais que a renuncia completa não é um desdouro num sanyasi ou uma severa brahmacharya. Compreenda o quadro como um todo, abandone todo o desejo pela ação e você obterá a Beatitude”.

77- Discípulo: “Ó Mestre! Considerando que as ações simplesmente auxiliam a ignorância que faz surgir o mundo, e se o conhecimento for inimigo da ignorância que é a causa desta diversidade, como pode tal ignorância coexistir com o Conhecimento puro, como a mancha na lua, e efetuar essas criações?”

78- Mestre: “Ó filho! A consciência que é por si alto – luminosa tem dois aspectos: a consciência pura (Svarupa jñana, consciência expansiva e estática.) e a consciência modal (Vritti jñana : consciência dirigida ou individualizada. As duas podem ser comparadas à energia latente no combustível e no fogo que o reduz a cinzas ou à corrente elétrica que permanecendo imanifestado num cabo ligado a mesma corrente que se manifesta como luz no filamento do bulbo.). O primeiro se manifesta como o último e não são portanto separados. Você já sabe que a Consciência pura não é inimiga da ignorância no sono profundo. A Consciência modal queima a ignorância, que repousa na Consciência pura”.

79- Discípulo: “Como pode Maya que se expande e se contrai como um fole, permanecer sem ser afetada pela Consciência pura e ser queimada pela consciência modal?”
Mestre: “Veja como o sol brilha sobre todo o mundo e o mantém, com tudo se torna fogo através de uma lente e queima. Assim, também, no samadhi a consciência modal pode queimar a ignorância”.

80- Discípulo: “As ações não incluem todos os aspetos da mente, a palavra e o corpo?
Não é a consciência modal uma função da faculdade interna? Então não deveríamos dizer que a ação (um aspeto especial da mente) destrói a ignorância? Por que é marcado com o imponente título de Conhecimento? Por favor explicai-me isto”.

81- Mestre: “A Consciência modal é na verdade um aspeto da mente, mas já vimos que os filhos da mesma mãe lutam entre si. As ações pertencem ao executor, enquanto que o conhecimento nascido da investigação não pertence ao indivíduo (Purusha tantra), mas sim à Coisa em Si” (Vastu tantra.).

82- As ordens podem ser executadas, podem não ser ou executadas de modo diferente (Mesmo a dhyana nirguna Brahman pode ser feita como é prescrita, pode ser omitida ou pode ser feita à vontade da pessoa. Pode não ser intrínseco ao homem como a jñana é realmente.)mas o Conhecimento, que é superior, não pode ser assim. A meditação (como “Eu sou Brahman”) é sem dúvida, diferente do Conhecimento obtido pela investigação. Formular uma coisa como sendo outra é yoga forçada (Há vários tipos de dhyana. Numa delas Saligram pretende representar Vishnu, que tem quatro braços segurando uma concha, um disco, uma clava e um lotus. Esta dhyana é forçada mas é eficiente.). O Conhecimento direto (Isto é, obtido por experiência.) unicamente é verdadeiro.
Não se engane com idéias fantasiosas.

83- O Conhecimento é o resultado de experiência direta, enquanto que a meditação é apenas imaginação mental de algo executável. Aquilo que ouvimos dos outros será varrido da memória, mas não aquilo que é experimentado. Portanto, apenas aquilo que é experimentado é real e não as coisas meditadas. Saiba que o conhecimento e não o karma é o destruidor de ignorância a vista.

84- Não tenha dúvida que a meditação irreal possa dar a libertação final e real. Escute-me!
Durante a meditação a imagem meditada por sugestão, não é real, mas se ela se materializa e é vista face a face, torna-se real (Segue-se que “Eu sou Brahman” da fase contemplativa não é real, mas a experiência resultante “Eu sou Brahman” é real.).

85- Se você perguntar como a meditação irreal conduz a Libertação real e eterna: cada um renasce de acordo com o último pensamento de sua vida anterior (Vide Srimad Bhagavad Gita – Capítulo VIII.). As pessoas renascem nas formas em que meditaram. Mas deveriam meditar sobre o Ser a fim de acabar com todos os tipos de renascimentos, então nos tornaríamos o Ser. Isto é seguro e certo.

86- Discípulo: “Se aqueles que meditam sobre Brahman (Nirguna Brahman) sem atributos (isto é transcendental), se tornam Aquele, O Mestre em forma humana! Qual a necessidade de investigação ou conhecimento?”
Mestre: “A meditação sobre Brahman é baseada em ouvir dizer (Paroksha), contudo, no devido tempo, se tornam fato por experiência. Essa experiência é chamada de investigação eterna, conhecimento ou jñana (que destrói ignorância), ou a Libertação. Esta é a conclusão final (Sdhanta)”.

87- Discípulo: “Se a consciência modal (Veritti jñana) (após destruir a ignorância) é transferida para o Ser (Paripurna), como pode haver experiência do ser indivisível (Akhanda anubhava siddhi)?”
Mestre: “Tal como o pó dá noz que limpa e carrega as impurezas na água e as leva para o fundo, assim também a consciência modal destrói a ignorância e perece com ela”.

88- Discípulo: “Bem, e qual é a natureza do Sábio que se libertou em vida?”
Mestre: “Eles estão libertos de pensamentos e portanto vivem felizes com um incontestável soberano de todo o mundo ou como uma criança. As idéias de cativeiro e Libertação desaparece para eles tanto que se riem dos que falam de tais assuntos. Pois não é para rir de quem diz que o mosquito engoliu éter e o vomitou?”

89- O filho da mulher estéril e o homem visto no poste (Ao escurece um poste grosso é tomado como homem. Esse homem ilusório é que se refere aqui numa história similar no Yoga Vasístha mencionando a imagem refletida de um homem no espelho.) traziam flores apanhadas no céu, disputam sobre o preço da prata na madrepérola (O nácar da madrepérola é tomado por prata. Quer dizer, a prata fantástica.), na cidade de Gandhalvas (Os Gandhalvas são uma classe de seres celestiais. Ao por do sol as nuvens se apresentam com coloridos alegres e brilhantes. Em disposições peculiares de tais nuvens uma fantasia pode às vezes surgir que é a alegre cidade dos felizes Gandhalvas.) armavam-se com os chifres das lebres (Não existem), lutavam-se e golpeavam-se, morriam juntos e tornavam-se fantasmas.

Nenhum homem de bom senso se excitará ao escutar esta história (A história começa com dois homens inexistentes e se detém em mera fantasia. O mundo e suas atividades não são mais reais para o jñana do que esta história é para o homem comum.).

90- De vez que Maya é irreal, toda criação deve ser igualmente irreal. Pode a prole ser de espécie diferente da mãe? (Por exemplo, pode a égua gerar um ser humano, um elefante ou um pássaro?Portanto não considere o céu ou o inferno bem ou mau, mas permanece no Ser que é Sat-Chit-Ananda-Purna (Perfeição).

91- Discípulo: “Meu Senhor! Diga-me, não é blasfémia renegar, como irreal, o Criador sentado no lótus e os outros deuses, os grandes homens do mundo, as águas sagradas como Ganges, os lugares de peregrinação as ocasiões sagradas, os quatro Vedas com seus seis auxiliares (Tais como chhandas, kalpa, jioticha.), os mantras e as austeridades?”

92- Mestre: “Se fosse sacrilégio considerar como falsos os sonhos e as visões, o seria também negar o mundo (Com seu conteúdo) cuja existência tem origem na ilusão. Se por outro lado é correto negar o mundo que se derivou da ilusão.


93- Se os Puranas exaltam como homem de mérito os ignorantes que consideram o falso como verdadeiro, algum shastra censura o jñani por chamar verdade a própria verdade? Maya, que aparece com seus elementos e suas modificações com vários nomes, diferentes formas, é falso. Somente o Ser que se expande como Sat-Chit-Ananda é a verdade.

94- Discípulo: Ó Mestre que sois como um tufão ao dispersar as nuvens de Maya!
a) de que natureza é Maya?
b) quem está sobre o seu domínio?
c) como veio ela a existência?
d) por que ela surgiu?
e) a Dualidade é inevitável se Maya for separada Brahman
f) se não é separada o próprio Brahman é falso (como Maya).

95- Mestre: 
a) Pode ser interminável a sua natureza, Maya se diz ser inexpressível (Amirvachanya)
b) Estão sobre o seu domínio aqueles que pensam: “Isto é meu – Eu sou o corpo – o mundo é real”; 
c) Ó filho, ninguém pode averiguar como essa misteriosa ilusão veio a existência; 
d)E o motivo por que ela surgiu é pela necessidade de Vichara (investigação perspicaz) por parte das pessoas.

96- e) e f) Um poder mágico invisível permanece desconhecido enquanto as hordas de seres ilusórios aparecem no palco. Do mesmo modo inúmeros poderes Brahman permanecem desconhecidos, mas são deduzidos somente após à manifestação dos elementos.

97- O mago que se encontra em terra firme e as hordas (conjuradas por ele) são visíveis aos expectadores. Mas seu gênio maravilhoso de mágica permanece misterioso. Assim também, as realizações da ilusão (o mundo) e o dirigente da ilusão (isto é, Brahman) são visíveis mas não ao poder da ilusão. Há muitos poderes distintos do Todo Poderoso Brahman e o mundo.

98- O poder não está separado do dirigente. O dirigente da mágica é real, mas as aparições (da magia) não o são. Sábio filho, você pode averiguar desta ilustração a verdadeira natureza da Realidade maiúscula que é o dirigente da ilusão e que ao mesmo tempo permanece Indivisível como o Ser. Assim esclareça (suas dúvidas).

99- Discípulo: “Por que dizem que existe o poder que é irreal?”
Mestre: “Filho amável! Olha como as gramas e outras ervas que parecem inconscientes florescem e frutificam. Mas para a consciência que tudo penetra os seres móveis e imóveis perderam sua natureza imemorial.

100- Veja a maravilha, como os embriões nos ovos se desenvolvem em pássaros de tantos matizes. Mas sem administração de uma força invisível todas (as leis da natureza) seriam apagadas como um reino sem rei. O fogo se tornaria água; o amargo seria doce; mesmo os degenerados recitariam os Vedas; as cadeias de montanhas imóveis flutuariam como as nuvens no ar; todos os oceanos se tornariam desertos arenosos e não haveria estabilidade em parte alguma.

101- Discípulo: Ó Mestre que sois a Realidade Transcendente! Como pode esse poder de Consciência (isto é, Maya) que não pode ser visto, conhecido ou expresso em palavras ou qualquer um e que é a causa raiz de diversos nomes e formas, se extirpado? Ou de outro modo, como se pode meditar em Brahman, que é a Realidade não-dual, a fim de se obter a Libertação?

102- Mestre: “O que acontece as bem conhecidas qualidades do ar, da água e do fogo quando detidos por amuletos ou encantamentos? Se você permanece como Sat-Chiti-Ananda livre de outros pensamentos Maya se torna extinto.nenhum outro método pode ser encontrado em toda a extensão dos Vedas.

103- O que permanece e manifesto no barro torna-se manifesto (como um pote). Para o fim prático da vida a palavra faz da terra um pote e o destrói. Rejeitar os nomes e as formas e reconhecer o barro é o verdadeiro conhecimento. Do mesmo modo , rejeita as noções fantasiadas da pluralidade dos seres e realiza o Ser como sendo Consciência pura.

104- Discípulo: “ embora falso, como pode ser anulada a aparência persistente do não ser-consciência -tristeza na integridade do Ser-Consciência-felicidade?
Mestre: “Embora o reflexo da cabeça na água apareça inclinada e trêmula, no entanto quando a fórmula se apresenta na terra reta e firme, aquela imagem sem valor é apenas irreal.

105- O conhecimento é a causa e os objetos são os efeitos.è inútil discutir como os fantasmas de nomes e formas vieram a existência e desapareceram. Digno filho! Sem preocupar-se como esse longo sonho do mundo começou ou como será absorvido, somente permanece a perceção do Ser-Consciência que tudo envolve.

106- À medida que você se afasta dos apegos ao irreal sua visão anterior da Realidade se desenvolve. Se, por exercícios constantes nesse sentido, a mente torna-se controlável e a percebidas do Ser Consciência, você poderá permanecer como Oceano de Felicidade, embora vivendo no corpo amargurado.

107- Discípulo: “O Mestre! Não vejo a conveniência da declaração de que todos os seres são penetrados pelo Ser único e não-dual que tudo envolve como Ser-Consciência-Felicidade. A existência dos jivas esta clara porque todos dizem “eu”; a consciência também, esta clara em virtude do conhecimento que é óbvio; porque a Felicidade não se apresenta do mesmo modo?”

108- Mestre: “Filho, embora haja forma, fragrância e suavidade reunida na mesma flor cada uma delas é conhecida separadamente com um sentido apenas. De outro modo elas não são apercebidas; tal é a lei da natureza. Do mesmo modo, embora as qualidades beatíficas de Existência-Consciência-Felicidade juntas formem o Ser, ainda sim os aspetos variam constantemente e dão origem às diferenças que aparecem no mundo.

109- Meu filho, as três qualidades – Sattva, rajas, e tamas – dão origem às três maneiras – repouso, agitação e ignorância, respetivamente. Existência, Consciência e Felicidade, que são em si gloriosas, permanece sempre num todo homogéneo, ainda que pareçam diferentes.

110- A existência simples é notada somente nas plantas, nos minerais e na terra que parecem inconscientes e são ignorantes. Não pode haver felicidade no estado de perturbação causado pelas paixões, tais como a luxuria, que haja como veneno. Mas nela a Existência e Consciência são evidentes. Existência, Consciência e Felicidade se tornam manifestas no estado de “Paz” que é caracterizada por um desapego austero (das exterioridades). Portanto a Felicidade se torna clara numa mente em paz isente de ignorância e agitação.”

111- Discípulo: “Senhor que apareceu como meu Mestre no mundo! Não compreendo perfeitamente as características de Existência-Consciência-Felicidade (Sat-Chit-Ananda) o que é essa Sat? O que á Ananda?”
Mestre: “Sat (existência) é aquilo que não perece em tempo algum – passada, presente ou futuro. Chit (consciência) é aquilo que conhece todos os diferentes objetos. Ananda (felicidade) é a alegria que surge da experiência de felicidade durante o gozo de um objeto desejado.

112- Discípulo: “Ó Mestre que, como o elefante em fúria, ataca e destrói as fortalezas dos envoltórios (Annamayakosa etc), embora os mahavakyas dos 4 Vedas declaram “Tu és Sat-Chit-Ananda” ao habitante do corpo mortal os Mestres digam “Tu és Brahman”, ainda assim como podemos ter a experiência de “Eu sou Sat-Chit-Ananda”?

113- Mestre: “Quando dizem que os renascimentos são os resultados inevitáveis de aços passadas, não se deduz que a pessoa existiu no passado? E ainda mais, se o céu e o inferno são as recompensas de ações presentes, não se deduz que ela continua a existir no futuro? O corpo sutil (adaptado ao céu ou ao inferno) o corpo celestial ou o corpo humano que são todos resultados de ilusão, muitas vezes, mudam e desaparecem. Aquele que sobrevive sempre ao corpo ilusório, é justo que se diga ser Sat.

114- Nas trevas que envolvem o sono profundo e à noite quando não há sol ou lâmpada, aquele que está claramente apercebido da escuridão e dos objetos, é Chit. É também Ananda porque seu amor beatífico Ser incomparável nunca desaparece, pois o amor se manifesta somente por um objeto de prazer.

115- O alimento, a bebida etc. agravam a todos indistintamente porque dele se extrai o prazer. O Ser não é também de beatitude. Se o Ser descrito acima fosse classificado entre outros meios de prazer, onde haveria prazer separado do gozador? Pode ser dois o Ser?

116- O amor pelo prazer sensual é evidente, mas o amor pelo Ser permanece sem rival.
O amor pelo prazer sensual está sujeito a modificações enquanto que o intenso amor pelo ser permanece imutável. Os prazeres sensuais podem ser gozados ou rejeitados, mas quem há para aceitar ou rejeitar o Ser? O ser pode rejeitar todos os outros prazeres mas não rejeita a si mesmo.

117- É erróneo imaginar que o Ser abandona a si mesmo cometendo suicídio numa paixão ardente. Aquele que mata o corpo não pode ser o corpo abandonado por ele. O repúdio é pelo corpo e nunca pelo Ser.

118- A riqueza é muito procurada, mas o filho é mais caro do que a riqueza; nosso próprio corpo é mais caro do que um filho; os sentidos são mais caros do que o corpo; o sopro de vida é mais caro do que os sentidos e o Ser é muito mais caro do que a própria vida. Esse Ser é a essência dos outros três “Eus” – o segundo (Gauna atma) (isto é, o filho), o ilusório (Nithya atma) (o corpo), e o agente (Karta) (o ego), crescem de importância sucessivamente.

119- Na hora da morte, o segundo ser, isto é, o filho, que sucede o estado de pai, assume proeminência. Na hora da nutrição, o ser maiúsculo ilusório, isto é, o corpo, é proeminente.
Quando uma feliz vida futura é desejada o ser agente, isto é, o ego, se torna proeminente. Mas no estado de Libertação, o Ser, isto é, a Consciência pura é soberana.

120- Até o tigre se torna favorito quando é obediente e um filho é odiado quando ele nos contraria. Neste mundo, as coisas, tais como a palha que não é amada nem odiada é tratada com diferença. Mas em nenhuma circunstância o amor do Ser puro diminui em qualquer pessoa. Portanto, meu filho, investigue sua verdadeira natureza que é a Felicidade inalterável e realiza o Ser!

121- Discípulo: “Adorado Mestre! Quantos tipos de Ananda (felicidade) há?”
Mestre: Há três:
1)Brahmananda (que brilha cmo Consciência pura, por exemplo, no sono);
2) Vasanananda (que esta presente reminiscência);e
3) Vishayananda (que é a alegria de ganhar o objeto desejado).
Contudo outros que há oito tipos de Ananda. Os três mencionados acima abrigam os outros cinco. Eu lhe direi, no entanto, todas. Escute-me.

122- 
1)Vishaya Sukha; (1) – Deleitos objetivos, descritos no vers.123; – 2) – Deleitos em Braham, vers.124-127; 3)- Deleite reminiscência, vers.128; – 4) – Deleites no ser, ver.129;- 7) Deleite não dualista, vers.114-121 e 167; – 8) Deleite de conhecimento, no fim. Sukha é Ananda.) o prazer do gozo sensual;
2) Brahman Sukha: a felicidade do sono sem sonhos;
3) Vasana Sukha: a lembrança acima, minutos após acordar;
4) Atma Sukha: a felicidade que se segue ao determinar que o ser é mais caro do que todas as coisas caras;
5) Mukhya Sukha: a felicidade do Samadhi, quando é levantado completamente o véu da ignorância;
6) Nija Sukha: o contentamento resultante da indiferença;
7) Advitya Sukha: a felicidade de se apoiar no Ser com exclusão de dualidade;
8) Vidya Sukha: a felicidade resultante da investigação sobre o Ser de acordo com os textos da escritura.

123- Meu filho! Escute-me ao descrever suas características especiais. O homem esta sempre se esforçando no estado da vigília, busca descansar na cama, após completa exaustão.
Então sua mente se interioriza e, nesse estado, reflete a imagem da Felicidade da consciência que brilha por si mesma. O prazer que ele então experimenta, representa o prazer objetivo (Ananda que ja foi dito ser a característica de sattva guna, que é o estado de repouso. Portanto, qualquer sombra de ananda deve ser considerada da emtne que está livre de agitação do prazer sensual.).

124- A pessoa que, considerando de pouco valor os prazeres objetivos, pois envolvem a tríade (O gozador, o gozo e o objeto gozado.) aflitiva, mantém a mente em repouso e cai no sono como a águia quando se aninha, torna-se una com Existência transcendente sem limites e permanece como o Ser bemaventurado.
Esse estado Supremo de Felicidade é o incomparável Brahmananda(v.V.122)

125- A declaração das escrituras é que a Felicidade do sono profundo é Brahmananda.
O fato de algumas pessoas tornarem especial cuidado ao se prover de camas macias para dormir, é a prova disso. A experiência que confirma isso é que nesse estado todo o sentimento de correto ou errado, de homem ou mulher, de interno ou externo desaparece totalmente.
Assim é Brahmananda, seguramente.

126- Discípulo: “Ó Mestre, adorado até pelos deuses! Vós que sois de conhecimento perfeito podeis esclarecer-me sobre esta dúvida. Neste mundo de causa e efeito a nossa experiência não pode ser sentida por outros. No sono profundo, o envoltório intelectual é a camada e o envoltório de beatitude tem a experiência de felicidade. È correto que essa experiência seja lembrada pelo envoltório intelectual que a expressa?

127- Mestre: “Saiba que esses dois envoltórios (se relacionam entre si) como a gordura liquida e a solidificada. Eles diferem em seus pensamentos (limitações), mas não em seus conhecimentos (intrínsecos). O envoltório intelectual limitado pela mente e ativo no estado de vigília e o de bem-aventurança constituído da felicidade da Consciência pura, que se manifesta quando a mente desaparece no sono profundo, não são diferentes entre si, tal como a água da chuva e a do reservatório; ou como o açúcar e o xarope”.

128- Discípulo: “Nesse caso por que deveríamos deixar a Bem-aventurança não dual de Brahmananda e afastar dela?”
Mestre: “Ele é retirado pela força de seu Karma do passado. O homem que desperta do sono profundo não perde imediatamente a felicidade do sono, pois ele não se movimenta repentinamente nem esquece a Felicidade da Bem-aventurança (videv 122(6).

129- No instante em que a idéia “eu sou o corpo” começa, ele se perde nas preocupações do mundo e esquece a felicidade. Seu Karma passado o obriga a sentir dor ou prazer. A paz resulta em equilíbrio. Todos já experimentaram o estado sem pensamento e o prazer dele resultante. Isto é Nyananda v. V. 122(6).

130- E é esse a Bem-aventurança do Samadhi? (não). A umidade externa do pote não é a água nele contida. Essa felicidade (de indiferença) do Samadhi ióguico lançada sobre o ego que surge. Quando o ego é denominado e o Samadhi é o resultado, há o estado de repouso no qual a mente não se apercebe do ambiente, nem adormece e o corpo fica teso como um poste.

131- Das felicidades gozadas pelo único soberano do mundo, o Gandharvas terreno (Uma classe de seres celestiais que gostam de música, dança, etc...) o Gandharvas celestial, pelos pitris (Os antepassados dos deuses pois foram criados antes destes.) brilhantes, e os deuses que existem desde a criação e posteriormente pelos deuses e chefes celestiais Indra (O rei celestial.) Brihaspati (O preceptor de Indra.Prajapati (O criador do mundo grosseiro.) (ou Virt) ou Hirannyagarbha ou Brahaman (A raiz da criação) cada um é cem vezes maior que as precedentes. Contudo, todas são fragmentárias é como a espuma nas águas do dilúvio de Brahmananda.

132- Seja quem for que permaneça no estado de turiyatitaLiteralmente além do 4º estado. Os estados de Vigília, sonho e sono são três que têm a base no Ser, assim o 4º estado é assim chamado em relação aos 3 primeiros. Mas quando o Ser é realizado como a única realidade que compreende tudo não há dualidade ou relacionamento. É portanto absoluto.), o sétimo (Os planos espirituais são: 1)Subheccha – 2)vichara; 3) Tanumanasi -4) Satyapatti – 5) Asamsakti – 6) Padarthabhavani – e 7) Turiyaga (o estado transcendental além de qualquer descrição.) e o mais elevado plano, a experiência da Bem-aventurança consciente é a mesma, seja a de Narada, Suka, Shiva, Vishunu, Brahma e outros semelhantes, livre de dualidade ou sono. Possa a poeira dos seus pés sagrados assentar na minha (humilde) cabeça!

133- Até aqui eu falei de cinco tipos de ananda; posteriormente descreverei a Bem-aventurança do conhecimento (v. V. 122(8); eu já descrevi a Bem-aventurança do Ser (Atmananda.)como sendo a mais preciosa de todas, é a bem-aventurança do Ser se dualidade (Advitiyananda.) ao explicar Maya e Sat-Chit-Ananda. Ó Filho liberto dos pares de opostos! Diga-me, ainda há mais dúvidas?

134- Discípulo: “Ó Mestre que criastes e preservas o Senhor Subrahmanya, eu e todo o cosmos, escuta-me!

Se cada um destes termos Sat, Chit e Ananda (112) de que falastes, tem características próprias, como pode a mente, que já é instável, ser fixa (na Unidade)? Não compreende como diferentes palavras possam ter a mesma significação. Imploro-lhe, por favor, que me mostre como é tudo, um todo indivisível embora colhido (de diferente flores) pelas abelhas”.

135- Mestre: “É tríplice a água por ser fria, fluída e transparente? Ou é o fogo tríplice por ser vermelho, quente e luminoso?

Os Vedas analisaram e desprezaram o cosmos, começando pelo éter, como sendo irreal, insensível e mal dotado. Em contraposição a isso e para uma fácil compreensão, descreveram Brahman como Sat-Chit-Ananda (Ser-Consciência-Felicidade.) que é Único.

136- Os Vedas descrevem Brahman em termos afirmativos como segue: o Eterno, o Todo o Único, a Verdade Suprema, Brahman, o Supremo, o Depositário ou a Fonte, a Paz, a Verdade Eterna, o Absoluto (continuam da Fonte, estado de sonho e sono, e portanto) o Quarto, Contínuo ou Igual em tudo, a Visão, a testemunha de Tudo, o Conhecimento, o Imaculado, (Aquilo que é) indicado indiretamente (pelos Vedas), o Eterno, o Morador Interno, a Realidade, a Eterna Luz, o Ser, a Libertação, o Senhor, o Subtil, e assim por diante.

137- Em termos negativos como: Imóvel, Incorrupto, Imortal, Incomensurável, Imaculado (Aquilo é) além da palavra, não insensível, o Incontaminado, o Incomparável, o Ininterrupto Indivisível, o Não Nascido, o Infinito, o Indivisível sem membros, o Sem Começo, o Sem Corpo, o Imutável, o Não-dual, e assim por diante.

138- Quando essas qualidades, afirmativas ou não, são consideradas conjuntamente de modo correto, apontam o Único somente e não há outro. Muitas podem ser as palavras para significar o mesmo. Assim Brahman indicado por Sat Chit Ananda é o Único somente.
Realiza essa unidade e permaneça como um indivisível Todo.

139- Não diga: “Descreve Brahman pelas qualidades é como falar de uma mãe estéril”.
Pode haver alguém tão talentoso que compreenda a natureza de Brahman sem que lhe seja dito?
O que os Vedas têm revelado sobre a graça de obter em vida não são qualidades de Brahman e sim o próprio Brahman. (A verdade é determinada por três tipos de provas, shruti, yukti e anubhava. Shruti é tratado nos versículos de 130 a 139, Yukti nos 140 a 143 e anubhava no versículo 144.)

140- Discípulo: “Ó Senhor como milhões de sois, nascendo simultaneamente, chegastes como meu Mestre para dissipar as trevas de minha ignorância” Escutai-me outra vez”.
De acordo com a declaração do srutis, entendi agora, fora de dúvidas, que meu Ser é a Realidade indivisível. Se prosseguires afirmando isso com argumentos, a verdade se fixará na minha mente como um prego cravado numa árvore.

141- Mestre: “A Existência deve ser a própria Consciência. Fosse a Consciência Diferente da Existência, esta não existiria. Como poderia então o Ser ser revelado? Por outro lado, a Consciência deve ser o próprio Ser. Pois se ele fosse diferente da Consciência, seria insensível. O que é insensível não pode existir por si mesmo. Assim a Existência e a Consciência sendo idênticas é também a Felicidade. Este é o melhor argumento (lit. linha de raciocínio produtivo). Por outro lado a felicidade será inexistente e insensível e não poderia haver experiência de felicidade (o que é absurdo).

142- (O Mestre forma as perguntas e ele mesmo as responde.) – Como se revela o eterno Sat? Por si mesmo ou por outro?
Resposta: Por outro.
Pergunta: É esse outro existente ou inexistente?
Resposta: Inexistente.
Pergunta: Tolo! Pode o filho de mulher estéril realizar alguma coisa? (É tão absurdo como a declaração “Sou filo de uma mulher estéril”.)
Resposta: Então deixa o ser algo que existe mas diferente do original Sat.
Pergunta: Como é revelada a sua existência? Você deve (De acordo com sua resposta anterior.dizer: “por outro”. Haverá um fim para essa cadeia de coisas existentes e seus conhecedores? Sua resposta é portanto insustentável, assim abandone esse raciocínio falso.

143- Escute a experiência segundo à escritura e à razão. Desde que a felicidade do sono profundo persiste como a memória, essa própria felicidade, deve ser o conhecimento. Não havia nada além dela. Existindo na dissolução e no sono profundo, você testemunha a obscuridade da ignorância. Agora você entrando no Coração permaneça como o Ser Todo-perfeito!

144- De acordo com os ensinamentos do Mestre que realizou em si a própria existência de várias escrituras, este discípulo também realizou essa Existência, Consciência e Felicidade, que nada mais são que a mesma Realidade que é homogénea como o mel apanhado em diversas fontes, e estava há muito estabelecida no Samadhi. Quando ele abriu os olhos compreendeu que ele próprio era a tela na qual se mova as figuras caleidoscópicas compostas de objetos moveis e imóveis do universo.

145- Discípulo: “Ó digno Mestre que está no meu próprio coração! Há algo mais por fazer além de ter essa experiência única? Pensar e falar nela e permanecer envolvido por essa experiência parece ser o único dever dos sábios. Esclarecei-me por favor como o turiyatita (vers. 132) mencionado acima, ou o sétimo plano de conhecimento é o mais elevado?

146- Mestre: Após analises os antepassados dizem que há sete etapas de ignorância (Ajñana saptabhumi) sete graus de conhecimento (Jñana saptabhumi). Sobre eles desejaria mencionar primeiramente os sete estados de ignorância. Os antepassados deram-lhe os seguintes nomes:
1) Bij-jagrat: o estado inicial de despertar;
2)Jagrat: o estado de estar acordado;
3)Maha jagrat: o estado de estar acordado firmemente estabelecido;
4)Jagrat svapna: o estado de devanear fazendo castelos no ar;
5)svapna: o estado de sonhar.
6) svapna-jagrat: reflexão sobre o sonho após despertar, e
7)Sushupti: sono sem sonhos.

147 e 148- 
1) O estado inicial de despertar (Bij-jagrat) é a consciência pura que surge do estado unitário da existência;
2) O estado de estar acordado (Jagrat) contém a semente do ego que estava ausente no estado anterior;
3) A semente do eu e meu que surgem em cada nascimento é o estado de despertar firmemente estabelecida (Maha-jagrat) (Constante porque se propaga quantas vezes quantas surgir.);
4) O alvoroçado ego invocando visões é o estado de devaneio (Jagrat-svapna);
5) Ter visões desordenadas ao dormir após uma refeição completa é o estado de sonho
(Svapna);
6) Ficar pensando nos sonhos ao despertar deles é o sonho acordado (Svapna-jagrat);
7) A densa escuridão da ignorância é o estado de sono profundo (Sushupti).
Esses são os setes estados de ignorância. Agora descreverei os sete estados de
conhecimento que confere a libertação.

149- Os nossos antepassados assim os dividiram:
1) Subheccha: aspirar pela Verdade;
2) Vicharana: investigar a Verdade;
3) Tanumanasi: mente pura e atenuada;
4) Satvapatti: a Realização da Verdade;
5) Asamsakti: visão descondicionada do universo e suas coisas;
6) Padarthabhavani: puro apercebimento do Ser;
7) Turiya: o estado mais elevado e indescritível.

150 e 151- 
1) Apartar-se de más associações e aspirar o conhecimento do Supremo e é o primeiro plano chamado de Subheccha.
2) Associar-se aos sábios iluminados, aprender com eles e refletir sobre a Verdade é chamado de investigação (Vicharana).
3) Estar liberto de desejos pela meditação sobre a Verdade com fé, é a atenuação da mente (Tanumanasi).
4) O esplendor do mais alto conhecimento da mente devido ao desenvolvimento das condições precedentes, é a Realização (Satvapatti).
5) Estar liberto da ilusão pela firme realização da Verdade é a visão não condicionada do universos (Asamsakti).
6) A bem-aventurança do Ser não-dual livre da triade (Isto é, o sujeito, o objeto e seus laços ou seja, o conhecedor, o conhecido e o conhecimento.) é o puro apercebimento do Ser (Padarthabhavani).
7) O silêncio sublime da verdadeira natureza do Ser é Turiya.
Escute porque este sétimo plano (vers. 149) foi dito ser o turiatita (isto é, além do turiya).

152- Os primeiros seis planos são chamados de jagrat (isto é, o estado de vigília) porque o mundo é percebido (neles como era antes).

O quarto estado corresponde ao do sonho (pois o mundo é reconhecido como sendo semelhante ao sonho).

Mesmo a mais leve perceção do mundo gradualmente desaparece e portanto o quinto plano é chamado de estado de sono.

A Bem-aventurança transcendental prevalece no sexto plano, que é então chamado de turiya (isto é o quarto estado no rol dos precedentes de vigília, sonho e sono).

O plano que está além de qualquer imaginação é o sétimo, que os Vedas apontam como o Silêncio sublime (isto é turiyatita).

153- Alguns sábios consideram que o nome de turiya (O quarto) está em desacordo com as explicações precedentes de turiyatita que eles consideram ser como a gloriosa Libertação após  a desencarnação (Videha mukti). Em tal esquema o sexto plano é o estado do verdadeiro sono profundo, comparado com o sono sem sonhos dos quinto plano. Devo dizer ainda a você das peculiaridades desses planos gloriosos.

154- Aqueles que ainda permanecem nos primeiros três planos são praticantes e não emancipados.
Brahmavides são aqueles que já entraram no quarto plano; eles são puros e libertos.
Os que nos próximos três planos estão, são Vara, varya e Varychta, respetivamente, isto é, o eminente, o mais eminente e o mais elevado ainda entre os conhecedores de Brahman. Devo ainda dizer a você a excelência dos planos iluminados.

155- Aqueles que permaneceram nos três primeiros planos e morreram antes de alcançarem o quarto, vão para as regiões felizes; então reencarnam e gradualmente obtém a Libertação. Eles certamente não vão aos planos inferiores.
Ó filho! O próprio primeiro plano é difícil de obter. Isto ganho a Libertação a bem dizer está ganha.

156- Se o primeiro ou o segundo plano de iluminação for ganho neste mundo, mesmo os mlecchas (Os mlecchas são os que reprovam os Vedas) praticamente estão emancipados. Pelos sagrados pés de meu Mestre, isto é verdadeiro! Malditos sejam os que negam isso: Não duvide dos Vedas, comum a todos. Segue estritamente o caminho indicado, claramente perceba: “Eu sou Brahman!”

157- Discípulo: Ó Senhor que me tomou como arroz sem casca; propenso a brotar outra vez! Acabais de me dizer que os planos de conhecimento conduzem, mesmo desprezível mlecchas à Libertação final. Mas alguns dizem que a Libertação não pode ser obtida a menos que a pessoa renuncie a todos os laços de família e se retire como um sanyasin (Aqui está a dedução: sanyas é o quarto estado de vida para ou Brahmani. Ele começa como Brahmachari e aprende os Vedas; então casa-se e torna-se grihasta; retira-se como vanaprastha, e por fim renuncia a tudo e torna-se sanyasin. Alguns dizem que os kshatryas são também qualificados para o sanyas a exemplo de Raghu. Outros dizem que os vaisyas também podem tomar o sanyas mas não os sudras etc.). Por favor esclareça minha confusão sobre esse ponto.

158- Mestre: Ó filho digno de respeito dos justos! Sua dúvida é justificada, escuta meu esclarecimento. A renuncia que rompo os laços familiares são de quatro classes. 1) Kutichaka, 2)Bahudaka, 3)Hamsa, 4)Paramahamsa e todos são uma panacéia para as misérias do mundo. Mas o desapego e não os vestuários (roupas amarelas) é o único requisito para tal renúncia.

159- O desapego se divide em três graus podendo ser lento, intenso e muito intenso. O que é causado por choque é impulsivo e lento. O abandono da casa e riqueza é a forma intensa. Repugnância pela Brahmaloka como sendo ilusória é o muito intenso.

160 e 161- Desapego lento não qualifica ninguém para o sanyas. O desapego intenso torna a pessoa qualificada para as duas primeiras ordens de sanyas. Se for forte e conveniente ela pode andar vagando como o bahudaka; de outro modo ela pode ficar (num lugar) como o kutichaka.

Quando o desapego é muito intenso a pessoa pode tomar a ordem de hamsa ou paramahamsa. Dizem que o hamsa não pode obter a libertação final a não ser através de satyaloka (Isto é, o brahmaloka para onde ela vai após a morte.), enquanto que o paramahamsa pode obtê-la aqui e agora.
A ordem paramahamsa, que é tão eficiente, divide-se ainda em dois graus.

162- Um paramahamsa pode ser o que deseja conhecer a Verdade ou é um ser realizado.
O primeiro é praticante inteligente nos três primeiros planos. O último é um sábio puro e notável que está liberto aqui e agora.

163- Destes um abandonará os laços de família (de acordo com o ritual) e formalmente entra para a ordem de sanyas e obtém o Conhecimento Supremo.
O outro género permanece como brahmins, kshatrias, vaisyas e sudras, e ganha o Supremo Conhecimento.
Conhecendo isso pelos shastras e sendo praticante, por que ainda você está confuso?
Você deve esclarecer-se a si mesmo pela autoridade dos srutis, pelo seu próprio raciocínio e experiência imediata.

164- Se o nascimento for um fato então a morte é inevitável. Mas Eu Sou Brahman que nunca nasceu. Se Eu for aquele que é nascido esse “Eu” não pode certamente ser Brahman.
Portanto eu sou aquele Eu, Brahman que é sem nascimento e sem morte.

165 e 166- Pergunta: “Se Eu sou Brahman, como pode acontecer que eu não conheço esse “Eu”?
Resposta: Quem diz “Eu” agora?
Pergunta: “O intelecto”
Resposta: O intelecto se perde num desmaio. Aquela consciência perfeita que é o “Eu” jamais se perde e permanece sempre.
Pergunta: “Esse estado de perfeição não está claro para mim. Como poderei experimentá-lo?”
Resposta: “Há a experiência de felicidade no sono profundo, isto é Aquilo. Nenhuma felicidade pode ser experimentada, quando se sente alguma necessidade. Portanto o Ser deve ser essa perfeição. Isto é a fonte de tudo.”

167- O cosmos origina-se na imaginação da mente. A razão mostra que esses mundos tem sua existência naquela Consciência. Se a investigação prossegue no ser como transcendente a tudo isto estendem-se sem limites, Eu permaneço como a Existência, como único Ser perfeito.

168- Discípulo: “Como eu permaneceria de modo que possa experimentar o que descrevestes como Bem-aventurança?”
Mestre: Se você abandona este estado mental que faz surgir o estado de vigília, sonho e sono, você permanecerá em seu verdadeiro Ser e também experimentará Bem-aventurança.

169- Se você pergunta como controlar as atividades da mente, que surgem de suas latências: Domine o intelecto e os sentidos de modo que se tornem seus escravos e eles se extinguirão.

170- Também pelo controle suave da respiração (que sopra como um fole) cessam as atividades da mente. Se você não está inclinado a praticar esta yoga, elas cessarão se você arrancar a grande ignorância do corpo causal. Então, também a mente para com suas atividades.

171- Discípulo: “Como poderei arrancar a ignorância do corpo causal?”
Mestre: “Os srutis nunca nos conduzem mal. Como pode haver ignorância se você fixar firmemente o seu ensinamento na mente: “Eu sou o Ser todo-perfeito no qual os mundos aparecem?”

172- Discípulo: “Como posso permanecer assim quando estou ocupado em transações mundanas com a mente vagueando?”
Mestre: “Não há nada separado de Mim. Tudo o que é visto vem de Mim. Eu Sou o Eu consciente que vê tudo isso tão fictício como meu sonho.

173- Se você permanece sempre apercebido de que “Eu sou a Consciência perfeita”, que importa quantas coisas você pense ou o que você faça? Tudo isso é irreal como as visões do sonho após o despertar. Eu Sou Toda-Felicidade!

174 a 177- Discípulo: “Em minhas incontáveis encarnações passadas eu confundi o corpo com o Ser. Alto ou baixo, vendo tudo como uma miragem, pela Graça do meu Mestre, eu realizei o Ser como o “Eu” e fui liberto. Que trabalho meritório fiz eu? Não posso descrever minha boa sorte. Estou abençoado pela Graça do meu Mestre, Narayana de Nannilam! No meu êxtase atiro a roupa para o ar e danço de alegria!

Quão nobres foram meus pais que me deram o nome de Tandava (dançarino). É como se eles tivessem previsto que eu seria dominado pela alegria de ter realizado o Ser e por isso dançasse em êxtase!

Diante de quem extravasar esta minha felicidade estática! Ela surge de dentro, cresce e enche todo o universo e inunda a tudo.

Eu me inclino diante dos pés de lótus do Todo Poderoso que foi tão benevolente que me colocou em contato com o Mestre, que pôde ensinar-me a Verdade, de acordo com os textos sagrados.

178 e 179- Tal é Vidyananda. Aqueles que estudam esta obra com devoção, realizarão o alto estado de Repouso e serão libertos aqui e agora. A fim de que todos possam compreender claramente Vidyananda, o verdadeiro espírito dos livros Sagrados, em Nannilam o Mestre Narayana apareceu em seu Samadhi e ordenou-me a escreve este Kaivalya Navanitas, perfeito em todos os detalhes e livre de defeitos.

180- Através da Graça de seu Senhor, Tandavesa mostrou como, libertando-nos do interior e exterior poderemos converter-nos no ÚNICO; e tendo ficado convicto de que o sentido dos Vedas, que estão além do pensamento é o “Eu”, e que o corpo e seus semelhantes são apenas modos do Som (Nãda) e tornamo-nos todos num olho que tudo vê dentro de si mesmo.

181- Aqueles que sem vacilação reconhecem a Única Testemunha de brilho chamejante – Turyatita, que é perfeita no significado daquelas três palavras excelentes: “Tu és Aquilo” desatará o nó de “Diferenças” e superará todo o obstáculo, convertendo-se no Ser.

182- Isso é a “delícia do conhecimento” falada pelos Vedas. Aqueles que adoram aos pés de Narayana, que descreveu isso, são sem mácula; aqueles que através do instrutor deste discípulo se aproxima da fase na qual as dúvidas se dissiparam e que caminham firmemente para a perfeição, obterão a Emancipação pura.

183- O autor, através das duas partes desta obra, acendeu a sublime luz do espírito, ao máximo, para que a eterna escuridão de Maya pereça e esclarecendo todo as dúvidas que surgem do conhecimento intelectual, efetuado pelas diferenças, submeteu o discípulo a si mesmo.

184- Louvores, louvores ao autor de minha salvação! Ele colocou sobre a sua cabeça os pés de Narayana, o Senhor Infinito, que fez de mim seu escravo e que pelo processo de negação destruiu aquilo que por imposição tinha surgido como mera aparência fantasiosa e colocou-me em tal condição que eu, com os olhos da Graça, posso permanecer para sempre, como o expectador.

185- Tal como a água fria e refrescante dos sagrados pés do Mestre, borrifada sobre a minha cabeça, confere todos os méritos obtidos em todos os lugares santos de peregrinação, assim também os estudantes desta obra única, adquirem os méritos de todos os livros sagrado e vivem como sábios neste mundo.






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Kaivalya Navanita 
(O Creme da Libertação) - Por Tandavaraya Swami
TRADUZIDO PARA O INGLÊS POR
SWAMI RAMANANANDA SARASWATHI
Compilador de “Talks with Sri Ramana Maharshi”
Tradução para o Português: José Luiz Corrêa Cardozo,


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