A Realidade e a Ilusão









Brahma satyam, jagat mithyā


Umas das perguntas mais difíceis que a mente humana faz é: “Como apareceu este Universo?”. Nenhum ser inteligente consegue aceitar o mundo como ele é sem se fazer esta pergunta. Esta pergunta fez muitos filósofos pensarem e, as muitas filosofias são o resultado.

Vamos analisar isso à luz de nossas Escrituras (os Vedas).

Vamos considerar que o Universo veio de alguma causa em particular. Ainda assim, o problema não fica resolvido. Isto porque a causa só pode ser uma causa relativa e, não, fundamental. Sabemos que todo pai (a causa) foi um filho (um efeito) e toda semente (a causa) foi antes uma árvore (um efeito). Assim, qualquer que seja a causa do Universo que consideremos, ela será um efeito exigindo outra causa. O problema será de regressão infinita. Ou seja, esse é o destino de toda causa que é finita...

Outra alternativa é dizer que o infinito é a causa do Universo e dizer, então, que não existe causa para o infinito. [...]

Mas isso será uma contradição, pois o infinito é além do tempo e do espaço. Naturalmente, portanto, ele não pode estar sujeito a mudanças. Se ele não se modifica, como pode tornar-se um efeito?! Tornar-se é se modificar.

Então, estamos encurralados. Nem uma entidade finita nem uma entidade infinita pode ser a causa fundamental do Universo.

Este problema é resolvido em nossas Escrituras de uma maneira engenhosa.

O senhor Kṛṣṇa nos dá uma dica na Bhagavadgītā, no quarto capítulo, verso seis:

अजोऽपिपि सन्नव्ययात्मा भूतानामीश्वरोऽपिपि सन्। प्रकृतित स्वामिधिष्ठाय सम्भवाम्यात्ममायया॥

ajo'pi sannavyayātmā bhūtānāmīśvaro'pi san | prakṛtiṁ svāmadhiṣṭhāya sambhavāmyātmamāyayā ||

“Apesar de ser imortal, de natureza imutável, senhor de todos os seres, eu, exercendo domínio sobre minha prakṛti [a causa de toda a criação], manifesto-me através de meu próprio poder de criar.”

Dessa afirmação fica claro que o Senhor (que é o infinito) nasce como finito, com a ajuda de Māyā, sem sofrer qualquer transformação. Assim como o acordado aparece como o mundo do sonho e como a corda aparece como a cobra sem sofrer qualquer transformação; assim também o infinito aparece como a criação sem passar por transformação. Assim como o mundo de sonho e a cobra são ilógicos e aparentes.

Se o infinito (Brahman) é a causa de uma criação ilógica e aparente, então, esse status (como causa da criação) para o infinito deve ser também ilógico e aparente. O poder que é responsável por ele adquirir esse status é Māyā. Não é necessário afirmar que Māyā, que produz o status ilógico e aparente de causalidade para a verdade, é também ilógica e aparente. Assim, Māyā é ilógica, indefinível (anirvacanīyam) e aparente (mithyā).

Assim, o infinito (Brahman) é a verdade (satyam) e o Universo é ilógico e aparente, causado por Māyā, que é também ilógica e aparente.

Se este ponto mencionado acima não está claro, inúmeras perguntas vão tomar conta da nossa mente. O que é Māyā? Qual sua relação com Brahman? Como pode haver Māyā em Brahman? Como pode haver a não dualidade, enquanto aceitamos Māyā? Quando foi que Māyā apareceu pela primeira vez? Se Māyā teve início, como ela pode terminar?

Mas, Māyā, que tem como objetivo solucionar o problema da criação, parece ter piorado muito a situação.

Vamos olhar para tudo isso de outro ângulo! Quando chegamos a um questionamento filosófico sobre a causa do Universo, nós desconsideramos o fato de que existe um Universo. É aqui que cometemos um erro. É uma conclusão prematura aceitar a existência do mundo baseada somente na experiência. O nascer do sol, o céu azul, miragem, o universo do sonho e tantos outros são experiências universais, que de fato não existem. Assim, dados experimentais são inadequados demais para provar a existência do mundo. Sendo assim, quando questionamos sobre a causa do Universo, nossas Escrituras nos pedem primeiro que demonstremos a realidade do mundo.

Quando questionamos sobre o Universo com a ajuda das Escrituras (os Vedas), da lógica e da experiência, descobrimos que existe somente um Brahman nos três períodos de tempo. Não conseguimos provar a existência de um mundo como uma entidade separada de Brahman. Por si mesmo é asat (não existente, irreal). Naturalmente, não podemos responder nenhuma pergunta sobre o mundo ou sua causa, pois ambos são não existentes. Então, quando dizemos que o mundo, ou Māyā, é anadi (sem início), não queremos dizer que existe desde tempos imemoriais.

Anādi quer dizer que o início não pode ser determinado (ādiḥ vaktuṁ na śakyate yasya), pois é não existente.

Da mesma forma, é ananta também. Quando dizemos que o mundo, ou Māyā, termina (com mokṣa), não queremos dizer ‘terminar’ como se conhece comummente. Se aceitarmos um fim para Māyā, estaríamos aceitando sua existência e, então, teríamos que determinar seu início. Portanto, o fim de Māyā é somente a descoberta de que não existe mundo ou Māyā, separado de Brahman.

Mas, isso não significa que negamos a experiência do mundo. Mas, na verdade, é por causa da experiência dele que damos um novo nome - mithyā. Aquilo que não existe, mas aparece, é mithyā (yat asat bhāsamānaṁ tad mithyā).

Agora, a pergunta é: Se o mundo não tem início nem fim, o que ganhamos com o entendimento de que é mithyā?

A resposta é simples: Quando sei que Brahman é satyam, e o Universo é mithyā, sei que o mundo não pode afetar Brahman, que é satyam; assim como a cobra, a miragem etc. não afetam a corda, a areia etc. E, porque este Brahman sou eu mesmo, conforme revelado pelas Escrituras (os Vedas), eu não sou afetado por nada. Isto é libertação.

Assim, o reconhecimento de que sou Brahman e o reconhecimento do mundo como mithyā, através do estudo das Escrituras (os Vedas), torna-se o meio para a liberação.





OM tat sat |
Brahma satyam, jagat mithyā
Swami Paramarthananda Sarasvati

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